Descobridor do pré-sal Guilherme Estrella: "Uma grande riqueza nacional não se compartilha com estrangeiros"

 
Geólogo, ex-diretor de exploração e produção da Petrobras, cuja equipe descobriu o pré-sal, fala da história e o perfil da exploração do petróleo no Brasil, passando pela criação da empresa, o marco regulatório do Brasil, a experiência da exploração da Petrobras no Iraque e a necessidade de lançar-nos novamente na campanha ?o petróleo é nosso?. Publicamos aqui a entrevista completa, fundamental para entender o que está em jogo com o leilão do campo Libra e muito mais
 

Causa Operária: O que representam para a produção de petróleo no Brasil as reservas de hidrocarbonetos do Pré-Sal?

Guilherme Estrella: Primeiro, algumas reflexões históricas que acho necessário fazer.

O Brasil é um dos mais importantes países do mundo. Em extensão territorial, em riquezas naturais e com população tendente à rápida estabilidade demográfica.

Somos uma Nação (povo + território) há séculos relegada a planos inferiores no contexto geopolítico mundial, grande supridora de matérias primas e alimentos para os países ditos centrais - mais desenvolvidos social, econômica, política, científica e tecnologicamente - que se utilizam destes produtos justamente para manter suas respectivas hegemonias mundiais.

Esta situação de absoluta dependência e submissão - que empurrava grande parcela de nosso povo para níveis abaixo da linha de pobreza de acordo com parâmetros internacionais - começou a mudar com subida á Presidência da República, em 1930, de Getúlio Vargas.

As políticas sociais e econômicas dos governos Vargas, que perduraram até 1945, permitiram ao Brasil e ao seu povo galgarem os primeiros degraus a caminho de uma efetiva independência e de autonomia de decisão junto à comunidade internacional de nações.

Mas para atingirmos efetivos patamares destes aspectos de soberania nacional, muito mais seria necessário, principalmente no campo da ciência e da tecnologia para que nos tornássemos realmente independentes na exploração de nosso imenso patrimônio estratégico de recursos naturais - como muito bem definiu o Prof. Bautista Vidal - para que, transformados em riquezas concretas pela gente brasileira, fossem destinados à construção de um Brasil socialmente justo, verdadeiramente democrático, igualitário, com oportunidades iguais para todos.

Neste contexto insere-se o enorme potencial energético brasileiro, na medida em que independência energética é fator crítico para o desenvolvimento de toda e qualquer nação, principalmente um gigante como o nosso Brasil.

Dentre as principais fontes energéticas aparecem o petróleo e o gás natural, cuja decisiva importância para o Brasil foi percebida, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, pelo povo brasileiro, que lançou-se às ruas e praças de todo o País para exigir - com o histórico e emblemático lema "O petróleo é nosso!" -  a fundação de nossa empresa petrolífera, destinada a explorar e produzir todo o petróleo e gás natural que ocorresse em nosso vasto território.

Surgiu a Petrobrás, em 1953, que cumpriu e cumpre até hoje, com total competência, esta missão, levando o Brasil á autossuficiência em 2006, após determinação firme do Presidente Lula para que a Companhia recuperasse sua hegemonia no setor petrolífero nacional, perdida nos governos neoliberais anteriores com a extinção do monopólio estatal estabelecido em nossa Constituição Federal, que abria deliberadamente espaços cada vez maiores para a atuação das grandes empresas petrolíferas multinacionais dentro do modelo falido do "estado mínimo", e cujo principal arauto e líder cunhou o lema "a era Getúlio acabou" e, consoante, entregou ao cassino internacional de capitais financeiros, de bandeja, as nossas grandes empresas estatais de energia e infraestrutura.

Quando da posse do Presidente Lula, em janeiro de 2003, a Petrobrás restringia-se aos campos petrolíferos da Bacia de Campos, muitos deles já bastante maduros, outros na fase inicial de produção e o restante dos campos terrestres e no mar do Nordeste e os terrestres do Amazonas. Nossas reservas estavam no patamar do 13 bilhões da barris (óleo e gás).

Não era suficiente para que se configurasse uma base energética de petróleo e gás natural a longo prazo, na medida em que a retomada do crescimento e do desenvolvimento nacionais de um país das dimensões brasileiras exigia volumes muito maiores para enfrentar o grande crescimento do interno de energia, disto resultante.

