Pierre Bourdieu: As artimanhas da razão imperialista (e racista)

 

Há quase um ano – ou, talvez, mais – o maestro Marcus Vinícius de Andrade enviou-nos um texto dos sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant sobre a ditadura ideológica norte-americana vigente em certos setores acadêmicos, ditos de “ciências humanas”.

 

O exemplo principal de Bourdieu e Wacquant é o tratamento da história e do movimento dos afro-brasileiros por certa sociologia que transporta para aqui o que somente é válido para os EUA.

 

Apesar de percebermos imediatamente a importância do texto, foi difícil publicá-lo: sua linguagem não é simples de ler – embora, paradoxalmente, uma vez superada a barreira estilística, não é difícil entender a colocação dos autores.

 

O texto foi publicado pela revista “Estudos Afro-Asiáticos”, em 2002. Anteriormente, aparecera no livro de Pierre Bourdieu, “Escritos de Educação” (Petrópolis, Vozes, 1998), antologia organizada por Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani.

 

O que se segue é uma condensação – na qual, além de retirar alguns trechos, também redividimos os parágrafos, para facilitar a leitura em jornal.

 

O principal interesse da obra de Loïc Wacquant é o estudo da situação dos negros nos EUA, que expôs com eloquência e vivência em obras como “As Prisões da Miséria”.

 

Pierre Bourdieu, falecido em 2002, é hoje um dos mais citados sociólogos do mundo. É surpreendente a sua trajetória, que, após os acontecimentos do Leste Europeu, caminhou progressivamente para a esquerda. Ele, que tinha sido assistente do anticomunista Raymond Aron, afirmou, na última fase da vida e com seus últimos textos, que não é possível sociologia alguma, ou ciência social alguma, para aqueles que se submetem a um posicionamento antissocial.

 

C.L.

 

PIERRE BOURDIEU e LOÏC WACQUANT

 

O imperialismo cultural repousa no poder de universalizar os particula- rismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais.

 

Assim, do mesmo modo que, no século XIX, um certo número de questões ditas filosóficas debatidas como universais, em toda a Europa e para além dela, tinham sua origem, segundo foi muito bem demonstrado por Fritz Ringer, nas particularidades (e nos conflitos) históricas próprias do universo singular dos professores universitários alemães, assim também, hoje em dia, numerosos tópicos oriundos diretamente de confrontos intelectuais associados à particularidade social da sociedade e das universidades americanas impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro.

 

Esses lugares-comuns, noções ou teses com as quais se argumenta, mas sobre as quais não se argumenta ou, por outras palavras, esses pressupostos da discussão que permanecem indiscutidos, devem uma parte de sua força de convicção ao fato de que, circulando de colóquios universitários para livros de sucesso, de revistas semi-eruditas para relatórios de especialistas, de balanços de comissões para capas de magazines, estão presentes por toda parte ao mesmo tempo, de Berlim a Tóquio e de Milão ao México, e são sustentados e intermediados de uma forma poderosa por esses espaços pretensamente neutros como são os organismos internacionais (tais como a OCDE ou a Comissão Europeia) e os centros de estudos e assessoria para políticas públicas (tal como o Adam Smith Institute e a Fondation Saint-Simon).

 

[N.A.: Entre os livros que dão testemunho dessa macdonaldização rampante do pensamento, pode-se citar a jeremiada elitista de A. Bloom (1987), traduzida imediatamente para o francês, pela editora Julliard, com o título L'Âme Désarmée (A Alma Desarmada) e o panfleto enraivecido do imigrante indiano neoconservador (e biógrafo de Reagan), membro do Manhattan Institute, D. DiSouza (1991), traduzido para o francês com o título L'Éducation contre les Libertés (A Educação contra as Liberdades). Um dos melhores indícios para identificar as obras que participam desta nova doxa [sistema de crenças declaradas óbvias] intelectual com pretensão planetária é a celeridade, absolutamente inabitual, com a qual são traduzidas e publicadas no exterior (sobretudo, em comparação com as obras científicas).]

 

Esses lugares-comuns da grande vulgata planetária transformados, aos poucos, pela insistência midiática em senso comum universal, chegam a fazer esquecer que têm sua origem nas realidades complexas e controvertidas de uma sociedade histórica particular, constituída tacitamente como modelo e medida de todas as coisas.

