Nathaniel Braia: A Flip, o monopólio e a antiliteratura

Nathaniel Braia: A Flip, o monopólio e a antiliteratura

Inteiramente incrustada no processo de colonização a que se dedica a mídia corporativa, monopolizada por uma editora que há anos deixou de ser nacional, a Festa Literária Internacional de Paraty é – a meu ver – o maior evento de antiliteratura e anticultura nacional do país. Ela representa exatamente o oposto do que se pretende. É a demonstração a céu aberto do prejuízo que a ausência do Estado e a consequente monopolização no terreno da literatura traz ao país: o abafamento daquilo que somos capazes de produzir e necessitamos fruir; da necessidade de gestarmos fóruns literários populares e estimular uma produção literária de caráter nacional, na qual siga sendo retratado e se reconheçam os – como diria Graciliano Ramos – "viventes" do Brasil

NATHANIEL BRAIA

Estive na Flip deste ano e resolvi compartilhar algumas questões.

A chamada Festa Literária Internacional de Paraty se dá no Brasil, acontece numa cidade brasileira. A língua predominante, entre os que assistem e compram livros, é o português. Os livros vendidos, idem, o homenageado é um dos nossos maiores escritores, Graciliano Ramos.

Mas a brasilidade para aí.

Para começo de conversa, examinemos a composição. Aquilo que a organização da Flip chama de "os autores", que são os que sobem ao palco da "Festa" para debater.

Dentre estes, os escritores – apesar da Flip se pretender uma festa "literária" – estão presentes em total minoria.

Do nosso imenso Brasil, entre os escritores (contei apenas 8), a maioria (5) é de iniciantes. Nada contra dar vez aos jovens, muito ao contrário, mas é estranho que só haja um autor, em todos os palcos da "Festa", acerca do qual se possa dizer que dedicou a vida à produção literária e produziu um resultado de qualidade: Milton Hatoum.

Além disso, dos cinco iniciantes que se apresentaram, três são colunistas do Globo e um fez seu mais recente livro em parceria com um cartunista da mesma mídia: Laerte. Tudo muito ao gosto da mídia: produtos facilmente vendáveis e logo descartáveis para a apresentação cíclica de novos produtos.

O que há, é uma mistura de ‘autores’, estrangeiros, na maioria. A participação (salvo honrosas exceções), entre os que são apresentados ao público para debater literatura, está dividida entre acadêmicos e colunistas dos jornais da mídia predominante, aqui e nos EUA. Isso se reflete até na cor da pele. São, todos, brancos. Não há na Flip 2013, nem entre os brasileiros, nem entre os estrangeiros, um único negro. Aliás, o único negro permitido nos palcos da Flip 2013, não é exatamente um escritor. É aquele que botaram para cantar que, aliás, já canta para suas gravadoras e perora para defendê-las há muito tempo: Gilberto Gil. A composição do público, idem: classe média alta, branca. Só se via pessoas da raça negra entre os que prestavam serviços gerais.

Dentre os estrangeiros, a total predominância é dos oriundos dos países historicamente colonizadores. Dos 17 estrangeiros contados por mim, 14 vêm da Europa ou dos Estados Unidos. Desses 14, sete são de um único país. Adivinhem qual... Acertaram! Estados Unidos.

Mas alguém há de defender – com relação à ausência de conteúdo nacional – que se trata de uma festa internacional. Mas, nem mesmo esse caráter é garantido. Temos, nessa feira "internacional", um escritor latino-americano, um africano, uma asiática. Sendo que a asiática – uma iraniana – escreve no... New York Times.

O problema é que a Flip se propõe como um grande evento literário e é essa a impressão que fica entre os brasileiros menos atentos, desavisados ou desnorteados pelo aparato midiático, que vão à Flip: de que ela retrata a essência do que se produz e se produziu de importante no Brasil e no mundo.

Não é nada disso.

Os clássicos estão ausentes, a não ser pelo homenageado Graciliano Ramos, colocado naquele deserto da escrita para dar um lustre e para que seu prestígio possa ser devidamente utilizado e imprimir uma falsa aparência de conteúdo nacional. Àquela altura, devia estar ‘se virando na cova’, como diz o dito popular.

Ou seja, os grandes, os verdadeiros escritores, no Brasil, no nosso continente, no mundo em geral, estão ausentes. Será que é porque a sua presença (por conta da comparação com o nível daquilo que é apresentado ao público) incomodaria muito?

