Número de miseráveis cresce 3,68% em 2013, segundo Ipea

Instituto revela número dos “extremamente pobres” escondidos durante a campanha eleitoral: 10 milhões e meio de pessoas

Não houve bordão que Dilma repetisse tanto na campanha eleitoral quanto o de que, graças ao seu operoso governo, “o Brasil saiu do mapa da fome”. Como já mostramos, tratava-se de uma apropriação indébita (v. HP 19/09/2014).

Mas, segundo ela, a fome teria sido erradicada do país – e que não nos apareçam alguns espiroquetas para afirmar que ela não disse isso, pois toda a sua propaganda eleitoral foi nesse sentido ou para que os eleitores entendessem dessa forma.

Agora, com a publicação, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de que o número dos “extremamente pobres” (aqueles que não têm condição nem ao menos de suprir suas necessidades alimentares, sobrevivendo debaixo de desnutrição e fome crônicas) aumentou em 2013 e chega a 10 milhões e meio de pessoas (mais precisamente, 10.452.383), sabe-se que o governo escondeu esse dado, que já estava pronto para a publicação logo depois do primeiro turno das eleições.

A sonegação dessas informações provocou, no Ipea, o pedido de demissão do diretor de Estudos e Políticas Sociais, Herton Araújo, e do professor Marcelo Medeiros (co-autor de outro trabalho engavetado no Ipea, até que vazou na Internet, mostrando o aumento da desigualdade nos últimos anos).

Houve até mesmo um porta-voz do governo declarando que a proibição na publicação dos dados era para não beneficiar a candidata do governo, isto é, Dilma. Depois, em nota, a direção do Ipea afirmou que a proibição era para não beneficiar nem um nem outro.

Entretanto, no dia que a legislação eleitoral proibir o acesso a estatísticas, estaremos sob um regime mais autoritário e mais reacionário que o czarismo – onde as estatísticas, por sinal, eram de boa qualidade. Além do mais, se qualquer “instituto” pode fazer e divulgar – desde que registre no TSE ou nos TREs – pesquisas eleitorais, por mais enganosas ou vagabundas que sejam, por que seria proibida a divulgação de estatísticas econômicas, demográficas ou sociais de reconhecida seriedade?

Em resumo, a questão é a seguinte: qual é o item da legislação eleitoral que proíbe os eleitores de conhecer a realidade?

Absolutamente nenhum.

Evidentemente, saber que o número dos que passam fome aumentou é conhecer a realidade. Que isso tenha repercussões eleitorais, seria inevitável, pois é com base no conhecimento da realidade que o eleitor toma a decisão de votar neste ou naquele – ou em nenhum. Mas isso nada tem a ver com influenciar indevidamente as preferências eleitorais. Para isso, as “pesquisas eleitorais” são melhores.

O que influencia indevidamente o voto é esconder a realidade – e foi isso o que aconteceu. Em 2010, a publicação dos dados sobre o número e a proporção dos “pobres” e “extremamente pobres” foi logo depois do primeiro turno, no dia cinco de outubro – e ninguém reclamou porque foi antes do segundo turno, muito menos a Justiça Eleitoral.

Mas Dilma, depois de quatro anos de governo desastroso, era uma candidata que não aguentava nem esse pouco conhecimento da realidade – essa pequena dose de verdade. Mas era preciso uma fenomenal falta de vergonha para ocultá-la. No entanto, foi isso que aconteceu.

A reação do governo, diante da revelação de que o número dos extremamente pobres aumentou em 2013, foi uma soma de cinismo com propensão a viajar para Marte. É possível, agora, saber o que significa a declaração de “um ministro sobre o segundo mandato”, reproduzida na revista “Carta Capital”: “o governo virará à direita na economia para tentar ir à esquerda no social”.

Significa se submeter ao que há de mais podre na reação e mentir descaradamente para o povo.

Por exemplo, o sr. Marcelo Nery, nomeado ministro por ter inventado uma “nova classe média” com renda de R$ 1.200 (v. HP 27/01/2012), disse que o problema do aumento dos miseráveis é “um foco total em cima de um dado em um ano”, isto é, o foco sobre o dado (o aumento de número dos extremamente pobres) num ano em que os extremamente pobres aumentaram de número.

Ia ser difícil colocar o foco sobre o aumento dos extremamente pobres num ano em que os extremamente pobres diminuíssem... Ou que o foco não fosse sobre o aumento dos extremamente pobres, depois de nove anos de queda contínua em seu número.

Vejamos o que essa versão dilmista do Rolando Lero – sem a graça do original - quer escamotear.

Segundo publicou o - nessa questão – insuspeito (porque está sob o próprio Nery) Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de pessoas da população que não conseguem nem se alimentar decentemente, aumentou de 10.081.225 (10 milhões, 81 mil e 225 pessoas), em 2012, para 10.452.383 (10 milhões, 452 mil e 383 pessoas) em 2013.

Um aumento de 3,68%, que foi o primeiro desde 2003. Dito de outra forma: pela primeira vez em 10 anos, o número de pessoas passando fome aumentou no país, ao invés de diminuir.

O que significa isso? Que a ruinosa política econômica de Dilma atingiu até mesmo a área que ela jurou que era a sua prioridade. Por exemplo, no discurso após o segundo turno de 2010: “... reforço aqui meu compromisso fundamental que eu mantive e reiterei ao longo dessa campanha: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e para todas as brasileiras. (...) Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome (...). A erradicação da miséria nos próximos anos é assim uma meta que assumo (...). Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria” etc.

É difícil encontrar outro político que repita tantas vezes a expressão “erradicação da miséria”.

Porém, quatro anos depois, o que Dilma tinha (e tem) para apresentar é um aumento do número dos que sentem fome durante as 24 horas do dia – e durante anos.

Disse o Ministério do Desenvolvimento Social que “não é correto afirmar que a extrema pobreza aumentou; [são] flutuações estatísticas dentro da margem de erro”.

A equipe da ministra Campelo deve estar confundindo a base de dados do Ipea com a do Ibope ou a do Datafolha. O pessoal deve ter achado que era uma pesquisa eleitoral...

Se fosse verdade o que está na nota do Ministério, o resultado mais provável seria zero, ou seja, a manutenção de 10 milhões de famintos – o que também significaria que a campanha de Dilma foi uma fraude. Exceto se o Ministério considera que essas 10 milhões de pessoas são insignificantes, portanto, a miséria está erradicada, apesar da fome delas.

Parece que esse é o ponto de vista do sr. Nery. Mas não importa se o sujeito acha que esses 10 milhões não existem ou se são “insignificantes estatisticamente” (ponto de vista da FAO, dirigida pelo sr. José Graziano, ao tirar o Brasil do “mapa da fome”). Não é por ter a barriga cheia que esse pessoal acha essas coisas. Não é preciso passar fome para ser sensível ao sofrimento de quem está passando fome.

Eles consideram tão pouco significativo que haja mais de 10 milhões de pessoas famélicas no país – e que esse número tenha aumentado, em 2013 – porque não se distinguem da sua chefe: seu ramo é o marketing da vigarice, não as preocupações sociais.

 

CARLOS LOPES
www.horadopovo.com.br

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