O Federal Reserve, banco central dos EUA: O templo e os seus segredos sujos

 

A história de como um pequeno grupo de monopolistas reuniu-se em 1910 para desenhar, contra as próprias leis do país, o futuro banco central dos EUA (conhecido como “Fed” - Federal Reserve) e impôs uma instituição privada com poder de emitir o dólar – e cobrar do governo por essa emissão da moeda nacional dos EUA -, um cartel do dinheiro contra o interesse público, é contada no ensaio de Stephen Lendman que hoje começamos a publicar. Lendman foi durante muitos anos analista e pesquisador de mercado de várias das grandes corporações de seu país. Hoje, é pesquisador-associado do Centre for Research on Globalization. Nesta primeira parte, veremos como Kennedy quis acabar com essa ditadura privada sobre o dólar, alguns meses antes de seu assassinato

 

STEPHEN LENDMAN*

 

Anos atrás eu li o excelente livro de William Greider, publicado em 1987, sobre como o US Federal Reserve System [o banco central dos EUA] funciona. Greider chamou seu livro “Segredos do Templo”, com um subtítulo: “Como o Federal Reserve dirige o país”. Um melhor subtítulo poderia ter sido “como o Fed (e outros bancos centrais chave) dirige o mundo”. Este artigo é uma tentativa de resumir o que ele faz, como faz, a quem ele beneficia e às custas de quem. Aqueles que não o sabem, preparem-se para algumas assombrosas informações e comentários.

 

O US Federal Reserve, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão e o Banco Central Europeu são instituições com enorme poder, que vai muito além do que a maioria das pessoas pode imaginar. Outro poderoso banco é também parte do mundo das finanças de hoje. É necessário mencioná-lo por causa de sua importância, apesar de requerer um artigo separado para explicar plenamente como ele funciona. É o sigiloso, inviolável, e que não presta contas a ninguém, Bank of International Settlements (BIS), fundado em 1930 e sediado em Basiléia, Suíça. Esse banco, do qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar, é o banqueiro central dos bancos centrais – uma espécie de “patrão dos patrões” dos bancos, equivalente ao que parecia existir no mundo das sombras da Máfia dos dons. Como a maior parte dos outros bancos centrais, incluindo o Federal Reserve, ele é uma propriedade privada de seus membros.

 

Os bancos centrais dominantes e o BIS, junto com muitos outros, exercem sua influência como cartel, mutuamente assegurando-se todos os benefícios que, de outra forma, sem esse acolhedor arranjo, eles não teriam. Com seu imenso poder, dizer que essas instituições financeiras mandam no mundo não são apenas palavras. Porque eles são capazes de criar dinheiro, eles financiam as necessidades de seus governos, suas atividades militares e todos os negócios que não podem funcionar sem um estoque disponível de todas as mercadorias. É dinheiro, não amor, que faz o mundo girar, e os banqueiros centrais têm o poder de criá-lo ou tirá-lo de circulação, tanto quanto queiram, para os propósitos que tenham em mente. Essa espécie de poder pode mover montanhas ou destruí-las.

 

Nenhum banco central é mais poderoso hoje do que o US Federal Reserve, mas não foi sempre assim, e agora há uma competição pelo topo desconhecida desde a II Guerra Mundial. O Fed, como é chamado, tem existido desde que foi estabelecido por uma lei do Congresso, em 1913.

 

Tudo começou em 1910 na ilha Jekll

 

Soa como título de filme de terror, mas os acontecimentos reais que se desenrolaram nessa ilha particular na costa da Geórgia em 1910 teriam desafiado a imaginação da fábrica de pesadelos de Hollywood.

 

Foi lá que sete ricos e poderosos homens se reuniram em segredo durante nove dias para criar o Federal Reserve System, que veio a nascer três anos mais tarde, em 23 de Dezembro de 1913, através de uma lei do Congresso. Depois disso, os EUA e o mundo jamais seriam os mesmos, mas só os ricos e poderosos foram os beneficiários. Era essa a idéia, e funcionou como planejado.

