Imprensa abordou “mensalão” de forma denunciativa, aponta pesquisa da ECA

Imprensa abordou “mensalão” de forma denunciativa, aponta pesquisa da ECA

Lara Deus / Agência USP de Notícias

O tratamento dado por veículos impressos ao escândalo político-midiático “mensalão” foi tema de uma dissertação de mestrado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O jornalista Eduardo Nunomura comparou a cobertura do caso, marcante no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com o escândalo do “grampo do BNDES” e “dossiê Caymann”, que ocorreram sob o mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC). As conclusões apontam que o jornal Folha de S.Paulo manteve sua criticidade em ambos os casos, não deixando de denunciar e noticiar, enquanto a revista Veja poupou o governo de FHC das acusações no caso de 1998/99.

Os dois veículos estudados utilizaram, no caso do “mensalão”, um recurso que o jornalista chamou de “denunciação antecipada”. Ela ocorre quando a imprensa faz investigações por conta própria publicando diversas denúncias ainda não avaliadas pelas instâncias jurídicas, mas já com um viés de condenação pública. “Primeiro, ela denuncia, depois, se for verdade, ela vai trabalhar para reforçar a história”, explica Nunomura. Percebeu-se também que a Folha diminuiu o teor de denúncia em suas páginas quando o caso do “mensalão mineiro” eclodiu. Isso ocorreu, segundo o jornalista, porque era difícil sustentar a narrativa em torno de apenas um personagem, pois havia indícios de que membros do partido de oposição a Lula, o PSDB, se corrompiam da mesma forma que foram acusados os envolvidos no “mensalão” de 2005.

Uma das conclusões principais da pesquisa é que enquanto a Folha de S. Paulo noticiou de forma crítica também os casos do “grampo do BNDES” e “dossiê Caymann”, denunciando o envolvimento de FHC, quanto o do “mensalão”, a Veja, no caso de 1998 e 1999, se esforçou para não vincular o nome do ex-presidente tucano à fraude. Já em meio às denúncias de 2005, a revista se posicionou como um veículo de comunicação claramente contra o governo do ex-presidente Lula, chegando a abdicar de sua objetividade nas matérias jornalísticas. Nos períodos dos escândalos, a cada chamada positiva da revista sobre FHC havia 2 negativas, enquanto que esta proporção resultou 25 para o escândalo de Lula. “Os jornais em geral limitam muito a parte opinativa para os editoriais, para a parte de opinião e seus colunistas. Na Veja você vê as opiniões transbordando das páginas editoriais para as páginas de reportagens”, diz Nunomura.

Personagens

Outra constatação da pesquisa é que Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) era o personagem principal do escândalo do governo de FHC, enquanto no “mensalão”, o personagem era o próprio presidente Lula, cujo envolvimento não foi provado. “Tudo que se falava do José Dirceu era para dizer que ele era o braço direito do Lula”, exemplifica o jornalista. Ele ainda explica que “o escândalo político-midiático tende a personalizar a história, encontrar um personagem”.

A pesquisa

O objetivo inicial do estudo, no ano de 2011, era entender o papel da imprensa no governo Lula, pois “os anos Lula foram muito importantes para o Brasil e podem ser estudados de várias formas e, do ponto de vista da comunicação, era pouco observado”, ressalta o jornalista. Para obter conclusões mais abrangentes, porém, ele optou por comparar com o papel dos veículos selecionados na cobertura de um escândalo político-midiático do governo de Fernando Henrique Cardoso, antecessor e adversário de Lula. Então, Nunomura selecionou como objeto de sua pesquisa os dois veículos para analisar os “grampos do BNDES” e “dossiê Caymann”, do governo FHC, e o “mensalão”, do governo Lula, fazendo uma uma dupla comparação, pois havia duas publicações e dois escândalos em pauta. O jornal e a revista foram escolhidas por serem os maiores de seu ramo, em termos de circulação. Foram analisados apenas os emissores de conteúdo, pois o foco do estudo não era entender o impacto do noticiário nos receptores ou na opinião pública.

Além da análise qualitativa, o jornalista optou por também fazer uma análise quantitativa para ser menos influenciado pela subjetividade. Assim, ele fez contagens das reportagens de capa que fazia menção aos escândalos midiáticos e também das respectivas reportagens internas, calculou a porcentagem de manchetes positivas e negativas, as principais fontes de informação, quem os veículos responsabilizavam pela crise política e fez tudo isso comparando os dados de um governo com os do outro. “Temos de tirar um pouco esse clima de torcida no campo político e também no das comunicações. Nas pesquisas, é onde podemos procurar ter mais embasamento para não cometer deslizes”, completa Nunomura.

O estudo resultou na dissertação de mestrado O mensalão impresso: o escândalo político-midiático do governo Lula nas páginas de Folha e Veja, defendida em dezembro de 2012 na ECA.

Mais informações: email nunomura@gmail.com, com Eduardo Nunomura

 

Lara Deus / Agência USP de Notícias

 

 

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