Fernando Siqueira: CPI é veículo de estrangeiros para abocanhar o pré-sal

 

 

Por trás da CPI

“O cartel internacional quer tirar a Petrobras do caminho para poder ficar com o pré-sal”

Entrevista com Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras

 

Causa Operária: Qual é a sua opinião sobre a CPI da Petrobras, que congressistas, ligados principalmente à direita, estão tentando aprovar?

Fernando Siqueira: São dois interesses em jogo, o primeiro é o da oposição que quer sangrar o governo e também atacar a Petrobras que é uma forma de aparecer. O outro interesse ainda maior é o do cartel internacional que quer também enfraquecer a Petrobras porque eles querem o pré-sal.

Esse cartel que já teve 90% do controle das reservas mundiais agora tem menos de 5%, portanto, está na iminência de desaparecer. E são as maiores empresas do mundo. Então, o cartel quer realmente tirar a Petrobras do caminho para poder ficar com o pré-sal. E veja que já estão falando no leilão do Campo de Franco que é um Campo que a Petrobras comprou do governo para a produção.

A oposição quer que o governo fique na defensiva e eles, politicamente, vão se fortalecer com isso. E o cartel, os EUA, a Inglaterra, que tem avanços muito pequenos e estão numa insegurança energética brutal, querem o petróleo brasileiro porque o petróleo é hoje a principal fonte de fornecimento do progresso norte-americano, inglês, europeu, e asiático. Todos eles estão sem reservas.

Eu tenho um slide que eu tirei da Agência Internacional de Informações Energéticas Americana, que diz que em 2040 os EUA produzirão 1/3 do seu consumo, e dentro dessa produção tem óleo e gás convencional, óleo e gás da recuperação dos campos antigos, e tem o shale gas, ou o gás de xisto que foi decantado como uma maravilha e que os EUA se transformaria na Arábia Saudita etc. etc. Eu desde o começo estou dizendo que isso não existe, que é uma propaganda para sair do sufoco. O gráfico que eu consegui diz claramente que 2040 a produção norte-americana vai ter 1/3 do seu consumo e o gás de xisto vai ser um 1/3 desta produção.

Portanto, em 2040 o gás de xisto vai será o responsável por apenas 1/6 do que os EUA consomem. Então, se os EUA em 2040 irão produzir 1/3, terão de importar 2/3 do que consomem. Provavelmente, considerando os aumentos de consumo etc., os EUA que consomem dois milhões de barris por dia podem passar a consumir 27 milhões em 2040. Se consomem 27, produzem nove, terão de importar 18 milhões de barris por dia. 18 milhões por dia, a 100 dólares o barril vai dar um trilhão e 800 por ano. Isso daria um impacto financeiro imenso e mais necessidade de garantir essas reservas.

Então como o lutam pelo controle do Oriente Médio, já controlam a Arábia Saudita, tentaram controlar o Irã, invadiram o Iraque… na América Latina reativaram a 4° Frota Naval e colocaram aqui no Atlântico Sul. Para quê?

Segundo o Bush, para dar garantia, proteger o Atlântico sul. Mas aqui já tem o Brasil e a Argentina. No entanto, a Argentina já tinha nacionalizado o seu petróleo… então essa 4° Frota Naval colocada no Atlântico Sul ferindo a soberania brasileira e argentina, é para pressionar o governo brasileiro para entregar nosso petróleo. É uma estratégia de guerra de intimidação como sempre os EUA fazem com os países que têm petróleo.

Toda essa campanha, por exemplo, essa refinaria que foi denunciada, nós da AEPET como conselheiros [na diretoria da empresa] em 2012 já havíamos denunciado e não houve tanta consequência. Porque o [Sérgio] Gabrielli que foi o presidente da Petrobras na época foi ao senado e mostrou que era um bom negócio, porque é uma refinaria estrategicamente bem colocada nos EUA. A ideia era a Petrobras vender o óleo de Marlim [na Bacia de Campos-RJ], para lá e refinar. O que seria muito melhor do que exportar petróleo bruto.