 

A Lei do Federal Reserve (Federal Reserve Act), que deu início a tudo isso, deve seguramente estar na lista das peças legislativas mais escandalosas e desastrosas para o bem público que já foram alguma vez emitidas por qualquer órgão legislativo. É também ilegal, de acordo com o Artigo 1º, Seção 8 da Constituição. Esse artigo determina que o Congresso dos EUA deve ter o poder de cunhar (criar) moeda e regular o seu valor. Além disso, a Suprema Corte decidiu, em 1935, que o Congresso não pode constitucionalmente delegar esse poder a outro grupo ou entidade. Portanto, o Congresso, em 1913, violou a Constituição que jurou defender e levar à prática, ao criar o Federal Reserve System, que, como será explicado, é uma corporação privada com fins lucrativos que funciona às custas do interesse público. Com essa decisão, os legisladores cometeram fraude contra o povo do país, e até agora têm saído impunes, sem que o público saiba sequer do dano que fizeram.

 

O vergonhoso resultado é que aquela instituição que nunca deveria ter nascido é hoje a mais poderosa da Terra, e tudo por causa do que começou numa ilha particular de nome sinistro. Se o Congresso tivesse agido com responsabilidade, a lei que criou o Fed podia nunca ter acontecido. A legislação que o estabeleceu era tão danosa para o interesse público que provavelmente nunca teria passado, não tivesse ela tido por pastor de ovelhas uma reunião do Comitê de Conferência do Congresso, cuidadosamente preparada e agendada para 1h30 da madrugada até às 4h30 (quando a maioria dos membros do Congresso estava dormindo) de 22 de Dezembro de 1913. A lei foi votada no dia seguinte, quando muitos membros do Congresso já tinham viajado para as férias de Natal e muitos dos que tinham ficado não tiveram tempo de ler e conhecer o seu conteúdo. Isso soa familiar? Ainda assim, ela passou (como um ladrão pela noite) e foi assinada por um inadvertido ou cúmplice Woodrow Wilson, que mais tarde chegou a admitir ter cometido um terrível erro, dizendo: “Eu inadvertidamente arruinei o meu país”. Mas era demasiado tarde para lamentos fúnebres, e o povo norte americano pagou caro desde então. É tempo do público perceber isso e começar a exigir um fim para os já mais de 90 anos de males.

 

Aconteceu há 43 anos, quando um presidente decidiu agir em favor do povo que o elegeu. Esse homem era John Kennedy, que planejara acabar com o Federal Reserve System para eliminar a dívida nacional que um banco central cria ao imprimir dinheiro para passá-lo ao governo como empréstimo. Essa dívida alcançou agora mais de 8.400.000.000.000 dólares (US$ 8,4 trilhões) que os contribuintes têm de pagar, e já pagaram 174.000.000.000 dólares (US$ 174 bilhões) apenas nos primeiros três meses de 2006. O serviço anual desta dívida é uma quantia em torno de dois terços de trilhão de dólares. Ela fez os banqueiros ricos (sendo precisamente essa a idéia) e o público mais pobre, porque nós é que pagamos a conta. Não é exagero chamar a isto a maior falcatrua financeira da história do mundo, que fica maior a cada dia.

 

A dívida era menos onerosa há 40 anos, mas Kennedy entendeu o perigo para o país e o fardo que o público carregava. Assim, no dia 4 de Junho de 1963, ele emitiu a ordem presidencial EO 11110, dando ao presidente a autoridade de emitir a moeda. Em seguida, ordenou ao Tesouro dos EUA que imprimisse mais de US$ 4 bilhões em “Notas dos Estados Unidos” para substituir as “Notas do Federal Reserve”. Ele qeria substituir as notas todas para que, assim que houvesse em circulação uma quantidade suficiente da nova moeda, acabar com o Federal Reserve System e o controle dos banqueiros internacionais sobre o governo dos EUA e o seu povo. Apenas alguns meses depois que o plano de Kennedy começou a ser efetuado, ele foi assassinado em Dallas no que foi seguramente um golpe de estado disfarçado.

 

Assim que Lyndon Johnson assumiu a presidência, revogou a ordem presidencial de Kennedy e restaurou o anterior poder do cartel. Desde então tem sido mantido, estando hoje em dia mais forte que nunca.

