Fusão da Kroton e Anhanguera monopoliza educação privada

Fusão da Kroton e Anhanguera monopoliza educação privada

 

 

Novo grupo deterá cerca de 1 milhão de matrículas nas instituições privadas. O mesmo que o conjunto da rede federal

Os grupos Anhanguera Educacional e Kroton Educacional, ambos controlados por fundos de especulação multinacionais, anunciaram na última segunda-feira (22) um acordo de associação que unificará as operações das duas companhias. Detentoras de quase 1 milhão de matrículas nas universidades que controlam (o mesmo que o conjunto da rede federal de ensino superior), o acordo anuncia mais um grande passo no processo que está conduzindo a monopolização e desnacionalização por completo do ensino superior privado brasileiro.

Tanto a Kroton como a Anhanguera atuam no setor de educação superior como companhias com estrutura societária e participação estrangeira a partir dos fundos especulativos private equity.

Dentre os principais fundos controladores da Anhanguera Educacional está Blackstone found e a Kroton, pela Advent Internacional, ambos grupos de investimentos estrangeiros que seguem a mesma lógica que usam no mercado financeiro, a ampliação máxima de lucros para dar retorno aos diversos acionistas.

A operação, avaliada em US$ 5 bilhões, reunirá o montante de R$ 4,3 bilhões, valor que corresponde ao capital bruto das duas companhias em 2012, criando um gigante mundial. Os dois grupos reúnem universidades e faculdades em 835 cidades em todos os estados brasileiros. São 123 campi, 647 pólos de ensino à distância e 810 escolas associadas de educação básica. A Anhanguera possui 490 mil alunos e a Kroton, 500 mil. Dentre eles, 200 mil alunos tem seu ingresso através dos programas Fies e Prouni, do governo federal.

A operação ainda será condicionada à avaliação do Conselho de Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que apesar de ser um órgão para “defesa econômica”, não tem o costume de agir para limitar a ação de cartéis e monopólios, mas sim, acaba por incentivá-los. O anúncio da fusão ocorreu logo após a compra das faculdades Novatec e do Instituto Grande ABC, por unanimidade e sem restrições, pela Anhanguera Educacional.

Ao que parece, para o CADE, não há problema se um único grupo multinacional detém 1 milhão das vagas do ensino superior brasileiro, sem garantia de qualidade de ensino, ou qualquer regulamentação.

A QUALQUER CUSTO

À medida que esses grupos seguem a lógica do mercado financeiro, a preocupação com ensino de qualidade é zero. Contratação de professores pouco qualificados, aumento desenfreado do ensino à distância, ausência de laboratórios e nenhum projeto de pesquisa são algumas das suas especialidades.
Um exemplo é do próprio Grupo Anhanguera que, logo após adquirir a Uniban, universidade paulista com 50 mil alunos, iniciou um processo de demissão de 1500 professores, em sua maioria mestres e doutores, reduzindo o valor médio das horas pagas aos professores de R$ 60 para até R$ 14. Só os que aceitaram a condição de “horistas” com esses salários medíocres permaneceram.

Outro exemplo de prática dos dois grupos é a oferta de 1/3 da grade curricular de todos os cursos em disciplinas on-line, além de cursos inteiramente à distância. Apesar de se orgulharem por terem um método de ensino onde os alunos “podem estudar em qualquer lugar”, a modalidade EAD é um sério agravante na qualidade da formação dos profissionais. A meta é que com a fusão, o grupo abra mais 225 pólos EAD.

Essas economias, no entanto, não são repassadas na hora da cobrança das mensalidades, provocando um número cada vez maior de evasão.

O MEC, por sua vez, se apresenta omisso ao predadorismo desses grupos, uma vez que não regulamenta através de lei o controle de mensalidades, nem estabelece critérios mais rígidos para avaliar a qualidade de ensino.

A política atual do MEC abriu mão do programa de reestruturação das universidades federais iniciado pelo governo Lula em beneficio aos grupos privados, que segundo o deputado Cândido Vacarezza, devem ser os impulsionadores do desenvolvimento do ensino superior no país.

Além da Anhanguera e Kroton, outros grupos multinacionais estão presentes na educação privada brasileira, condi-cionando cerca de 1,5 milhão de estudantes à essa situação. São exemplos a Estácio, grupo que possui 330 mil matrículas e é administrada pelo GP Investments; e a Laureate, com cerca de 200 mil alunos e controlada pelo KKR.

PRISCILA CASALE

Fonte Hora do Povo

facebook