Nelson Werneck Sodré: o assassinato de John Kennedy

 

         O assassinato de John Kennedy (1)

 

Em 1963, duas semanas após o assassinato do presidente John Kennedy, o historiador e general Nelson Werneck Sodré publicou “Quem Matou Kennedy”. Na época em que surgiu o livro, Nelson Werneck Sodré encabeçava o Departamento de História do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Após o golpe de 1964, com a depredação e depois fechamento do ISEB pela ditadura, “Quem Matou Kennedy” foi um dos primeiros livros do historiador a ser proibido e apreendido nas livrarias.

Quem não viveu aquela época provavelmente não sabe que um dos problemas que havia, depois de 1964, era ter certos livros em casa. Mesmo antes do AI-5 (dezembro de 1968), havia momentos em que os livros tinham que sumir – e, realmente, sumiam – na expectativa, ou apenas possibilidade exagerada pela tensão, de uma visita indesejada. Não era necessário que fossem livros especialmente incendiários – se é que eles existem. Às vezes era impossível saber o que devia sumir e o que devia ficar: um exemplar de “O Vermelho e o Negro”, romance de Stendhal publicado em 1830 – e um dos clássicos da literatura francesa - foi apreendido, lá por 1965 ou 1966, talvez 1967, na casa de um poeta, no Rio de Janeiro. O poeta conseguiu escapar – hoje, convertido e esgotado o seu élan poético, escreve arengas direitistas na imprensa - mas o título do livro foi suficiente para que algum gênio concluísse que se tratava de obra subversivíssima.

“Quem Matou Kennedy” era desses livros que não escapavam a uma visita desse tipo. Lembro que foi numa época dessas que um exemplar, na casa de meu pai, desapareceu um dia. Mas, graças aos céus, esperamos em vão pela visita.

Em 1989, o grande historiador incluiu “Quem Matou Kennedy” no livro “A Marcha para o Nazismo” - um estudo da fascistização da sociedade dos EUA e suas bases políticas, sociais e econômicas. Foi desse último livro que retiramos o texto que hoje passamos a publicar.

Nelson Werneck Sodré foi um grande amigo da Hora do Povo, para quem enviou vários de seus textos inéditos – sempre em manuscrito. Tivemos a honra de publicar pela primeira vez, no começo dos anos 90, o seu ensaio “A Farsa do Neoliberalismo”, um claro descortinar do que aconteceria nos 10 ou 12 anos seguintes, com a certeira previsão da derrocada inevitável daquele estado de coisas.

A ele, pensador do Brasil e general do Exército Brasileiro, a nossa homenagem.

 

CARLOS LOPES

 

NELSON WERNECK SODRÉ

 

Na manhã de 22 de novembro de 1963 os jornais de Dallas, Texas, publicaram com destaque textos em que apareciam frases como estas: “Por que Kennedy substituiu a Doutrina de Monroe pelo espírito de Moscou?” e “Por que Gus Hall, líder comunista americano, elogiou todas as ações políticas do governo e anunciou que o Partido Comunista apoiaria a reeleição de Kennedy em 1964?”1.

O presidente John F. Kennedy deveria chegar a Dallas pela manhã, onde pronunciaria um discurso, anunciado como de abertura de campanha pela reeleição, no Texas. Começava pelo pior: Dallas era uma cidade onde a opinião direitista extremada predominava de forma absoluta; ali Kennedy não fora apoiado, em sua campanha presidencial, por nenhum jornal, e merecera deles, depois de empossado, a mais violenta campanha de oposição. O sentimento de numerosas camadas podia ser expresso em cartazes como aqueles que começaram a aparecer nas ruas, ao aproximar-se a hora da chegada do presidente: “Por causa de suas ideias socialistas sinto completo desprezo por ti, Kennedy”. 2

Kennedy sabia do ambiente em que seria recebido em Dallas. Seus assessores o avisaram, antes, de que havia riscos, até certo ponto inevitáveis. Stevenson [N.HP: Adlai Stevenson, um dos líderes do Partido Democrata, na época embaixador dos EUA na ONU] telefonara para a Casa Branca para solicitar a Salinger [N.HP: Pierre Salinger, secretário de imprensa de Kennedy] que evitasse a ida de Kennedy a Dallas, onde ele, dias antes, fora rudemente desfeitado em público recebendo os maiores insultos. Conseguira falar a Arthur Schlesinger [N.HP: historiador e assessor especial de Kennedy] relatando suas apreensões. Sua advertência não foi levada em consideração. Kennedy decidira realizar a viagem e considerava importante seu contato com o povo do Texas, terra de Johnson, seu vice-presidente, que o acompanharia na visita.