 

Os antecessores dos conspiradores do possível golpe contra Kennedy foram os homens que se reuniram na Ilha Jekyll em 1910. Eles representavam alguns dos mais ricos e poderosos homens do mundo — os Morgans, Rockefellers, Rothschilds da Europa (que dominavam toda a banca européia em meados do séc. XIX e se tornaram a mais rica e mais poderosa de todas as famílias) e outros de grande influência e poder. Também estavam lá um senador dos EUA, um alto funcionário do Tesouro dos EUA, o presidente do maior banco do país na época, uma proeminente figura de Wall Street e o homem que mais tarde se tornou o primeiro presidente do Federal Reserve. Eles queriam mudar a ideologia e o rumo dos negócios nos EUA, até então baseados na competição do mercado, substituindo-os pelo monopólio. Eles também sabiam aquilo que o Barão M.A. Rothschild compreendera um dia, ao dizer “dêem-me o controle sobre a moeda de um país e não me interessará mais quem faz as suas leis”. Eles também compreendiam a sabedoria do que está inscrito em Provérbios 22:7: “Os ricos reinam sobre os pobres, e o que pede emprestado é o servo de quem empresta”.

 

Essa foi a aurora da idade dos poderosos cartéis, quando os sete titãs financeiros encontraram-se secretamente no clube da ilha, decidindo não mais competir entre si. Eles já estavam informalmente em conluio, mas sabiam que tudo funcionaria melhor sob um cartel legalmente sancionado. Eles queriam um cartel bancário e conseguiram um que ainda hoje floresce abaixo do radar do público, com a ferramenta que eles mais queriam – a capacidade de controlar o suprimento de dinheiro da nação, o que deu a eles um poder quase ilimitado. O cartel agora trabalha cooperativamente com seus governos e todas as outras poderosas corporações transnacionais, numa aliança dominante global que permite a eles o controle dos mercados mundiais, dos recursos, da mão de obra barata e de nossas vidas.

 

 

 

A lei que criou o Banco Central dos EUA foi feita na calada da noite, e aprovada às vésperas do Natal, para dar ao cartel dos bancos o controle sobre a sua economia. Desde então, o povo norte-americano tem pago caro pelos danos causados pelo fato de o governo ter abdicado do direito de emitir a moeda. Nesta segunda parte do artigo, o pesquisador Stephen Lendman conta por que o Fed é “a maior de todas as vigarices financeiras”

 

“É comum acreditar, mas é falso, que o Federal Reserve System é uma repartição do governo dos EUA, sujeita ao seu controle. Ele é frequentemente referido como um banco central descentralizado e quase-governamental, mas isso é apenas uma forma de encobrir e mascarar o que ele realmente é: um cartel sob controle privado, operado privadamente, articulado para parecer que é encarregado pelo governo. O fato de ter a sua sede em Washington, no formidável e impressionante edifício Eccles (nome de um ex-presidente do Fed), é apenas parte do astuto subterfúgio. Aqui está como ele funciona:

 

O Federal é composto por um Conselho (Board) de Governadores em Washington e 12 bancos regionais nas maiores cidades através do país (incluindo a minha própria cidade de Chicago onde, tempos atrás, qualquer um podia chegar no guichê e comprar títulos do Tesouro dos EUA). O sistema também inclui muitos e vários bancos-membros, inclusive todos os bancos nacionais. Foi também permitido a outros bancos juntarem-se ao sistema, e eles o fizeram. O Federal Reserve começou a funcionar em Novembro de 1914, quase um ano depois da lei do Congresso que o criou.

 

A maioria das pessoas pouco ou nada sabe sobre dinheiro e bancos, provavelmente nunca pensa sobre isso, e não tem idéia alguma de como o Fed e os banqueiros influenciam as suas vidas. Antes de escrever este artigo, eu tinha pouco mais que um modesto conhecimento, que adquiri em cursos sobre esta matéria e sobre contabilidade básica, como parte do meu MBA [Master of Business Administration], há 46 anos. Esses cursos deixaram de fora as partes mais importantes da história e nunca sugeriram nada sinistro sobre como o sistema bancário funciona de fato. Mas ninguém deve imaginar que os bancos foram instituídos para nosso benefício. Eles são tão benéficos para o bem estar público como o Míssil Balístico Intercontinental Pacificador (a astúcia das palavras é impressionante), construído em meados da década de 80 para transportar ogivas nucleares - e que tinha, e ainda tem, o poder para destruir toda e qualquer forma de vida no planeta.

