Maringoni: cortar ou aumentar gastos públicos?

A semana termina de forma bastante positiva para quem vê as manifestações e protestos como impulsionadores da democratização da sociedade. Destaco os seguintes pontos, listados a seguir:


1. A pauta progressista (mais serviços, mais Estado) se impôs nas ruas sobre a agenda regressista (menos impostos, maioridade penal, fim do bolsa-família, fora Dilma etc). As mobilizações entraram no viés de baixa, motivado principalmente pelas vitórias espetaculares na redução nacional das tarifas e - em SP - dos pedágios. Até segunda ordem, parece que os preços dos públicas foram congelados. Claro que os governantes farão malabarismos fiscais para tirar verbas de outras áreas, mas o sinal geral é alentador. Com isso, persiste o quadro de mobilização em cima da melhoria dos serviços públicos;

2. Essa pauta tende a romper os limites da justiça social traçada nos governos Lula, fundamentais e expressivos, mas ainda restritos a ganhos na esfera do consumo individual (emprego, renda, crédito, consumo etc.). Ou seja, não são pequenos os avanços dos últimos dez anos, mas são insuficientes para as carências imensas da população. A batalha agora é por direitos sociais universais;

3. A pesquisa Datafolha sacramenta o que o governo - em suas pesquisas internas - já sabia. Acabou o encanto. Embora a queda não tenha aumentado a desaprovação ao governo (o ótimo é bom migrou para o regular) o traço principal é o quadro tendencial de queda da popularidade. Isso abrirá um longo contencioso na base aliada (o PMDB elevará o preço do apoio e os setores evangélicos ameaçam desembarcar). Pode haver um quadro semelhante à segunda metade do governo Sarney, se a iniciativa governamental não se consolidar;

4. A iniciativa governamental – de momento – entrou na agenda, sob a forma do plebiscito. Todos os atores políticos – governo, Congresso, mídia, empresariado e população - se movem em torno dessa proposta;

5. Aqui a disputa é se teremos plebiscito (consulta prévia) ou referendo (consulta para sacramentar o que o Congresso decidir). A segunda proposta é vocalizada pela direita.

6. Há um problema na pauta presidencial que é a disjuntiva cortes (responsabilidade fiscal) versus gastos (plebiscito e serviços públicos).Paulo Kliass e André Singer apontaram o problema. Dilma aqui age como Lula, que, diante de um dilema, tenta colocar o pé em duas canoas. Esta é a principal limitação da agenda presidencial. Como a situação se radicalizou, essa característica do lulismo está em xeque;

7. Com isso, açulam-se as pretensões sucessórias de Aécio, Eduardo Campos e Marina, que tentarão capitalizar o descontentamento. Pequeno problema: eles também são vidraças (menos Marina) e não sabem ainda (incluindo Marina) como canalizar a força das ruas. A negação aos políticos os atinge também;

8. A principal reunião de Dilma nesta semana, com as centrais sindicais, acabou em anticlímax. Ela falou da agenda oficial e não quis saber da pauta trabalhista. Problema a ser resolvido;

9. A agenda de 2014 está oficialmente aberta. Mas até lá há um oceano a ser atravessado. Afinal, em duas semanas a conjuntura do país foi colocada de pernas para o ar. Quem se movimentar agora pensando somente nas eleições do ano que vem pode se dar mal. Há questões imediatas a serem resolvidas e a pauta oficial é - até agora - a pauta sobre a qual os diversos atores se movimentam. Isso é o que faz a direita parlamentar (PSDB, DEM e PPS) acusarem o golpe em nota lançada há alguns dias;

10. A mídia, nesse clima, também irá radicalizar pela direita (nisso conta com auxílio de setores governistas, como o inigualável ministro Paulo Bernardo). Basta vermos as edições das semanais e dos jornalões, tentando impor sua pauta ao movimento, tentando dirigir até mesmo as candidaturas de direita.

11. O mais importante de é que reabriu-se para o povo a agenda política no país. Como diria o Barão de Itararé, “Tudo pode acontecer, inclusive nada”. Apostemos as fichas no “tudo”.

 

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