Ainda mais que a muito prolífica Bacia de Campos se restringia cada vez mais no que tange a novas áreas para serem exploradas e seus campos maduros - e também os com produção recém-iniciada, caminhavam para as fases de produção avançada, com fortes declínios previstos de seus volumes produzidos, como é o processo natural.

Em outras palavras, o cenário futuro, à época - 2005/2006 - apresentava contornos ameaçadores não só para a manutenção da autossuficiência, mas também para a sustentação de volumes confortáveis de reservas e produção diante das perspectivas concretas - que se materializaram desde então - do crescimento brasileiro e do consequente consumo de derivados.

Com a expansão da atividade da frota de sondas marítimas para além das fronteiras geológicas da Bacia de Campos, para as Bacias do Espírito Santo e de Santos, mais uma vez a extrema competência das equipes de exploracionistas da Petrobrás se comprova e logo surgem importantes descobertas de petróleo e leve e gás em águas capixabas e petróleo pesado e gás no pós-sal de Santos.

Não obstante serem descobertas importantes, ainda não era o suficiente.

Em 2006 ocorre a primeira descoberta de grandes volumes de petróleo leve no pré-sal da Bacia de Santos. Tão logo se constata a grandiosidade dos volumes envolvidos, o governo brasileiro percebe - com visão estratégica muito acurada - sua dimensão verdadeiramente crítica para o desenvolvimento autônomo de nosso País e toma a iniciativa de aprovar, no Congresso Nacional o novo marco regulatório das atividades de exploração e produção na extensa área de ocorrência dos condicionantes geológicos que governam a existência mais provável destes imensos volumes de petróleo e gás natural.

O regime de concessão, adotado pelos governos neoliberais pré 2003 - que garantiam às empresas detentoras das concessões a total propriedade do petróleo e do gás produzido - foi substituído pelo de "partilha de produção", onde os volumes produzidos pertencem ao Estado Brasileiro após o ressarcimento dos custos de exploração e produção por parte do consórcio operador de empresas. Foi além, ao garantir à sua (do Estado Brasileiro) empresa petrolífera - a Petrobrás - a condição de operadora única de todos os campos do pré-sal descobertos desde então.

Estas duas condicionantes, repito: (a) petróleo e gás natural produzidos de propriedade do Estado Brasileiro e, (b) Petrobrás como operadora única do pré-sal, encaminham para a objetiva resposta à pergunta.

Primeiro (a) porque o governo define o destino do petróleo e gás natural do pré-sal, ao mercado interno, cada vez mais ávido por energia ou os comercializa internacionalmente, auferindo os vultosos lucros daí advindos, que no modelo de concessão engordam fartamente os caixas das empresas operadoras.

Depois (b) porque não só concentra-se nas mãos da empresa operadora a construção e a prática da política de compras e de contratações - gigantescas e muito variadas, para atender as atividades de exploração e produção do pré-sal - podendo então a Petrobrás intensificar sua firme participação na formação de empresas fornecedoras de bens e serviços genuinamente brasileiras. De outro lado e não menos importante, a Petrobrás vai aprofundar sua contribuição para o desenvolvimento tecnológico brasileiro, através da promoção da criação de novos conhecimentos científicos em nossas universidades e centros de pesquisa, por meio de contratação de empresas igualmente brasileiras principalmente no ramo da engenharia de grandes projetos, entre outros pontos.

Todos estes pontos citados a ter como pano de fundo a formação de uma sólida base científica e tecnológica, estrategicamente indispensável para um país com a importância geopolítica mundial, como o Brasil, desempenhar com soberana autonomia de decisão - com o  atendimento de interesses verdadeiramente brasileiros - o seu papel de não mais coadjuvante, mas protagonista no cenário mundial, ao longo deste século XXI.

 

Causa Operária: Qual é a sua opinião sobre o leilão do mega-campo Libra?