[NOTA DO AUTOR: Depoimento de professor brasileiro José Honório Rodrigues, que estava em Dallas quando do crime, pode esclarecer bem o clima ali reinante: “Primeiramente, o incidente com Adlai Stevenson, no dia comemorativo das Nações Unidas, quando foi injuriado e atacado pelos extremistas da direita. (...) Era proibido erguer no Texas a bandeira das Nações Unidas, e apesar das desculpas pedidas, nada mudou no ambiente irresponsável e odiento daquela cidade (...) Depois lembrei-me do discurso pronunciado por um jornalista de Dallas, ao saudar um grupo de jornalistas e estudiosos latino-americanos, sem uma palavra sobre a América Latina – que Dallas despreza com todo seu vigor – e todo dedicado aos males e ao perigo do comunismo. Vira, depois, no dia 17 de novembro, o programa Lawless Government (Governo sem Lei), feito por Dan Smoot, de ataque brutal ao governo de Kennedy e ao seu programa de ajuda externa. O tom, os conceitos, as palavras, o ar de falsa indignação lembravam-me as campanhas de certos políticos brasileiros, a fúria e a agressão do ataque pessoal, que não esperava encontrar nos Estados Unidos, mesmo no Texas. Smoot afirmava, em linguagem simples e aparentemente ingênua, que o governo de Kennedy era sem lei, desrespeitava a Constituição, o Congresso e ameaçava a liberdade americana, o American way of life; Dean Rusk, Earl Warren, eram comunistas; e Kennedy servia aos comunistas. (...) Na própria universidade, a iniciativa é sempre conservadora, quando não direitista. A grande visita ao campus da universidade, um mês antes do assassinato, fora a de Madame Nhu, cujo sucesso empolgou o grande público que acompanhou suas conferências. (...) O ambiente não só de Dallas, mas de Austin, a capital do Texas, variava não de natureza, mas de grau. Se lá dominava o ódio, em Austin dominava a indiferença ao presidente, e em ambas o conservadorismo hostil ao progressismo da Nova Fronteira. A literatura de ódio contra Kennedy, em Dallas e Arlington, quinze milhas ao oeste de Dallas, foi intensamente divulgada”. (José Honório Rodrigues: “Um assassinato visto do Texas”, in América, Mito e Violência, Rio, 1968, coletânea de vários autores)].

O automóvel em que viajavam – ele, sua esposa, mais o governador do Texas, Connally, e esposa – era um carro aberto. Ao aproximar-se de um parque, a leste do viaduto, a senhora Connally comentou com Kennedy o calor dos aplausos que o presidente vinha recebendo. Kennedy tinha, no povo de Dallas e do Texas, realmente, numerosos simpatizantes, particularmente entre os negros. Os aplausos não o surpreenderam, e assim respondeu à sua interlocutora. Às 12h31 o carro percorria a rua ao lado do parque, sobre o qual passava o viaduto, quando se ouviram tiros, percebidos por poucas pessoas, porque se confundiram com o ruído das manifestações. Nesse momento Kennedy levou a mão à testa e tombou sobre o assento. Sua esposa, assustada e surpreendida, tentou acudi-lo e ampará-lo, e suas vestes cobriram-se de sangue. Connally também fora atingido e tombara. O carro ganhou velocidade, conduzindo os alvejados para o Hospital Parkland. Kennedy faleceu menos de uma hora depois de ter ali dado entrada.

Às 14h15 foi preso num cinema, pela polícia de Dallas, o indivíduo Lee Harvey Oswald. Segundo informações que as autoridades policiais de Dallas se apressaram em divulgar, Oswald vivera três anos na União Soviética, era membro do Comitê Jogo Limpo com Cuba, pertencera à Marinha e ali fora tido como bom atirador. Nos testes de parafina – esclarecia a polícia, logo depois – foram encontrados vestígios de pólvora em suas mãos. Outros indícios contra Oswald foram, a seguir, distribuídos pela polícia: ele escrevera a uma loja especializada solicitando a venda de um fuzil, com nome falso e endereço trocado; em seu poder foi encontrado papel com esse nome e esse endereço, bem como um mapa da cidade de Dallas onde o local, do qual, presumidamente, haviam sido feitos os disparos, estava assinalado. Teria, além disso, em conflito a pouca distância do local do atentado, assassinado um patrulheiro e fugido: a descrição do fugitivo coincidia com os traços de Oswald. No fuzil encontrado, havia impressões digitais, embora imperfeitas.

Para a polícia de Dallas, que encarava o atentado como crime comum, estava tudo resolvido e claro: as provas eram concludentes e até abundantes; a ação fora pronta e enérgica. O capitão Will Fritz, um de seus mais destacados elementos, sentia-se seguro para afirmar: “Temos o caso no bolso. Raramente estive tão convencido da culpabilidade de um assassino nas investigações que efetuei até agora. Ele é o assassino”. Acabara de interrogar Oswald. As provas pareciam, realmente, esmagadoras: vários funcionários da Biblioteca de Dallas, onde foram disparados os tiros, segundo versão oficial, viram Oswald no sexto andar do edifício, antes e depois do atentado; as cápsulas das três balas que mataram o presidente e feriram o governador do Texas foram encontradas na janela em que estiveram Oswald; o fuzil fora encontrado escondido no sexto andar; Oswald tinha comprado esse fuzil, por reembolso postal, sob nome falso, em março; havia uma fotografia de Oswald com o fuzil em punho; a mulher de Oswald afirmara que o fuzil desaparecera de seu domicílio no dia do crime; um policial vira Oswald sair da Biblioteca, depois do atentado, tendo se identificado como funcionário; tomara o ônibus para casa e dissera ao motorista e a uma passageira que o presidente Kennedy havia sido assassinado; passara, depois, para um táxi; três testemunhas viram quando disparara contra um policial que o interpelara na rua: em descampado, substituíra as balas deflagradas do seu revólver, tornando a carregá-lo; tentara matar o policial que o fora prender dentro de um cinema; impressões palmares de Oswald foram encontradas no fuzil; exames feitos em sua mão, com parafina, revelaram que acabara de disparar uma arma de fogo. Se nisso tudo não há lógica e há contradições, não é problema nosso, mas da polícia de Dallas.