Mas o Jorge Gerdau e o Fábio Colete Barbosa — um é presidente do grupo Gerdul, o outro foi presidente da Febraban [Federação Brasileira de Bancos] hoje está na editora Abril, se não me engano — disseram ter lido [o contrato de compra de Passadena] e que era um bom negócio, que era parte do plano estratégico da Petrobras; era um negocio bom porque a refinaria é em Houston, centro petroleiro dos EUA.

Então como o negócio era bom e tinha o parecer do Citybank etc. acabou aprovado. O que o presidente da AEPET denunciou foi que o preço inicial era muito alto [exatamente o que está falando agora a imprensa].

A Astra Oil [empresa belga] comprou por 42 milhões e vendeu metade para a Petrobras por 360 milhões. Só que agora a gente está descobrindo que na realidade não foi 360, foi 190 milhões sendo que 170 era produto, era matéria prima, era petróleo que tinha dentro da refinaria que depois foi vendido. Mas mesmo assim se suspeita que tenha tido um preço maior do que o correto. Silvio [Sinedino], nosso presidente, denunciou para que a Petrobras tivesse uma sindicância.

Mas em 2012 o presidente do Conselho de Administração era o Guido Mantega, e ele não quis nada. Achou melhor mudar de assunto e não levou adiante. Lamentavelmente. Porque nós temos todo o interesse que qualquer coisa, qualquer denúncia contra a Petrobras seja apurada.

Nós temos lutado pela transparência da empresa porque infelizmente ela é aparelhada por partidos da base governamental. Então nós temos todo interesse na transparência para que seja tudo feito com a maior lisura possível. Mas infelizmente o Guido Mantega não tomou providência nenhuma. O assunto, depois que o Gabrielli foi ao Congresso e mostrou, não a Petrobras, mas o ex-presidente da Petrobras que foi lá defender o acordo, parece que ele convenceu e o assunto morreu.

Então seja como for os senadores deram o aval…

O assunto ficou esquecido e agora o Estadão resolveu levantar novamente com esses dois objetivos. Primeiro, a oposição faturar em cima da Dilma e o cartel internacional fazer sangrar a Petrobras.

A gente acha que o investigador mais confiável Ministério Público. E o MP está realmente investigando o processo. Então essa CPI é questão de palanque eleitoral. A CPI infelizmente é uma instituição que foi criada com um ótimo objetivo, mas que está sendo deturpada na prática com interesses eleitoreiros etc.

Causa Operária: O que está por trás das transações e das perdas relacionadas com a refinaria de Passadena, nos Estados Unidos?

Fernando Siqueira: Eu acho que as perdas não foram essas que estão falando. Inclusive o jornal Estadãodeturpou a declaração do presidente da Astra, que disse mais ou menos o seguinte: “considerando que os furacões e as intempéries estão atrapalhando a produção das refinarias, e considerando que o consumo está aumentando (isso foi dito em 2007), a compra dessa refinaria era o negócio do século”.

E aí o Estadão pegou essa parte final e disse que a venda para a Petrobras foi o negócio do século. Vejam como a mídia manipula. O presidente da Astra disse que “a compra foi o negocio do século” porque foi no momento certo. E o Estadão colocou a fala dele como se fosse “a venda para a Petrobras”. Então há muita manipulação de números nessa compra e eu acho que em relação à entrega pelo governo do Campo de Libra isso aí não é nada.

Porque, o que o governo vem fazendo? O governo vem obrigando a Petrobras a comprar combustível, por exemplo, gasolina a R$ 1,72 o litro e vender para sua concorrente por R$ 1,42 para que elas não aumentem o preço ao consumidor, para não aumentar a inflação. Então a Petrobras vem perdendo 8 bilhões de reais por ano com essa obrigação absurda que prejudica seus acionistas, principalmente o próprio governo.