Guilherme Estrella: Como já me pronunciei publicamente, em algumas ocasiões, entendo que o novo marco regulatório do pré-sal estabeleceu a possibilidade de o governo brasileiro contratar diretamente a sua própria empresa petrolífera - a Petrobrás. O fundamento lógico que suportou a inclusão desta modalidade de produzir o petróleo e o gás natural do pré-sal foi a possibilidade da descoberta de acumulações com volumes muito expressivos de hidrocarbonetos a tal ponto que, se compartilhados com consórcios constituídos com empresas estrangeiras - que representam interesses estrangeiros, não brasileiros - poderiam representar focos de potenciais importantes conflitos internacionais (até confrontos, como exibe a escandalosa realidade do setor energético mundial).

Devemos nos lembrar que se estes conflitos e ou confrontos não existem hoje, a cena geopolítica mundial tem sido extremamente volúvel, mutável nestas últimas décadas - quadro que não mostra sinais de mudança - e que um campo como Libra vai demandar 20 ou 30 anos de atividades.

Em minha opinião, portanto, mostra-se com clareza ofuscante que um mínimo de sensibilidade estratégica geopolítica recomendaria de forma irrecusável a contratação direta, pelo governo brasileiro, da Petrobrás para operar 100% de Libra, ficando assim o Estado Brasileiro com a propriedade única de todo o enorme volume de petróleo e gás natural que lá existe, desta forma eliminando integralmente qualquer possibilidade de termos conflitos internacionais.

E em seguimento a estas considerações, engato logo a resposta à pergunta que viria mais pra frente. A grande experiência que apreendi em Majnoon [quando a Petrobras descobriu o mega-campo que levou este nome, no Iraque em 1977] entre outras absolutamente riquíssimas no campo pessoal e profissional - foi que uma grande riqueza nacional não se compartilha com interesses estrangeiros, mesmo que, em certo momento, estes interesses possam mostrar-se aderentes entre si. Majnoon é tão grande - 50 bilhões de barris de reservas de petróleo e gás natural, no barato - que o governo iraquiano convocou a Petrobrás e comunicou: "desculpem, mas uma riqueza desta é estratégica para o nosso país e para o nosso povo, não dá para ficar nas mãos de uma empresa estrangeira, ainda que seja de um país amigo como o Brasil. Esta decisão é final por parte do governo do Iraque, por favor, preparem-se para sentarmos à mesa e negociarmos a ruptura do contrato que temos com vocês". Sem choro nem vela. E não dava nem para argumentar em contrário tal a obviedade do que estavam nos apresentando, simplesmente a manutenção da soberania da nação iraquiana em mãos iraquianas. E foi o que aconteceu.

A tragédia iraquiana é que, duas décadas depois, pressionado por interesses dos países hegemônicos da geopolítica mundial, grandes consumidores dependentes de petróleo para suas respectivas seguranças energéticas de longo prazo, meteu-se em confusões que, afinal, deram origem à invasão e ocupação de seu território nacional por tropas estrangeiras e a consumação de uma pavorosa carnificina humana que se prolonga até hoje e, no campo político do setor petrolífero, à fragmentação do país. A riqueza de Majnoon é hoje "compartilhada" com empresas estrangeiras.

Estes são fatos, não são meras opiniões originadas em mentes nacionalistas "contaminadas por absurda xenofobia", de milhões de brasileiros que não concordaram com o leilão de Libra.

Causa Operária: Quais são os principais fatores e perigos para o povo brasileiro envolvidos no marco regulatório de 1997, o do Pré-Sal e os royalties?

 

Guilherme Estrella: A ampla revisão constitucional levada a efeito pelos governos neo-liberais de 1995 a 2002 reduziu a cacos a gestão do Estado Brasileiro. Seus próceres defendiam e operaram no Brasil a tese do "pensamento único", do "fim dos estados nacionais", da globalização ampla geral e irrestrita, do "estado mínimo" e por aí vai, tese cujo único objetivo era transformar o mundo numa moderna colônia do grande capital financeiro internacional. Viveram - alguns morreram - para assistir a falência total destas ideias e, no Brasil, ao aprofundamento das desigualdades sociais, ao maior empobrecimento dos já pobres, à presença de interesses estrangeiros - por vezes predominante - em áreas estratégicas do nosso País, à crise de nossas universidades, ao desemprego amplo e generalizado, ao endividamento junto ao FMI [Fundo Monetário Internacional].

Enfim todos os horrores que todos conhecemos e que, com a ascensão do metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República em 2003 foi possível reverter e restabelecer as bases da retomada do desenvolvimento nacional, com os excelentes resultados para todo o povo brasileiro, que conhecemos.

