Para Dilma, seu arrocho “é popular, inclusivo e justo”

Em discurso, no sábado, em São Paulo, disse que quem “está traindo o país” é quem luta contra a recessão e o seu “ajuste”

 

A presidente Dilma Rousseff conclamou os militantes do PCdoB, durante sua 10ª Conferência Nacional, realizada na última sexta-feira, a apoiarem o arrocho fiscal que o governo está impondo ao país e os cortes nos direitos dos trabalhadores. "Conto com a força e fibra do PCdoB para fazer o bom combate", disse a presidente, salientando que o momento exige "reconstruir o equilíbrio fiscal". E classificou o arrocho fiscal do seu governo - que sacrifica os trabalhadores - como uma "agenda popular, inclusiva", e que tem "discutido o ajuste fiscal de forma equilibrada, com justiça".

As Medidas Provisórias 665 e 664 baixadas pelo governo para o tal "ajuste" dificultam o acesso dos trabalhadores ao seguro desemprego, ao seguro defeso, à licença médica e ao abono salarial. Não satisfeita, Dilma reduziu a pensão por morte das viúvas para "economizar" cerca de R$ 18 bilhões. Esses recursos serão usados para garantir o superávit primário, ou seja, para serem entregues aos banqueiros.

GUINADA

Dilma pegou o governo com o país crescendo 7,5% ao ano, por conta da política econômica do governo Lula que, principalmente em seu segundo mandato, priorizou os investimentos públicos como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e o aumento dos salários, através da recuperação do salário mínimo. Logo nos primeiros dias de seu governo ela anunciou que reduziria os investimentos públicos para, segundo palavras de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, "abrir espaço para o investimento privado". Desde então, o governo reduziu drasticamente os investimentos, iniciou uma escalada de juros e brecou a recuperação salarial. A economia do país evidentemente não poderia ir noutra direção: afundou, e vem afundando cada vez mais, chegando hoje a um PIB negativo, depois de ficar praticamente estagnado no ano passado (PIB de 0,2 em 2014).

Em síntese, o governo Dilma mudou completamente o que vinha sendo feito antes. Deu uma guinada de 180 graus. Até as privatizações, que Lula tinha interrompido, voltaram com a entrega do pré-sal para a Shell, a Total e as chinesas, com a Petrobrás em posição minoritária. Também as "concessões" - forma como o dilmismo chama as privatizações - foram intensificadas. Quando o Brasil começou a afundar gravemente, Dilma ensaiou uma redução de juros, mas o fez isoladamente e sem aumentar os investimentos públicos. Usou a redução dos gastos que o governo tinha com os juros para pagamentos bilionários aos banqueiros. Logicamente a economia seguiu na rota recessiva iniciada antes e a situação piorou. Pois bem, a partir daí ela só fez aumentar os juros. Tudo o que havia de positivo no governo Lula foi sendo desativado. O Brasil voltou a ocupar o pódio dos juros mais altos do mundo e a caminhar para trás. Não podia acontecer outra coisa a não ser a piora drástica da economia. Que é o que nós estamos vendo hoje.

CORTES

Depois de tudo isso, Dilma desrespeita a inteligência das pessoas e disse aos comportados militantes do PCdoB que aplicou medidas anticíclicas e que elas agora se esgotaram. "Adotamos todas as medidas anticíclicas possíveis, como fortalecer e ampliar políticas sociais e o crédito, a fim de proteger o consumo, o investimento das empresas, o emprego e a renda dos trabalhadores. Agora nós chegamos no limite de nossa capacidade anticíclica", destacou. Dilma não fez nada disso. Ela cortou os investimentos públicos e colocou o Brasil na recessão. Não houve medida anticíclica nenhuma. A única coisa que ela fez, de verdade, foi manter o subsídio para as multinacionais que não investiram nada, apenas aumentaram seus lucros.

