Eduardo Campos: Normalmente me dou muito bem com as pessoas, fui educado e criado fazendo o debate político, respeito a opinião das pessoas.

Eduardo Campos: Normalmente me dou muito bem com as pessoas, fui educado e criado fazendo o debate político, respeito a opinião das pessoas.



Eduardo Campos abriu a temporada internacional dos pré-candidatos à eleição presidencial de 2014. Por mais que insistisse em falar como governador de Pernambuco, era a possibilidade de chegar ao Palácio do Planalto o motivo principal do interesse despertado por ele entre empresários investidores e jornalistas que encontrou em Berl

Repetiu que a viagem já estava marcada há dois anos, mas teve na realidade uma agenda de presidenciável. “As pessoas querem ver, saber”, reconheceu. Não caiu na tentação de criticar o governo — só deu umas pequenas cutucadas na presidente Dilma —, mas foi confrontado com a onda de pessimismo sobre o Brasil no exterior.

Para uma primeira vez como pré-candidato, foi bem: cerca de 200 empresários foram ouvi-lo num hotel londrino, teve encontros reservados com investidores, foi recebido no Parlamento. Os jornalistas do “The Economist”, ao entrevistá-lo, foram explícitos: “Estamos aqui porque achamos que você é o mais provável novo presidente do Brasil”, contou Campos, gravador desligado, rindo deliciado. Calmo, nesta entrevista, ele fala da relação com a aliada Marina Silva e entra em alguns debates que animam o Brasil. Sempre com muito cuidado.

Que avaliação o senhor faz da primeira viagem como pré-candidato?

A agenda começava de madrugada e ia até a madrugada seguinte, foi intenso e proveitoso para o estado de Pernambuco. A gente procurou ajudar a leitura do Brasil neste momento. Não fiz críticas ao país, mas, ao responder a uma pergunta, disse que não dava para esconder os problemas, porém ressaltei que nossas dificuldades eram menores do que as de países da Europa. Já tivemos problemas maiores do que esses de agora, mas não dá para achar que está tudo bem e resolvido. A receptividade a esse discurso foi grande, porque ele tem a força da verdade. Não está nem tão bom quanto disseram antes nem tão ruim como pintam agora. Teve também a curiosidade de pessoas que querem saber o que a gente está achando do momento e pensa da economia.

Num mundo em que todos se espionam, o senhor e Marina Silva conseguiram criar uma surpresa política. O que foi decisivo para trocar a aliança com a presidente Dilma pela senadora Marina?

O PSB vem ajudando a construção do projeto em curso desde 89, tivemos candidatura própria em 92, no segundo turno apoiamos Lula, fizemos parte do governo até que decidimos sair em agosto.

Cansou de esperar chegar a sua vez?

Não, saímos do governo para o partido fazer o debate sobre 2014 mais à vontade, aprofundar nossa visão da economia, inovação, governança. Desde 2010 pensamos nisso, quando o partido discutiu candidatura própria. Nas conversas com o presidente Lula, fixamos março de 2010 para tomar uma decisão. Lula achava que uma candidatura única no campo do governo era fundamental para ganhar a eleição no primeiro turno. A gente viu que a eleição não foi resolvida no primeiro turno. No processo eleitoral de 2012, tivemos problemas, e já se discutia essa possibilidade. Havia disputa de posições políticas, falei com a presidente no início do ano sobre a situação, vieram as manifestações de rua e ali houve quem defendesse entregar os cargos para facilitar uma reforma ministerial. Achei que ia aumentar o tumulto, mas à medida que foi voltando a normalidade, antes do fim do prazo da filiação partidária, achamos que era o momento de deixar a presidente à vontade para construirmos um caminho. Não era um caminho simples e fácil, estávamos fazendo um movimento inusitado na política brasileira deixando o governo. Dias depois, Marina se viu impedida de se candidatar porque o TSE entendeu que a Rede não preencheu as condições de disputar as eleições. Ela achou que o PSB era o partido que tinha posições mais próximas dela. O PSB tinha tido gestos com a Rede que eram fora do raciocínio da política: não vamos botar mais um partido para concorrer na disputa eleitoral. Votamos a favor de ela ter o partido, fomos ao Judiciário — as pessoas achavam que era um erro político. Eu achava um acerto político, porque o que Marina defende existe na sociedade, e isso vai revigorar a política. Ter esse pensamento organizado é uma coisa boa, porque vai trazer para a militância fatias da sociedade que já não se veem representadas pelos partidos políticos.

O senhor esteve com Lula depois disso? E com a Dilma?

Falei ao telefone com Lula, no dia do aniversário. Não falei sobre esse tema, liguei para parabenizá-lo, ficamos de voltar a conversar. Não estive com a presidenta Dilma, mas devo encontrá-la em algum compromisso de trabalho.

O senhor se dá bem com mulher mandona? A presidente Dilma e Marina são personalidades fortes...

Normalmente me dou bem com as mulheres. Normalmente me dou muito bem com as pessoas, fui educado e criado fazendo o debate político, respeito a opinião das pessoas. Aprendi a ganhar e a perder.

Já aconteceram desentendimentos entre a Rede e o PSB. Marina atacou aliados seus, rotulando-os como de velha política. Um cacique do PSB — Roberto Amaral — atacou aliados de Marina. Como estão as relações?