 

Eis o que se passou, por exemplo, com o debate impreciso e inconsistente em torno do “multiculturalismo”, termo que, na Europa, foi utilizado, sobretudo, para designar o pluralismo cultural na esfera cívica, enquanto, nos Estados Unidos, ele remete às sequelas perenes da exclusão dos negros e à crise da mitologia nacional do “sonho americano”, correlacionada ao crescimento generalizado das desigualdades no decorrer das últimas duas décadas. Crise que o vocábulo “multicultural” encobre, confinando-a artificial e exclusivamente ao microcosmo universitário e expressando-a em um registro ostensivamente “étnico” quando, afinal, ela tem como principal questão, não o reconhecimento das culturas marginalizadas pelos cânones acadêmicos, mas o acesso aos instrumentos de (re)produção das classes média e superior – na primeira fila das quais figura a universidade – em um contexto de descompromisso maciço e multiforme do Estado.

 

Através desse exemplo, vê-se de passagem que, entre os produtos culturais difundidos na escala planetária, os mais insidiosos não são as teorias de aparência sistemática (como o “fim da história” ou a “globalização”) e as visões do mundo filosóficas (ou que pretendem ser tais, como o “pós-modernismo”), no final das contas, fáceis de serem identificadas; mas sobretudo determinados termos isolados com aparência técnica, tais como a “flexibilização” (ou sua versão britânica, a “empregabilidade”) que, pelo fato de condensarem ou veicularem uma verdadeira filosofia do indivíduo e da organização social, adaptam-se perfeitamente para funcionar como verdadeiras palavras de ordem políticas (no caso concreto: “menos Estado”, redução da cobertura social e aceitação da generalização da precariedade salarial como uma fatalidade, inclusive, um benefício).

 

Poder-se-ia analisar também em todos os seus detalhes a noção de “mundialização” que tem como efeito, para não dizer função, submergir no ecumenismo cultural ou no fatalismo economista os efeitos do imperialismo e fazer aparecer uma relação de força transnacional como uma necessidade natural.

 

No termo de uma reviravolta simbólica baseada na naturalização dos esquemas do pensamento neoliberal, cuja dominação se impôs nos últimos vinte anos, graças ao trabalho de sapa dos think tanks conservadores e de seus aliados nos campos político e jornalístico, a remodelagem das relações sociais e das práticas culturais das sociedades avançadas em conformidade com o padrão norte-americano, apoiado na pauperização do Estado, da mercantilização dos bens públicos e generalização da insegurança social, é aceita atualmente com resignação como o desfecho obrigatório das evoluções nacionais quando não é celebrada com um entusiasmo subserviente que faz lembrar estranhamente a “febre” pela América que, há meio século, o Plano Marshall tinha suscitado em uma Europa devastada.

 

INTRUSÕES

 

Em um campo mais próximo das realidades políticas, um debate como o da “raça” e da identidade dá lugar a semelhantes intrusões etnocêntricas. Uma representação histórica, surgida do fato de que a tradição americana calca, de maneira arbitrária, a dicotomia entre brancos e negros em uma realidade infinitamente mais complexa, pode até mesmo se impor em países em que os princípios de visão e divisão, codificados ou práticos, das diferenças étnicas são completamente diferentes e em que, como o Brasil, ainda eram considerados, recentemente, como contra-exemplos do “modelo americano”.

 

A maior parte das pesquisas recentes sobre a desigualdade etno-racial no Brasil, empreendidas por americanos e latino-americanos formados nos Estados Unidos, esforçam-se em provar que, contrariamente à imagem que os brasileiros têm de sua nação, o país das “três tristes raças” (indígenas, negros descendentes dos escravos, brancos oriundos da colonização e das vagas de imigração européias) não é menos “racista” do que os outros; além disso, sobre esse capítulo, os brasileiros “brancos” nada têm a invejar em relação aos primos norte-americanos. Ainda pior, o racismo mascarado à brasileira seria, por definição, mais perverso, já que dissimulado e negado. É o que pretende, em Orpheus and Power (1994), o cientista político afro-americano Michael Hanchard: ao aplicar as categorias raciais norte-americanas à situação brasileira, o autor erige a história particular do Movimento em favor dos Direitos Civis como padrão universal da luta dos grupos de cor oprimidos.