A essa esmagadora versão policial juntam-se outras versões, entre elas a de que Oswald pretendia assassinar Connally e não Kennedy, porque fora afastado do serviço militar com desonra e, apelando para Connally, então secretário da Marinha, não fora atendido. A versão oficial, entretanto, foi aquela que mereceu, de início, a preferência das agências telegráficas internacionais. Jornais brasileiros publicaram, a 24 de novembro, a conclusão: “O capitão Will Fritz, chefe do Departamento de Homicídios da Polícia de Dallas, anunciou hoje, oficialmente, que a polícia de Dallas tem provas de que o presidente Kennedy foi assassinado por Lee Oswald, e que agiu sem cúmplices”3.

“Elementar, meu caro Watson”, diria certamente Sherlock Holmes: o presidente dos Estados Unidos visita uma cidade onde os ânimos foram preparados para hostilizá-lo; avisado dos perigos, insiste em realizar a visita; pretende continuar a campanha pela sua reeleição; aceita desfilar em carro aberto; é assassinado. Assim, a polícia mais organizada do mundo, no país mais policiado do mundo, é impotente para assegurar a vida do homem mais guardado do mundo. Mas isso não tem grande importância: a polícia, que fora impotente para assegurar a vida da mais alta autoridade do país, está suficientemente organizada para descobrir e prender o assassino duas horas depois do crime, e para armar contra ele um conjunto de provas esmagador, solucionando, em prazo curtíssimo, um problema que não pudera prevenir.

O caso não se resumiria nisso, entretanto, se é que é pouco: dois dias depois do assassínio de Kennedy, no dia 24, às 12h21, no momento em que ia ser transportado de uma para outra prisão, nos subterrâneos da polícia de Dallas, ante um aparato bélico inédito, diante de câmeras de televisão, Lee Oswald é assassinado por Jack Ruby, proprietário de um clube noturno, desordeiro conhecido, jogador, marginal com numerosos antecedentes policiais.4 Noticiou-se, em seguida, que o FBI havia sido avisado, nesse mesmo dia, de que Oswald seria eliminado. Pouco depois a agência alemã DPA divulgava que o FBI descobrira diversas provas da inocência de Oswald. Entre elas, a coincidência, certamente ligada à eficiência americana, de que um enfermeiro do Hospital de Parkland já estava preparado para receber Oswald, lá, antes mesmo de seu assassínio na prisão. Outra coincidência, e esta ligada, certamente, à modelar eficiência da polícia de Dallas, estava na distribuição da fotografia e biografia de Oswald horas depois do assassínio do presidente.

O fato é que, no recinto da polícia de Dallas, sob os cuidados de dezenas de policiais fortemente armados, com as mãos algemadas, Oswald foi assassinado por um homem que de forma alguma poderia estar naquele local, ao qual tiveram ingresso os jornalistas e pessoal da televisão e do rádio mediante rigorosa e minuciosa revista individual. Pois ali penetrou Ruby, criminoso conhecido, armado, e ali, diante do aparato policial e diante do público de milhões de norte-americanos que assistiam à televisão, eliminou o suposto criminoso, isto é, do ponto

 

de vista formal, destruiu aquele sobre quem aquela mesma polícia havia acumulado um convincente conjunto de provas. Um gangster como Ruby tinha, pois, condições de acesso ao recinto e realizara seu propósito. E as fotografias reproduzidas nos jornais de todo o mundo mostram a impassibilidade dos guardas que rodeiam Oswald, assistentes do gesto de Ruby. Essas fotografias são irrespondível documento da conivência da polícia de Dallas. Mas não somos nós os primeiros a levantar o problema da conivência.

O Lubbock Texas Avalanche Journal, ao noticiar esse espantoso crime, escreveu o seguinte: “Trágico foi a estupidez da polícia de Dallas, em sua tentativa de transferir Lee Harvey Oswald da prisão da cidade para a do condado. O fato de que um estranho pudesse situar-se a uma distância de um pé (30 cm) de Oswald, e feri-lo fatalmente, enquanto os policiais estavam ao seu lado às dezenas, é tão difícil de acreditar quanto a real e amarga história do meio-dia de sexta-feira última”. O circunspecto New York Times escreveria: “Foi simplesmente uma grande violação da responsabilidade policial, não importa quais fossem as exigências de repórteres e cinegrafistas, transladar Oswald em público, sob circunstâncias nas quais poderia ser facilmente vítima de um ataque”.