 

A lei do Federal Reserve, de 1913, estipula que os bancos do Federal Reserve de cada região são pertencentes aos bancos-membros dessa mesma região. Esses bancos são corporações privadas que fazem um grande esforço para esconder o fato de que eles, na verdade, são donos do que o público pensa que é parte do erário e do governo. É fácil pensar isso, já que o presidente do Fed e sete dos seus 12 governadores são nomeados pelo presidente e aprovados pelo Senado. Como tal, o Fed é uma espécie de entidade quase-governamental, mas o fato é que o sistema é uma empresa privada com fins lucrativos, como outro negócio qualquer. Tem acionistas, como outras corporações, que recebem, sem risco, juros anuais de 6% sobre as suas ações ordinárias. O público não sabe disso e, se viesse a saber, provavelmente não seria bom para as relações públicas [PR: Public Relations]. O povo dos EUA ficaria ainda mais preocupado se viesse a saber que alguns dos proprietários do Federal Reserve são poderosos investidores estrangeiros no Reino Unido, França, Alemanha, Holanda e Itália. Eles são parceiros de gigantescos bancos dos EUA, como o JP Morgan Chase e o Citibank, assim como de poderosas firmas de Wall Street, como a Goldman Sachs, na nova ordem mundial do cartel bancário, que influencia e afeta os negócios em toda parte, assim como as nossas vidas.

 

A questão da propriedade privada dos bancos do Federal Reserve foi contestada várias vezes em tribunais federais, mas em vão. Em todas as vezes os tribunais sustentaram o atual sistema, em que cada banco do Federal Reserve é uma corporação autônoma pertencente aos bancos comerciais da sua região. Um desses casos foi o de Lewis vs. Estados Unidos, decidido pelo 9º Tribunal de Recursos, que emitiu o veredicto de que os Bancos da Reserva são corporações independentes, de propriedade privada e localmente controladas.

 

OS FUNDADORES

 

Os Pais-Fundadores dos EUA entenderam que o Parlamento Britânico fora forçado a cobrar impostos injustos às colônias e aos seus próprios cidadãos porque o Banco da Inglaterra acumulara demasiada dívida e o governo precisava de receitas para reduzi-la. Benjamin Franklin acreditava que essa era a verdadeira causa da Revolução Americana. A maior parte dos Fundadores também se apercebia do perigo que podia resultar da excessiva acumulação de riqueza e poder pelos banqueiros. James Madison, o principal autor da Constituição dos EUA, chamou-lhes “cambistas” [money changers] referindo-se à passagem da Bíblia que descreve como Jesus expulsou os cambistas e vendilhões do templo de Jerusalém. Madison disse:

 

“A História registra como os cambistas têm usado de toda e qualquer forma de abuso, intriga, embuste e violência possíveis para manter o controle sobre os governos ao supervisionar o dinheiro e a sua emissão”.

 

Thomas Jefferson foi igualmente forte na sua condenação, quando disse:

 

“Acredito sinceramente que as instituições bancárias são mais perigosas para a nossa liberdade que os exércitos permanentes. Edificaram já uma aristocracia monetária que desafia o governo. O poder de emissão deve ser retirado dos bancos e devolvido à população, a quem verdadeiramente pertence”.

 

Jefferson e Madison compreendiam os perigos de qualquer tipo de monopólio comercial e tentaram garantir que eles nunca existiriam na nova nação. Eles, de fato, queriam duas emendas suplementares à “Declaração de Direitos” na Constituição, mas nunca conseguiram. Eles acreditavam que, para proteger a liberdade da população, a nação devia estar “livre de monopólios no comércio” (aquilo que são agora corporações gigantes como os grandes bancos internacionais e firmas de investimento de Wall Street) e “livre de uma militarização permanente”, ou de exércitos permanentes.

 

O povo tem pago caro desde então, sobretudo pelos danos causados pelo fato do governo ter abdicado do direito de emitir moeda. Cedeu este direito em segredo, sem que o público soubesse o tamanho do dano. Tem sido ainda pior a partir da década de 80, porque o poder do Fed cresceu sob o mandato de um presidente republicano amigo, e as corporações de mídia, para esconder os efeitos, se portaram como chefes de torcida.

