Ha-Joon Chang: A maior ‘estabilidade macroeconômica’ não tornou a economia mais estável

O artigo de hoje, do economista Ha-Joon Chang, especialista em Economia do Desenvolvimento e professor da Universidade de Cambridge, é um capítulo de seu livro "As 23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo", da Editora Cultrix, publicado no Brasil em 2010. Nele o autor desmascara a ‘falácia" da estabilização macroeconômica como "condição" para o desenvolvimento das nações, defendida com unhas e dentes pelos economistas ligados a bancos. Segundo o autor, em seu instigante combate aos diversos dogmas e patifarias neoliberais, o que ocorre mesmo nesta condição não é estabilização econômica nenhuma, mas sim a "estabilização" dos juros em patamares lunáticos, enquanto a instabilidade passa a imperar em todos os setores da sociedade.

O autor não é marxista e faz questão de dizer que não é contra o atual sistema econômico. Sua opinião é que "há excessos" na atuação dos bancos e monopólios privados, mas que eles "devem e podem ser corrigidos". Talvez, por conta desta concepção, ele cometa algumas imprecisões no artigo ao se referir ao caráter e ao comportamento político de alguns chefes de Estado, em sua luta contra o imperialismo. No entanto, a extrema precisão com que ele detona as "teses" que procuram dar um ar de ciência e de verdade à criminosa rapinagem das nações e dos povos pelo imperialismo compensa de longe essas raras incorreções.

É dele também o excelente livro "Chutando a Escada", que desmoraliza - com muitas informações e dados importantes - a hipocrisia das grandes potências que, em seus estágios iniciais de desenvolvimento, praticaram o protecionismo intensamente e, depois, quando atingiram a maturidade e conquistaram a hegemonia econômica, passaram a impor proibições a que outros países se utilizassem desses mesmos métodos para se desenvolver. Ha-Joon conclui que o cinismo dos dirigentes desses países fez com que alguns deles se tornassem os paladinos do "livre mercado" e da "livre concorrência". Vale a pena conferir.

Sérgio Cruz

 

 

A maior ‘estabilidade macroeconômica’ não tornou a economia mais estável

 

O que eles dizem

 

Até a década de 1970, a inflação era o inimigo público número um. Muitos países sofriam com experiências desastrosas de hiperinflação. Mesmo quando uma magnitude hiperinflacionária não era alcançada, a instabilidade econômica causada por uma inflação alta e flutuante desestimulava o investimento e, portanto, o crescimento. Por sorte, o monstro da inflação foi exterminado na década de 1990, graças a atitudes mais rigorosas com relação aos déficits orçamentários do governo e à crescente introdução de bancos centrais politicamente independentes que são livres para se concentrar unilateralmente no controle da inflação. Considerando-se que a estabilidade econômica é necessária para o investimento a longo prazo e, portanto, para o crescimento, a subjugação da fera chamada inflação assentou a base para uma maior prosperidade a longo prazo.

O que eles não dizem

A inflação pode ter sido subjugada, mas a economia mundial tornou-se consideravelmente mais instável. A proclamação entusiástica do nosso sucesso ao controlar a volatilidade dos preços nas três últimas décadas não deu atenção à extraordinária instabilidade exibida pelas economias ao redor do mundo nessa ocasião. Houve um número enorme de crises financeiras, entre elas a crise financeira mundial de 2008, que destruiu a vida de muitas pessoas por meio do endividamento pessoal, da falência e do desemprego. O foco excessivo na inflação distraiu a nossa atenção de questões como o pleno emprego e o crescimento econômico.

O emprego se tornou mais instável em nome da "flexibilidade do mercado de trabalho", o que desestabilizou a vida de muitas pessoas. Apesar da afirmação de que a estabilidade dos preços é a precondição para o crescimento, as políticas que tencionavam reduzir a inflação produziram apenas um crescimento anêmico a partir da década de 1990, época em que a inflação foi supostamente subjugada.

É lá que está o dinheiro - está mesmo?

Em janeiro de 1923, tropas francesas e belgas ocuparam a região do Ruhr, na Alemanha, conhecida pela sua produção de carvão e aço. Isso aconteceu porque, em 1922, a Alemanha atrasou seriamente os pagamentos de indenização que estavam obrigados a fazer pelo Tratado de Versalhes, assinado na conclusão da Primeira Guerra Mundial.

Se queriam mais dinheiro, contudo, os franceses e os belgas deveriam ter tomado os bancos - afinal de contas, "é lá que está o dinheiro", como supostamente teria declarado o famoso assaltante de bancos americano Willie Sutton, quando lhe perguntaram por que ele assaltava bancos - em vez de ocupar um punhado de minas de carvão e usinas de aço. Por que não fizeram isso? Porque estavam preocupados com a inflação alemã.