 

O presidente do Conselho Municipal de Dallas explicou a presença de Ruby no subterrâneo desta maneira: “Ele se encontrava ali porque havia ajudado os jornalistas a deslocar suas pesadas câmeras de televisão. Nada vejo que se pudesse ter feito para proibir o acesso de jornalistas e fotógrafos ao local”. Ruby, ouvido sobre o crime, afirmou que matara Oswald como desforra para a esposa do presidente assassinado e porque acreditava que Oswald fazia parte de uma conspiração comunista que teria culminado no assassínio de Kennedy. É curioso que a maior manchete já aparecida no vespertino carioca O Globo fosse justamente a seguinte: “MATOU OSWALD PARA VINGAR JACQUELINE”, e que a revista O Cruzeiro, no artigo de sua página final, classificasse o atentado a Kennedy como obra de um demente, despojando-o de toda e qualquer significação política.

Notas:

1 - Jornal do Brasil, Rio, 26 de novembro de 1963.

2 - Jornal do Brasil, Rio, 23 de novembro de 1963. A informação consta de despacho da UPI distribuído a vários jornais em nosso país.

3 - O Estado de São Paulo, 24 de novembro de 1963.

4 - O Globo, Rio, 25 de novembro de 1963.

Continua na próxima edição.

 

 

 

   O assassinato de John Kennedy (2)

 

Um dos fatos menos conhecidos do governo Kennedy aconteceu em 4 de junho de 1963, portanto, cinco meses antes de seu assassinato. Desde 1913, com o Federal Reserve Act, o dólar era – como é hoje – emitido por um comitê de bancos privados, que age como banco central dos EUA. O governo e o presidente não têm autoridade sobre a emissão de moeda. Apesar desta ser pública, sua fabricação e lançamento em circulação é um assunto privado do cartel bancário.

“John Kennedy”, relata Stephen Lendman em “O templo e os seus segredos sujos” (HP, 05/12/2008), “planejara acabar com o Federal Reserve System para eliminar a dívida nacional que um banco central cria ao imprimir dinheiro para passá-lo ao governo como empréstimo. (…) Ela [essa dívida] fez os banqueiros ricos (sendo precisamente essa a ideia) e o público mais pobre, porque nós é que pagamos a conta. Não é exagero chamar a isto a maior falcatrua financeira da história do mundo, que fica maior a cada dia. (…) Kennedy entendeu o perigo para o país e o fardo que o público carregava. Assim, no dia 4 de Junho de 1963, ele emitiu a ordem presidencial EO 11110, dando ao presidente a autoridade de emitir a moeda. Em seguida, ordenou ao Tesouro dos EUA que imprimisse mais de US$ 4 bilhões em ‘Notas dos Estados Unidos’ para substituir as ‘Notas do Federal Reserve’. Ele queria substituir as notas todas para que, assim que houvesse em circulação uma quantidade suficiente da nova moeda, acabar com o Federal Reserve System e o controle dos banqueiros internacionais sobre o governo dos EUA e o seu povo. Apenas alguns meses depois que o plano de Kennedy começou a ser efetuado, ele foi assassinado em Dallas no que foi seguramente um golpe de estado disfarçado”.

É exatamente esse golpe de estado o tema de Nelson Werneck Sodré no texto que hoje continuamos a publicar.

 

C.L.

 

NELSON WERNECK SODRÉ

 

Continuação da edição anterior

 

A repercussão em todo o mundo foi tremenda: desde o momento em que as agências telegráficas informaram do assassínio de Kennedy, e por sentimento intuitivo, por toda parte os homens sentiram a grandeza da tragédia e sua profunda significação política e humana. A direita brasileira, naturalmente – por coincidência, em fase ofensiva e de aliciamento conspiratório de militares para a derrubada do governo -, colocou o problema nos termos que o complexo monopolista-militar, de que é instrumento aqui, considerava adequados, e que a imprensa de Hearst destacara, quando informava em manchete: “AGENTE COMUNO-CASTRISTA ASSASSINA NOSSO PRESIDENTE”. Assim, o conhecido provocador ibadiano Armando Falcão, no dia 26 de novembro, afirmava: “Quem sabe se, com a morte de Kennedy, Deus não escreveu direito por linhas tortas?” E explicava: “O crime talvez venha sacudir os povos do mundo, despertando-os para o combate ao comunismo”.

No mesmo e sinistro diapasão afirmou o governador da Guanabara [N.HP: Carlos Lacerda], outro anticomunista profissional, em sua entrevista à revista Manchete, de 7 de dezembro: “Era lícito pensar, à primeira vista, que o assassino de Kennedy fosse um racista exaltado, um fanático exasperado com a posição que o presidente americano tomou em defesa dos direitos do negro. Neste sentido, pronunciou-se, incontinenti, a imensa maioria das publicações ‘burguesas’ do Brasil. Era, repito, razoável pensar assim, à primeira vista. No entanto, logo às primeiras horas, foi preso como suspeito um comunista adepto de uma liga castrista, que esteve na Rússia, que até quis adotar a cidadania russa etc. Isto, é claro, não significa que ele deixe de ser um fanático ou um paranoico. Mas quer dizer que ele não é um fanático racista e sim um fanático comunista. Um desses intoxicados pela propaganda do ódio, vítima de suas próprias ilusões, movido por mil frustrações obscuras, violentamente explodem na vontade de destruir, disfarce habitual da vontade de poder”. Deixando de lado a coincidência do sentido autobiográfico do último período dessas declarações, é interessante acrescentar a marca do anticomunismo e do sentido de aproveitar para ampla provocação belicista e retrógrada o atentado contra Kennedy. A linha texana, em seu estado de pureza.