 

A situação tornou-se especialmente fora de controle durante o mandato de Alan Greenspan — um dirigente do Fed que ninguém deveria ter achado muita razão para louvar, seja antes de ter tomado posse do Fed, quando era conselheiro presidencial, ou depois da posse. Foi só depois que a sua firma de consultoria econômica faliu que ele se pôs a serviço do governo, certamente porque precisava de uma nova linha de trabalho. Foi aí que ele conseguiu tornar-se numa espécie de profeta onipresente, e foi elevado próximo à santidade pelos paxás dos negócios, que pensavam que sob seu mandato o céu era sempre azul e as poucas nuvens a vista sempre eram forradas de prata. Agora, Alan está aposentado e percorre as verdejantes pastagens dos contratos de livros e das palestras milionárias, o que apenas prova que quando se faz um bom trabalho (às nossas custas) para os ricos e poderosos que lá o puseram, sempre se é bem recompensado no final.

 

Em 1886, Lincoln disse o seguinte: “O dinheiro rapina a nação em tempos de paz e conspira contra ela em tempos adversos. É mais déspota que a monarquia, mais insolente que a autocracia e mais egoísta que a burocracia. Denuncia como inimigos públicos todos os que questionem os seus métodos ou lançam luz sobre os seus crimes. Eu tenho dois grandes inimigos, o Exército Sulista à minha frente e os banqueiros atrás de mim. Dos dois, o meu pior inimigo é o que está às minhas costas”.

 

Dado o sentimento de Lincoln em relação aos banqueiros e ao poder do dinheiro no país, vem à tona esta questão óbvia: terá isso contribuído, ou terá sido essa a razão, para a sua morte prematura pelas mãos de John Wilkes Booth? Os banqueiros internacionais claramente detestavam Lincoln depois que ele conseguiu que o Congresso aprovasse, em 1862, o Legal Tender Act, que dava ao Tesouro dos EUA o poder de emitir papel-moeda, notas chamadas de “greenbacks”. Lincoln precisava desta lei depois de se recusar a pagar os exorbitantes 24% a 36% de juros que os banqueiros cobravam pelos empréstimos que ele necessitava para financiar a guerra com o Sul. Com a nova lei, Lincoln imprimiu os milhões de dólares de que precisava, livres de dívida e juros. Claramente, não era isso o que os gananciosos banqueiros queriam, já que só podem lucrar quando eles conseguem a sua libra de carne de transações financeiras sob o seu controle. Assim que acabou a guerra, Lincoln foi assassinado e logo de seguida a lei “Greenback” foi revogada, uma nova lei bancária foi aprovada e todo o dinheiro voltou a acarretar juros.

 

COMO O SISTEMA FUNCIONA

 

O Federal Reserve System é o resultado do Congresso e do presidente terem concordado em privatizar o sistema monetário nacional e abdicar do poder que devia ter permanecido como direito exclusivo do governo. Este ato foi tão ultrajante que o Fed tem que, deliberadamente, parecer um ramo do governo federal para esconder o fato de que é realmente um todo-poderoso cartel privado de bancos cujos membros repartem vastos lucros, ganhos por terem a mais importante das franquias que um governo pode dar – o direito de imprimir moeda em qualquer quantidade, controlar seu fornecimento e preço, e beneficiar-se fartamente por emprestá-lo inclusive ao próprio governo, que deve pagar juros sobre o dinheiro que jamais teria de pagar se, simplesmente, o imprimisse. Pense no que aconteceria se o governo legalizasse o direito de falsificar a moeda nacional para ganho privado. Não é exagero postular que isso é a maior de todas as vigarices financeiras.

 

Foi dada ao Fed a autoridade de conduzir a política monetária da nação em decorrência do poder de controlar o fornecimento e o preço do dinheiro. O Fed tem três maneiras de fazer isso: através de transações no mercado de títulos (open market); da taxa de desconto que cobra dos bancos membros; e da percentagem de reservas compulsórias dos bancos membros, que o Fed requer que permaneçam na sua posse, não sendo utilizáveis em empréstimos. O Conselho de Governadores é responsável por manejar a percentagem de desconto e as reservas obrigatórias, enquanto o Federal Open Market Committee (FOMC) está encarregado das operações no mercado de compra e venda de títulos. Usando essas ferramentas, o Fed consegue influenciar a oferta e a procura de dinheiro, e, portanto, controlar diretamente a taxa de curto prazo sobre os fundos federais.