A "jóia da coroa" da sanha entreguista neo-liberal, entretanto, era a Petrobrás, símbolo de como uma empresa estatal, monopolista pela letra da nossa Lei Maior, pode ser uma empresa de sucesso no ramo em que atua, obter o reconhecimento internacional por seus avanços tecnológicos, integrar-se profundamente com os centros de excelência de todos os tipos de nossas universidades públicas, realizar um competente levantamento das possibilidades geológicas de nossas bacias sedimentares, entre outras tantas atividades exitosas nos vários campos da cultura, das artes, do meio ambiente e da responsabilidade social junto ao povo brasileiro. O mundo, naquela época como hoje, era sedento de petróleo e gás natural e a prospectividade de grandes reservas nas águas profundas brasileiras já tinha sido constatada pela Petrobrás, na Bacia de Campos.

Mesmo com o Congresso nas mãos - chegaram a quebrar uma das mais sólidas marcas éticas da democracia brasileira, qual seja a de não se aplicar àqueles que exerciam o poder, benefícios eleitorais, que foi a aprovação da reeleição presidencial beneficiando o presidente então no cargo - o maremoto neo-liberal não conseguiu privatizar a Petrobrás. Contudo, avançou deletéria e desavergonhadamente sobre a Companhia, retirou-lhe o monopólio constitucional, implantou-lhe o modelo burro, anacrônico, ultrapassado de "gestão por resultados" através de "unidades de negócios", mudou-lhe o Estatuto para permitir que um brasileiro não nato assumisse sua presidência e por ai vai.

Não conseguiram também mudar-lhe o nome, para atender às exigências neo-liberais internacionais de extrair de todas as entidades estatais qualquer referência ao nome "Brasil", para eles uma noção ultrapassada, atrasada, contando com a grande imprensa "brasileira" para divulgar amplamente estes "novos" conceitos. A iniciativa do Petrobrax foi patética, lamentável. Como se estrangeiros fossem (eram?), menosprezaram, por desconhecerem, a inteligência do povo e da cidadania brasileira. Quebraram solenemente a cara!

Conseguida a quebra do monopólio, esfregaram as mãos e foram à forra. Aprovaram um modelo de "concessão", onde todo o petróleo e gás descobertos são de propriedade absoluta do concessionário.

Mas ficaram "na moita", investiram pouquíssimo. Espertamente, aguardavam a Petrobrás investir pesadamente em exploração e, grande prêmio! jogariam pesado para adquirir, nas próximas licitações, os blocos geologicamente análogos, adjacentes às descobertas feitas pela Petrobrás. Alguns defendem que esta estratégia era veladamente apoiada pela ANP [Agência Nacional de Petróleo], a agência criada para regular o setor petrolífero brasileiro e se alinhava perfeitamente às diretrizes do governo federal. Fala-se que, em instruções não formalizadas, a orientação neo-liberal restringia a Petrobrás a manter somente 40% do setor petrolífero brasileiro, restringir a Petrobrás principalmente à Bacia de Campos.

O modelo de concessão é, portanto, a grande ferramenta de apropriação das riquezas petrolíferas brasileiras por mãos estrangeiras, caso a Petrobrás não fosse a concessionária - e esta era a essência da política neo-liberal. A Companhia ficaria só com 40% do setor.

O governo Lula, empossado em 2003, interrompeu esta trajetória destrutiva para o Brasil.

A partir do entendimento claro de que energia, petróleo e gás natural, são instrumentos essenciais para o desenvolvimento nacional e que, portanto, deveriam ficar sob gestão de sua empresa petrolífera, determinou à Petrobrás que reassumisse seu papel de empresa hegemônica do setor no País.

E assim foi feito. A Petrobrás expandiu a área de atuação de sua frota de sondas, transpondo os limites da Bacia de Campos. Logo vieram as descobertas nos mares da Bacia do Espírito Santo e de Santos. Nesta última, em 2006, a Petrobrás descobre o pré-sal.

Diante da grandiosidade da descoberta e do enorme potencial geológico que toda a área oferecia para outras descobertas semelhantes, o Presidente Lula consegue aprovar, no Congresso Nacional, o novo marco regulatório para o pré-sal.