Não foi essa, para mágoa da direita subdesenvolvida, entretanto, a reação mundial. L’Osservatore Romano identificou os verdadeiros responsáveis pelo crime, sem nenhuma dificuldade, ao afirmar, em seu editorial de 23 de setembro: “Qualquer que seja o pretexto com que se marcaram os impulsos de um fanático do ódio, expressam a condenação não de situações iníquas, mas sim da obra da paz, da liberdade, do progresso, de igualdade e de dignidade para todos os homens, desejados pelo presidente norte-americano, que combatia apenas os demônios do mal social e da hecatombe internacional”. O primeiro ministro soviético enviou mensagem ao novo chefe do governo dos Estados Unidos, afirmando: “Seu assassínio constitui grave golpe para a causa da paz e para os que lutam por manter boas relações entre os nossos países”, enquanto Valerian Zorin

[N.HP: embaixador da URSS na ONU] assim se manifestava: “Os pormenores dessa inominável ação maléfica não são ainda conhecidos, mas é lícito afirmar que ela foi dirigida pelas forças obscuras que pensavam horrorizadas na perspectiva de uma melhora de relações entre a URSS e os Estados Unidos, de uma redução da tensão internacional”. O dirigente sindical e presidente da Associação dos Camareiros em Carros Dormitórios, um dos organizadores da marcha sobre Washington, declarou: “A segunda emancipação do homem negro da escravidão da segregação racial foi abatida por uma bala assassina”. Quando o governo americano, com a presença dos auxiliares de Kennedy na Casa Branca e pela ação de Robert Kennedy, desfez, em documento oficial, de pronto, a exploração direitista, esclarecendo que não havia prova alguma de que, no crime, houvesse qualquer sinal de interferência de potência estrangeira, a máquina americana de propaganda sofreu duro revés. A orientação passou, daí por diante, a ser outra: liquidar o assunto, afirmando que o caso estava encerrado; Oswald, o assassino, estava punido; tratava-se, agora, de tocar para frente, prestigiando o novo presidente.

A população de Dallas foi convidada pelos jornais a retornar às suas tarefas. Os aparelhos de rádio e os transistores levavam a todos, entre músicas de baile e anúncios dentifrícios, a palavra de ordem de “recuperar a confiança em si mesmos, em sua cidade, em sua polícia”. “A hora de lágrimas passou” – aduziam – “, que todos os bons cidadãos se reúnam para a defesa de nossa cidade”. “Podemos estar tristes, mas não temos o direito de estar envergonhados”, afirmou George McLendon, diretor e proprietário de uma das emissoras locais.

 

[NOTA DO AUTOR: Eis um quadro de Dallas, traçado por alguém que conhece bem a cidade, o Estado, os Estados Unidos: “O isolacionismo político, o macartismo, a indiferença em relação ao crime, o desinteresse pelos problemas sociais, negligência com os serviços públicos – em Austin, o lixo é recolhido uma vez por semana, e as ruas residenciais não possuem iluminação pública -, a crença fanática nos direitos do Estado, o controle total das cidades e do Estado pelos homens de negócios, através dos conselhos dos cidadãos, tudo isso dá a Dallas, como ao Texas, uma situação específica que deve ser considerada. (...) Os heróis de Dallas não são os cowboys, como em Fort Worth, mas os milionários, os milionários do petróleo. Um deles, talvez o maior, H.L. Hunt, escreveu Alpaca (Dallas, 1960), uma utopia em que vê uma terra perfeita, na qual os votos seriam proporcionais ao quantum de imposto de renda pago pelo cidadão. A fim de evitar que as massas instáveis, sempre suscetíveis aos demagogos, se inflamassem, seriam proibidas as discussões políticas na televisão, no rádio, e os comícios não poderiam ser assistidos por mais de duzentas pessoas. Só assim, conclui Mr. Hunt, se conseguiria que os homens trabalhassem quietamente para o bem do povo. Esta visão não é uma utopia, ela existe, ela causa inveja a muitos homens de negócios e a alguns militares ditatoriais, seus aliados; ela é Dallas, praticamente governada por um Conselho de Cidadãos composto de 234 homens de negócios escolhidos, segundo seus estatutos, entre os milionários, os presidentes e diretores gerais das grandes companhias. (...) Junte-se a isso a fortaleza do preconceito racial contra negros e latino-americanos, especialmente mexicanos, que ocupam a posição social mais baixa. É tão grande o desprezo pelo mexicano, que, os que podem, evitam falar espanhol, apesar dos esforços da universidade para vencer esses preconceitos. No hotel em que eu morava, as duas ascensoristas mexicanas, ou de origem mexicana, só falavam espanhol comigo e minha mulher quando subíamos ou descíamos sozinhos, e depois de saberem que éramos brasileiros”. (José Honório Rodrigues: “Um assassinato visto do Texas”, in América, Mito e Violência, Rio, 1968, pp. 69-70, coletânea de vários autores).]

