O socialismo e o meio ambiente



Em 20 de Outubro de 1948, quando a Europa ainda recuperava sua economia das devastadoras consequências da guerra, na URSS foi publicado por iniciativa de Stáline o decreto conjunto do Conselho de Ministros e do CC do PCU(b), de 20 de Outubro, intitulado «Plano de florestamento para proteção dos solos, de introdução de culturas forrageiras rotativas, construção de açudes e reservatórios de água para assegurar elevadas colheitas estáveis nas regiões de estepe e de floresta de estepe na parte europeia da URSS». Na imprensa este decreto foi apelidado de «Plano de Stáline de Transformação da Natureza». 

Sem análogos na prática mundial, este programa de ordenamento científico da natureza, elaborado com base em trabalhos dos mais eminentes agrônomos russos, devia realizar-se no prazo de 15 anos. 

Dava-se assim início a um combate à seca de grandes proporções através de plantações de florestas de proteção dos solos contra erosão, introdução de cultura forrageiras rotativas, construção de açudes e reservatórios de água. A força deste plano residia na sua coerência, complexidade e dimensão. A sua escala não tinha precedentes a nível mundial. 

Na sua grandiosidade, este plano de 15 anos previa a criação de oito enormes faixas florestais com uma extensão superior a 5300 quilômetros. Nos campos dos kolkhozes e sovkhozes seriam plantadas barreiras florestais de proteção com uma área total de 5,7 milhares de hectares, prevendo-se que logo em 1955 estivessem construídos nos kolkhozes e sovkhozes 44 228 açudes e reservatórios de água. 

Tudo isto, combinado com a avançada técnica agrícola soviética, asseguraria colheitas elevadas e estáveis, que não dependeriam dos caprichos da meteorologia, numa superfície arável superior a 120 milhões de hectares. A colheita total desta área de sementeira seria suficiente para alimentar metade da população do planeta. Um lugar central no plano era ocupado pela proteção dos solos por florestamentos e irrigação. 

Nesta época, o jornal Washington Post publicou declarações do diretor-geral da ONU para as questões da Alimentação, John Boyd Orr, em que este salientava: «O ritmo de esgotamento do solo arável nos Estados Unidos suscita preocupação. Cerca de um quarto dos solos antes aráveis já foram devastados. Em cada ano neste país são destruídos três milhões de toneladas de solo arável das camadas superficiais». Mais adiante o jornal reconhece abertamente: «Se a guerra-fria se transformar num conflito prolongado, então as realizações no domínio dos melhoramentos agrícolas podem decidir quem será o vencedor». 

Poucos saberão que a adoção deste projeto de grande escala foi precedida de 20 anos de investigação no semi-deserto de Astrakhan onde, em 1928, literalmente num lugar inóspito, foi instalada a primeira estação de investigação do Instituto de toda União de Melhoramentos Agro-Florestais, sob a designação de Ponto de Apoio de Bogdinski. 

Nesta estepe desertificada, cientistas e silvicultores, superando grandes dificuldades, plantaram com as suas próprias mãos os primeiros hectares de novas florestas. Foi aqui que se selecionaram, entre centenas de variedades de árvores e arbustos, as espécies que mais se adequavam às condições naturais da Rússia, segundo os trabalhos científicos anteriores de Dokutcháev e Kostitchev.

E a floresta cresceu. Em plena estepe a temperatura pode atingir os 53 graus, mas sob a sombra das árvores o ar é 20 por cento mais fresco e a evaporação da umidade dos solos também é 20 por cento menor. 

As observações na área florestal de Buzulúkski [oblast de Oremburgo], no Inverno de 1928-29, mostraram que um pinheiro com 7,5 metros de altura acumulava durante o Inverno 106 quilogramas de orvalho e geada. Isto significava que de um pequeno bosque se podia «extrair» várias dezenas de toneladas de depósitos de umidade. 

O grandioso plano foi adotado com base em conhecimentos científicos e trabalhos experimentais. 

Um dos cientistas era G.H. Vissótski, membro da Academia de Toda a União das Ciências Agronômicas Lénin, que estudou a influência da floresta no regime hidrológico e calculou pela primeira vez a relação dos níveis de umidade na floresta e nos solos. Investigou a influência da floresta nos habitats e as razões do desflorestamento das estepes, dando uma contribuição substancial para o reflorestamento das estepes russas. 

Os kolkhozianos e trabalhadores florestais prepararam seis mil toneladas de sementes de árvores e arbustos. É interessante ver a composição das variedades escolhidas pelos cientistas russos: a primeira fileira é constituída por choupos canadianos e tílias; a segunda fileira por freixos e bordos; a terceira fileira por carvalhos e acácia amarelas, e assim por diante, dependendo da largura da faixa, os arbustos podiam ser framboeseiros ou groselheiras, o que permitia atrair aves para combater parasitas florestais. 

Para ajudar os kolkhozes a custear os trabalhos de reflorestamento foi aprovado um decreto incumbindo o Ministério das Finanças da URSS de conceder créditos a dez anos, amortizáveis a partir do quinto ano. 

O plano visava a prevenção das secas, das tempestades de areia e poeira mediante a construção de açudes, barreiras florestais de proteção e culturas forrageiras de rotação nas regiões do Sul da URSS (Polvojie, Cazaquistão Ocidental, Cáucaso do Norte e Ucrânia). Ao todo planejava-se plantar mais de quatro milhões de hectares de floresta e recuperar zonas florestais destruídas pela última guerra e pela má gestão agrícola. 