A partir do verão de 1922, a inflação na Alemanha começara a ficar descontrolada. O índice do custo de vida subiu 16 vezes em seis meses no segundo semestre de 1922. É claro que a hiperinflação era causada pelo menos em parte pelas onerosas indenizações exigidas pelos franceses e pelos belgas, mas depois que ela começou, a ocupação do Ruhr pelos franceses e belgas a fim de garantir que receberiam o pagamento das indenizações de guerra em mercadorias, como carvão e aço, e não em um papel inútil, cujo valor diminuiria rapidamente, foi uma atitude completamente racional.

Eles acertaram ao fazer isso. A inflação alemã ficou totalmente descontrolada depois da ocupação do Ruhr, com os preços aumentando mais de dez bilhões de vezes (isso mesmo, bilhões, não milhares ou mesmo milhões) até novembro de 1923, quando foi introduzido o Rentenmark, a nova moeda.

A hiperinflação alemã deixou marcas enormes e duradouras na evolução da Alemanha. Alguns afirmam, justificadamente, que a experiência da hiperinflação assentou a base para a ascensão dos nazistas por ter desacreditado as instituições liberais da República de Weimar. Aqueles que adotam essa perspectiva estão então implicitamente, dizendo que a hiperinflação da década de 1920 na Alemanha foi uma das principais causas da Segunda Guerra Mundial.

O trauma alemão causado pela hiperinflação foi tão grande que o Bundesbank, o banco central da Alemanha Ocidental, depois da II Guerra Mundial, ficou famoso pela sua aversão excessiva a uma política monetária flexível. Mesmo depois da criação da moeda única europeia, o euro, e a conseqüente extinção de fato dos bancos centrais nacionais nos países da zona do euro, a influência da Alemanha fez com que o Banco Central Europeu (BCE - European Central Bank) aderisse a uma rígida política monetária mesmo diante de um desemprego persistentemente elevado, até que a crise financeira mundial de 2008 obrigou-o a se juntar a outros bancos centrais ao redor do mundo em um relaxamento sem precedente da política monetária.

Portanto, quando falamos sobre as consequências da hiperinflação alemã, estamos falando a respeito de uma onda de choque que já dura quase um século depois do acontecimento e vem afetando não apenas a Alemanha, mas também a história de outros países da Europa e no mundo.

O quanto a inflação é prejudicial?

A Alemanha não é o único país que passou pela experiência da hiperinflação. Na imprensa financeira, a Argentina tornou-se sinônimo de hiperinflação nos tempos modernos, mas a taxa de inflação mais elevada que ela teve foi apenas de aproximadamente 20.000%. Pior do que a alemã foi a inflação húngara logo depois da Segunda Guerra Mundial e a do Zimbábue em 2008 nos últimos dias da ditadura do Presidente Robert Mugabe (hoje ele divide o poder com a antiga oposição).

A hiperinflação debilita a base do capitalismo, transformando os preços de mercado em ruídos inexpressivos. No auge da inflação húngara em 1946, os preços duplicavam a cada quinze horas, enquanto haviam duplicado a cada quatro dias nos piores dias da hiperinflação alemã de 1923. Os indicadores de preços não devem ser guias absolutos, como argumento ao longo de todo este livro, mas é impossível ter uma economia satisfatória quando os preços aumentam com essa velocidade. Além disso, a hiperinflação é com frequência o resultado ou a causa de desastres políticos, como Adolf Hitler ou Robert Mugabe. É extremamente compreensível que as Pessoas desejem desesperadamente evitar a hiperinflação.

No entanto, nem toda inflação é hiperinflação. Naturalmente, existem pessoas que temem que qualquer inflação, se ignorada, aumentará e se transformará em uma hiperinflação. No início do milênio, por exemplo, o Sr. Masaru Hayami, presidente do banco central do Japão, ficou famoso ao se recusar a afrouxar o suprimento de dinheiro com a justificativa de que estava preocupado com a possibilidade de uma hiperinflação - apesar do fato de o país estar na ocasião no meio de uma deflação (preços em queda). Mas, não existe nenhuma evidência de que isso seria inevitável ou mesmo provável. Ninguém argumentaria que a hiperinflação é desejável, ou até mesmo aceitável, mas é altamente questionável afirmar que toda inflação é nociva, seja qual for a taxa.

A partir da década de 1980, os economistas que defendem o livre mercado conseguiram convencer o resto do mundo de que a estabilidade econômica, que eles definem como uma inflação muito baixa (idealmente zero), deveria ser alcançada a todo custo, já que a inflação é nociva para a economia. A inflação-alvo recomendada por eles tem sido algo em torno de 1 a 3% ao ano, como sugerido por Stanley Fischer, ex-professor de economia do MIT e economista principal do FMI de 1994 a 2001.