Porque na medida em que a Petrobras perde dinheiro e dá subsidio a seus concorrentes, e o preço da gasolina não aumenta; o consumo aumenta, em detrimento do álcool, então a indústria sucro-alcooleira está perdendo produção, perdendo 100 mil empregos desde que esse processo começou. O governo está perdendo uma media de 30 milhões por ano, a Petrobras está perdendo 22 bilhões desde que esse processo começou, o que é mais do que ela poderia pagar pelo Campo de Libra; o governo reduziu a zero a CIT, Contribuição por Transportes; e entregou para o cartel internacional 60% do maior campo do pré-sal do mundo que é o Campo de Libra.

A Petrobras havia comprado do governo pela cessão onerosa. Foram sete campos. Furou o primeiro, o Franco, e achou 10 milhões de barris, era para achar três. E furou o campo de Libra e achou 15 milhões de barris. Então, nesses sete blocos que comprou do governo achando que seria uma reserva de 5 milhões, achou nos dois primeiros 25 milhões de barris.

Pela lei o que se deve fazer é negociar com a Petrobras a diferença. Porque o artigo segundo da lei de petróleo diz o seguinte: “áreas estratégicas são aquelas que têm baixo risco e alta produtividade”. Esses dois campos têm risco zero porque já foram descobertos. Aí o artigo 12 da lei diz: “áreas estratégicas tem que ser negociadas com a Petrobras”. Então, por lei, o governo tinha que negociar com um contrato partilha com a Petrobras.

O governo tirou o campo de Libra da Petrobras — que é uma estrutura contigua– e fez um leilão. Um leilão fajuto porque não teve concorrência. O único grupo ganhou o leilão, e 60% do campo foi para o exterior. 40% para a Shell Total que é uma empresa única e 20% para uma empresa chinesa CNOOC e CNPC, que é uma empresa que se relaciona com a Shell. Tirou-se do povo brasileiro 60% do maior campo de petróleo do pré-sal.

Isso que é um escândalo. Isso que tinha que repercutir na mídia. Mas ao invés disso, a Rede Globo fez uma reportagem no Jornal Nacional, com umas contas para dizer, enganar o povo brasileiro, dizendo que o Brasil ia ficar com 85% do campo de Libra. Uma mentira deslavada. Eu faço a mesma conta e chego a 40%, por quê? Porque eles manipularam. É fácil fazer as contas, mas um pouco complicado de explicar. Eu vou tentar.

Por exemplo, o imposto não incide sobre o óleo total. E eles colocam lá 18% de imposto.

Nas contas, o imposto de renda e outros incidem sobre o lucro da empresa, que é 20 e pouco por cento do petróleo produzido. Então, de 18% de 20 dá 5%. Não sei se ficou claro, mas aplicam o percentual na base de cálculo errada.

Da mesma maneira que falam que os 41,65% que foi o percentual mínimo que por lei tem de ser estabelecido, não se aplica sobre o petróleo produzido, e sim sobre a parte que cabe à concessionária, a empresa produtora.

E esse valor não é 41,65%, e sim 18%. É complicado para explicar, mas resumindo, ao invés de você ter 18% de impostos, você tem 4,5% ou 5,4%; ao invés de ter 41,65%, do total produzido, tem na verdade tem 18,4%. Fazendo essas contas não se chega a 85% como disse a Dilma Rousseff e como tentou mostrar a Globo. Chega-se a 40%. Então, o Brasil vai ficar com 40%.

Aliás, não tem nenhuma razão para acreditar que os estrangeiros compraram 60% do campo de Libra e vão levar só 15% deixando 85% para o País. Não tem sentido. Não cabe na cabeça de ninguém que os gringos que pressionaram o governo para entregar esse campo, que iam comprar 60% e levar 15%.

Causa Operária: Por que o governo encaminhou o leilão do mega-campo Libra, do Pré-Sal, por apenas US$ 20 bilhões?