 

Em vez de considerar a constituição da ordem etno-racial brasileira em sua lógica própria, essas pesquisas contentam-se, na maioria das vezes, em substituir, na sua totalidade, o mito nacional da “democracia racial” (tal como é mencionada, por exemplo, na obra de Gilberto Freyre), pelo mito segundo o qual todas as sociedades são “racistas”, inclusive aquelas no seio das quais parece que, à primeira vista, as relações “sociais” são menos distantes e hostis.

 

De utensílio analítico, o conceito de racismo torna-se um simples instrumento de acusação; sob pretexto de ciência, acaba por se consolidar a lógica do processo (garantindo o sucesso de livraria, na falta de um sucesso de crítica [succès d'estime]).

 

Em um artigo clássico, publicado há trinta anos, o antropólogo Charles Wagley mostrava que a concepção da “raça” nas Américas admite várias definições, segundo o peso atribuído à ascendência, à aparência física (que não se limita à cor da pele) e ao status sociocultural (profissão, montante da renda, diplomas, região de origem, etc.), em função da história das relações e dos conflitos entre grupos nas diversas zonas.

 

Os norte-americanos são os únicos a definir “raça” a partir somente da ascendência e, exclusivamente, em relação aos afro-americanos: em Chicago, Los Angeles ou Atlanta a pessoa é “negra” não pela cor da pele, mas pelo fato de ter um ou vários parentes identificados como negros, isto é, no termo da regressão, como escravos.

 

Os Estados Unidos constituem a única sociedade moderna a aplicar a one-drop rule [uma única gota de sangue negro define a raça] e o princípio de “hipodescendência”, segundo o qual os filhos de uma união mista são, automaticamente, situados no grupo inferior (aqui, os negros).

 

No Brasil, a identidade racial define-se pela referência a um continuum de “cor”, isto é, pela aplicação de um princípio flexível ou impreciso que, levando em consideração traços físicos como a textura dos cabelos, a forma dos lábios e do nariz e a posição de classe (principalmente, a renda e a educação), engendram um grande número de categorias intermediárias (mais de uma centena foram repertoriadas no censo de 1980) e não implicam ostracização radical nem estigmatização sem remédio.

 

Dão testemunho dessa situação, por exemplo, os índices de segregação exibidos pelas cidades brasileiras, nitidamente inferiores aos das metrópoles norte-americanas, bem como a ausência virtual dessas duas formas tipicamente norte-americanas de violência racial como são o linchamento e a motim urbano. Pelo contrário, nos Estados Unidos não existe categoria que, social e legalmente, seja reconhecida como “mestiço”. Aí, temos a ver com uma divisão que se assemelha mais à das castas definitivamente definidas e delimitadas (como prova a taxa excepcionalmente baixa de intercasamentos: menos de 2% das afro-americanas contraem uniões “mistas”, em contraposição à metade, aproximadamente, das mulheres de origem hispanizante e asiática que o fazem) que se tenta dissimular, submergindo-a pela “globalização” no universo das visões diferenciantes.

 

Como explicar que sejam assim elevadas, tacitamente, à posição de padrão universal em relação ao qual deve ser analisada e avaliada toda situação de dominação étnica, determinadas “teorias” das “relações raciais” que são transfigurações conceitualizadas e, incessantemente, renovadas pelas necessidades da atualização, de estereótipos raciais de uso comum que, em si mesmos, não passam de justificações primárias da dominação dos brancos sobre os negros?

 

[N.A.: James McKee demonstra, a uma só vez, em sua obra-mestra (Sociology and the Race Problem: The Failure of a Perspective, 1993), por um lado, que essas teorias com pretensões científicas retomam o estereótipo da inferioridade cultural dos negros e, por outro, que elas se revelaram singularmente inaptas para predizer e depois explicar a mobilização negra do após-guerra e os motins raciais dos anos 60.]

 

“PASSADORES”

 

O fato de que, no decorrer dos últimos anos, a sociodicéia racial (ou racista) tenha conseguido se “mundializar”, perdendo ao mesmo tempo suas características de discurso justificador para uso interno ou local, é, sem dúvida, uma das confirmações mais exemplares do império e da influência simbólicos que os Estados Unidos exercem sobre toda espécie de produção erudita e, sobretudo, semi-erudita, em particular, através do poder de consagração que esse país detém e dos benefícios materiais e simbólicos que a adesão mais ou menos assumida ou vergonhosa ao modelo norte-americano proporciona aos pesquisadores dos países dominados.