É indispensável reconhecer agora, em pleno novembro de 2013, já com a enorme riqueza do pré-sal comprovada e à disposição do governo nacional, a visão estratégica de verdadeiro estadista demonstrada pelo Presidente Lula.

Sua corajosa decisão de tirar a extensa área do pré-sal das licitações com o modelo de concessão, foi tomada em cima de expectativas geológicas, não de fatos consumados. O Presidente Lula compreendeu perfeitamente que o Brasil não poderia correr o risco de transferir para a propriedade de empresas e interesses estrangeiros a imensa riqueza do pré-sal, ainda que fosse decorrente das interpretações dos geólogos da Petrobrás - sempre carregadas de grande grau de incerteza, como toda interpretação geológica. E estava inteiramente ciente que, com esta decisão, contrariava frontalmente os gigantescos interesses das grandes empresas petrolíferas multinacionais, cada uma a representar as estratégias de seus respectivos países-sedes.

E bateu o martelo, "tirem da licitação todos os blocos que estão dentro desta área". Decisão que, diga-se de passagem, de acordo com testemunhas presenciais de todo este processo, não contava com a unanimidade de seus auxiliares mais próximos. Mas foi inteiramente cumprida, é o que interessa.

O novo marco estabelece o regime de "partilha de produção" segundo o qual todo o petróleo e o gás natural descobertos são de propriedade do Estado Brasileiro, descontados os volumes que, monetarizados, ressarcem o consórcio operador de suas despesas operacionais, adicionado da parcela apresentada por ocasião do leilão em que ganhou o bloco.

É estarrecedor pensar que as muitas dezenas de bilhões de barris de petróleo, mais o gigantesco volume de gás natural descobertos pela Petrobrás a partir de 2006 no pré-sal da Bacia de Santos poderiam hoje fazer parte, no modelo de concessão, do patrimônio físico de empresas estrangeiras- que representam interesses não brasileiros.

Ainda mais e não menos importante. A Petrobrás é definida, pelo novo marco, como operadora única. A magnitude desta condição é refletida pelo poder que o operador carrega nas mais variadas definições que governam as atividades operacionais como, por exemplo, a política de compra de equipamentos e de contratação de serviços que, no caso, deverão orientar-se pelo apoio e promoção de um parque supridor nacional, com ênfase na empresa genuinamente brasileira, de tecnologias desenvolvidas no Brasil, de novos conhecimentos criados pela universidade brasileira e assim por diante, tudo dentro de uma política de desenvolvimento da engenharia, sensu latu, nacional. E não foi por outra razão que este item - da Petrobrás ser a operadora única - foi e continua a ser amplamente criticado pela grande mídia neo-liberal brasileira, onde articulistas reconhecidamente defensores dos ideais neo-liberais encontram generoso e permanente espaço para deitar seus argumentos anti-nacionalistas.

Ainda mais e novamente não menos importante, o novo marco vem acompanhado pela nova regulamentação da distribuição dos chamados "royalties" sobre o petróleo e gás produzidos do pré-sal, agora destinados ao Fundo Social, a privilegiar investimentos na saúde e na educação do povo brasileiro, assegurando desta forma, a sustentação de programas governamentais de longo prazos naquelas duas áreas extremamente sensíveis e carentes de recursos por parte de toda a sociedade brasileira.

Aproveito esta pergunta sobre os dois marcos - de 1997, de concessões e o de 2011, de partilha de produção - para tecer uma consideração adicional que considero pertinente.

Recentemente, em fevereiro deste ano de 2013, surpreendentemente, o governo colocou integralmente a Faixa Equatorial brasileira na licitação pelo modelo de concessão. Cometeu, ao meu ver, um potencial erro estratégico na medida em que aquela extensa área do mar brasileiro, que vai do Ceará ao Amapá, não é inteiramente conhecida do ponto de vista da geologia do petróleo. Sabe-se, entretanto, que no mar da colônia francesa da Guiana, recentemente, realizou-se uma grande descoberta. Como a região brasileira tem analogia geológica com a da Guiana, mandava a visão estratégica de defesa dos interesses geopolíticos brasileiros que, pelo menos, parte de nossa área não fosse licitada pelo modelo de concessão. Deveríamos ter aguardado as atividades os resultados das atividades exploratórias nos blocos concedidos, de forma a que, se uma nova província petrolífera fosse descoberta, as próximas licitações fossem realizadas pelo regime de "partilha de produção".

