Mais um confirma que Petrobrás foi vítima de propinoduto por anos

Júlio Camargo, da multinacional japonesa Toyo, confirma o que Paulo Roberto Costa  e Alberto Yussef já revelaram e traz novas informações do esquema de propinas

Mais uma testemunha complica ainda mais a situação do governo ao confirmar o esquema de propina envolvendo ex-diretores da Petrobrás. Júlio Camargo, executivo da multinacional japonesa Toyo Setal, que teve seu nome citado pelo ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, assinou acordo de delação premiada, confirmou o pagamento de propinas para diretores da estatal e disse que os recursos abasteciam os "agentes políticos". A Toyo Setal, filial de uma empresa japonesa, a Toyo Engineering, também decidiu colaborar, como empresa, com as investigações como forma de reduzir as punições que certamente serão impostas a ela pela Justiça brasileira.

As denúncias de Camargo reforçam as informações já dadas por Paulo Roberto Costa e Alberto Yusseff à Justiça sobre o esquema criminoso que assaltava a Petrobrás. O executivo da Toyo, que concordou em devolver R$ 40 milhões desviados da estatal, confessou ao Ministério Público que a empresa pagou propina para obter contratos. Três empresas controladas pelo executivo (Treviso, Piemonte e Auguri) repassaram R$ 13,4 milhões à GFD Investimentos, firma de fachada em nome do doleiro Alberto Youssef. O diretor da multinacional confirmou as denúncias de Paulo Roberto e Alberto Yusseff envolvendo entre outros o nome do ex-diretor da Petrobrás, Renato Duque, como um dos operadores do "esquema" do PT. Duque era diretor de Engenharia e Serviços da Petrobrás e participava, segundo os depoentes, das licitações de diversas obras, entre elas, as do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

A Toyo, que tem contratos de R$ 4 bilhões com e Petrobrás, e seu executivo, Julio Camargo, apareceram em uma planilha que a PF apreendeu na casa de Paulo Roberto Costa. O documento indicava contribuições de Camargo a partir de março de 2010, provavelmente para a campanha eleitoral daquele ano. Temendo ser preso a qualquer momento, Camargo resolveu procurar o Ministério Público e contar tudo o que sabe. Seu relato confirma totalmente a existência do cartel das construtoras sugando a Petrobrás. O grande conluio já havia sido revelado por Paulo Roberto, um dos operadores do esquema e pelo doleiro Alberto Yusseff, responsável pela "internalização" dos recursos repassados pelas empresas no exterior.

Na campanha eleitoral de 2010, Júlio Camargo ficou entre os maiores doadores de pessoa física. Ele doou um total de R$ 1,12 milhão para candidatos ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Entre os beneficiários de suas contribuições estavam o então candidato a senador do PT do Rio ,Lindbergh Farias, que ficou com R$ 200 mil e Delcídio Amaral (PT-MS) que teria recebido R$ 100 mil.

As empresas controladas por Camargo recebiam aportes de empresas de fachada do doleiro Alberto Youssef, alvo da Operação Lava Jato. Por isso a PF chegou até o executivo da empresa japonesa. No fluxograma do dinheiro movimentado por Youssef na GFD Investimentos (um total de R$ 78 milhões) de janeiro de 2009 a dezembro de 2013 a Piemonte colocou R$ 8,5 milhões. A Treviso repassou R$ 4,4 milhões. A PF desconfiou que esse dinheiro era distribuído a deputados e senadores. Camargo confirmou as suspeitas da PF e deu mais detalhes das operações envolvendo os diretores Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Nestor Cerveró e os chamados "agentes políticos".

O atual Diretor de Abastecimento da Petrobrás, João Carlos Cosenza, que substituiu Paulo Roberto Costa, disse na quarta-feira (29), em depoimento prestado à CPI que investiga o esquema de propinas na estatal, que não sabia de nada e que nunca tinha se encontrado com o ex-diretor, mas, alertado por um parlamentar, que "mentir na comissão seria considerado crime", voltou atrás e confessou que esteve "cinco vezes" com seu antecessor. Matéria do Estadão, de maio deste ano, também confirma que o deputado processado Luiz Argolo (SDD-BA) tentou agendar reunião do doleiro Alberto Yusseff com Consenza.

Se já haviam muitos pontos em comum entre os depoimentos de Costa e Yusseff, as afirmações do executivo da multinacional japonesa confirmam cabalmente a veracidade dessas informações. Os dois já haviam revelado que as empresas do "cartel" pagavam as propinas e eram praticamente as únicas a receber obras da Petrobrás. Eles detalharam ainda que o "cartel" praticava sobrepreços. Ou seja, sempre ofereciam preços que ficavam próximos da faixa superior determinada pelos licitantes da Petrobrás.

Além disso, segundo os depoimentos, as empresas participantes do esquema acrescentavam sempre um percentual a mais de 3% nos preços. Esse valor deveria ser repassado aos diretores das áreas, que nesta época representavam os interesses do PT, do PP e do PMDB na Petrobrás. Tanto Paulo Roberto quanto Yusseff deram muitos detalhes desse esquema que envolvia quantias milionárias desviadas da estatal. Informaram nomes, hora e local onde o dinheiro era repassado. E o dinheiro, pelo visto, não era só para regar os esquemas políticos. Haja visto a quantia que os próprios depoentes estão se dispondo a devolver. Só Paulo Roberto vai devolver R$ 70 milhões e Júlio Camargo outros R$ 40 milhões. Essa é apenas a pequena parte que ficou com eles.

SÉRGIO CRUZ
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Governo se cala, mas a sociedade cobra explicações sobre o esquema

Durante o período em que todo esse esquema criminoso agia solto dentro da Petrobrás (2005-2012), superfaturando as obras e desviando recursos públicos dos cofres da empresa, a presidente Dilma Rousseff, que jura de pés juntos não saber de nada, era nada menos que a presidente do Conselho Administrativo da estatal – ela ficou no cargo até assumir a presidência em 2011. Estranhamente, a presidente não achou nada de errado. E também não achou importante perguntar aos "companheiros" de onde vinham as quantias milionárias que jorraram nas suas candidaturas de 2010 e 2014. A verdade é que está cada vez mais difícil sustentar a versão oficial sobre esse escândalo na Petrobrás.

A partir de agora a sociedade brasileira espera que sejam dados esclarecimentos convincentes por parte do governo sobre todos esses acontecimentos que estão vindo à tona. Os depoimentos revelam um assalto de grandes proporções aos cofres da Petrobrás. Uma verdadeira rapina nos recursos da principal empresa brasileira. As informações que vinham sendo prestadas por Paulo Roberto Costa e Alberto Yusseff, informações estas que se complementavam, agora são totalmente reforçadas e confirmadas nos mínimos detalhes pelas declarações de Júlio Camargo. E esse é apenas o primeiro acordo de delação premiada de um executivo de uma empresa envolvida. Muitas outras empresas acabarão tomando o mesmo caminho seguido pela multinacional japonesa.

 

S. C.
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