 

 

Na terceira parte de seu artigo, Stephen Lendman mostra como o Federal Open Market Committee, formado por membros do Fed, “tem literalmente o poder de criar dinheiro do nada”, decidindo se a política monetária deve ser arrochada ou expansiva para servir apenas aos interesses do cartel bancário, e como a população norte-americana paga por isso

 

 

O Federal Open Market Committee (FOMC) é realmente chave para o conjunto do processo de criação ou contração de dinheiro. Consiste de 12 membros — sete membros do Conselho de Governadores do Fed, o presidente do Fed de Nova Iorque (o mais importante de todos) e quatro dos restantes 11 presidentes dos Feds regionais que exercem rotativamente mandatos de um ano. O FOMC reúne-se oito vezes por ano em intervalos regulares para avaliar as condições econômicas e decidir quanto a política monetária deve ser arrochada ou expansiva, de forma a permitir seu declarado objetivo de crescimento econômico sustentável e estabilidade de preços.

 

O FOMC tem literalmente o poder de criar dinheiro do nada. Consegue fazer isto num processo de quatro passos:

 

Passo 1:

 

O FOMC, primeiro, aprova a compra de títulos do governo dos EUA no mercado aberto (open market).

 

Passo 2:

 

O Fed de Nova Iorque compra esses títulos dos vendedores (os mercados financeiros têm sempre um número igual de compradores e vendedores).

 

Passo 3:

 

O Fed paga a sua compra com créditos eletrônicos para os bancos dos vendedores, que, por sua vez, creditam nas contas bancárias desses vendedores. Esses créditos são literalmente criados a partir do nada.

 

Passo 4:

 

Os bancos que recebem os créditos podem então usá-los como reservas que lhes permitem conceder empréstimos até 10 vezes esse valor (se a reserva compulsória deles é de 10%) através da mágica (que só os bancos podem fazer) de usar uma fração como reserva bancária e, naturalmente, cobrar juros sobre todo o dinheiro. Um tremendo negócio, e é tudo legal! Imaginem como nós poderíamos ficar ricos se, como indivíduos privados, pudéssemos fazer o mesmo. Pedir um milhão emprestado ao Fed e, por mágica, fazer com que se torne 10 vezes mais, podendo cobrar juros sobre tudo, exceto os 10% que nós devemos manter como reserva.

 

Quando o Fed quer contrair a economia reduzindo o fornecimento de dinheiro, simplesmente reverte o processo acima descrito. Em vez de comprar títulos, ele os vende, para que o dinheiro saia dos bancos compradores em vez de entrar. Os empréstimos têm então de ser reduzidos 10 vezes se a reserva compulsória for de 10%.

 

PREJUÍZO AO INTERESSE PÚBLICO

 

O Federal Reserve System existe apenas para servir aos seus proprietários e bancos membros, e, ao fazê-lo, é hostil ao interesse público. Isto porque se trata de um cartel bancário com o poder de restringir a competição para que maiores lucros sejam ganhos às nossas custas. Dos nossos bolsos para os deles, e o público perde, pelo menos, de quatro maneiras:

 

Primeira:

 

Através da taxa invisível de inflação que resulta da diluição do poder de compra causada pela entrada em circulação do dinheiro recentemente criado, reduzindo o valor dos dólares já existentes. O Fed de Greenspan foi especialmente expansivo, nunca prestando contas pelo seu excesso e foi capaz de passar à sociedade e ao futuro presidente do Fed o grave problema que criou. Desde 1982, antes que ele tomasse posse, em 1987, até 1992, o suprimento de dinheiro aumentou a uma média de 8% ao ano. Mas, entre 1992 e 2002 a impressora fez horas extras, sintonizada com a desregulamentação e o crescimento dos mercados globais, expandindo a moeda em mais de 12% ao ano. Tornou-se ainda mais extrema depois do 11 de Setembro e desde 2002 cresceu a uma taxa de 15%. Agora, dobrou em menos de uma década.