À exceção de alguns poucos momentos, como o que reuniu Wander Melo e Lourival Holanda em interessantes observações sobre a obra de Graciliano Ramos, a leitura do trecho de um dos contos do mexicano Juan Pablo Villalobos e a leitura do poema "Jerusalém", do palestino Tamim Barghoutti, da produção nas cidades e povoados da Ásia, da África, da América Latina, povos com os quais percebemos ser necessário aprofundar o conhecimento e o diálogo, se quisermos fortalecer as relações Sul-Sul para nos libertarmos do garrote imperial, a ausência é ensurdecedora.

Mas, não poderia ser de outra forma. Inteiramente incrustada no processo de colonização a que se dedica a mídia corporativa, monopolizada por uma editora que há anos deixou de ser nacional, a Festa Literária Internacional de Paraty é – a meu ver – o maior evento de antiliteratura e anticultura nacional do país. Ela representa exatamente o oposto do que se pretende. É a demonstração a céu aberto do prejuízo que a ausência do Estado e a consequente monopolização no terreno da literatura traz ao país: o abafamento daquilo que somos capazes de produzir e necessitamos fruir; da necessidade de gestarmos fóruns literários populares e estimular uma produção literária de caráter nacional, na qual siga sendo retratado e se reconheçam os – como diria Graciliano Ramos – ‘viventes’ do Brasil.

 

O ESQUEMA

 

Os organizadores montaram, na verdade, uma venda encabrestada dos produtos da empresa à qual a "Festa" atende. O esquema é o seguinte:

1) A Tenda dos Autores e a do Telão onde os que se deslocaram até a Festa assistem aos "debates" com os autores que as editoras querem vender. Ao final das preleções, não há a possibilidade de intervenção dos presentes (que pagam para assistir aos debates). Podem fazer perguntas por escrito, filtradas pela autoridade máxima presente: o mediador indicado pelas mesmas editoras.

2) Na terceira tenda, os livros dos autores-debatedores são vendidos às centenas. O público, induzido a achar que aquilo é o sal da terra em termos de literatura, compra.

3) Os autores são levados às carreiras da tenda do debate para a das vendas, onde se formam filas extensas para um brevíssimo contato com o ungido autor e receber um autógrafo.

4) As empresas de jornalismo enviam sua tropa de redatores e câmeras e repercutem o mesmo "mundo literário" que acontece no terreno, em Paraty, para o resto do Brasil. Com isso, além de produzirem um consumo literário totalmente modista e alienado, ainda aparecem como difusoras de cultura.

5) As livrarias colocam em primeiro plano nas suas estantes e vitrines, os livros badalados na Flip.

Vi uma leitora reagindo a esse esquema em uma livraria na Casa da Cultura de Paraty:

- Este aqui (Aleksander Hemon, um dos escritores badalados na Festa) está muito indicado, muito famoso...

Ou seja, quem deixar de ler aqueles autores que as editoras querem empurrar, está por fora. Não "sabe" acompanhar o creme da literatura.

A propósito, entre os autores apresentados, 37% dos que ocuparam mesas e que já têm obras publicadas no país, são de uma editora, a Companhia das Letras. É quem monopoliza as vendas e concentra o comando das ações da festa. Uma editora que teve 45% de suas ações adquiridas pela Penguin Books, uma das maiores editoras do mundo (eram seis grandes editoras, conhecidas como as Big Six, que açambarcam um elevado percentual do mercado mundial. O nome deixou de retratar o quadro depois que duas das "Six" se fundiram: exatamente a Penguin, que se associou a outra das Big, a Random House. Recentemente, a Penguin foi condenada por formar cartel com a Apple para elevar os preços dos e-books). É ela quem comanda o evento mais divulgado pela mídia no setor.

O resto das mesas é dividido pelas demais dez editoras que participaram da Flip e que, fora a Atica (pertencente à Abril) e a Globo, o fizeram principalmente para não ficarem de fora e não verem suas vendas naufragarem neste vendaval midiático armado em Paraty.

Quanto aos stands, a situação é quase surreal. Há uma casa afastada a serviço de uma das editoras, a Rocco. Quanto às demais – inclusive a Companhia das Letras, nem sinal; nenhum stand, apenas os "autores" no palco.

Há uma "casa" da Globo, outra da Folha e outra ainda dos bancos (Instituto Moreira Sales). Há também os stands do banco Itaú e outro da privatizada CPFL e, por fim, o do BNDES que, assim como tem agido na relação com a indústria, também neste terreno investe para fortalecer o monopólio estrangeiro.