Fernando Siqueira: Foi pressão. No ano de 2013, o ano de leilão, aconteceu um seminário internacional no Riocentro em que o assunto preponderante foi a questão dos leilões. No final desse seminário, o [ministro de Minas e Energia Edison] Lobão foi lá e declarou aberto o décimo primeiro leilão de Libra e depois o leilão do gás de Xisto, três leilões no ano.

Antes do congresso, que foi em fevereiro de 2013, teve o encontro da Dilma com Barack Obama, em que a Dilma fez o acordo sobre o pré-sal. Esse acordo foi assinado e não foi divulgado. Mas teve um acerto sobre o pré-sal em 2011. Em 2013 veio o vice-presidente EUA falar com a Dilma e a Graça Foster [presidente da Petrobras]. Pouco depois a Dilma anunciou o leilão do campo de Libra.

Eu sinto que houve pressão.

Reativaram a quarta-frota naval no Atlântico sul para pressionar. Mas deve ter aí no meio financiamento de campanha eleitoral. Além da pressão do governo dos EUA, deve ter um acerto para financiamento de campanha eleitoral, já que o escândalo todo do mensalão dificultou as empresas nacionais de financiarem as campanhas.

E o PCdoB, que era um partido ultra-nacionalista, quando assumiu a Agência Nacional do Petróleo (ANP), quando o Haroldo Lima assumiu a ANP ele, que era contra os leilões, passou a ser um defensor dos leilões, dando uma guinada de 180 graus — e passou a fazer leilões. Até as bases do partido são contra isso, mas as cúpulas… não há um deles que seja contra a entrega do nosso petróleo.

Causa Operária: Agora o governo está encaminhando o leilão do campo de Franco. Qual é o objetivo de leiloar campos que a Petrobras já mapeou?

Fernando Siqueira: É inclusive ilegal. Os dois campos foram entregues à Petrobras por conta da capitalização dela que o Lula fez. O Lula trouxe avanços grandes. Fez a lei de partilha. Colocou a Petrobras como operadora única do pré-sal. E fez esse processo de capitalização que consistiu em dar a ela sete blocos, pelos quais a Petrobras pagou 84 milhões.

Aí ela furou o primeiro campo que foi o Franco que era previsto ter 3 bilhões e encontrou reservas 10 bilhões de barris; e quando furou Libra que era previsto ter 5, achou 15 bilhões. E tem outro que ela furou e achou 1 bilhão. Ou seja, só nesses três campos ela encontrou 26 bilhões de barris. Então pela lei, artigo 2 e artigo 12 da Lei 12351/2010, o governo tinha que negociar com a Petrobras os acréscimos, o excedente dos 5 bilhões previstos inicialmente, mas o governo não só tomou o campo de Libra e leiloou, num leilão fajuto que entregou ao exterior 60% de Libra, como agora está pensando em tomar o excedente de Franco e leiloar também. É um entreguismo que chega às raias de crime de lesa pátria.

A Petrobras comprou esses campos, descobriu os campos, ou seja, não só mapeou como perfurou e achou, e é até bom que eu lhe diga que, lembrando aqui, que a Shell furou o campo de Libra até 4 mil e 200 metros e devolveu como um campo seco para a ANP. Então, se não fosse a Petrobras acreditar na sua capacidade, experiência, especialidade e competência, o campo de Libra não teria sido descoberto. Porque a Shell furou e desistiu. Aí vem o governo, toma o campo da Petrobras e entrega 60%.

Porque o governo estrangulou a Petrobras financeiramente, obrigando a importar gasolina e vender aos concorrentes mais barato. Com isso a Petrobras está perdendo a cada ano 8 bilhões. Ou seja, em dois anos poderia comprar o campo de Libra se não estivesse sendo feita essa contenção. Dava para comprar Libra 5 vezes, considerando aquele valor que o governo estipulou de 15 bilhões. A parte de refino está perdendo mais de 10 milhões por ano.