 

Exceto por uma pausa em 2005, é muito provável que a fraqueza do dólar desde 2002 seja o resultado da excessiva quantidade deles que foi criada para financiar os gastos prolíficos da administração Bush nas suas guerras sem fim e nos seus temerários cortes de impostos dos ricos. O problema é ainda mais complexo se considerarmos que desde 1964 o serviço de dívida cresceu de 9% para 16,5% do orçamento federal, e continua a subir; o orçamento, de um superávit de 1% foi para um déficit de 7%; e o endividamento federal cresceu 40% desde 2001, financiado em grande parte devido à “benevolência de estranhos (estrangeiros)”, cuja impaciência deve estar crescendo. Além disso, desde março de 2006 o Fed parou de publicar o agregado M-3 sobre a quantia total de dólares em circulação. Sem essa transparência, os grandes compradores de títulos do Tesouro dos EUA têm agora de calcular o valor do dólar baseados em especulação e incerteza, ao invés de dados concretos.

 

Segunda:

 

O público também perde porque o cartel bancário é capaz de praticar usura — devido ao seu poder sobre uma moeda flexível para mover artificialmente as taxas para cima ou para baixo ou para qualquer nível que escolha, o que é impossível aos pequenos profissionais do crédito que funcionam num mercado verdadeiramente livre e aberto. Além disso, o domínio do mercado pelo cartel força a maioria dos que precisam de empréstimos (especialmente os menores, incapazes de lançar os seus próprios instrumentos de dívida) a pedir esses empréstimos a ele, para receber aquele que deveria ser dinheiro do público disponível ao custo mais baixo possível.

 

Terceira:

 

Através dos impostos, nós, o público, temos de pagar para cobrir os juros da enorme dívida nacional, agora acima dos US 8,4 trilhões (N.T.: a quantia referida corresponde a 2006, quando o artigo foi escrito; hoje a dívida nacional dos EUA está em US$ 10,6 trilhões), acumulada sobre o dinheiro que o Fed imprimiu e cedeu ao governo a título de empréstimo. Como disse antes, isso totaliza hoje uma quantia anual no valor de mais de 2/3 de trilhão de dólares, aumentando diariamente. Fez os banqueiros mais ricos, fez as pessoas comuns mais pobres, e fez do público pessoas que não sabem como foram enganadas durante tanto tempo.

 

Quarta:

 

Agravando os abusos mencionados, o cartel pode fazer com que o público tire o sistema de apuros com mais dólares do contribuinte. Isso acontece cada vez que algum dos bancos demasiado grandes para que se permita que quebrem necessita de ajuda financeira para sobreviver. Vale o mesmo para grandes corporações como a Chrysler ou a Lockheed, grandes firmas de investimentos ou fundos de hedge como o Long-Term Capital Management ou, inclusive, países como o México. Também vale quando fecha um banco e é preciso pagar aos depositantes ou, mais sério, depois de uma crise financeira sistêmica como a que acabou com muitos bancos de poupança e empréstimos nos anos oitenta. Seja um só banco ou muitas dezenas ao mesmo tempo, os dólares dos impostos do público são utilizados para salvar o sistema ou só para pagar a conta com o objetivo de reembolsar os depositantes segurados contra perdas pelo seguro de proteção governamental até um certo montante por conta corrente.

 

ADAM SMITH

 

Essa concentração de riqueza e poder do cartel bancário é o contrário do que Adam Smith, o patrono ideológico do capitalismo de livre mercado, propugnou em seus escritos, incluindo sua obra fundamental, “A Riqueza das Nações”. Adam Smith escreveu sobre uma “mão invisível” que, segundo ele, funcionava melhor em um mercado livre com numerosos pequenos negócios em competição local uns contra os outros. Ele se opôs energicamente ao concentrado mercantilismo de seus dias, que atualmente seria o equivalente às nossas gigantescas corporações transnacionais e ao cartel bancário, com poder para restringir a competição, manter preços mais elevados do que seria possível de outra maneira e, como resultado, ganhar maiores lucros às custas do público.

 

O tipo de cartel bancário que existe hoje em dia é, precisamente, o que Adam Smith teria condenado. Que haja um banco central não é um mal em si, sempre que o banco seja de propriedade do governo, controlado e operado em função do bem público. Só se torna um problema quando se estabelece o banco mediante subterfúgios, para que pareça propriedade do governo e operado por este, quando, na realidade, serve ao interesse privado, como em nosso caso, e também na maioria dos outros. Nos EUA, para que funcione o arranjo, o Sistema é dirigido por um organismo nomeado em sua maioria pelo governo, que atua como um alcoviteiro para os membros privados do ganancioso cartel dos bancos, que, primeiro, conceberam o próprio sistema, e, depois, conseguiram que um Congresso corrupto o pusesse à sua disposição. Para que funcione, o cartel precisa da cobertura que consegue como resultado de sua associação com o governo, mas prejudica o interesse público graças a essa estrutura, em proveito de seus próprios lucros privados.

