Sérgio Cruz: A destruição deliberada do Hospital Universitário da USP

Um hospital público de São Paulo com 250 leitos está prestes a fechar suas portas nos próximos dias por falta de recursos. Nada menos do que o Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Um hospital de excelência no ensino, na assistência e na pesquisa está sendo levado ao colapso. Ele é simplesmente o Hospital Escola da Universidade de São Paulo e é responsável pela formação prática de centenas de médicos e profissionais de saúde, além de atender a uma população de cerca de 500 mil habitantes da região Oeste da cidade.

A notícia parece não abalar os responsáveis pela saúde pública do Estado. E este é o segundo grande hospital a entrar em crise, logo em seguida ao da Santa Casa de São Paulo, que na semana passada anunciou a demissão de 1200 funcionários e agora vai vender imóveis para tentar se manter. A crise da saúde está se ampliando intensamente. Só não vê quem não quer.

O HU-USP é um hospital público de ponta. Considerado um dos melhores hospitais de ensino do Brasil. Entre outras atividades acadêmicas, o HU realiza hoje o maior estudo multicêntrico do país sobre as doenças cardiovasculares dos brasileiros (ELSA), base para pesquisa e produção científica. É um hospital desse tipo que está prestes a fechar.

E o Reitor da USP, Marco Antônio Zago, por incrível que pareça, não se abala com a situação. Pelo contrário. Disse que não quer mais financiar as atividades do HU. “Isso não é função da Universidade”, afirmou Zago. O governo do Estado, por sua vez, também declarou que não está interessado em resolver o “problema”. Este é um assunto da USP, complementou Geraldo Alckmin.

Para agravar a situação o HU-USP sofreu recentemente um corte linear de 30% em seu orçamento. A situação do atendimento tornou-se ainda mais dramática. Com capacidade para atender uma demanda de 500 a 600 pacientes por dia em seu Pronto Socorro, o hospital atende hoje mais de mil. Os cortes anunciados limitaram as horas extras dos funcionários e, com isso, dificultaram o uso de um instrumento legal que há muitos anos vem contornando a falta de quadros da instituição e garantindo a qualidade do serviço.

Mas, o pior mesmo está para vir com a demissão em massa anunciada pela reitoria no início do ano. A intenção com o plano de demissão voluntária é reduzir em até 3 mil o número de funcionários da Universidade. O Hospital Universitário foi a unidade da USP mais atingida pelo facão da reitoria. O primeiro corte atingiu 1.400 funcionários da USP. Liderando o número de demissões, com a saída de mais de duzentos funcionários, entre médicos, enfermagem e corpo técnico-administrativos, o HU vai se inviabilizar completamente. As escalas não serão mais cobertas, principalmente nos serviços de urgência. E as contratações estão suspensas até 2018. Será o caos no atendimento.

Nem mesmo os esforços dos funcionários e chefias que, obrigados ou espontaneamente, vêm se desdobrando para cobrir os buracos nas escalas, serão capazes de evitar o pior. Se não forem tomadas decisões urgentes pela reitoria, o HU vai entrar em colapso.

O reitor da USP parece nitidamente interessado no impasse. Segundo ele, o HU não deve ser administrado pela Universidade. Uma ideia no mínimo absurda, vinda de um reitor. É de se perguntar a ele. Quem seria responsável, então, pelo ensino e a prática de saúde? Tirar dos alunos da Faculdade de Medicina o hospital escola que é considerado por eles mesmos como o melhor estágio de todo o curso, ou privar outras seis faculdades da área de saúde das USP que usam esta plataforma de ensino é um verdadeiro escândalo, mas não parece preocupar nem um pouco o digníssimo reitor.

Entretanto, o pior mesmo será a situação da população da região que ficará sem a cobertura do hospital universitário (Butantã). Já faltam ali pelo menos 11 Unidades Básicas de Saúde. Há dez anos não se investe na ampliação da rede. Nenhum leito hospitalar foi acrescido neste período. Não há hospitais em número suficiente na região. O único grande hospital é exatamente o HU-USP.

Para agravar a situação, no mesmo período em que o HU vai entrar em colapso, os outros dois únicos “Pronto Socorros” da região (PS Bandeirantes e PS Lapa) vão estar fechados para reformas. Diante de uma situação como esta, o representante da população usuária da região pergunta. “Onde, então, a população vai procurar atendimento?”. “Não há para onde correr”, arrematou. Em suma. A saúde pública está entrando em colapso. Literalmente não há para onde correr.

E as autoridades públicas parecem não se incomodar com isso. Na verdade, elas já não são nem responsáveis formais pela gestão das unidades de saúde que deveriam estar sob sua responsabilidade. Estado e município terceirizaram a gestão da maioria dos hospitais e UBS.

A área de saúde do Estado e da capital foi esquartejada e entregue a dezenas de organizações privadas, chamadas Organizações Sociais. Estas recebem as unidades e os recursos públicos e gastam o menos possível em suas atividades. Aliás, está aí a explicação para tantos serviços sem médicos, sem funcionários, sem remédios, sem equipamentos e sem consultas.

Recentemente o prefeito da capital, Fernando Haddad, anunciou uma “chamada” para licitações na área da saúde. Um verdadeiro “leilão” de unidades públicas de saúde. Tudo para serem geridas por OSs. Vinte oito regiões poderão ser adquiridas por OSs, dizia a propaganda. Essas ONGs privadas de saúde estão se espalhando porque rendem muito dinheiro. Elas não prestam contas a ninguém. Por isso a população está cada vez mais desassistida. Um verdadeiro escândalo. E a população não tem para onde correr e nem a quem recorrer.

Esse fatiamento do SUS, complementado pelo crônico e criminoso subfinanciamento é a causa da piora no atendimento e da crise da saúde pública. O governo federal, preocupado em fazer superávit primário (desvio de recursos do orçamento para os bancos), mantém o subfinanciamento e estimula as terceirizações. Faz isso até com seus hospitais federais, inclusive os universitários. Os Estados e municípios seguem na mesma direção. Acabaram literalmente com a administração pública na saúde.

O objetivo da reitoria está claro. Ela quer sucatear o HU, deixá-lo à míngua, para entregá-lo a uma dessas OSs. Coincidência ou não, estrangulam o hospital de uma universidade pública enquanto pululam “faculdades” privadas de medicina por todos os cantos, estimuladas pelo governo federal. Infelizmente este é o retrato da situação a que os atuais privatistas de plantão levaram o ensino e a saúde pública do país. Não podemos aceitar a destruição do SUS e nem o fim melancólico de um hospital público e de ensino da qualidade do HU-USP. É hora de reagir.

 

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