Então existe aí um cartel internacional, que foi até denunciado pelo WikiLeaks. Os telegramas publicados pelo WikiLeaks mostram que o cartel atuou no Congresso contra a Lei de Partilha, e atua permanentemente. É o cartel formado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), que é presidido pelo ex-presidente da Repsol, que na época era presidente da Repsol. Esse instituto que não é brasileiro coisa nenhuma.

Causa Operária: Como ficou o marco regulatório do Pré-Sal após as pressões do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo)?

Fernando Siqueira: O governo fez as mudanças, mas quem atuou contra foi o IBP. Quando o pré-sal foi descoberto os diretores da Petrobras foram relatar para a presidência a magnitude do campo. Eles estavam empolgadíssimos e queriam mostrar ao presidente que foi descoberto uma província que é do tamanho das reservas do Iraque. Uma reserva de 100 bilhões, podendo chegar a 300 bilhões de barris. O Iraque tem 120. O Brasil tinha 14 milhões de barris e descobriu 100 de repente.

Então foi avisado de que a lei da concessão que estava aí era muito ruim, porque quem produzia fica com todo petróleo. Foi feito, então, um grupo de trabalho interministerial. Esse grupo era para trabalhar seis meses e acabou trabalhando um ano e meio porque a pressão do cartel e do IBP era muito grande. E tudo que o [ministro Lobão] anunciava de melhoria, no dia seguinte os jornais caiam de pau e a coisa não andava.

Depois de um ano e meio apresentaram quatro projetos no Congresso Nacional: o Fundo Social, lei de Partilha, Capitalização (esse que a Petrobras comprou blocos), e criação da Pre-Sal Petróleo S.A. Quatro projetos que acabaram se reduzindo para três porque se fundiu a Partilha com Fundo Social.

Aí vários grupos atuaram no congresso, e conseguiram poucos avanços, mas conseguiu alguma emenda. O Pedro Simo, fez uma emenda atendendo um pedido meu, mas enfim, teve uma controversa imensa e no fim se conseguiu aprovar um projeto que não teve os avanços que a gente queria, mas teve avanços bons, quais sejam: a Petrobras ser a única operadora do pré-sal e o contrato de partilha em que a propriedade do petróleo volta a ser a União e a União remunera os custos da produção em petróleo. Foram avanços que o cartel não se conforma. É uma das razões.

A partir daí a Petrobras sofreu mais ataques de todos os lados. O cartel não gostou e começou a fazer uma campanha para desqualificar e desmerecer a Petrobras. Diz que não tem recursos, tecnologia. Então qualquer denúncia vira uma coisa brutal. Agora, o governo tirar dela oito bilhões por ano com essa obrigação de comprar combustível e vender mais barato; tirar dela as condições de ficar com o Campo de Libra que já era dela, e entregar 60% desse Campo para as multinacionais, isso a mídia não fala. Isso a mídia esquece.

Passadena talvez se tenha perdido 50 ou 100 milhões de dólares, mas o Campo de Libra é um trilhão e meio de dólares… isso é que é um escândalo. 100 milhões de dólares na frente de um trilhão e meio não é nada. Mas a mídia não fala, não ataca, fica quietinha. Inclusive a Globo mostra na televisão umas contas falsas para dizer que o Brasil vai ficar com 85% do campo o que é uma grande mentira.

O fundo dessa campanha toda, é desestabilizar, desmoralizar a Petrobras, e os partidos de oposição tentar enfraquecer o governo Dilma que criou um retrocesso enorme. Porque o Lula conseguiu recuperar uma boa parte da soberania… que não foram os avanços que a gente gostaria, mas foram avanços. E a Dilma está derrubando isso tudo. Ela fez um edital para o campo de Libra que é criminoso. E pode ser que faça em Franco. Ela praticamente anulou os avanços de Lula nos contratos de Libra.