 

Causa Operária: Sob o ponto de vista financeiro e tecnológico, o Brasil precisa dos leilões para produzir petróleo no Pré-Sal? Quais são os riscos inerentes à produção?

Guilherme Estrella: A participação de recursos estrangeiros em qualquer atividade industrial, na minha opinião, deve ser precedida de reflexões sobre o real interesse nacional. E esta é uma discussão ideológica e política.

No caso da exploração e produção de recursos petrolíferos - como em todo o espectro de produção de insumos energéticos - tenho já me pronunciado inúmeras vezes. Defendo a condução direta e intransferível destas atividades por entes do Estado Brasileiro. Energia é insumo estratégico e de grande e geral dimensão social. Quando ficam sob gestão de interesses privados transformam-se em geradores permanentes de conflitos de inconciliáveis interesses, como comprova a história recente do Brasil, após a chamada "privataria tucana".

Mas a Constituição foi mudada e é a tal "conversa para enganar trouxas". Quando é para privatizar, tirar o controle das mãos do Estado e do povo, mudam-se as leis, até a Carta Magna. Mas quando é para estatizar, o instituto da "honra dos contratos assinados" é que tem que prevalecer. Quando o sistema vai à falência, desmorona fragorosamente - por corrupção generalizada em seus intestinos mais íntimos - como é o caso da crise mundial que começou em 2008, até a pátria ideologicamente imaculada do capitalismo enterra 30 trilhões de dólares  públicos na  estatização de bancos e empresas privadas, inunda a economia doméstica e mundial, como um verdadeiro tsunami, há anos, com 85 bilhões de dólares também públicos todo mês, e todo mundo  acha normal.

Ainda bem que o cidadão mundial está nas ruas - principalmente os mais jovens - a protestar contra tudo isto. E esta será a realidade ao longo de todo este século XXI, cada vez mais incisiva no sentido de reais mudanças na governança das nações.

De qualquer maneira, se a presente lei permite a participação de interesses privados, como é o caso do setor petrolífero - que demanda substanciais volumes de recursos financeiros, técnicos e tecnológicos - temos que levar em consideração de um lado os riscos inerentes à atividade e de outro o interesse público nacional e trabalhar permanentemente para conciliar os dois lados. Em qualquer situação, porém, o desenvolvimento nacional como um todo, social, econômico e tecnológico deve prevalecer.

 

Causa Operária: Qual é a sua opinião sobre a redução do conteúdo nacional para a produção e exploração do petróleo no Brasil?

Guilherme Estrella: Pergunta importante. O pré-sal brasileiro vai movimentar algumas centenas de bilhões de dólares. É dinheiro "para ninguém botar defeito".

E aqui peço desculpas a todos que lerem esta entrevista pela minha teimosa, repetitiva, até cansativa, reconheço, ladainha que não me canso de recitar por que estou absolutamente convencido de sua total propriedade.

O cerne da verdadeira soberania nacional reside na nossa competência em conceber, planejar, projetar, construir, implantar, operar, inovar e manter ininterruptamente este ciclo virtuoso. Mas esta oportunidade - absolutamente ímpar em toda a nossa história de nação - só impõe uma condição, inquestionável: tem que ser realizada através da empresa genuinamente brasileira, da universidade brasileira, dos centros de pesquisa e desenvolvimento brasileiros, enfim da engenharia nacional por que ai está a verdadeira soberania brasileira, nos cérebros brasileiros trabalhando no Brasil para instituições brasileiras.

O dinheiro a ser investido no pré-sal, de forma inescapável para um governo que efetivamente objetive o desenvolvimento brasileiro, tem que cumprir esta missão. Se isto não vier a acontecer, teremos cometido um indesculpável crime de lesa-pátria, que vai comprometer o futuro de nossa Pátria, que vai condenar os cérebros de nossos netos a não trabalhar para os reais interesses do Brasil e do povo brasileiro.

 

Causa Operária: Por que o investimento no refino tem sido insuficiente no Brasil?