 

Essa orientação foi estendida a todo o mundo, naturalmente. Refletiu-se no Brasil. O Globo, do Rio de Janeiro, em sua edição de 25 de novembro, esclarecia, dentro de sua linha tradicional: “Logo que se espalhou por um mundo atônito a dolorosa notícia do assassinato do presidente Kennedy, a reação do Pravda, de Moscou, órgão oficial do governo soviético, foi a ignóbil versão de que se tratava de uma vingança dos reacionários racistas contra os esforços de Kennedy pela reintegração racial. Tal exploração sórdida foi logo endossada pelos comunistas de todo o mundo e aqui mesmo estamos assistindo a parlamentares e jornalistas da esquerda repetirem tais conclusões”. O jornal O Estado de São Paulo, a 27 de novembro, em longo editorial, traçava as seguintes considerações: “O luto em que mergulha uma nação inteira não permite que se perturbe o seu recolhimento profundo nem que se profanem seus sentimentos com preocupações que, por mais importantes ou justificadas que sejam, não se coadunam com a atmosfera lúgubre criada pela tremenda perda familiar”. Concluindo: “Só a imaginação mórbida dos desclassificados e marginais pode conceber uma conspiração como essa, com a qual procuram compensar seus evidentes complexos de inferioridade. São desclassificados e marginais mesmo dentro do movimento comunista internacional, pois Moscou e, por mais surpreendente que possa parecer, Havana não se mostram tão apressados em procurar isentar-se de culpa que em momento algum lhes foi atribuída”.

Mas a imprensa de todo o mundo continuava a insistir no assunto e a desmoralizar a tentativa de incriminar, em Oswald, um agente comuno-castrista, quando todas as vantagens da eliminação de Kennedy afluíam para a reação mais extremada. Discutia-se a incrível, a inacreditável façanha de um atirador que, sozinho, visando alvos em movimento, ferira mortalmente uma pessoa e ferira gravemente outras, e até o depoimento de técnicos e de campeões olímpicos de tiro foi levantado. No coro, entretanto, continuavam algumas vozes desesperadas, entre as quais, ao lado de matadores de mendigos e de agentes da provocação brasileiros, estavam, agora, com destaque, figuras com as características de Mme. Nhu, que assim se dirigia à viúva do presidente morto: “Indubitavelmente, tal assassínio, em que mesmo as feridas infligidas ao presidente Kennedy foram idênticas às do presidente Ngo Dihn Diem e de meu esposo, o que acontece apenas vinte dias após a tragédia vietnamita, só demonstra ao mundo que nem a extrema consideração com o comunismo são proteção contra seus golpes traiçoeiros”. Aqui, como se vê, figura a acusação de que o presidente Kennedy era um protetor de comunistas.

Quando a Câmara Municipal de Dallas, dias após o crime, negou andamento ao projeto, propondo dar o nome de Kennedy a um estádio da cidade, com apenas um voto a favor do projeto, dimensionou-se suficientemente o ódio que ali permanecia, mesmo após a inaudita vitória da eliminação de um perigoso adversário. E as informações que a imprensa divulgou amplamente, de que se realizaram festas e que se ouviram aplausos, até em escolas no Texas, quando se noticiou o crime, pode dar ideia aproximada de como estava preparado o ambiente para que o ato fosse perpetrado. A linguagem dos amáveis editorialistas de O Estado de São Paulo, pois, nada tem de original e até em seu teor é simples carbono da fonte.

Continua na próxima edição.

 

 

  O assassinato de John Kennedy (3)

 

Os gangsters do complexo monopolista-militar escolheram, com minúcias, o lugar, hora, possivelmente os executantes. Realizaram a missão com frieza nazista, que não recua diante de condição alguma e que vai aos fins com profunda e inabalável consciência de seus propósitos e dos seus meios. Constituiu, para todo o mundo, gravíssima advertência, a que pessoa humana alguma pode considerar-se indiferente: os belicistas estão dispostos a ir às últimas consequências, porque sabem do avanço da consciência humana e da inexorável sorte que os espera

 

NELSON WERNECK SODRÉ

 

Continuação da edição anterior

 

Mas, por todo o mundo, naturalmente, a compreensão relativa ao crime era profunda, por mais que em cada país da área de influência internacional do complexo monopolista-militar americano seus agentes e órgãos trabalhassem intensamente para evitar aquele resultado sensacional: como um bumerangue o crime voltava-se contra seus autores, os resultados negativos acumulavam-se perigosamente; em vez da onda de provocação surgira uma onda de esclarecimento. Exemplo, entre milhares, está em jornal brasileiro que analisava assim a questão: “A luta de bastidores nos Estados Unidos, já conhecida de muitos, estava no auge devido à política liberal do presidente assassinado. Fora do aspecto Departamento de Estado contra Pentágono, o chamado ‘grupo do Middle East’ (o industrial, que quer produzir sobretudo para o consumo interno e respeitar a política de troca de produção com os países amigos), estava em vias de fato contra o ‘grupo de Wall Street’ (o colonialista, que vive de importar a preços baixíssimos a matéria-prima para reexportá-la com lucros fabulosos). E o aspecto da guerra econômica era o dado mais importante da história. Na opção, Kennedy sempre tomara a melhor posição. Isso lhe valeu o destino trágico que teve”.