 

DE REPENTE, UMA ANÁLISE DAS MANIFESTAÇÕES

 

Durante a Flip, os organizadores – que seguramente não tiveram a coragem de colocar a questão de antemão – prepararam as chamadas "Mesas Extras", que acabaram acontecendo no sábado à noite.

Em meio à Festa, um lance de prestidigitação barata para tentar passar a visão da mídia sobre as manifestações populares.

Destaco duas mesas: "Da arquibancada à passeata, espetáculo e utopia", é a primeira delas. A mediação coube a Mario Sergio Conti, que conta em seu currículo a editoria da Veja; um dos outros integrantes, Vladimir Safatle, colunista da Folha de SP.

Nesta mesa, o depoimento mais "radical" era o do Safatle. Fez um "diagnóstico das manifestações" e sobre "a máquina falsificada da nossa democracia" – como se a mídia da qual é um dos arautos não fosse o braço mais falsificado da nossa democracia.

Negou a história, as entidades, os partidos. Para ele "esses jovens articuladores das manifestações trabalham num presente absoluto"; não há o respeito por "nenhuma bandeira; nem a UNE".

Questionou – numa reedição surrada das ideias da UDN e de Carlos Lacerda: "quem disse que a corrupção é uma bandeira conservadora?"

É. Pois no caso da direita e da mídia, é uma bandeira que não é para barrar a corrupção, mas para jogar fumaça e passar a principal fatia da corrupção, a grande corrupção (os bancos, os monopólios, o Império de quem é, no mínimo, vassala, quando não propriedade direta).

Também se achou no direito de deitar regras, o norte-americano T.J. Clark que colocou como problema central do nosso povo "o Estado que se alimenta do espetáculo dos alimentos falsos de alegria como a Copa do Mundo em 2014, para ignorar as reivindicações populares". Como se a elevação da autoestima do povo brasileiro no mais prestigiado dos esportes fosse atrapalhar o avanço político, social e intelectual do nosso povo.

Quanto à segunda mesa, "O povo e o poder no Brasil", para debater o que a direção da Flip chamou de "a insatisfação com a classe política", foi indicado como mediador o global William Waack (que o WikiLeaks apontou como informante do governo americano).

Foi aí que a tentativa de sequestrar e dar à mídia a direção da análise das manifestações ficou à mostra. O estudante Gandhi Terra, morador de Paraty, aproximou-se do palco e gritou: "William Waack não representa a luta popular". Uma vaia a Waack percorreu a tenda naquele momento.

Um segurança correu e derrubou Gandhi, que foi retirado do local do debate. Já do lado de fora da tenda, declarou: "Estou protestando porque William Waack é pago pela mídia corporativa, que ajuda a escravizar o povo".

Foi a isto que o curador da Flip, Miguel Conde, chamou de "debate que enriqueceu a Festa".

No dia seguinte tivemos outro momento de lucidez e precisão. Foi quando o escritor Milton Hatoum, chamado – ao participar da mesa Literatura e Revolução – a falar sobre as manifestações (àquela altura sem direção ou demandas definidas e disputadas entre a mídia e o vandalismo) – disse que "há uma insatisfação geral e intensa, mas revolução é outra coisa. É quando uma classe assume o poder no lugar de outra, quando há uma mudança estrutural na sociedade. Estamos no estágio de algumas reivindicações intensas, mas é isso".

 

A AUSÊNCIA

 

Como resultado de tudo isso, não se podia contatar – de verdade – com os escritores brasileiros e muito menos dos países amigos – ou seja, daqueles que, como nós, precisam e lutam para se libertar do jugo imperial e se desenvolver. Por isso, se alguns estavam presentes, circulavam dispersos no conjunto dos consumidores aos quais a mídia quer direcionar, tanto o gosto, quanto as preferências.

Certamente a cultura, muito menos a nossa, não pode, nem está, representada por isso e não cabe ou pode vicejar em meio a este tipo de camisa de força.

Dito isso, vale concluir que a grande ausente da "Festa Literária" é a literatura. Estão ausentes o estímulo aos estudantes, aos jovens, aos trabalhadores, aos profissionais das mais diversas áreas a entrar em contato com a literatura e com os que a produzem e a estudam no Brasil e no mundo, seja em salas de debate, de encontros, de oficinas e trocas de experiências criativas, em coletivas dos principais escritores vivos ao conjunto da imprensa, ou ainda de discussões patrocinadas por revistas literárias, representações das academias de letras, delegações de estudantes das escolas e universidades públicas. Um cenário que não existe, por enquanto, a não ser em nossa imaginação, mas que, com certeza, em breve vamos conquistar.

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