Partido do governo combate a corrupção aplaudindo o suspeito

Partido do governo combate a corrupção aplaudindo o suspeito

Presidente do PT puxou palmas para João Vaccari Neto, tesoureiro do partido, denunciado na Operação Lava Jato  

Todos os depoimentos colhidos até agora pela Polícia Federal e pela Justiça, nas investigações da Operação Lava Jato e nos acordos de delação premiada, revelam que a Petrobrás foi vítima de um gigantesco assalto praticado por uma organização criminosa envolvendo diretores da estatal nomeados pelo atual governo e por "agentes políticos" que agiam em conluio com o cartel das empreiteiras. Em depoimento prestado à Justiça, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, informou que a maior parte do dinheiro desviado era loteada entre três partidos políticos: PT, PP e PMDB. O PT, segundo Costa, ficava com até 3% do valor dos contratos de obras superfaturadas. Os demais partidos recebiam apenas 1%.

As declarações de Paulo Roberto Costa foram confirmadas por mais duas pessoas que também decidiram colaborar com a Justiça. Um deles é o doleiro Alberto Youssef, que está preso e assinou acordo de delação premiada, e o outro é o executivo da multinacional japonesa Toyo Setal, Júlio Camargo. O operador do PT na Petrobrás, segundo todos eles, é o tesoureiro nacional do partido, João Vaccari Netto, que agia em conjunto com o ex-diretor de Serviços da estatal, Renato Duque.

Júlio Camargo informou também em seu depoimento a existência de uma conta na Suíça que seria controlada por Renato Duque. Disse ter repassado a esta conta R$ 12 milhões pela conquista de uma obra na refinaria Repar, em Araucária (PR), por um consórcio formado pela Camargo Correa e a Promon Engenharia. Ele disse que o pagamento da propina se dava na maior parte no exterior, em contas indicadas por Duque e pelo ex-gerente de Serviços da Petrobrás, Pedro Barusco.

Como se não bastassem os depoimentos dos executivos incriminando diretamente João Vaccari e Renato Duque, o ex-gerente de Serviços da Petrobrás, Pedro Barusco, braço direito de Duque nas operações ilegais e subalterno deste na estatal, também resolveu confessar tudo. Ele abriu tudo sobre os roubos praticados pelo grupo na estatal petroleira. Barusco selou suas informações concordando em devolver R$ 253 milhões que estavam escondidos no exterior.

Diante desses fatos e de tantas evidências, a direção nacional do PT deveria, no mínimo, interpelar seu tesoureiro sobre essas gravíssimas denúncias. Elas são muito sérias e atingem a principal empresa do país. O partido é apontado como principal beneficiário do assalto aos cofres da estatal. Não há como fugir da responsabilidade de cobrar do tesoureiro as explicações devidas. Não se pode, diante de tantos fatos graves como estes, tentar acobertar culpados e desqualificar a ação da PF.

Só de devoluções já prometidas por alguns dos envolvidos (quatro), a soma de dinheiro desviado chega perto de R$ 500 milhões (meio bilhão). Ou seja, não está se falando de hipóteses, de indícios, de possibilidades, ou de pouco dinheiro. Está se falando de evidências muitos fortes. É muito dinheiro que foi roubado. O subalterno de Renato Duque - parceiro de Vaccari - sozinho vai devolver US$ 100 milhões aos cofres públicos. É, portanto, um assalto de grandes proporções. É uma afronta do PT ao país, numa situação dessas, aplaudir de pé a atuação de seu tesoureiro nacional em sua reunião do diretório, como ocorreu no último final de semana em Fortaleza, no Ceará. Diríamos que agindo assim, o PT está literalmente brincando com fogo.

O partido não pode desconhecer o que já existe de evidências de envolvimento de Vaccari nas operações financeiras fraudulentas na Petrobrás e dizer, como fez Rui Falcão, presidente do partido, que "a vida dele é sua própria defesa". O próprio Vaccari sabe que isso não é bem assim. Não foi à toa que ele apresentou sua carta de renúncia ao Conselho de Administração da Itaipu Binacional. O mandato de Vaccari só terminaria em 16 de maio de 2016, mas o petista decidiu deixar o cargo antes de ser demitido, para, segundo ele, "evitar maiores problemas para o governo". Se ele fosse inocente não haveria "problemas para o governo".

Executivos da Toyo Setal relataram ter pago a Duque e a ele propinas para realizar obras superfaturadas no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), na Refinaria Henrique Lage (Revap), em São Paulo, e em projetos de instalação de dutos em Macaé (RJ). Júlio Camargo, diretor da Toyo, confirmou que as empresas participantes do esquema, além de superfaturarem, acrescentavam sempre um percentual de 3% de sobrepreço, correspondentes às propinas, nos preços das obras. Esse valor deveria ser repassado aos diretores das áreas, que representavam os interesses do PT, do PMDB e do PP.

O doleiro Alberto Youssef afirmou ter estado duas vezes com Vaccari para "tratar de Petrobrás". Disse, ainda, que cada partido tinha seus operadores e meios de repasse de dinheiro. Há, segundo a Polícia Federal, envolvimento da cunhada de Vaccari, Marice Correa, no recebimento de recursos ilegais de Youssef. Relatório da PF, divulgado na segunda-feira (01) pela Rede Globo, dá detalhes de uma negociação do doleiro com o funcionário da OAS, José Ricardo Breghirolli, também preso na Operação Lava Jato, para que este levasse dinheiro para Marice. No dia 3 de dezembro de 2013, em uma troca de mensagens por telefone, o doleiro pede os endereços para as entregas de dinheiro que seriam realizadas naquele dia e no dia seguinte. José Ricardo passa o endereço da rua doutor João Pena Forte Mendes (SP) e orienta Youssef a procurar pela senhora Marice, às 14h30. Marice Correa confirmou que mora neste endereço. Neste dia duas entregas de dinheiro ocorreram em São Paulo.

Soa, portanto, de um cinismo e de uma demagogia sem tamanho a nota do partido que diz que "da parte do PT, manifestamos a disposição firme e inabalável de apoiar o combate à corrupção". "Qualquer filiado que tiver, de forma comprovada, participado de corrupção, deve ser imediatamente expulso, como já afirmou publicamente o presidente do partido", prossegue a nota. O partido diz ainda que luta "pela reforma política, em particular pela proibição do financiamento de candidaturas eleitorais por empresas". Mas, curiosamente, 20% dos R$ 350 milhões arrecadados na campanha de Dilma Rousseff, vieram exatamente do chamado "Clube do Bilhão", formado pelas empreiteiras que assaltaram a Petrobrás.

A nota trás ainda afirmações categóricas de inocência do tesoureiro do partido. Como pode o partido jurar inocência nesse caso? Essa "Inocência" é insustentável diante de todas as evidências em contrário, tanto nas investigações da PF como do Ministério Público, levadas a efeito na Petrobrás. "Nós queremos que prossiga, sem partidarismos, sem vazamento seletivo de informações para que, concluídas as investigações, os casos comprovados de corrupção possam ser punidos. Eventualmente, o que eu não acredito, se houver alguém do PT com provas documentais e materiais, ele será expulso dos nossos quadros", ratificou Rui Falcão. Com essa posição de "não acreditar nas evidências", a direção do PT dá mostras de que quer é acobertar o assalto ocorrido na Petrobrás.

SÉRGIO CRUZ

 

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