Khair: Mais um fracasso em perspectiva

 
Com a aproximação do fim do ano as análises econômicas e o governo fazem o balanço dos resultados do ano e traçam perspectivas para 2014. A diferença entre a visão do governo e a capitaneada pelo mercado financeiro é que o primeiro pinta um céu de brigadeiro e o segundo vai ao extremo de alardear o pomposo nome de tempestade perfeita, que é a combinação do início da redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos com o rebaixamento da classificação de risco da dívida brasileira.
 
O governo aposta no crescimento de 4% e de forma geral as previsões que vão sendo divulgadas apontam para 2% à semelhança do que vem ocorrendo neste ano. Se isso se confirmar o governo Dilma pode ficar marcado por sério fracasso de sua política econômica e não poderá por a culpa no cenário externo, pois no período 2011 a 2013, quando o País cresceu em média 2% por ano, os países emergentes cresceram à taxa de 5,3% e o mundo 3,3%.
 
Causas do fracasso – Algumas análises defendem que se exauriu o modelo adotado pelo governo desde 2004 de estimular o consumo, e que para retomar o crescimento se torna necessário inverter, passando o estímulo para o lado da oferta na ampliação dos investimentos. Cravam a necessidade de atingir 22% do Produto Interno Bruto (PIB) nos investimentos para conseguir crescimentos de 5% ao ano. Essas análises priorizam o investimento e, para eles crescerem é necessário poupar, e para aumentar a poupança é necessário conter a expansão do consumo.
 
O governo parece que comprou essa tese e, incomodado com a falta de êxito na condução da economia passou a defender a necessidade de crescer os investimentos, lançando o pacote de concessão ao setor privado nos modais de transporte rodoviário, ferroviário, portuário e aeroportuário, procedendo a leilões visando atrair o capital privado para reduzir os estrangulamentos da infraestrutura e logística, considerados como barreiras ao bom funcionamento da atividade econômica.
 
Apesar dessa mudança essas análises ainda cobram do governo ações mais favoráveis à atração do capital privado, como taxas de retorno maiores. Aos poucos o governo vai seguindo nessa direção procurando atenuar as críticas de que tem sido hostil ao capital privado.
 
Vale notar, também, que diante de críticas à expansão da Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, o governo começou a refrear essa expansão, em sintonia com o que fazem os bancos privados, que desde a crise pouco expandem o crédito para manter elevada a taxa de juros às pessoas e empresas.
 
A política de desonerações da folha de pagamento, acabando com a quota patronal, às expensas da Previdência Social, é mais um exemplo da tentativa de ampliar a oferta da economia através de redução de custos da mão de obra.
 
Vejo, diferentemente dessas análises e da praticada atualmente pelo governo, duas causas centrais do fracasso do crescimento. Uma delas é a falta de retirada do freio imposto pelo sistema financeiro ao consumo. Vale destacar que a taxa de juro da economia (não confundir com a Selic) para a compra financiada em doze vezes gira no entorno de 90%, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), desde outubro do ano passado. É nove vezes a praticada pelos países emergentes e trinta vezes a dos países desenvolvidos. Esse é o principal freio da economia.
 
O Brasil continua sendo o paraíso da agiotagem com a complacência, porque não dizer apoio, do governo. A presidente tentou em abril do ano passado pressionar os bancos privados a reduzirem suas taxas, mas como pouco se mexeram – e provavelmente contando com a falta de continuidade da pressão da presidente –, voltaram rapidamente à prática anterior à pressão inicial.
 
Vale, no entanto, considerar que, apesar desse freio, o consumo das famílias ainda é o carro chefe do crescimento, sendo responsável por 70% do crescimento do PIB desde 2009 até 2012. Mas se cresceu esse consumo, afinal porque não cresceu na mesma proporção o PIB? Pela simples razão que o adicional de consumo foi preferencialmente atendido pelo produto importado e aí vale destacar a questão do câmbio, a segunda causa do fracasso.
 
Câmbio – Desde 1980 o câmbio real, que exclui a inflação no Brasil e nos Estados Unidos, expresso em valores de junho deste ano mostra: a) clara tendência histórica de apreciação cambial (valorização do real perante o dólar); b) depois de atingir R$ 4,30/US$ em 2002 cai  seguidamente até 2011, quando se verifica a mínima histórica de R$ 1,83/US$ e; c) o nível atual de R$ 2,30/US$ é bem inferior à média histórica de R$ 3,63/US$.
 
Essa posição cambial artificial é devida à política adotada desde o Plano Real para combater a inflação ao baratear o produto importado. A via de obtenção desse câmbio artificial se dá pela atração de dólares para o País pela convidativa oferta de taxa básica de juro muito acima da praticada internacionalmente.
 
O presente dado pelo governo ao capital especulativo internacional rouba do País anualmente a média de US$ 10 bilhões em juros (média desde 1980). Neste ano até setembro, com a retirada do IOF pelo governo, os investimentos estrangeiros em carteira (especulativos) atingiram US$ 26,7 bilhões. Essa avalanche só perde para o ocorrido em 1994 (Plano Real) com US$ 46,8 bilhões e 2010 com US$ 30,1 bilhões.
 
 
É triste para não dizer trágica essa política praticada pelo governo para controlar a inflação. Creio que mais um fracasso para o crescimento vai se delineando para 2014 caso não mude essa monótona, ineficaz e destrutiva política econômica. A conferir.

 

Amir Kahir

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