 

Por outro lado, informações a respeito dos dois assassinos continuavam a circular: Oswald negava a autoria do crime e os psiquiatras apreciavam o caso com dúvidas: se fosse o assassino, sendo paranoico, vangloriar-se-ia de seu feito, confessando-o. Assim, ou era inocente ou estava acobertando os mandantes. Uma rádio de Dallas, informava-se agora, anunciara na véspera que ele seria morto; havia uma ambulância à porta da prisão, quando Oswald foi assassinado, já à espera da vítima; a polícia divulgara com bastante antecedência a hora em que o transladaria; uma datilógrafa, que trabalhava em originais ditados por ele, informava que se tratava de agente secreto americano; a mãe de Oswald, entrevistada, esclarecia que na véspera do crime um agente do FBI lhe mostrara a foto de Ruby; a esposa de Oswald informava que o FBI sabia que a morte de seu marido estava prevista. Anatoly Dobrinin [N.HP: embaixador da URSS nos EUA], por sua vez, fazia entrega às autoridades americanas de tudo o que a URSS sabia sobre Oswald. Ficava provado que ele, de fato, tentara tornar-se cidadão soviético, que estivera na URSS e, agora, segundo a datilógrafa, escrevia um livro de informações sobre aquele país, em termos anticomunistas e de propaganda. Por último, o Pravda divulgou que o motivo da negativa do governo soviético de conceder a cidadania a Oswald estava no fato de que ele era um agente secreto americano. Time, de 22 de novembro, dia do assassínio de Kennedy, divulgou, na página 12 de sua edição original, o fato de que o presidente fora visto em seu carro, sem escolta policial, em Manhattan, uma semana antes, tendo o automóvel sido detido por um sinal de trânsito e uma mulher aproveitara a ocasião para fazer uma fotografia de Kennedy, e um guarda comentara sobre o perigo, pois nesse momento o presidente poderia ter sido assassinado. Mas os negócios continuavam e os jornais americanos davam a conhecer, a 27 de novembro, que Wall Street retomara suas atividades, com tendências altistas, isto é, mais bons negócios.

 

As atenções voltavam-se, agora, para Johnson, texano, ligado ao petróleo, “mais acessível aos interesses dos meios dos negócios e das finanças”, conforme correspondência dos Estados Unidos, divulgada no jornal O Estado de São Paulo (ed. 24/11/1963). A mesma informação telegráfica, publicada no mesmo jornal, esclarecia, enternecedoramente, que Johnson era texano e que se considerava “como feito impossível realizar com êxito uma carreira política nesse Estado se não se contar com o apoio dos círculos petrolíferos”. De forma a tranquilizar os parceiros, era também divulgado na mesma correspondência que: “Johnson passa por ser um conservador e não se acredita que manterá em seus cargos os atuais assessores da Casa Branca”. Em Cuba, por outro lado, Guevara profetizava: “Tudo leva a crer que nos próximos meses ou anos a paz no mundo estará ameaçada pela oligarquia monopolista guerreira mais feroz, mais inescrupulosa e também com maior potência de morte que a história da humanidade já conheceu”. Fidel Castro era da mesma opinião: “A morte do presidente Kennedy é uma grave e má notícia para Cuba e para a paz internacional. É um fato negativo para toda a humanidade”.

 

Nos Estados Unidos, no que diz respeito diretamente ao crime, informava-se que Johnson nomeara um Comitê de Investigação Presidencial, constituído por homens da direita: Allen Dulles, criatura da CIA, Mac Cloy, republicano, Russel, senador democrata do Sul, um dos políticos mais reacionários do país, e dos deputados Gerald Ford, republicano, e Hale Boggs, democrata, presidido pelo juiz Earl Warren, uma das figuras mais combatidas pela direita e a única respeitável nessa galeria. A datilógrafa Pauline Bates, transformada em personagem do dia, divulgava mais informações sobre Oswald: fora interrogado três vezes pelo FBI, ultimamente; trabalhava para o Departamento de Estado, segundo ela sabia; falava contra e comentava desfavoravelmente o que vira na URSS. Pauline estranhava, assim, a pressa da polícia de Dallas em afirmar que Oswald era comunista, e encerrar o caso. Aquela polícia, realmente, dera o caso como encerrado; foi necessário que a opinião popular nos Estados Unidos e em todo o mundo pressionasse para que o FBI retomasse a investigação.