Causa Operária: Há alguma mudança prevista para o marco regulatório, qual a situação neste momento?

Fernando Siqueira: Existe uma pressão grande. Todo dia na mídia se ouve dizer que a Petrobras está assoberbada, que tem que tirá-la desse encargo de ser operadora única. Há uma pressão violenta para mudar isso.

Porque embora a Petrobras como operadora única não seja a solução ideal, melhora num aspecto fundamental, que é o seguinte: na produção mundial de petróleo há duas fontes de corrupção. Quais são, primeiro superdimensionar os custos de produção. Considerando que o produtor recebe da União em petróleo, quer dizer, ele gasta 40 dólares por barril para produzir Libra (é o estimado) aí o governo dá a ele em petróleo esse valor.

Se o petróleo tiver a 100 dólares e ele gasta 40 dólares para produzir o barril, ele vai receber 40 barris em cada 100 produzidos. Vai receber 40% da produção em petróleo. Como o produtor recebe o que ele gasta em petróleo, ele tenta superdimensionar os gastos. Compra uma plataforma por 1 bilhão de dólares, e vai tentar dizer que gastou 1 bilhão e meio. Para receber em petróleo. Aí, se o governo não tiver uma fiscalização grande… Se for a Petrobras como operadora única dificulta a manipulação.

Por isso não querem a Petrobras de operadora única. Porque não vão poder fazer essa corrupção. E essa é uma fonte comum de corrupção internacionalmente. E a outra é medir o petróleo. Se não tiver uma fiscalização muito boa, muito competente, vão medir para menos. Por exemplo, produziram 200 barris, vão dizer que produziram só 150.

Se não tiver a fiscalização o país dança. No mundo as duas fontes de corrupção são essas. Superdimensionar o custo de produção para receber mais petróleo; e subdimensionar o petróleo para passar menos para a União. Com a Petrobras sendo operadora única, isso dificulta, porque é uma empresa estatal sob controle do governo.

Mas aí que o governo Dilma está decepcionando mais uma vez. A Pré-sal Petróleo foi criada com o objetivo de fiscalizar isso. Para evitar essas duas fontes de corrupção, porque suponhamos que a Petrobras não fosse operadora…. ou mesmo com a Petrobras sendo operadora ela vai ser pressionada pelos sócios para fazer a corrupção. Tem que ter uma fiscal do governo. Essa é a finalidade da Pré-sal Petróleo.

Aí o que o governo Dilma fez? Nomeou quatro diretores que são indicados pela Shell. Ou seja, o presidente e mais diretores da Pré-Sal Petróleo são pessoas da Shell.

Causa Operária: Tem se falado muito nos déficits. Como explicar os crescentes déficits da Petrobras?

Fernando Siqueira: O que acontece, o que estão falando muito é no déficit na importação de petróleo. Ocorre que nós temos duas refinarias em construção, que foram entregues num esquema muito ruim os chamados EPC. A Petrobras está fazendo diferente do que ela fazia antigamente, está entregando tudo para um grupo só, Odebrecht, Camargo Corrêa que são empresas que não tem experiência nenhuma nesta área. São barrageiros e construtores de obras civis.

Quando você entrega a um único consórcio para fazer tudo, ele superdimensiona o projeto, ele superdimensiona as obras civis para ganhar dinheiro. O que está acontecendo nas refinarias, tanto do Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro] quando do Rnest [Refinaria Abreu e Lima], lá de Pernambuco, estão custando mais do que o dobro do que foram orçadas. Por isso está atrasando. Já estão com mais de dois anos de atraso.

Isso faz com que o parque de refino brasileiro fique insuficiente perante o consumo. Que aumentou na medida em que o governo incentiva a indústria automobilística, outra falha do governo, mandar fabricar automóvel, entupir as ruas do Brasil e aumentar em 40% o consumo de gasolina.