Guilherme Estrella: Investimentos em refino têm os seguintes objetivos: (1) manutenção e melhorias qualitativas do sistema de processo das refinarias e do parque de refino; (2) expansão das refinarias para refinarem maiores volumes de petróleo bruto para atender ao aumento da demanda do mercado consumidor; (3) ajuste do perfil de refino às demandas do mercado suprido pelas refinarias; (4) construção de novas refinarias.

O nosso parque de refinarias (12 refinarias) tem recebido investimentos em todos estes segmentos nestes últimos 12 anos, principalmente os de números (1), (2) e (3). Ocorre que o consumo brasileiro de combustíveis, em termos volumétricos anda pelos 1,9 ou 2,0 milhões de barris por dia a muito tempo.

Com a retomada rápida do desenvolvimento nacional a partir de 2003, o parque de refino nacional retomou os investimentos. No início, focado no ajuste dos processos de refino de nossas refinarias - projetadas originalmente para produzir principalmente gasolina - para produzir mais diesel, cujo consumo aumentava sempre. Este ajuste não pode ser feito integralmente, isto é, inverter totalmente a parte de diesel para gasolina na produção de uma refinaria, de modo que a importação de diesel para suprir a nova demanda sempre existiu, mesmo depois dos ajustes.

Mas o contínuo crescimento desta demanda - novamente, o Brasil não parou de crescer desde 2003 e praticamente toda a produção brasileira, industrial e agrícola corre em cima de pneu de caminhão, não há ferrovias no nosso Brasil continental (ou quase isso) - alavancou o grande aumento no consumo de diesel, que passou a ser importado em grande escala desde então.

A Petrobrás partiu então para a construção de refinarias com o perfil de processo voltado para a produção majoritária de diesel. Vieram, neste contexto, as construções da Renest (PE), que deve entrar em operação proximamente, do Comperj (RJ), previsto para 2016,acho, e as 2 refinarias do Nordeste (CE e MA) com entrada em operação para mais tarde.

De qualquer maneira, estas são respostas baseadas em minhas informações gerais, de quando estava diretor [da Petrobras]. É provável que contenham alguma imprecisão ou desatualização, no mínimo.

 

Causa Operária: Por que a Petrobras tem sido onerada com os custos da importação do etanol? O que isso representa?

Guilherme Estrella: O "caso" do etanol brasileiro é complicado.

A Petrobrás foi surpreendida por 2 acontecimentos mais ou menos inesperados: (1) a crise do etanol brasileiro, o álcool automotivo simplesmente saiu do mercado (antes desta crise, a Petrobrás exportava excedentes de gasolina produzidos por nossas refinarias) e (2) a chegada em massa de milhões de veículos "flex" nos últimos 3 anos.

Antes disso, se faltasse etanol - como ocorreu algumas vezes - a frota de carros a álcool simplesmente parava (aconteceu comigo) e o problema era com os usineiros e o governo, não com a Petrobrás.

Mas com os carros "flex", saiu o etanol entrou a gasolina, direto e reto, na veia e o consumo de gasolina explodiu, com o agravante que o motor "flex" bebe mais gasolina que o motor projetado e calibrado para usar só gasolina e bebe mais etanol que um motor projetado e calibrado para queimar só etanol. Resultado, consumo de gasolina ainda mais alto.

E o parque de refino da Petrobrás, recém adaptado para produzir mais diesel, não conseguiu atender à brusca super elevação da demanda por gasolina. Resumo da ópera, passamos de exportadores para importadores também de gasolina.

Acho que não chegamos a importar etanol para consumo direto nos carros, pelo menos em grande quantidade.

O que ocorreu foi que o etanol desapareceu de tal forma que não havia - pelo menos em certos períodos - etanol anidro sequer para atender aos 20/25% que entra na composição de nossa gasolina como regulador de octanagem. E aí sim, tivemos que importar álcool de milho dos Estados Unidos.

Então, a instabilidade do nosso mercado consumidor, o elevado crescimento nacional e a crise do etanol brasileiro trouxeram um nível de imprevisibilidade nunca imaginado e a Petrobrás, como supridora única do mercado brasileiro de combustíveis, paga a conta.

Também como na pergunta anterior, estas reflexões, por não serem ligadas a assuntos de exploração e produção, podem conter imprecisões.

 

Fonte Causa Operária



 
 

 

 

 

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