Ensaio de Nathaniel Braia: Jorge Medauar, de olhos perscrutadores e de escrita heroica

 

Publicamos hoje, texto do diretor do Sindicato dos Escritores de São Paulo, Nataniel Braia, sobre o poeta e contista brasileiro, Jorge Medauar, em virtude da homenagem que será realizada pelo sindicato em conjunto com o Centro Cultural Árabe Sírio no próximo dia 6 de fevereiro. No portal Cronópios, você pode ter acesso ao conteúdo sobre o poetawww.cronopios.com.br/jorge_medauar

A homenagem a Medauar acontece na quinta-feira, dia 6, a partir das 20 horas, na nova sede do Centro Cultural Árabe Sírio, à rua dos Ingleses, 149, Bela Vista, próximo ao teatro Ruth Escobar.

NATANIEL BRAIA

“Olhos perscrutadores, mas dotados de simpatia e compreensão”, afirmou sobre Jorge Medauar o poeta Carlos Drummond, seu contemporâneo.

Em 1945, dois livros de poemas foram lançados pela Editora José Olímpio, no Rio de Janeiro: “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade e “Chuva sobre a tua semente”, de Jorge Medauar. Este é o início de uma obra literária que se estendeu por décadas. Medauar é um mestre das letras que brilha tanto quando escreve prosa, quanto quando envereda pela poesia.

Destacado por Mario Chamie como um precursor das experiências de vanguarda da poética brasileira, na poesia, encontrou também o filão para compartilhar sentimentos e emoções pessoais, como quando contempla o neto ou quando celebra a trajetória dos ancestrais que o trouxeram ao mundo como um brasileiro de origem árabe, mais precisamente da milenar civilização síria.


Sabei, sabei que fiz de antigos cedros
Barcos que a infância pôs à flor das ondas:
Meu pai, que é Medauar, teceu-me as velas
E a filha dos Zaidans, que é minha mãe,
 
Pôs amoras de mel no tombadilho.
Nesses barcos navego, marinheiro
Fenício do Zodíaco e dos trópicos
Vermelhos de lamentos e canção
 
Hoje tenho lagunas onde aporto,
Tranquilamente, sob a lua branca,
O coração de Tâmara madura.
 
Se vos trago damascos e Kakláua
É porque recebi dos velhos árabes
Um lastro de doçura nesses barcos.
 

Mas também para dizer de sua opção pelo engajamento e pela transformação social:

Eu faço versos como quem luta
De armas em punho... de armas nas mãos...
Forma ao meu lado, pois na labuta
Os companheiros são como irmãos.
Meu verso é aço. Fornalha ardente...
Peito ou bigorna... Braço ou trator...
Corre entre o povo. Salgado e quente,
Cai gota a gota, por que é suor.
E nestes versos de luta ousada
Deixo a esperança que sempre tive
Nas tintas rubras da madrugada.
- Eu faço versos como quem vive.
 

Mas é através dos contos que Medauar recebe seu primeiro grande reconhecimento. Prêmio Jabuti de 1959 (o primeiro de uma série daquele que é o prêmio literário mais reconhecido do país), com “Água Preta” (menção ao povoado onde nasceu, ao sul da Bahia), na categoria Contos. Prêmio que foi concedido no mesmo ano a seu conterrâneo Jorge Amado.

É através dos contos que o nosso homenageado de 6 de fevereiro se destaca como ourives da precisão na descrição dos personagens populares, cuja condição retratada clama por mudanças.

Como tantas vezes se disse dele, parte do regional para o universal, na capacidade de retratar a pinceladas verdadeiras as vidas e personalidades (lembra um Prévert, ao usar o simples para evocar o inusitado nas situações inaceitáveis).

Medauar, em textos pungentes como no conto “As Tigelas”, bebe sua força da realidade, não precisando fugir dela, nem viajar pelo fantástico para mostrar o insólito de um cotidiano desumano e inaceitável como o que ainda se vive na sua região nordestina.

Há muito a se dizer e debater sobre este escritor que foi denominado por José Lins do Rego de o “poeta da fúria heroica” que tomou as ruas para exigir que o Brasil entrasse na luta contra o nazismo, para celebrar a vitória em Stalingrado, para questionar os injustos ataques da Guerra Fria contra a União Soviética.

Aí fica o nosso convite para o contato com um dos nossos expoentes literários saudado por destaques de nossa produção cultural como (entre tantos outros) Glauber Rocha, Tristão de Ataíde, Rubem Braga, Gilberto Amado, Orígenes Lessa, Antônio Cândido e fundador do Sindicato dos Escritores de São Paulo. Na ocasião exibiremos um documentário de 20 minutos com depoimentos de apreciadores e analistas de sua obra.

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