Resenha: Zuzu Angel

Resenha: Zuzu Angel

 

Zuzu Angel: “Coragem quem tinha era o meu filho Stuart”

FIME       "ZUZU ANGEL",

 

 

de  Sérgio  Rezende -

 

Stuart havia mostrado que é possível derrotar o inimigo mesmo nas situações mais adversas. Ali, na Base Aérea do Galeão, com o sacrifício da própria vida, golpeou mortalmente o regime

 

O cineasta Sérgio Rezende, diretor de “Até a Última Gota”, “O Homem da Capa Preta”, “Canudos”, “Lamarca” e “Mauá, o Imperador e o Rei”, acaba de brindar o público brasileiro com um belo trabalho: “Zuzu Angel”. Um filme forte e emocionante que retrata a saga de Zuleika Angel Jones, interpretada por Patrícia Pillar, em busca de seu filho, Stuart Edgard Angel Jones, (Daniel de Oliveira), militante político preso e assassinado pela ditadura militar, no início dos anos 70.

Centrado na vida pessoal e na carreira da estilista de moda, nascida em Curvelo, no interior de Minas, o filme não deixa de mostrar, já em suas cenas iniciais, as tensões políticas e as apreensões vividas pelo país naquele grave momento da vida brasileira.

Rezende alterna cenas da infância e da juventude de Stuart Angel com os episódios dramáticos vividos por Zuzu e sua família após a prisão de seu filho. Logo após o casamento com o pastor norte-americano, Norman Angel Jones, Zuzu mudou-se para a Bahia, onde nasceu seu filho mais velho, Stuart Edgard Angel Jones. Alguns anos mais tarde eles voltariam a viver no Rio de Janeiro e, com o fim do casamento, Zuzu teve que batalhar sozinha para sustentar seus três filhos, Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Trabalhando duro, Zuzu viu seus vestidos ganharem fama e conquistarem as passarelas. Com uma moda leve e criativa, ela encantou diversas personalidades não só no Brasil mas em todo o mundo. Seu trabalho fez sucesso em Nova Iorque e entre suas clientes começaram a figurar nomes como Liza Minelli, Kim Novak, Joam Crawford, entre outras.

Mas, ao mesmo tempo que os seus vestidos brilhavam e sua carreira atingia o auge, Zuzu Angel vivia uma imensa angústia provocada pela ausência e os atritos constantes com seu filho Stuart.

DISSIDÊNCIA DA GUANABARA

“Tuti”, como ela o chamava, havia ingressado na militância política, junto com sua companheira Sônia Angel (Leandra Leal), no movimento estudantil, ainda na década de 60. Stuart Angel Jones integrou a Dissidência da Guanabara (DI-GB), organização política surgida em 1966 como alternativa à inércia que tomou conta do PCB após o golpe de 64. Mais tarde, ele passa a fazer parte do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), nome adotado pela mesma “Dissidência ” durante o seqüestro do embaixador norte-americano, em 1969.

Após as amplas mobilizações populares de 68 contra a ditadura, retratadas de uma maneira um tanto superficial no filme, nas quais a “DI-GB” desempenhou um papel chave, a ditadura intensifica a repressão política com o intuito de seguir mantendo o Brasil sob o ditame do imperialismo norte-americano. A edição do AI5 seguida das cassações políticas e a imposição da junta militar em substituição a Costa e Silva empurraram Stuart Angel Jones e seus companheiros para a resistência armada contra a ditadura.

No início Zuzu não conseguia compreender as razões de seu filho e por isso não concordava com sua luta. Atordoada, como boa parte da classe média da época, pela censura à imprensa e pela propaganda uníssona do regime, a estilista não aceitava a opção política de Stuart. Seus encontros, cada vez mais raros e fugazes, eram marcados por cobranças e desentendimentos. Numa dessas ocasiões, quando Sônia Angel é presa, Stuart procura pela mãe em busca de apoio. O filme mostra uma conversa tensa. Os dois brigam. Stuart se arrepende de tê-la procurado. Algum tempo depois, na véspera da viagem de Sônia para a França, após ter sido libertada, Stuart procura novamente pela mãe. Ela os acolhe. Esta será a última vez que eles se encontraram.

