Miguel do Rosário sobre o depoimento de Graça Foster: Um dia alegre para a oposição

 

Jornais, âncoras, coxinhas, reaças, todos acordaram hoje em festa com o desempenho catastrófico de Graça Foster.

Vários leitores tentam jogar a culpa na imprensa, dizendo que ela pinçou uma frase e a descontextualizou. Ora, não sou um blogueiro exatamente simpático à nossa grande mídia. Bater na mídia é o esporte favorito do Cafezinho. Só que não é o caso agora.

Graça Foster foi bem explícita. Ela tirou um revólver do bolso, calmamente. Apontou-o para sua cabeça, diante de todo o país. E ainda falou: “gente, reparem bem o que vou fazer, vou atirar em mim mesma e no governo, ok?” E atirou.

A frase dela sobre Pasadena foi a seguinte:

“Traduzindo: ele não foi um bom negócio. Não foi, definitivamente, um bom negócio. (…) Hoje, olhando aqueles dados, não foi um bom negócio. Não há como reconhecer na presente data que se tenha feito um bom negócio, isso é inquestionável do ponto de vista contábil”.

Ponto.

Ela jogou lenha na fogueira. Disse exatamente o que a oposição e a mídia conservadora queriam ouvir.

Analisar a compra de uma refinaria como Pasadena, a primeira refinaria que a Petrobrás adquire nos Estados Unidos, com um ponto de vista estritamente “contábil” me parece um crime contra a soberania energética nacional.

Sobre Pasadena, a única informação nova dada por Foster foi de que a Astra teria pago, no mínimo, US$ 360 milhões. Ótimo, se somarmos a isso os estoques e as dívidas incorporadas pela Astra, chegamos a quase US$ 500 milhões pagos pela Astra, confirmando as informações que eu já vinha fazendo aqui.

Entretanto, se Graça Foster sabia disso, porque, meu Deus, não publicou essa informação antes no blog da Petrobrás? Por que deixou a Petrobrás ser achincalhada semanas a fio? E por que não publicou documentos relativos a este valor, que aliás falta ser melhor detalhado.

Vale uma recapitulação: fazia parte do planejamento estratégico da Petrobrás, ao menos desde 1999, comprar uma refinaria já pronta nos Estados Unidos.

Até mesmo Adriano Pires, o queridinho da mídia no tema petróleo, defendeu entusiasticamente, em seu blog no Globo, a decisão da Petrobrás de adquirir a refinaria de Pasadena:

A estratégia de comprar refinarias fora do Brasil é a mais adequada para a Petrobras. Pois ao invés de exportar petróleo bruto, a empresa passará a produzir derivados no exterior com o seu petróleo, agregando maior valor e aumentando as receitas em moeda forte. Nesse sentido, a compra de metade da refinaria de Pasadena nos Estados Unidos foi um excelente investimento, pois além de todos os benefícios citados, essa refinaria está localizada no maior mercado consumidor mundial.

Apesar de todos os reparos que eu tenho contra Pires, o seu comentário é lógico. Pasadena está localizada no maior mercado consumidor mundial. É como adquirir uma bar em frente a uma universidade. Faturamento garantido.

O plano da Petrobrás, antes do pré-sal, era processar, em Pasadena, o petróleo pesado produzido em nossas jazidas tradicionais. Em seguida veio o pré-sal, e os planos mudaram. Ora, mas ainda temos déficit de refinaria, e se as circunstâncias mudaram, então mudemos as perspectivas! Os EUA também descobriram petróleo de xisto, ali nas proximidades de Pasadena, sendo este o fator que melhorou sensivelmente as margens de lucros das refinarias americanas.

Apenas nos três primeiros meses deste ano, o Brasil importou US$ 10,4 bilhões em petróleo e derivados. Isso correspondeu a quase 20% das nossas importações totais e foi, de longe, o item que mais contribuiu para o declínio do nosso saldo comercial.

Ou seja, o Brasil depende de importação de petróleo e derivados, em especial de derivados. Essa dependência será reduzida nos próximos anos, por causa da entrada em produção de novos campos do pré-sal; há refinarias em processo de construção; mas tudo isso deve demorar ainda alguns anos e mesmo assim o fundamento do conceito de segurança energética é justamente possuir fontes variadas.

Neste cenário, não entendo a postura de Graça Foster, ou mesmo da presidenta, em relação à Pasadena. Todas as informações que nos chegam são de que se trata de uma refinaria que dá lucro, e que vem operando normalmente, bem perto do limite de sua capacidade máxima. A nota de Pasadena na escala Nelson é bem maior do que a de qualquer refinaria no Brasil.

É surreal. Os tucanos afundam a maior plataforma da Petrobrás, maior do mundo, aliás, dando um prejuízo incalculável ao país, pois interrompeu um grande fluxo de produção. Isso é tranquilo. Aí a Petrobrás compra uma refinaria nos EUA, aumentando a sua capacidade de processamento no exterior em mais de 100 mil barris por dia, e isso é um escândalo.

Tem gente que esquece que o objetivo da Petrobrás não é produzir bons números “contábeis”. É garantir o abastecimento de petróleo e derivados para a economia brasileira. Qualquer ação no sentido de aumentar a produção de petróleo e a oferta de gasolina é mais do que positiva, é cumprir o objetivo para o qual a Petrobrás foi criada.

*

A comunicação falha do governo já não é uma questão apenas política, muito menos eleitoral. Começa a afetar a economia brasileira. Em sua coluna de ontem, o próprio Delfim Neto, em sua coluna de ontem no Valor, diz que a “desconfiança recíproca entre o setor privado empresarial e o poder incumbente (…) gestou um pessimismo exagerado, que tem produzido um crescimento do PIB da ordem de 2% ao ano no último triênio e que, provavelmente, vai se repetir em 2014″. A razão disso, segundo Delfim, seria a “falta de uma comunicação inteligente”.

Gilberto Carvalho, titular da Secretaria-Geral da Presidência da República, admitiu, dias atrás, que o governo falhou na comunicação dos feitos da Copa. E agora o governo fará, às pressas, um trabalho para melhorar a imagem do evento junto à população. Só agora?

O pior é que não é falta de verba. Matéria na Folha de hoje, assinada por Fernando Rodrigues, mostra que os gastos publicitários do governo bateram recorde em 2013. E o que vemos? Que jornais e revistas, que ninguém mais lê, obtiveram mais que o dobro que a internet!

Fonte O cafezinho

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