 

Com efeito, é possível dizer, com Thomas Bender, que os produtos da pesquisa americana adquiriram “uma estatura internacional e um poder de atração” comparáveis aos “do cinema, da música popular, dos programas de informática e do basquetebol americanos”. A violência simbólica nunca se exerce, de fato, sem uma forma de cumplicidade (extorquida) daqueles que a sofrem e a “globalização” dos temas da doxa social americana ou de sua transcrição, mais ou menos sublimada, no discurso semi-erudito não seria possível sem a colaboração, consciente ou inconsciente, direta ou indiretamente interessada, não só de todos os “passadores” e importadores de produtos culturais com grife ou dégriffés (editores, diretores de instituições culturais, museus, óperas, galerias de arte, revistas etc.) que, no próprio país ou nos países-alvo, propõem e propagam, muitas vezes com toda a boa-fé, os produtos culturais americanos, mas também de todas as instâncias culturais americanas que, sem estarem explicitamente coordenadas, acompanham, orquestram e, até por vezes, organizam o processo de conversão coletiva à nova Meca simbólica.

 

Mas todos esses mecanismos que têm como efeito favorecer uma verdadeira “globalização” das problemáticas americanas, dando, assim, razão, em um aspecto, à crença americanocêntrica na “globalização” entendida, simplesmente, como americanização do mundo ocidental e, aos poucos, de todo o universo, não são suficientes para explicar a tendência do ponto de vista americano, erudito ou semi-erudito, sobre o mundo, para se impor como ponto de vista universal, sobretudo quando se trata de questões tais como a da “raça” em que a particularidade da situação americana é particularmente flagrante e está particularmente longe de ser exemplar.

 

UNIVERSIDADES

 

Poder-se-ia ainda invocar, evidentemente, o papel motor que desempenham as grandes fundações americanas de filantropia e pesquisa na difusão da doxa racial norte-americana no seio do campo universitário brasileiro, tanto no plano das representações, quanto das práticas.

 

Assim, a Fundação Rockefeller financia um programa sobre “Raça e Etnicidade” na Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade Candido Mendes, de maneira a favorecer o intercâmbio de pesquisadores e estudantes. Para a obtenção de seu patrocínio, a Fundação impõe como condição que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à maneira americana, o que levanta problemas espinhosos já que, como se viu, a dicotomia branco/negro é de aplicação, no mínimo, arriscada na sociedade brasileira.

 

Pierre Bourdieu: As artimanhas da razão imperialista (e racista) - 2

 

Continuação da edição anterior

 

A descoberta tão recente quanto repentina da “globalização da raça” resulta, não de uma brusca convergência dos modos de dominação etno-racial nos

diferentes países, mas antes da quase universalização do follk concept norte-americano de “raça” sob o efeito da exportação mundial das categorias eruditas americanas

 

PIERRE BOURDIEU e LOÏC WACQUANT

 

Além do papel das fundações filantrópicas, deve-se, enfim, colocar entre os fatores que contribuem para a difusão do “pensamento US” nas ciências sociais a internacionalização da atividade editorial universitária. A integração crescente da edição dos livros acadêmicos em língua inglesa (doravante vendidos, frequentemente, pelas mesmas editoras nos Estados Unidos, nos diferentes países da antiga Commonwealth britânica, bem como nos pequenos países poliglotas da União Europeia, tais como a Suécia e a Holanda, e nas sociedades submetidas mais diretamente à dominação cultural americana) e o desaparecimento da fronteira entre atividade editorial universitária e editoras comerciais contribuíram para encorajar a circulação de termos, temas e tropos com forte divulgação prevista ou constatada que, por ricochete, devem seu poder de atração ao simples fato de sua ampla difusão.

 

Por exemplo, a grande editora semicomercial, semi-universitária (designada pelos anglo-saxões como crossover press), Basil Blackwell, não hesita em impor a seus autores determinados títulos em consonância com esse novo senso comum planetário para a instalação do qual ela tem dado sua contribuição sob pretexto de repercuti-lo. Assim, à coletânea de textos sobre as novas formas de pobreza urbana, na Europa e na América, reunidos em 1996 pelo sociólogo italiano Enzo Mingione, foi dado o título Urban Poverty and the Underclass, contra o parecer de seu responsável e dos diferentes colabo- radores, uma vez que toda a obra tende a demonstrar a vacuidade da noção de underclass [subclasse] (Bla- ckwell chegou mesmo a se recusar a colocar o termo entre aspas).