Em maio de 1971, Zuzu recebe o dramático telefonema que mudaria a sua vida. “Paulo, caiu”, diz a voz do outro lado da linha. “Quem é Paulo?”, indaga, perplexa. Deve ser um trote, pensa. Desliga. Mas, sua face torna-se pálida. Não há dúvida, era o seu filho. O telefone toca outra vez. “Vá logo para a PE (Polícia do Exército) para tentar salvá-lo. É para lá que eles costumam ir”, insiste a voz. A notícia caiu como uma bomba na vida de Zuzu. “Paulo devia ser o codinome de Stuart”, pensou. A partir deste momento o filme mostra uma verdadeira epopéia de uma mulher desesperada em busca do filho amado.

CONSCIÊNCIA

Mais do que apenas retratar o sofrimento de uma mãe, o filme de Sérgio Rezende mostra com rara beleza e sensibilidade a imensa transformação ocorrida na vida e na própria consciência política da estilista. Durante sua luta para descobrir o paradeiro e depois para denunciar incisivamente a morte de Stuart, Zuzu vê sua vida mudar completamente. De uma crítica constante à opção do filho, ela passa a ser uma defensora ardorosa da luta e das idéias de Stuart. Em sua batalha diuturna e heróica contra o regime encabeçado, então, por Garrastazu Médici, Zuzu torna-se um símbolo na luta pela democracia.

Juntamente com o advogado, “Fraga” (Alexandre Borges) ela faz uma verdadeira peregrinação a todos os órgãos da repressão. Sofre todo tipo de humilhação e constrangimento, mas não desiste. Visita celas e denuncia que elas eram “arrumadas” especialmente para recebê-la. Insiste em obter informações sobre o filho. Não aceita o silêncio da ditadura.    

Na volta de uma viagem à Minas, Zuzu é surpreendida em casa com a carta que lhe daria a triste notícia da morte de seu filho. A informação é enviada pelo preso político Alex Polari de Alverga, que pertencia à VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e que tinha sido capturado dois dias antes. Ele foi levado até o ponto marcado com Stuart no Grajaú, naquele dia 14 de maio às 9 h da manhã. “A morte de seu filho também me diz respeito”, confessa o prisioneiro. A leitura da carta é uma das cenas mais emocionantes do filme. Zuzu toma consciência, através do relato detalhado, que seu filho havia sido barbaramente assassinado. Tinha sido torturado até a morte. A repressão buscava informações sobre o paradeiro do capitão Lamarca, que naquela época também integrava as fileiras do MR8. Stuart, que detinha essa informação resistiu a tudo sem dizer uma só palavra. Raivosos, os torturadores, boa parte deles treinados na “Scholl of América” - centro norte-americano de treinamento em tortura - arrastaram Stuart num pátio com a boca amarrada ao cano de descarga de um jipe até a exaustão. O filme confirma que tudo ocorreu nas dependências da Base Aérea do Galeão, na presença do carniceiro João Paulo Moreira Burnier (Othon Bastos). Segundo Polari, mais tarde o corpo de Stuart foi retirado inerte da cela ao lado da sua. “Neste momento eu ouvi eles dizerem: ‘este aqui vai virar comida de peixe na restinga da Marambaia’”, revelou.

A ditadura continua insistindo na farsa de que nada sabia e leva Zuzu e sua família a assistirem a uma cena patética: o “julgamento” político de Stuart Edgard Angel Jones nas dependências de um tribunal militar. Na condição de revel ele é absolvido por “falta de provas”. Zuzu se levanta na platéia e, numa cena emocionante, denuncia que seu filho não estava ali porque havia sido covardemente assassinado durante as sessões de tortura. Afrontando os juízes, ela exige que os assassinos parem com a farsa e entreguem o corpo de seu filho para que ela possa enterrá-lo.     