Entretanto, não existe efetivamente nenhuma evidência de que, em níveis baixos, a inflação seja prejudicial à economia. Por exemplo, até mesmo estudos realizados por alguns economistas vinculados a instituições como a University of Chicago e o FMI indicam que, quando menor do que 8 a 10% ao ano, a inflação não tem nenhum relacionamento com a taxa de crescimento de um país. Outros estudos até mesmo elevam esse limite, colocando-o em de 20 a 40% ao ano.

A experiência isolada de cada país também sugere que uma inflação relativamente elevada é compatível com um rápido crescimento econômico. Durante os anos de 1960 e 1970, o Brasil teve uma inflação anual média de 42%, mas foi uma das economias mundiais que cresceram mais rápido, com a renda per capita aumentando 4,5% ao ano. Nesse mesmo período, a renda per capita da Coreia do Sul estava aumentando 7% ao ano, apesar de apresentar uma taxa de inflação media anual de quase 20%, que era na verdade superior à encontrada em muitos países latino-americanos na época. Além disso, há indícios de que políticas anti-inflacionárias excessivas podem na realidade ser prejudiciais à economia.

Desde 1996, quando o Brasil, por ter passado por uma fase traumática de inflação acelerada, embora não exatamente de magnitude hiperinflacionária, começou a controlar a inflação elevando as taxas de juros reais (as taxas de juros nominais menos a taxa de inflação) para níveis que estão entre os mais altos do mundo (10 a l2% ao ano), a sua inflação caiu para 7,1% ao ano, mas o crescimento econômico também sofreu, pois a sua taxa de crescimento da renda per capita foi de apenas l,3% ao ano. A África do Sul também passou por uma experiência semelhante a partir de 1994, quando começou a conferir uma alta prioridade ao controle da inflação elevando as taxas de juros aos níveis brasileiros que acabo de mencionar.

Por que isso acontece? Porque as políticas que visam reduzir a inflação na realidade reduzem os investimentos e, portanto, o crescimento econômico, se levadas longe demais. Os economistas que defendem o livre mercado frequentemente tentam justificar a sua rígida atitude contra a inflação argumentando que a estabilidade econômica incentiva a poupança e o investimento, o que, por sua vez, estimula o crescimento econômico. Assim, ao tentar argumentar que a estabilidade macroeconômica, definida em função de uma inflação baixa, foi um fator fundamental no rápido crescimento das economias do Leste Asiático (uma proposição que na verdade não se aplica à Coreia do Sul, como acabamos de ver), o Banco Mundial argumenta no seu relatório de 1993: "A estabilidade macroeconômica estimula o planejamento e o investimento privado a longo prazo e, por intermédio do seu impacto sobre as taxas de juros reais e o valor real dos ativos financeiros, ajudou a aumentar a poupança financeira". No entanto, a verdade é que as políticas necessárias para reduzir a inflação a um nível muito baixo, de um único algarismo, desestimulam os investimentos.

Taxas de juros reais de 8, 10 ou l2% ao ano significam que os investidores em potencial não considerariam atrativos os investimentos não financeiros, já que poucos desses investimentos têm taxas de lucros superiores a 7%. Nesse caso, os únicos investimentos lucrativos são os ativos financeiros com retorno elevado de alto risco. Embora os investimentos financeiros possam impulsionar o crescimento durante algum tempo, esse crescimento não pode ser sustentado, pois esses investimentos precisam no final estar respaldados por investimentos viáveis a longo prazo em atividades do setor real, como foi incisivamente demonstrado pela crise financeira de 2008.

Portanto, os economistas que defendem o livre mercado deliberadamente se aproveitaram dos receios justificados das pessoas com relação a hiperinflação a fim de pressionar a implantação de políticas anti-inflacionárias exageradas, que causam mais mal do que bem. Isso já é ruim o bastante, mas se torna ainda pior. As políticas anti-inflacionárias não apenas prejudicaram o investimento e o crescimento, como também deixaram de atingir o seu suposto objetivo, ou seja, aumentar a estabilidade econômica.

Desde os anos 1980, mas especialmente a partir dos anos 1990, o controle da inflação tem estado no topo da agenda política de muitas nações. Foi recomendado com insistência aos países que refreassem os gastos públicos para que os déficits do orçamento não alimentassem a inflação. Eles também foram incentivados a tornar o banco central politicamente independente, para que ele pudesse elevar as taxas de juros para níveis bem altos, se necessário contra o protesto popular, algo a que os políticos não conseguiriam resistir.