 

[N.A.: Não se trata de um incidente isolado: no momento em que este artigo vai para o prelo, a mesma editora empreendeu um combate furioso com os urbanólogos Ronald van Kempen e Peter Marcuse, a fim de que estes modifiquem o título de sua obra coletiva, The Partitioned City, para Globalizing Cities.]

 

Em caso de reticência demasiado grande por parte dos autores, Basil Blackwell está em condições de pretender que um título atraente é o único meio de evitar um preço de venda elevado que, de qualquer modo, liquidaria o livro em questão. É assim que certas decisões de pura comercialização editorial orientam a pesquisa e o ensino universitários no sentido da homogeneização e da submissão às modas oriundas da América, quando não acabam por criar, claramente, determinadas “disciplinas”, tais como os cultural studies, campo híbrido, nascido nos anos 70 na Inglaterra que deve sua difusão internacional a uma política de propaganda editorial bem-sucedida.

 

Deste modo, o fato de que essa “disciplina” esteja ausente dos campos universitário e intelectual franceses não impediu Routledge de publicar um compendium intitulado French Cultural Studies, segundo o modelo dos British Cultural Studies (existe também um tomo de German Cultural Studies). E pode-se predizer que, em virtude do princípio de partenogênese étnico-editorial em voga atualmente, ver-se-á em breve aparecer um manual de French Arab Cultural Studies que venha a constituir o par simétrico de seu primo do além-Mancha, Black British Cultural Studies, publicado em 1997.

 

Mas todos esses fatores reunidos não podem justificar completamente a hegemonia que a produção exerce sobre o mercado mundial. Com efeito, o que pensar desses pesquisadores americanos que vão ao Brasil encorajar os lideres do Movimento Negro a adotar as táticas do movimento afro-americano de defesa dos direitos civis e denunciar a categoria pardo (termo intermediário entre branco e preto que designa as pessoas de aparência física mista) a fim de mobilizar todos os brasileiros de ascendência africana a partir de uma oposição dicotômica entre “afro-brasileiros” e “brancos” no preciso mo mento em que, nos Estados Unidos, os indivíduos de origem mista se mobilizam a fim de que o Estado americano (a começar pelos Institutos de Recenseamento) reconheça, oficial- mente, os americanos “mestiços”, deixando de os classificar à força sob a etiqueta exclusiva de “negro”?

 

Semelhantes constatações nos au- torizam a pensar que a descoberta tão recente quanto repentina da “globa- lização da raça” resulta, não de uma brusca convergência dos modos de dominação etno-racial nos diferentes países, mas antes da quase univer- salização do follk concept norte-americano de “raça” sob o efeito da exportação mundial das categorias eruditas americanas.

 

Pode-se-ia fazer a mesma de- monstração a propósito da difusão internacional do verdadeiro-falso conceito de underclass, que foi importado pelos sociólogos do velho continente desejosos de conseguirem uma segunda juventude intelectual surfando na onda da popularidade dos conceitos made in USA.

 

Para avançar rápido, os pesquisadores europeus ouvem falar de “classe” e acreditam fazer referência a uma nova posição na estrutura do espaço social urbano; quando seus colegas americanos ouvem falar de “under”, pensam em uma cambada de pobres perigosos e imorais, tudo isso sob uma óptica deliberadamente vitoriana e racistóide.

 

No entanto, Paul Peterson, professor de ciência política em Harvard e diretor do "Comitê de pesquisas sobre underclass urbana" do Social Science Research Council (também financiado pelas Fundações Rockefeller e Ford), não deixa subsistir qualquer equívoco quando, com o seu aval, resume os ensinamentos extraídos de um grande colóquio sobre a underclass realizado, em 1990, em Chicago, nestes termos que não têm necessidade de qualquer comentário:

 

“O sufixo 'class' é o componente menos interessante da palavra. Embora implique uma relação entre dois grupos sociais, os termos dessa relação permanecem indeterminados enquanto não for acrescentada a palavra mais familiar 'under'. Esta sugere algo de baixo, vil, passivo, resignado e, ao mesmo tempo, algo de vergonhoso, perigoso, disruptivo, sombrio, maléfico, inclusive, demoníaco. E, além desses tributos pessoais, ela implica a idéia de submissão, subordinação e miséria”.