CORAGEM

Em uma outra passagem do filme, Zuzu lê para a filha uma carta antiga escrita por Stuart. Nela ele revela uma profunda e revolucionária visão do mundo. “Mãe, certa vez você me perguntou se acredito em Deus. Para mim, Deus não é algo externo ao homem, ele faz parte de cada ser humano e por isso as pessoas, das mais simples às mais importantes, podem mudar as coisas com a sua ação e com a sua consciência”, diz a carta. Zuzu lia o texto para a filha repleta de felicidade. Identificava-se como nunca com seu filho querido. A cena faz lembrar Pelágia Vlassov, personagem da obra de Gorki, que, como Zuzu, ao assumir a luta do filho, transformara-se também numa grande guerreira. “Corajoso era o meu filho Stuart”, dizia ela, quando ressaltavam a sua “coragem”. “Eu só tenho a legitimidade”, completava.

Zuzu Angel passou os últimos anos de sua vida organizando uma ampla campanha de denúncias contra a ditadura. Fez contatos em diversos países. Esteve com integrantes do Partido Democrata americano e contatou a Anistia Internacional. Durante um vôo de retorno ao Rio de Janeiro, apodera-se do sistema de som do avião e denuncia os crimes da ditadura. Manda cartas descrevendo o assassinato de seu filho para praticamente toda a intelectualidade brasileira. Seu relato transforma-se num capítulo do livro do historiador Hélio Silva.

LUTA

Censurada, Zuzu aproveita um desfile de modas em Nova Iorque para mostrar vestidos estampados com temas alusivos à repressão política no Brasil e, ao final, para surpresa de todos, sobe ao palco para protestar com o retrato de seu filho nas mãos.

Durante sua luta ela obtém informações que serão valiosas para o movimento popular. Que grandes multinacionais e banqueiros financiavam ativamente as atividades da repressão. Era a famigerada Operação Bandeirantes, com sede em São Paulo. A OBAN, como era conhecida, não só arrecadava recursos para a repressão como atuava junto a uma parte da imprensa convencendo-a a mentir sobre os assassinatos do regime.  Para facilitar o trabalho da repressão, alguns desses jornais chegaram a noticiar a morte dos presos antes mesmo que ela se consumasse. 

Mais ciente do se passava no país, Zuzu decide prestar uma homenagem à coragem demonstrada por Stuart na prisão. Dirige-se à casa de um sapateiro, no subúrbio do Rio, interpretado maravilhosamente por Nelson Dantas - que infelizmente não chegou a ver o filme concluído - e diz a ele: “meu filho morreu para não revelar um endereço. O meu filho morreu para que o seu filho pudesse viver. Acho que eles eram muito amigos”, conclui. O sapateiro era o pai do líder revolucionário, Carlos Lamarca.

Stuart havia mostrado, com o seu comportamento durante a tortura que é possível derrotar o inimigo mesmo nas situações mais adversas. Nada revelou, que pudesse ser usado contra o movimento. Venceu os algozes, por compromisso com a luta, com os companheiros e com o povo.

COMPROMISSO

Ali, na Base Aérea do Galeão, Stuart Angel Jones com o sacrifício da própria vida golpeou mortalmente o regime. Alguns anos mais tarde, exemplos de desprendimento e heroísmo como este que ele dera inflamaram a luta do povo brasileiro, milhares de pessoas ocuparam as ruas para exigir a anistia e a liberdade. Daí até a derrubada definitiva da ditadura não demorou muito. Zuzu não pôde assistir a esses acontecimentos porque o terror fascista não conseguiu conviver com ela. Coincidência ou não, logo após entrevistar-se com o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, durante sua visita ao Brasil, em 1976 , Zuzu Angel foi assassinada. Sua morte ocorreu num “acidente” em maio de 1976, quando saía do túnel Dois Irmãos, na Gávea, Zona Sul do Rio. O filme mostra que uma semana antes de sua morte ela entregara uma carta ao amigo Chico Buarque de Holanda onde dizia: “‘se alguma coisa acontecer comigo. Se eu aparecer morta ou sofrer qualquer acidente, os meus assassinos serão os mesmos que mataram o meu amado filho Stuart”.