As barreiras florestais deviam proteger os solos dos ventos quentes e secos de Sudeste. A par destas proteções florestais promovidas pelo Estado central, outras faixas de importância local estavam a ser plantadas no perímetro de determinados campos, em encostas e barrancos, ao longo de açudes já existentes ou construídos de raiz e em torno de solos arenosos, a fim de os consolidar. 

Além disso foram introduzidos métodos mais avançados de trabalhar a terra, designadamente a utilização do pousio descoberto, lavoura de Outono, gradeamento de colmos, aplicação correta de adubos minerais e orgânicos; utilização de sementes selecionadas de variedades de elevado rendimento adaptadas às condições locais, etc. 
O plano previa igualmente a introdução do sistema de culturas forrageiras, desenvolvido pelos eminentes cientistas russos V.V. Dukutcháiev, P. A. Kóstitchev e V. R Vilmiams. Segundo este sistema, uma parte das pradarias em rotação era semeada com leguminosas e erva azul. Estas culturas forneciam forragens para a pecuária e constituíam uma forma natural de recuperação da fertilidade dos solos. 

O plano pressupunha não apenas a total auto-suficiência de produtos agrícolas da União Soviética, mas também o crescimento das exportações cerealíferas e de produtos de carne a partir da segunda metade dos anos 60. 

A criação de faixas florestais e reservatórios de água deveria diversificar substancialmente a flora e a fauna da URSS. Deste modo, o plano conjugava os objetivos de proteção do meio ambiente e de obtenção de colheitas elevadas e estáveis. 

Os cientistas deram contribuição decisiva para a definição do traçado das faixas florestais, na elaboração dos projetos técnicos de reflorestamento nos kolkhozes e sovkhozes, bem como na criação de plantações de carvalhos para exploração industrial no Sudeste.

Neste trabalho, organizado sob a direção geral da Academia das Ciências da URSS, participaram cientistas de mais de uma dezena de instituições científicas ligadas à própria Academia das Ciências, das universidades de Moscovo e de Leningrado, de quatro ou cinco institutos de investigação científica ligados a ministérios, e de mais de uma dezena de estabelecimentos de ensino especializados em silvicultura e agronomia de Moscovo, Leningrado, Sarátov, Voronej, Kíev e Novotcherkassk. 

Para garantir uma ampla mecanização e elevada qualidade dos trabalhos de melhoramento dos solos e de criação de barreiras florestais, o plano encarregou os ministérios da Construção de Máquinas Agrícolas; da Indústria de Automóvel e de Tratores; da Construção de Máquinas de Transporte; da Construção de Máquinas para os Sectores da Construção e Vias de Comunicação; e outros ministérios de sectores industriais, do cumprimento impreterível das metas estabelecidas de produção de maquinaria agrícola de alta qualidade e do desenvolvimento mais rápido de novas máquinas e instrumentos agrícolas. 

Foram desenvolvidas máquinas para a plantação simultânea de sete fileiras de árvores. Em vez de escarificadores com tração animal, deu-se início ao desenvolvimento dos primeiros mini tratores para laborar zonas de mato (o chamado moto cultivador TOP com um motor de três cavalos). Surgiram igualmente aspersores com motor autônomo destinados à irrigação aérea de culturas hortícolas. Nessa altura já se efetuavam testes de ceifeiras debulhadoras e outras máquinas soviéticas para a colheita mecanizada de cereais, algodão, linho, beterraba e batata. 

Para a elaboração e realização do plano foi criado o Instituto Agrolesproekt (actualmente o Rosguiproles). Segundo o seu projeto as florestas estariam envolvidas por quatro grandes bacias de água do Dniepr, Don, Volga e Ural, no Sul da parte europeia da Rússia. A realização destas obras tornou-se um objectivo de todo o povo. 

A par da proteção florestal dos solos, foram tomadas medidas de conservação e melhoramento de maciços florestais particularmente importantes, nomeadamente a floresta de Chipov, a floresta de coníferas de Khrenovskoi, o maciço florestal de Borissoglebski, as reservas de Tula, a Floresta Negra no oblast de Khersonski, a floresta de Velikoanadolski e a floresta de coníferas de Buzulúkski. Foram recuperados parques e plantações devastados durante a guerra. 

Simultaneamente foi lançado um grande programa de construção de sistemas de irrigação, que teria permitido melhorar sensivelmente o meio ambiente. Previa-se a construção de um importante sistema de vias fluviais, a regularização do curso de vários rios, com o aproveitamento de uma enorme quantidade de eletricidade barata, a utilização dos reservatórios de água para a irrigação dos campos e hortas.

O Instituto V.P. Vilmiams foi encarregado da resolução dos problemas relacionados com a realização do plano quinquenal dos trabalhos de melhoramento dos solos. 

Todavia, após a morte de Stáline em 1953, o plano foi abandonado. Muitas faixas florestais foram abatidas, vários milhares de açudes e reservatórios, que se destinavam à piscicultura, foram abandonados. Por instrução de N.S. Khruchov foram destruídas 570 áreas florestais de proteção dos solos criadas, entre 1949 e 1955. 

A Glavlit apressou-se a retirar de circulação os livros editados sobre este plano, e o Conselho de Ministros, em 20 de Abril de 1953, ordenou em decreto especial a interrupção dos trabalhos de criação de faixas florestais, o seu planeamento futuro e a suspensão do desenvolvimento de espécies para plantio.

O Rosguiproles (Instituto de Projetos de Prospecção e Projeto de Empresas Florestais e de obras de Proteção Ambiental da Rússia) é hoje uma sociedade acionista aberta, praticamente esvaziada de funções, depois de as suas filiais em toda a antiga URSS se terem autonomizado. 

 

Ibraev Guennadi

 

 

 

 

 

 

 

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