Com esses erros do governo o parque de refino brasileiro ficou inferior ao consumo. O que leva à importação de derivados. Com isso a Petrobras que até três anos atrás exportava mais do que importava, passou a importar muito mais do que está exportando. Antes importava 200 mil barris por dia e exportava 500. Agora está exportando 200 e importando mais de 500 mil por dia. Isso que criou um déficit na balança comercial da Petrobras.

Esse problema da construção é sério porque o correto, que a Petrobras sempre fez, é fazer o projeto base com uma empresa, o detalhamento com outra, e a construção e montagem com outra. Agora está fazendo tudo num grupo só. Porque infelizmente a Odebrecht e a Camargo Correa mandam no governo brasileiro e o governo obrigou a Petrobras a contratar desta forma.

No meu voto na Assembleia Geral Ordinária da Petrobras eu bati nisso. É um erro entregar a um consorcio único para fazer tudo. Porque leva a ter preços exorbitantes e prazos sem controle nenhum. Já são dois anos de atraso que está diretamente relacionado com o déficit.

Nós temos auto-suficiência em petróleo. Mas não temos em refino, então tem que importar derivado.

Causa Operária: Os Estados Unidos têm promovido a produção depredadora de hidrocarbonetos a partir do xisto. Em outubro, um leilão da ANP (Agência Nacional de Petróleo) abriu a exploração em larga escala o uso da fratura hidráulica no Brasil. Qual é a sua opinião?

Fernando Siqueira: Eu estive na audiência que discutiu o tema e me posicionei absolutamente contra. O que acontece é que os EUA sabem que vários países do mundo tem reservas de xisto, então ele está incentivando a produzir para tentar derrubar o preço do petróleo convencional, porque, como já comentei, eles sabem que estão estrangulados, que vão importar 2/3 do que consomem, em um trilhão e tanto [de dólares] por ano.

Embora tenha tido uma onda dizendo que os EUA com o xisto seriam auto-suficientes, eu nunca acreditei nisso e dizia que não era assim. Como ficou comprovado pelos números que citei, que foram usados por mim numa palestra no México. A Agência Internacional de Energia, mostrou um gráfico que em 2040, os EUA vai estar produzindo 1/3 do que consome. E 1/3 desse consumo vai ser do gás xisto.

Ou seja, o xisto vai dar aos EUA 1/6 do que consomem. Não é nada. Não tem auto-suficiência coisa nenhuma. Tudo um marketing feito para esconder a verdadeira situação dos EUA e da Europa, da Ásia também.

O mais grave é que obrigaram o Brasil também a fazer esse leilão e se você comparar o décimo primeiro leilão do óleo convencional esteve em jogo uma área no Norte e Nordeste que é a margem equatorial, área do Brasil que a Petrobras ainda não tinha explorado. É um pouco desconhecida, mas muito promissora. Tanto que a Petrobras agora acaba de descobrir um campo em águas profundas do Rio Grande do Norte. Então foi feito o décimo primeiro leilão com essa margem equatorial e como a Petrobras estava estrangulada financeiramente, comprou menos de 20%.

O leilão foi mais para empresas estrangeiras. Já no leilão do xisto, que foi logo depois, a Petrobras foi obrigada a comprar e comprou 80%. Veja, o governo leiloou o gás de xisto a pedido dos EUA e ninguém se interessava, porque não tem comprovação de grande existência, não tem estrutura para escoamento, a procura foi pequena e a Petrobras ficou com 80%. No leilão que tinha áreas boas, comprou 20%, no leilão absolutamente imprevisível, teve de comprar 80%. Veja como o governo manobra a Petrobras de forma negativa.

E o gás de xisto é uma produção ainda perigosíssima. Ainda mais para o Brasil. Porque as reservas principais ficam debaixo dos aqüíferos Guarani. No Amazonas, corre-se o risco de perfurar embaixo da maior reserva de água doce do mundo, que pertence a cinco países, não só ao Brasil e com isso contaminar essa reserva. É uma coisa absurda.