 

[NOTA DO AUTOR: Para confronto com a qualidade dessa polícia texana que desejava, antes de tudo, liquidar o assunto, basta verificar os índices espantosos de criminalidade no Texas, e em Dallas particularmente: “A prevalência do crime ocasional e da punção irregular fez com que o Texas mantenha um índice criminal que, mesmo no padrão americano, é impressionante. Os Estados Unidos estão à frente do mundo em crimes causados por armas de fogo, apesar das afirmações sem base da revista Time (21 de junho de 1968) atribuindo a liderança às nações latinas, como consequência do machismo. Nos Estados Unidos houve 20.000 mortos, sendo 7.000 homicídios, 3.000 mortes acidentais e 10.000 suicídios, e mais 100.000 feridos por armas de fogo, em 1967. No Brasil, houve 6.894 presos por homicídios, 635 por tentativa de homicídio, 2.959 suicídios e tentativas de suicídio, no mesmo ano (Anuário Estatístico do Brasil, 1967). Em cada três e quatro décimos de minuto comete-se um crime no Texas, e em 1959-60, escreve John Bainbridge, o Texas, embora o sexto em população, ocupava o terceiro lugar em assaltos com tentativa de morte, furto e homicídio. Nos anos de 1957 a 1960, mais assassinatos foram cometidos no Texas do que em qualquer outro Estado, independentemente da população. Em 1959, 1.094 pessoas foram baleadas, apunhaladas, vítimas de cacetadas ou de qualquer outro modo mortas, no Texas; isto é, mais do que duas vezes o índice de Nova Iorque, com 8 milhões de pessoas. Dizendo de outro modo, escreve Bainbridge, mais gente matou mais gente no Texas do que em todos os Estados da Nova Inglaterra juntos, e mais Iowa, Kansas, Minesota, Nebraska, Dakota do Sul, Dakota do Norte, Montana e Utah, ou, para fazer uma comparação de caráter internacional, cada ano há mais assassínios somente em Dallas que na Inglaterra, com 45 milhões de habitantes. E cada ano Houston bate Dallas, e o Texas alcança o máximo”. (José Honório Rodrigues: op. cit, p. 72-3).]

 

Louis Wintzer, correspondente nos Estados Unidos do Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em crônica de Nova Iorque, publicada na edição de 1º de dezembro, refere “a grande alegria manifestada pela Bolsa de Wall Street”, após a morte de Kennedy, e o fato sintomático de ter, com o crime, a direita levantado logo a cabeça, tendo o senador Hickenlooper pronunciado violento discurso contra a reabilitação do físico Oppenheimer, programada por Kennedy, enquanto se suspendiam as negociações para a venda de trigo à URSS.

 

[N.A.: Trata-se do mesmo senador que teve a iniciativa do projeto, que se tornou lei, permitindo aos Estados Unidos intervirem, com sanções econômicas, contra qualquer país que nacionalizasse empresas norte-americanas, suspendendo a “ajuda” concedida aos mesmos. Lei que foi posta em questão, no caso do Peru, provocando a repulsa de todos os povos latino-americanos e de alguns governos.]

 

Uma das primeiras preocupações de Johnson, realmente, foi de anunciar a continuação da intervenção militar americana no Vietnã, até a vitória final contra os comunistas de lá. Kennedy, pouco antes de ser assassinado, determinara, em face da provada falsidade das informações da CIA sobre o armamentismo soviético e fornecimento pela URSS de armas a outras nações, que os dispositivos militares norte-americanos em várias partes do mundo fossem revistos no sentido de serem reduzidos.

 

A morte de John Fitzgerald Kennedy foi um golpe de Estado cujas consequências não podem ser ainda avaliadas.

 

[N.A.: Isto era escrito em novembro de 1963; a reedição deste livro, acrescido da segunda parte, corresponde, justamente, à necessidade de dar o balanço das consequências.]

 

Foi metodicamente preparada e friamente executada, cercando-se o assassínio de toda sorte de cuidados para que nada transpirasse de seu caráter político e de seu sentido direitista. Os gangsters do complexo monopolista-militar escolheram, com minúcias, o lugar, hora, possivelmente os executantes. Realizaram a missão com frieza nazista, que não recua diante de condição alguma e que vai aos fins com profunda e inabalável consciência de seus propósitos e dos seus meios. Constituiu, para todo o mundo, gravíssima advertência, a que pessoa humana alguma pode considerar-se indiferente: os belicistas estão dispostos a ir às últimas consequências, porque sabem do avanço da consciência humana e da inexorável sorte que os espera. Em todos os recantos do globo, hoje, é assim que se considera o crime: dos mais hediondos que a vida política conhece, desde que o homem vive em sociedade – é assim que o devemos considerar. Somos, sem dúvida alguma, os mais ameaçados, e o ministro brasileiro das Relações Exteriores sentiu nos Estados Unidos que esta é a verdade, quando compareceu aos funerais de Kennedy. A máquina de propaganda do aparelho monopolista-militar, ciente das consequências esclarecedoras do assassínio e da reversão contra seus interesses dos resultados, determinou já que o caso seja retirado do noticiário, recolhido ao silêncio, bloqueado por todas as formas. O rumo, agora, é popularizar Johnson, um “texano bonachão” que há de salvar a humanidade das garras dos comunistas. Inicia-se, e não por coincidência, e até com alguma pressa, e demasiada, nova onda e nova campanha contra Cuba e contra a coexistência pacífica. Caberia aos brasileiros, assim, uma parcela na defesa do mundo, do país e da humanidade inteira contra a mais poderosa, desapiedada e fria gang que a história já conheceu.

 

Fonte Hora do Povo

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