Eduardo Cunha se complica a cada farsa desmascarada

Eduardo Cunha se complica a cada farsa desmascarada

Denúncia de que presidente da Câmara achacou Grupo Mitsui para receber propina se consolida com provas documentais. Contos do “não sei nada”, “não vi nada”, “não lembro de nada” desmoronam

A situação política do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), passou a ficar insustentável após a divulgação, pela imprensa, de documentos internos do Legislativo que comprovam de forma irrefutável as revelações de Alberto Youssef, feitas em depoimento à Polícia Federal, sobre o envolvimento do deputado no assalto à Petrobrás. Youssef informou que Cunha usou comparsas para achacar a empresa Mitsui, cujo representante no Brasil era Julio Camargo, com o objetivo de forçá-la a retomar os pagamentos de propina, interrompidos em 2011, após início do contrato com a estatal.

Em seu depoimento, o doleiro Alberto Youssef detalhou aos delegados da Operação Lava Jato que Cunha recebia regularmente a propina desviada de um contrato firmado pela Petrobrás com as empresas Mitsui e Samsung relativo ao aluguel de navio-plataforma. O lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, responsável pela ligação do PMDB com o esquema, seria o encarregado de recolher o dinheiro. Youssef explicou que, em determinado momento, durante o aluguel do navio-plataforma, o pagamento da propina foi suspenso. Ele disse que, diante da suspensão dos pagamentos, Cunha reagiu imediatamente e determinou a parlamentares ligados a ele que apresentassem requerimentos à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara, com o objetivo de pressionar os controladores da Mitsui.

Segundo o depoente, "este pedido foi feito por intermédio de dois deputados do PMDB". De fato. Em reunião do dia 13 de julho de 2011, a ex-deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), atual prefeita da cidade de Rio Bonito (RJ), e o deputado Sérgio Britto (BA), atualmente no PSD, então presidente da comissão, formalizaram dois pedidos à comissão. Esses pedidos receberam os números 114/11 e 115/11 respectivamente e cobravam do Tribunal de Contas da União (TCU) o acesso a auditorias que pudessem ter ocorrido nos contratos da Mitsui com a Petrobrás e do Ministério de Minas e Energia, pediam mais informações sobre contratos da Petrobrás com a empresa japonesa.

O ACHAQUE

Os parlamentares envolvidos na tramoia relatada por Youssef justificaram os pedidos com a possível existência de irregularidades como "improbidade, superfaturamento, juros elevados, ausência de licitação" e citavam "contratos envolvendo a construção, operação e financiamento de plataformas e sondas celebrados com o Grupo Mitsui". O documento mencionava Júlio Camargo, representante da Mitsui. Mas, para azar de Cunha, Camargo acabou firmando também um acordo de delação premiada e admitiu a participação no esquema, o que contribuiu para complicar ainda mais a situação do parlamentar.

Na ocasião da consulta, o TCU respondeu questionando o caráter vago do pedido da peemedebista: "Nenhum número de contrato ou informações mais específicas quanto aos objetos contratados (especificações de plataformas ou sondas) foi anexado". A atual prefeita Solange Almeida, que apoiou Cunha nas últimas eleições, não enviou mais pedidos de esclarecimentos ao órgão. A pressão surtiu o efeito desejado. Júlio Camargo voltou a fornecer os pagamentos da propina ao PMDB depois da pressão articulada por Cunha.

Interrogada pela Polícia Federal, a ex-deputada não soube explicar nada e disse que ‘não conhece o Grupo Mitsui nem nada sabe a seu respeito, lembrando apenas que tinha algo a ver com sondas; que não lembra se houve resposta ao requerimento relativo à Petrobrás, nem tampouco se houve desdobramentos". Já o deputado Sérgio Brito, também negou relação com os documentos: "eu nem sei o que é isso… Se eu não estou enganado, acho que essa deputada não pertencia à comissão. Mas eu me lembro que me pediram uns requerimentos, e, geralmente para fortalecer, sendo membro ou não da comissão, o presidente podia fazer", disse.

Questionado, o presidente da Câmara vinha negando qualquer relação com os requerimentos de Solange Almeida: "Zero, zero, zero. Absolutamente nada. Eu não conheço, não sou obrigado a conhecer os requerimentos feitos por outros deputados. Eu não posso afirmar se houve ou não outros requerimentos de outros deputados. Eu só posso afirmar que eu não fiz", disse. À CPI, ele negou qualquer relação com os requerimentos: "Eu não fiz qualquer requerimento pra quem quer que seja".

A CASA CAI

Apesar das negativas e manobras de Cunha, as investigações prosseguiram e acabaram desmascarando o deputado. Está lá com todas as letras: Cunha foi o autor dos requerimentos. No sistema oficial da Câmara o nome dele consta como "autor" dos dois arquivos em que foram produzidos os requerimentos assinados por Solange. Confrontado com o fato de seu nome estar vinculado aos requerimentos, Cunha se destemperou. Sem ter o que dizer, prendeu-se a uma suposta diferença de datas como "álibi" de sua inocência. Argumentou que o documento Word em que, segundo os registros oficiais da Câmara, foram redigidos os requerimentos - e que trazem seu nome como autor - apresentam data de criação de 10 de agosto de 2011, um mês depois da data da efetiva apresentação na Câmara. Isso seria, segundo Cunha, uma incongruência que "desmentiria" sua participação na ação criminosa.

De posse desse suposto álibi, Cunha, destilou o fascismo que lhe é peculiar. Saiu distribuindo ameaças a funcionários da Câmara, acusando-os de fazerem um complô contra ele. Demitiu o chefe do setor de informática da Casa e determinou uma "investigação" sobre uma suposta "fraude" contra ele da área técnica. Ancorando-se na suposta discrepância de datas, acusou os integrantes da área de informática de terem patrocinado "manipulações dos documentos" para incriminá-lo.

Mas, o pseudo "álibi" de Cunha não durou 24 horas. Em breve pesquisa no sistema da Câmara, a farsa do meliante foi desmascarada. A própria "Folha de S. Paulo" localizou vários outros requerimentos cuja data de criação do arquivo informada é posterior à data em que ele foi apresentado na Casa. Segundo integrantes de gabinetes, isso se explica porque ao entrar no sistema digital da Câmara, o documento Word é convertido para outro modo, o PDF, gerando a data de criação da entrada no sistema digital, não da sua efetiva apresentação.

Ou seja, o achacador, que já é investigado pelo STF como integrante da quadrilha que assaltou a Petrobrás, foi desmascarado. Nos pedidos de inquérito enviados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal, a petição 5.278, contra Cunha já havia o depoimento do doleiro Alberto Youssef denunciando o envolvimento do deputado no esquema de propina. Agora, a casa caiu.

Com esta prova de sua participação no achaque à Mitsui e no roubo à Petrobrás é imperioso o seu afastamento do cargo e do mandato. Sua histeria mafiosa não mudará nada, só vai piorar a situação. Afinal, um mínimo de respeito pela verdade é o que se espera de um individuo que ocupa o cargo atual. A mentira deslavada - marca registrada de Cunha - não é compatível com essa posição. Muito mais cedo do que ele pensa, será conduzido "carinhosamente" para Curitiba. Quem sabe, talvez, numa próxima "etapa" da Operação Lava Jato...

 

SÉRGIO CRUZ
www.horadopovo.com.br

facebook


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Centenas de templates
  • Todo em português

Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também!