 

“UNDERCLASS”

 

Em cada campo intelectual racional, existem “passadores” (por vezes, um só; outras vezes, vários) que retomam esse mito erudito e reformulam nesses termos alienados a questão das relações entre pobreza, imigração e segregação em seus países.

 

Assim, já não é possível contar o número de artigos e obras que têm como objetivo provar – ou negar, o que acaba sendo a mesma coisa – com uma bela aplicação positivista, a “existência” desse “grupo” em tal sociedade, cidade ou bairro, a partir de indicadores empíricos na maioria das vezes mal construídos e mal correlacionados entre si.

 

Ora, colocar a questão de saber se existe uma underclass (termo que alguns sociólogos franceses não hesitaram em traduzir por “subclasse”, na expectativa, sem dúvida, de introduzir o conceito de sub-homens) em Londres, Lyon, Leiden ou Lisboa é pressupor, no mínimo, por um lado, que o termo é dotado de uma certa consistência analítica e, por outro, que tal “grupo” existe realmente nos Estados Unidos.

 

Ora, a noção semijornalística e semierudita de underclass é desprovida não só de coerência semântica, mas também de existência social. As populações que os pesquisadores americanos colocam, habitualmente, sob esse termo – beneficiários da assistência social, desempregados crônicos, mães solteiras, famílias monoparentais, rejeitados do sistema escolar, criminosos e membros de gangues, drogados e sem teto, quando não são todos os habitantes do gueto sem distinção – devem sua inclusão nessa categoria “fourre-tout” [onde cabe tudo] ao fato de que são percebidas como outros tantos desmentidos vivos do “sonho americano” de sucesso individual.

 

O “conceito” aparentado de “exclusão” é comumente empregado, na França e em certo número de outros países europeus (principalmente, sob a influência da Comissão Europeia), na fronteira dos campos político, jornalístico e científico, com funções similares de desistoricização e despolitização. Isso dá uma idéia da inanidade da operação que consiste em retraduzir uma noção inexistente por uma outra mais do que incerta.

 

Com efeito, a underclass não passa de um grupo fictício, produzido no papel pelas práticas de classificação dos eruditos, jornalistas e outros especialistas em gestão dos pobres (negros urbanos), que comungam da crença em sua existência porque tal grupo é constituído para voltar a dar a algumas pessoas uma legitimidade científica e, a outras, um tema politicamente compensador.

 

Inapto e inepto no caso americano, o conceito de importação não traz nada ao conhecimento das sociedades europeias. Com efeito, os instrumentos e as modalidades do governo da miséria estão longe de ser idênticos, dos dois lados do Atlântico, sem falar das divisões étnicas e de seu estatuto político.

 

Segue-se que, nos Estados Unidos, a definição e o tratamento reservados às “populações com problemas” diferem dos que são adotados pelos diversos países do Velho Mundo. E, sem dúvida, o mais extraordinário é que, segundo um paradoxo já encontrado a propósito de outros falsos conceitos da vulgata mundializada, essa noção de underclass que nos chega da América surgiu na Europa, bem como a de gueto, que ela tem por função ocultar em razão da severa censura política que, nos Estado Unidos, pesa sobre a pesquisa a respeito da desigualdade urbana e racial.

 

Com efeito, tal noção tinha sido forjada, nos anos 60, a partir da palavra sueca onderklass, pelo economista Gunnar Myrdal. Mas sua intenção era, nesse caso, descrever o processo de marginalização dos segmentos inferiores da classe operária dos países ricos para criticar a ideologia do aburguesamento generalizado das sociedades capitalistas. Vê-se como o desvio pela América pode transformar uma ideia: de um conceito estrutural que visava colocar em questão a representação dominante surgiu uma categoria behaviorista recortada sob medida para reforçá-la, imputando aos comportamentos “antissociais” dos mais desmunidos a responsabilidade por sua despossessão.

 

Esses mal-entendidos devem-se, em parte, ao fato de que os “passadores” transatlânticos dos diversos campos intelectuais importadores, que produzem, reproduzem e fazem circular todos esses (falsos) problemas, retirando de passagem sua pequena parte de benefício material ou simbólico, por um lado, olham em direção da América, suposto núcleo da (pós) “modernidade” social e científica, mas eles próprios são dependentes dos pesquisadores americanos que exportam para o exterior determinados produtos intelectuais (muitas vezes, nem tão frescos) já que, em geral, não têm conhecimento direto e específico das instituições e da cultura americanas.