 

E assim chegamos ao coração do problema: o Congresso eleito para servir ao povo, o traiu, em vez de cumprir com seu dever, ao criar um cartel bancário todo-poderoso e outorgar-lhe a autoridade para praticar o fracionamento da reserva bancária com o poder de obter dinheiro, criando-o do nada. Depois, permitiu a seus membros um direito de quase-monopólio para estabelecer as taxas de juros que desejem cobrar dos que contraem empréstimos. Todo o processo equivale a um assalto legalmente sancionado dos poderosos bancos que operam em conluio com o governo para obter seus próprios lucros. Forma também parte de um processo mais amplo, organizado pelo governo para transferir riqueza do povo para os bolsos das grandes corporações e dos ricos, sem que os atingidos sequer saibam o que ocorre.

 

 

O Fed fere o bem público de outra maneira importante, e de novo a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como isso acontece. Supostamente o Federal Reserve System foi estabelecido para estabilizar a economia, aplainar os ciclos de negócios, manter uma taxa saudável de crescimento sustentável com estabilidade de preços e beneficiar a todos. Desde sua criação, em 1913, tivemos os cracks de 1921 e o mais importante e recordado, o de 1929, seguido pela Grande Depressão que durou até o começo da Segunda Guerra Mundial, o qual, segundo o destacado economista conservador Milton Friedman foi causado e exacerbado porque o Fed decidiu surpreendentemente reduzir o fornecimento de dinheiro em tempos de contração econômica, em vez de aumentá-lo. Depois tivemos recessões em 1953, 1957, 1969, 1975, 1981, 1990 e 2001. Também tivemos a irrupção da inflação nos anos sessenta, que foi bastante severa durante grande parte dos anos setenta e começo dos oitenta. E tivemos uma importante crise bancária nos anos oitenta, na qual quebraram mais bancos e associações de poupança e empréstimos do que nunca antes em nossa história. Veio em seguida a desregulamentação do mercado financeiro, em que se permitiu que os bancos perseguissem seus próprios interesses sem supervisão governamental que controlasse sua inclinação para correr riscos excessivos ou que impedisse que eles se dessem bem mediante fraudes deliberadas [NOTA: Este artigo foi publicado em 2006, antes, portanto, da atual crise.].

 

Junto com a estabilidade econômica que o Fed nunca conseguiu, também disparou a dívida dos consumidores; déficits orçamentários e comerciais recordes; uma quantidade elevada de falências pessoais e crescentes delitos com hipotecas; um juro sobre uma crescente dívida nacional que representa uma percentagem grande e cada vez maior do orçamento federal; a perda de nossa base industrial e de postos de trabalho com salários maiores, porque são exportados para países de baixa remuneração; uma economia na qual os serviços açambarcam agora 80% de todos os negócios, que em sua maioria pagam mal, com trabalhos menos capacitados com pouco ou nenhum direito trabalhista; e um fosso crescente nos rendimentos e na riqueza que prejudica as pessoas de baixa e média renda para beneficiar os poucos ricos e privilegiados, e um governo que estimula essa situação.

 

Tudo se sintetiza em uma conclusão: o Fed não cumpriu, sobretudo, a tarefa essencial para a qual foi estabelecido. Mas é muito pior ainda, se compreendemos que a verdadeira motivação de um cartel não é servir o interesse público, mas abusar dele, porque assim aumentam os lucros. Pode fazê-lo com a concentração de seu poder, legalmente sancionado, e um governo amigo aliado com seus sócios ou facilitadores, saindo por cima quando comete os mais esplêndidos roubos graças a este arranjo oculto da vista do público.

 

Solução necessária

 

Há somente uma solução sensata e justa para desfazer o dano que se fez a tantos durante tanto tempo: abolir o Sistema da Reserva Federal e restaurar o poder que tem um Governo Federal que trabalhe pelo bem público. Recuperá-lo do poderoso cartel bancário e não voltar jamais a permitir que caia em suas mãos. É o único caminho.

 

* Pesquisador do Centre for Research on Globalization.

 

Fonte Hora do Povo

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