Não vi crise nenhuma, vi crise nos outros por causa da aliança. As duas organizações políticas encaixaram muito bem. Têm origens diferentes, têm muita coisa em comum mas também pensamentos diversos. Fizemos diferente de todo mundo, em vez de discutir chapas, discutimos primeiro o pensamento. O que nos une? O que temos de diferença? Quem pretende representar a sociedade brasileira deve expressar a diversidade e ter a marca da convivência salutar com a diversidade. Tenho aconselhado às pessoas que apostam em crise para apostarem pouco, se não, vão perder muito.

Como vai ser escolhido quem será presidente e quem fica de vice?

Não existe ansiedade de nossa parte para discutir nada que não seja o conteúdo da aliança. O debate da formação da chapa será no início de 2014, não vai ter dificuldade, não existe ambiente de disputa. Se a Marina quisesse ser candidata de todo jeito, na hora em que o TSE disse não à Rede, teria procurado um partido que não estava discutindo a pré-candidatura. Se o PSB quisesse ter a mim como candidato de qualquer jeito, teria dito a Marina para ficar em outro partido. Foi a prova de que temos compromisso com um projeto de país e não um projeto de poder. Queremos fazer um debate profundo num tempo de grande mutação no mundo, de busca de novos valores e de melhoria na qualidade da política. Como isso se refletirá nos resultados eleitorais, o tempo vai dizer...

As pesquisas de intenção de voto vão definir quem será cabeça de chapa?

Não, nosso debate é mais político que eleitoral. Não terá problemas entre nós. O importante é juntar boas ideias e boas pessoas, além do PSB e da Rede.

O PT elege hoje o novo presidente do partido num clima de crítica às alianças. Acha que o PT ainda pode encarnar a mudança que os jovens estão pedindo?

Dentro do PT há disputas, e muita gente lá pensa próximo do que estamos pensando, assim como tem muita gente muito distante de nós. Não sei quem vai ganhar a disputa, muitos querem renovação e oxigenação do PT. Eu, como brasileiro, torceria para a turma da renovação ser majoritária. Até porque o PSB e a Rede, ganhando eleição no Brasil, precisarão de quadros com esse tipo de visão.

Marina é religiosa e tem posições fortes sobre aborto, casamento gay, etc. Qual é sua opinião sobre isso?

Minhas posições sobre esses temas são conhecidas e em alguns pontos divergentes das de Marina. Nós nos respeitamos. Temos a clareza de que o Estado brasileiro é laico. Sou católico, mas nunca misturei crença religiosa com minhas atitudes. Como ministro da Ciência e Tecnologia, fiz um debate sobre pesquisa com célula-tronco. O debate sobre o casamento gay é vencido, o Brasil já reconhece isso na aposentadoria e nos direitos civis.

Quais as influências do seu avô Miguel Arraes na sua vida política?

Meu avô tem um exemplo de vida muito bonito. Fez política colocando o interesse do povo no centro do debate político. Sempre defendeu os interesses do país, da nação, os valores da democracia, dos direitos humanos, da liberdade de expressão. Tinha capacidade de juntar pessoas de pensamentos diferentes em torno de objetivos comuns para fazer a vida do povo concretamente melhorar. Era bom de construir acordos, fez o primeiro acordo salarial para os trabalhadores do campo brasileiro. Foi um exemplo de coragem, uma coragem mansa, sem elevar a voz.

O senhor queria ser presidente quando era criança?

A política foi muito dura para a vida da minha família. As crianças foram forçadas a ver um pai preso sem ter feito nada de errado, ficaram órfãos de mãe cedo, depois foram exiladas sem saber por que estavam passando por aquela situação. Isso afastou muitos da minha família da política. Acompanhei desde muito cedo as conversas da política, já com 9 ou 10 anos queria ouvir as conversas reservadas. Comecei a participar, fiz a campanha do meu avô em 1986 e estou até hoje para fazer o doutorado nos EUA para o qual tinha me candidatado naquele ano.

Como vê a tentativa da Comissão da Verdade de contar a História da época da ditadura ? É a favor da revisão da Lei da Anistia?

Acho que se deve olhar para o passado sem rancor e ressentimentos. Convivi com pessoas que presenciaram momentos terríveis, alguns pagaram com a vida, e outros ficaram com marcas psicológicas. Gente que não tinha envolvimento, era filho, casado ou amigo. Precisa ter uma Comissão da Verdade em cada lugar deste país, precisa contar a História como foi e não como tentaram contar. Contando a verdade às novas gerações, a gente pode impedir qualquer tipo de ameaça à democracia. Essa é a forma, não é mexer em Lei de Anistia, é fazer a lei da verdade.

Um debate animado no Brasil é sobre as biografias. Como o seu avô e o senhor são possíveis candidatos a ter uma biografia, qual é sua opinião sobre o assunto?

Sou a favor de as pessoas terem o direito de fazer biografias, contar a História. Se alguma injustiça histórica for cometida, se alguma inverdade em busca de notoriedade for cometida, a gente vai à Justiça. Num Estado democrático, é assim. Qualquer tentativa de proteger celebridades de atitudes irresponsáveis pode ser um filão para tocar o princípio fundamental da livre expressão. Pode gerar censura prévia.

 

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