Que história é essa de que "chegamos no limite de nossa capacidade anticíclica"? Medidas anticíclicas foram ações definidas pelo economista inglês J. Maynard Keynes como medidas de fomento aplicadas pelo governo, como aumento dos investimentos, das contratações, dos salários, encomendas do Estado, taxas de juros baixas, além de incentivos fiscais, com o intuito de se reduzir os estragos provocados pelas crises. Dilma não fez nada disso. Ao contrário, cortou investimentos, subiu os juros e, quando os reduziu num curto espaço de tempo, não aumentou os investimentos. Portanto, quem afundou o país não foi crise internacional nenhuma - como ela tem dito - foi a política deliberada do governo. O que Dilma fez foi colocar o país numa recessão gravíssima e, para piorar as coisas, as medidas tomadas pelo governo vão na direção de agravar ainda mais a situação.

Diante desse desastre na economia, Dilma radicaliza as medidas recessivas. Além das medidas antipovo contidas nas MP 665 e 664, ela anunciou um corte de R$ 70 bilhões do orçamento. Tudo para garantir os lucros, a aprovação e a confiança dos bancos, principalmente os estrangeiros. Não é à toa que ela colocou um banqueiro – um chicago boy – no Ministério da Fazenda. Joaquim Levy é formado no antro de especuladores da Escola de Chicago e foi indicado pelo Bradesco. E é ele quem está dando as cartas no pacote do arrocho. É um "expert" em esfolar o povo e agradar os rentistas. Dilma afirmou aos integrantes do PCdoB que quer o apoio deles para aplicar integralmente o pacote do ajuste fiscal comandado por Levy. Na Câmara, a deputada Jandira Feghali (RJ), líder da bancada do partido, afirmou que era contra as medidas do arrocho, mas que ia votar a favor porque "o PCdoB tem lado". O PCdoB realmente quase votou em bloco pela perda de direitos dos trabalhadores e Dilma agradeceu dizendo que sabia que estava "cercada de companheiros de caminhada".

Depois de cortar R$ 11,774 bilhões (-11,4%) da Saúde; R$ 9,423 bilhões (-19,3%) da Educação; R$ 17,232 bilhões (-54,28%) do Ministério das Cidades; R$ 5,735 (-36,08%) bilhões dos Transportes; R$ 5,617 bilhões (-24,8%) da Defesa, etc. Dilma disse aos participantes do evento que as medidas "não vão afetar os investimentos dos programas sociais e de infraestrutura". "Nem que a vaca tussa", faltou dizer. Só não disse porque sabe que ninguém mais acredita nas suas mentiras, a não ser aqueles que querem porque querem acreditar.

"Os ajustes que vamos fazer não tem o mesmo padrão dos realizados antes do governo Lula, não temos como voltar atrás, não fazemos ajuste gastando mais, mas não vamos interromper os programas sociais e de infraestrutura", disse. Realmente está difícil achar paralelo num pacote tão desastroso como este, feito com um dos maiores cortes no orçamento de toda a história, com elevações sistemáticas de juros, num momento em que o país está afundando em recessão. "Este é o desafio do governo e, por isso, é preciso rapidez na implantação dos ajustes para conquistar o reequilíbrio fiscal", insistiu a presidenta. Conclusão, Dilma acha que o arrocho dela é melhor do que o arrocho do FHC. E, exatamente como o tucano dizia, os investimentos só virão com as concessões. Ou melhor, com o capital estrangeiro. Por isso ela vai anunciar nos próximos dias leilões de todos os tipos para entregar na bacia das almas os portos, aeroportos, estradas e blocos do pré-sal.

DIVISÃO

Segundo ela, quem luta contra esse entreguismo e essa política recessiva e pró-banqueiros de seu governo "é quem está traindo o país". O povo sabe muito bem quem está traindo os seus interesses. Para Dilma, seu objetivo "é dividir os sacrifícios da forma mais justa possível". Os sacrifícios estão todos sendo divididos. Estão sendo "justamente" jogados nas costas dos trabalhadores. São eles que estão perdendo direitos conquistados a duras penas. Os banqueiros por sua vez, vêm anunciando lucros cada vez maiores. Somados Itaú, Bradesco e Santander, o lucro desses bancos no primeiro trimestre deste ano foi de R$ 11,6 bilhões, superior em 18% na comparação com o mesmo período de 2014. Eles estão rindo à toa da forma "justa" como Dilma e seus aliados estão "dividindo" os sacrifícios.

SÉRGIO CRUZ

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