A belíssima música de Chico, “Angélica”, feita em homenagem a Zuzu Angel, encerra com muita emoção o belo filme de Sérgio Rezende que, certamente entrará para a galeria das mais importantes obras já realizadas sobre este duro período da vida brasileira.

Completaram ainda o elenco do filme, além dos atores e atrizes já citados, Regiane Alves, Ivan Cândido, Ângela Leal, Luana Piovani, Antônio Pitanga, Caio Junqueira, Paulo Betti, Flavio Bauraqui, Aramis Trindade, Fernanda de Freitas, Ângela Vieira e Elke Maravilha.

SÉRGIO CRUZ

Artigo publicado no jornal Hora do Povo m 2006
 
Adendos da edição do HP: 
 

Publicado no jornal de fundação da JR8 em 1985

Sempre conosco!

Durante os 21 anos que durou o regime de Ditadura Militar, implantado em 1º de abril de 64, o povo brasileiro travou uma luta heróica contra um inimigo poderoso. Derrotou a ditadura. Mas jamais serão esquecidos os que tombaram nesse combate, que teve os seus momentos mais duros e difíceis no período da luta armada. A resistência aos governos ditatoriais teve à frente o MR8, seja nas mobilizações de massa, na clandestinidade e também no empunhar de armas contra o fascismo. Entre os nomes dos patriotas assassinados neste enfrentamento pela liberdade estão muitos jovens militantes, homens e mulheres, do MR8.

A JR8 homenageia, no seu pensar e agir, um desses brasileiros: Stuart Angel Jones. Seqüestrado pelos órgãos repressivos, este jovem dirigente do MR8 foi selvagemente torturado, arrastado por um jipe, sufocado com a boca contra o cano da descarga da viatura. Não entregou uma informação aos seus torturadores. Morreu em virtude das terríveis violências cometidas contra seu corpo. Manteve porém intacto seu espírito de revolucionário, derrotando o fascismo no seu último combate e deixando para todos nós o seu exemplo e o seu jeito de ser. Alegre. Confiante. Certo de que a Felicidade não apenas sorrirá para o Brasil. Vai lhe dar um grande abraço, isto sim!

O texto abaixo, sobre Stuart, foi escrito pelo seu companheiro de lutas e partido, além de amigo pessoal, Sérgio Rubens.

Valeu, Stuart

A lembrança é muito forte e nítida.

Quatro horas da tarde, ponto fixo. Há mais de 1 mês eu vinha cobrindo ponto, ponto alternativo, ponto de segurança, ponto para todo o gosto e qualidade. E não encontrava ninguém.

Te vi de longe. Coração aos pulos, a vontade era de abraçar forte. Mas o que saiu foi só aquele “oi” contido e discreto.

Meia hora de caminhada, de relatos da desventurosa ciranda de pontos furados. Estávamos em situação idêntica. “Será que sobrou só a gente?”.

Teu sorriso largo, contagiante, moleque, igualzinho ao do retrato. “Vamos ter que começar tudo de novo”.

Foram duas, três, muitas horas de conversa. Mil idéias, mil possibilidades, mil projetos. Exílio, jamais! Um novo MR8 já pulsava ali, ao alcance das mãos. Era só arregaçar as mangas. O cerco, as dificuldades... naquela hora isso não estava valendo nada. Loucura! Pois é, bendita loucura.

Mas nem foi preciso tanto. Com o passar das semanas fomos verificando que as quedas não haviam sido tão profundas. E fomos navegando. Agindo, unindo as pessoas, lutando, resistindo. Teu sorriso sempre conosco mantendo o astral no alto. Até que a estupidez do fascismo te sufocou com gás do cano de descarga de um jipe, enquanto te arrastava, em plena luz do dia, pela base aérea do Galeão.

Hoje isso tudo tão longe e tão perto. Num auditório da Universidade a JR8 nascendo, a rapaziada te escolhendo para patrono. Que mais é preciso dizer?

Valeu o sorriso, e como...

Belo Horizonte, 2 de abril de 1985

 
 
 

 

facebook