Quando monopolizava doações das empresas, o PT não achava que elas eram escandalosas

Quando monopolizava doações das empresas, o PT não achava que elas eram escandalosas

O PT está se tornando um partido a cada dia mais peculiar – não é verdade, ao contrário do que dizem alguns, inclusive alguns petistas, que está se tornando igual aos outros. Antes fosse apenas isso.

No dia 17 de abril, sua direção "decidiu não aceitar mais doações de empresas". Poderia ser apenas uma posição partidária, como tantas, se não fosse um problema: qual a empresa, depois – e durante, pois ainda não terminou – da Operação Lava Jato que quer fazer alguma doação ao PT? Existem empresários que são um pouco excêntricos, mas muito poucos – talvez nenhum - são malucos a ponto de arriscar-se a ter de explicar à Polícia Federal ou ao Ministério Público o motivo de sua doação.

Esse, evidentemente, não é um problema dos empresários, ou das doações de empresas, mas um problema do PT, devido à performance dos senhores Vaccari, Duque e Barusco no caso da Petrobrás. Sem contar que a adesão de Dilma ao neoliberalismo, agora sem mais rebuços – só não o percebe quem não quer, e se não quer é porque não lhe convém lutar contra a destruição do país – afasta boa parte dos que poderiam ser doadores.

Portanto, a decisão do PT é quase inócua, se não fosse a questão de que, quando o dinheiro fluía para seus cofres, não tomou essa decisão. Agora, que os beneficiários tendem a ser outros, o PT quer proibir as doações de empresas...

Poderia ser apenas um episódio de farisaísmo, sem maiores consequências, se, na última quinta-feira, depois de, mais uma vez, o sr. Cunha – tão incensado pelo deputado Sibá Machado - passar por cima do regimento, da lei, da Constituição (e dos acordos com o PT) para manter o financiamento eleitoral e partidário pelas empresas, a bancada do partido não resolvesse representar o papel de Errol Flynn na luta contra as doações de empresas aos partidos.

Segundo o PT, "o financiamento empresarial de campanha é o responsável por grande parte da corrupção e potencializa a influência do poder econômico sobre o processo democrático".

A primeira parte não é verdade: não são as doações das empresas que fazem o ladrão, mas a vontade de roubar e enriquecer sem fazer força, empanzinando-se com subornos ou propinas. Quanto à segunda, é uma pena que somente agora, em pleno – e pouco glorioso – ocaso, o PT tenha descoberto que o abuso do poder econômico nas eleições (e, de resto, na vida política) é a maior restrição que existe no Brasil à democracia. Só agora, quando as doações de empresas escasseiam, é que o PT se lembrou disso.

Segundo nota no site do PT, "cerca de 70% dos deputados investigados pela operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), apoiaram a emenda que pretende constitucionalizar o financiamento privado de campanha" - e segue uma lista desses deputados, todos, aliás, da base governista, portanto, aliados do PT.

É inevitável notar que essa é uma forma muito pouco elegante – ou seja, pouco leal – de, supostamente, se excluir da Lava Jato, uma Operação que tem por foco o esquema de propinas que o tesoureiro do PT e alguns aprochegados montaram em nossa maior e mais importante empresa.

Apenas entre 2011 e 2013, o PT recebeu R$ 207 milhões em doações das empresas envolvidas hoje na Lava Jato – isto é, 66,19% das doações do "clube do bilhão" para partidos. Portanto, mais que a soma do que receberam, dessas empresas, todos os outros partidos.

Nos últimos anos, não houve partido mais beneficiado pelas doações de empresas – e não somente as do esquema que hoje está debaixo de vara na Operação Lava Jato.

Entre 2007 e 2014, o PT – fora as campanhas eleitorais – recebeu oficialmente R$ 744 milhões em doações de empresas. Além disso, em 2010, na primeira campanha de Dilma, 91,13% dos recursos eram doações de empresas (mais exatamente, R$ 123.514.869,25 de um total de R$ 135.530.844,32).

E nem é preciso falar da campanha de 2014, onde, somente do clube que roubava a Petrobrás, Dilma recebeu R$ 72 milhões, mais R$ 25 milhões dos bancos (agiota é sempre pão-duro), mais R$ 11 milhões das duas maiores empresas de planos de saúde - e deixaremos para outro artigo, apenas por uma questão de espaço, o que foi recebido das multinacionais.

De 2002 em diante, essas doações ao PT foram as principais responsáveis pelo estúpido encarecimento da campanha eleitoral – os gastos totais das campanhas, em eleições nacionais, aumentaram +516% entre 2002 e 2014 (de R$ 828 milhões em 2002 para R$ 5,1 bilhões em 2014).

Nas últimas eleições, o PT gastou R$ 1,121 bilhão – e não há dúvida que esse dinheiro não veio da promoção de tombolas, isto é, rifas.

Essa é a questão: qualquer suposta "reforma política" que não atacar a grilheta que impede a democracia, que faz com que o Congresso e o Executivo sejam prisioneiros de uma oligarquia plutocrática, é uma farsa. Sem resolver – pelo menos na lei - esse problema, a discussão das doações das empresas é apenas diversionista, coisa para ocupar alguns bobos, enquanto elementos de má-fé eternizam o que é, cada vez mais, uma ditadura dos bancos e multinacionais – e seus capachos.

CARLOS LOPES

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