 

Por outro lado, inclinam-se para o jornalismo, para as seduções que ele propõe e os sucessos imediatos que proporciona, e, ao mesmo tempo, para os temas que afloram na interseção dos campos midiático e político, portanto, no ponto de rendimento máximo sobre o mercado exterior (como seria mostrado por um recenseamento das resenhas complacentes que seus trabalhos recebem nas revistas em voga).

 

Daí, sua predileção por problemáticas soft, nem verdadeiramente jornalísticas (estão guarnecidas com conceitos), nem completamente eruditas (orgulham-se por estarem em simbiose com “o ponto de vista dos atores”) que não passam da retradução semi-erudita dos problemas sociais do momento em um idioma importado dos Estados Unidos (etnicidade, identidade, minorias, comunidade, fragmentação, etc.) e que se sucedem segundo uma ordem e ritmo ditados pela mídia: juventude dos subúrbios, xenofobia da classe operária em declínio, desajustamento dos estudantes secundaristas e universitários, violências urbanas, etc.

 

“MODERNISTA”

 

Esses sociólogos-jornalistas, sempre prontos a comentar os “fatos de sociedade”, em uma linguagem, ao mesmo tempo, acessível e “modernista”, portanto, muitas vezes, percebida como vagamente progressista em referência aos “arcaísmos” do velho pensamento europeu, contribuem, de maneira particularmente paradoxal, para a imposição de uma visão do mundo que está longe de ser incompatível, apesar das aparências, com as que produzem e veiculam os grandes think tanks internacionais, mais ou menos diretamente plugados às esferas do poder econômico e político.

 

Quanto aos que, nos Estados Unidos, estão comprometidos, muitas vezes sem seu conhecimento, nessa imensa operação internacional de import-export cultural, eles ocupam, em sua maioria, uma posição dominada no campo do poder americano, e até mesmo, muitas vezes, no campo intelectual. Do mesmo modo que os produtores da grande indústria cultural americana como o jazz ou o rap, ou as modas de vestuário e alimentares mais comuns, como o jeans, devem uma parte da sedução quase universal que exercem sobre a juventude ao fato de que são produzidas e utilizadas por minorias dominadas, assim também os tópicos da nova vulgata mundial tiram, sem dúvida, uma boa parte de sua eficácia simbólica do fato de que, utilizados por especialistas de disciplinas percebidas como marginais e subversivas, tais como os cultural studies, os minority studies, os gay studies ou os women studies, eles assumem, por exemplo, aos olhos dos escritores das antigas colônias europeias, a aparência de mensagens de libertação.

 

Com efeito, o imperialismo cultural (americano ou outro) há de se impor sempre melhor quando é servido por intelectuais progressistas (ou “de cor”, no caso da desigualdade racial), pouco suspeitos, aparentemente, de promover os interesses hegemônicos de um país contra o qual esgrimem com a arma da crítica social.

 

Assim, os diversos artigos que compõem o número de verão de 1996 da revista Dissent, órgão da “velha esquerda” democrática de Nova York, consagrado às “minorias em luta no planeta: direitos, esperanças, ameaças”, projetam sobre a humanidade inteira, com a boa consciência humanista característica de certa esquerda acadêmica, não só o senso comum liberal norte-americano, mas a noção de minority [minoria] (seria necessário conservar sempre a palavra inglesa para lembrar que se trata de um conceito nativo importado na teoria — e ainda aí, originário da Europa) que pressupõe aquilo mesmo cuja existência real ou possível deveria ser demonstrada, a saber: categorias recortadas no seio de determinado Estado-nação a partir de traços “culturais” ou “étnicos” têm, enquanto tais, o desejo e o direito de exigir um reconhecimento cívico e político.

 

Ora, as formas sob as quais os indivíduos procuram fazer reconhecer sua existência e seu pertencimento pelo Estado variam segundo os lugares e os momentos em função das tradições históricas e constituem sempre um motivo de lutas na história.

 

Se os Estados Unidos são realmente excepcionais, segundo a velha temática tocquevilliana, incansa- velmente retomada e periodicamente reatualizada, é antes de tudo pelo dualismo rígido das divisões da ordem social. É ainda mais por sua capacidade para impor como universal o que têm de mais particular, ao mesmo tempo em que fazem passar por excepcional o que têm de mais comum.

facebook


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Design profissional
  • Criação super fácil

Este site foi criado com Webnode. Crie o seu de graça agora!