A luta foi longa, mas o monstro chamado inflação foi subjugado na maioria dos países em anos recentes. De acordo com dados do FMI, entre 1990 e 2008, a taxa média de inflação caiu em 97 de 162 países, em comparação com as taxas das décadas de l970 e 1980. O combate à inflação foi particularmente bem sucedido nos países ricos: a inflação caiu em todos eles. A inflação média nos países da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (cuja maioria é rico, embora nem todos os países ricos façam parte da OCDE) caiu de 7,9% para 2,6% entre os dois períodos (décadas de 1970 e 1980 versus décadas de 1990 e 2000). O mundo, especialmente se você vive em um país rico, ficou mais estável - ficou mesmo? O fato é que o mundo ficou mais estável somente se encararmos a inflação baixa como o único indicador da estabilidade econômica, mas ele não se tornou mais estável na maneira como a maioria de nós o vivencia.

Um dos sentidos no qual o mundo se tornou mais instável ao longo das três décadas de dominância do livre mercado e fortes políticas anti-inflacionárias é a crescente frequência e extensão das crises financeiras. De acordo com um estudo de Kenneth Rogoff, um ex-economista principal do FMI e hoje professor da Harvard University e Carmen Reinhart, professora da University of Maryland, praticamente nenhum país se encontrava em uma crise bancária entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1970, quando o mundo era muito mais instável do que hoje, quando avaliado pela inflação. Entre meados dos anos 1970 e o final dos anos 1980, quando a inflação se acelerou em muitos países, a proporção de países com crises financeiras aumentou para 5 a 10%, influenciada pela sua participação na renda mundial, aparentemente confirmando a visão do mundo centrada na inflação. No entanto, a proporção de países com crises bancárias subiu de repente para cerca de 20% em meados dos anos 1990, quando supostamente havíamos subjugado o monstro chamado inflação e atingido a meta evasiva da estabilidade econômica. Essa proporção caiu então por um breve período para zero em meados da década de 2000, mas subiu novamente para 35% depois da crise financeira mundial de 2008 (e está propensa a subir mais ainda enquanto escrevo estas linhas, ou seja, no início de 2010).

Outro sentido no qual o mundo se tornou mais instável durante as três últimas décadas é o fato de a insegurança no emprego ter aumentado para muitas pessoas nesse período. A segurança no emprego sempre foi baixa nos países em desenvolvimento, mas a parcela de empregos inseguros no chamado "setor informal" - o conjunto de empresas não registradas que não pagam impostos e nem respeitam leis, inclusive as que definem a segurança no emprego - aumentou em muitos países em desenvolvimento durante esse período, devido a prematura liberalização das profissões que destruiu muitos empregos "formais" seguros nas suas indústrias. Nos países ricos, a insegurança no emprego também aumentou durante os anos de 1980, devido ao crescente desemprego (em comparação com o período entre os anos 1950 e 1970), o que, em parte, foi resultado de políticas macroeconômicas restritivas que colocaram o controle da inflação acima de tudo o mais. O desemprego diminuiu a partir da década de 1990, mas a insegurança no emprego aumentou ainda mais, em comparação com o período anterior à década de 1980.

Existem muitas razões para isso. Primeiro, a proporção de empregos de curto prazo aumentou na maioria dos países ricos, embora não tanto quanto algumas pessoas pensam. Segundo, embora aqueles que conservam o emprego possam permanecer no mesmo emprego quase (embora não exatamente) tanto tempo quanto os seus equivalentes do período anterior à década de 1980 costumavam permanecer, uma proporção mais elevada de rescisões do contrato de trabalho tornou-se involuntária, pelo menos em alguns países (especialmente nos Estados Unidos).

Terceiro, particularmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, empregos que haviam sido predominantemente seguros até mesmo durante os anos de 1980 - executivos, administrativos e os das profissões especializadas - se tornaram inseguros a partir dos anos de 1990.

Quarto, mesmo que o emprego em si tenha permanecido seguro, a sua natureza e intensidade se tornaram sujeitas a mudanças mais frequentes e maiores - com frequência para pior. De acordo com um estudo de 1999 realizado para a Joseph Rowntree Foundation, por exemplo, a instituição beneficente da reforma social britânica que recebeu o nome em homenagem ao famoso empresário filantropo, quase dois terços dos trabalhadores britânicos declararam ter sofrido um aumento na velocidade ou intensidade do trabalho com relação ao período precedente de cinco anos.

Finalmente e igualmente importante, em muitos (embora não em todos) países ricos, o estado do bem-estar social foi reduzido a partir da década de 1980, de modo que as pessoas se sentem mais inseguras mesmo que a probabilidade objetiva da perda do emprego seja a mesma.

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