EUA: Estudantes nas ruas contra impunidade e a política de gueto

 Protesto “Hands Up, Walk Out!”[Mãos ao Alto, Vem pra rua!] reuniu milhares de universitários e secundaristas para exigir justiça para Michael Brown e cadeia para o assassino covarde Wilson

Nesta segunda-feira (1º), exatamente às 12:01 – a hora em que o jovem negro desarmado Michael Brown foi assassinado em Ferguson com oito tiros por um policial branco racista -, milhares de estudantes, em dezenas de cidades dos EUA, vindos das principais universidades do país e de inúmeras escolas de segundo grau, e também trabalhadores e ativistas dos direitos civis, saíram em passeatas e concentrações no protesto “Hands Up, Walk Out!”[Mãos ao Alto, Vem pra rua!], para denunciar o racismo, a impunidade e a política de gueto, e exigir justiça.

Desde que um júri pré-fabricado, com 75% de jurados brancos numa cidade de 67% de negros e um promotor “da casa” livraram de qualquer acusação o policial Darren Wilson há uma semana, o país está abalado por enorme comoção, que não pára de crescer. A manifestação enumerou outras vítimas dessa matança covarde e racista: John Crawford III, Eric Garner, Tamir Rice – este, um menino de 12 anos -, Akai Gurley, Israel Hernandez, Oscar Grant, Ezell Ford e Ramarley Graham. Nos EUA, um negro tem uma chance 21 vezes maior de ser baleado pela polícia que um branco, e com os afrodescendentes sendo 11% da população, são mais da metade da população carcerária norte-americana.

Os manifestantes marcharam pelas ruas e campi e também realizaram os “die-in” – quando os participantes deitam no chão para representar o corpo de Michael Brown, estirado na rua durante 4 horas e meia. Entre as universidades em que houve protestos, estão Harvard, Boston, Yale, UCLA e Stanford. Em Nova Iorque, os manifestantes voltaram à Times Square. Em Washington, os manifestantes fecharam a ponte da Rua 14 e se deitaram diante do prédio do Departamento de Justiça.

Os organizadores do protesto exigiram que o governo confronte “a violência estrutural e a discriminação institucional que continuam a aprisionar nossas comunidades com uma vida de pobreza e/ou atrás das grades”. A declaração – que cobra de Obama que “reconheça o espectro total dos nossos direitos humanos”, também quer “um fim imediato para a brutalidade policial e o assassinato de pessoas negras, mulatas e todos os oprimidos, pleno emprego, moradia decente e educação de qualidade”.

No domingo, cinco jogadores do time de futebol americano St. Louis Rams – Tavon Austin, Kenny Britt, Stedman Bailey, Jared Cook e Chris Givens -, ao entrarem em campo contra o Oakland Raiders, repetiram o gesto de dezenas de milhares de pessoas nas últimas semanas, o do “mãos ao alto” – lembrando o ato das Olimpíadas da Cidade do México de 1968, em que os atletas e medalhistas negros John Carlos e Tommie Smith fizeram a saudação dos panteras negras, com punho cerrado erguido.

No sábado, a principal entidade norte-americana de defesa dos direitos da negritude, a NAACP, iniciou uma marcha de sete dias de Ferguson até a capital do Missouri, Jefferson City – a “Jornada pela Justiça” -, percurso de 196 quilômetros. “É uma questão de transformar indignação em ação, e de trazer justiça”, afirmou o presidente da entidade, Cornell William Brooks. “Vamos buscar engajar gente de boa vontade por todo o Missouri, por todo o país”. 
Nem na loucura consu-mista da “Black Friday” pararam os protestos contra o racismo e a impunidade. 1.500 manifestantes – em boa parte, estudantes - tomaram o maior shopping center de Nova Iorque, o Macy’s, para o “sem justiça, sem paz” e o “mãos ao alto, não atire”. Houve sete prisões. Em Oakland, na costa oeste, dezenas de manifestantes fecharam uma estação, se acorren-tando ao trem – mais 14 presos. Em shoppings em Seattle, Chicago e San Francisco, centenas fizeram “rolezinhos”, cantando “se não tivermos justiça, vocês não vão ter lucro”. Dezenas de manifestantes forçaram o fechamento temporário do St.Louis Galleria Mall após fazerem um “die in” e percorrerem os corredores brandando o “não atire” e encenando o “mãos na cabeça”.

ULTRAJE

Para muitos, é a primeira descoberta de que é preciso lutar contra a injustiça, e da ação coletiva. “É um ultraje que esse não-indiciamento possa acontecer neste país”, disse Zoe Fruchter, de 15 anos, estudante da Bard High School Early College em Manhattan, acompanhada no ato por Clara Kraebber, de 14 anos, da Hunter College High School. “Estamos aqui não apenas porque convocaram um protesto, mas porque todos nós temos responsabilidade em dar um sinal de basta ao que somente pode ser descrito como um genocídio americano”, afirmou a universitária de Los Angeles, Tala Deloria, de19 anos. Numa sociedade marcada pela escravidão, apartheid, leis Jim Crow, Klu Klux Klan e revivência da segregação, e na qual um presidente negro não passou de uma jogada de marketing, é uma luminosa descoberta: “as vidas dos negros importam”.

ANTONIO PIMENTA

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