Na audiência pública que eu comentei, o chefe do Ibama (….) disse “olha eu to falando como pessoa física, não estou falando como Ibama, mas eu sou chefe da área que faz as liberações e quero dizer aqui que é uma temeridade a ANP fazer esse leilão, e dar a responsabilidade pela segurança ao próprio produtor. E a ANP não tem fiscais para isso. Eu que no Ibama tenho 90 fiscais, não teria condições de fiscalizar isso. A ANP não tem nenhum”.

Portanto, é uma irresponsabilidade colocar em leilão áreas desse teor de perigo e sem ter condições de fiscalizar.

Eu também bati. Você vai injetar água a mais de 10 mil libras de pressão. No óleo convencional se injeta água a 4 mil libras de pressão. Ou seja, ocorre uma explosão na rocha. Porque xisto é uma rocha com impermeabilidade de escoamento maior, mais difícil que o granito. Para se tirar de dentro dele o óleo em gás tem de fazer uma fratura de alta pressão, que é uma explosão que não se tem controle. Se injeta água com mais 200 produtos químicos nocivos ao meio ambiente e não tem controle de que essa água contaminada não vai para o meio ambiente, para o lençol freático, e [para] os aqüíferos.

E o metano, que certamente vai vazar uma boa quantidade, é um contaminante atmosférico, inclusive para efeito estufa muito sério. Então, não tem nenhum sentido o Brasil que tem uma reserva convencional de óleo em gás no pré-sal, fazer essa loucura de explorar uma atividade que ainda não se tem nenhum controle ambiental, nem de tecnologia satisfatória para ser colocada em operação. Uma total irresponsabilidade o leilão do gás de xisto.

Causa Operária: Qual é o futuro do setor do petróleo no Brasil?

Fernando Siqueira: O pré-sal eu sempre digo que é a maior oportunidade que o Brasil já teve de deixar de ser o eterno país do futuro. É uma reserva monumental de óleo de excelente qualidade e que pode ajudar o País a sair do atraso; ter recurso para educação, para saúde, para infraestrutura. Agora, tem que ser explorado por brasileiros. E o governo Dilma está entregando para estrangeiros.

Por isso temos que fazer uma campanha para recuperar a propriedade do petróleo de fato para o Brasil e não permitir essa entrega que a Dilma fez através do edital criminoso que entregou 60% para o estrangeiro. Se isso se confirmar, será a perda de uma oportunidade imensa de o Brasil se desenvolver, exercer sua condição de país mais viável do planeta.

Nós temos que combater os leilões, defender que o governo recompre as ações da Petrobras que foram vendidas ao exterior, e colocar a Petrobras na frente do Pré-sal, como foi proposto pelo governo Lula, e acabar com os leilões. Não precisamos de leilões. Temos tecnologia.

A Petrobras é a empresa que desenvolveu, portanto a que mais conhece a tecnologia, tem recursos técnicos e financeiros. Porque quem tem o portfólio de produção que a Petrobras tem hoje, que é o maior do mundo… Ou seja, quem tem esse patrimônio para produzir tem crédito fácil e barato: o sistema financeiro, empurrando mais. Porque ela tem um ativo mais garantidor de empréstimo. Então, não tem o menor sentido entregar isso para empresas estrangeiras em detrimento do povo brasileiro.

Causa Operária: O senhor gostaria de adicionar mais algum comentário para os leitores do Jornal Causa Operária?

Fernando Siqueira: Queria agradecer a oportunidade. Dizer a vocês que estou sempre à disposição, e vamos conscientizar o povo brasileiro que esse é um patrimônio que pode tirar o Brasil do atraso e portanto deve ser para beneficio dos brasileiros e não para estrangeiros, que não querem fazer nada para o nosso bem, mas apenas ter lucro.

Fontes Causa Operária e Viomundo

 

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