Como o governo Dilma sumiu com a fome de 10 milhões de pessoas

 

A fome está praticamente superada, diz ministra

A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, afirmou, em artigo na imprensa, que “os números nos permitem afirmar que a pobreza crônica no Brasil segue o mesmo caminho da fome, considerada um fenômeno praticamente superado” (grifo nosso).

Em geral, “números” - estatísticas populacionais - que estão contra àquilo que nós podemos ver ou sentir (por exemplo, pessoas em condição miserável, passando fome) não devem ser verdadeiros. Exceto se a fome dos miseráveis for uma alucinação coletiva dos brasileiros, esses ingratos que não reconhecem as maravilhas do governo Dilma.

Mas, nesse caso, os “números” também nada têm a ver com o que disse a ministra. O Ipea, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2013), do IBGE, constatou o aumento - de 10.081.225 pessoas (2012) para 10.452.383 (2013) - no número de brasileiros que não têm renda sequer para “uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias necessárias para suprir adequadamente uma pessoa”, segundo o critério da FAO e da OMS.

Esses brasileiros “extremamente pobres” constituem 5,5% da população. E um aumento de quase 4% de um ano para outro não é pouca coisa.

Então, a que números se refere a ministra, para dizer que a fome é um “fenômeno praticamente superado”? Ou que a “pobreza crônica” está a caminho de ser superada - num país em que 11,6 milhões de pessoas, segundo o IBGE, tinham, em 2013, um rendimento mensal médio de 179 reais, enquanto 81 milhões de brasileiros em idade de trabalhar tinham uma renda mensal média entre zero e 986 reais (cf. IBGE, PNAD 2013, v. 33, tabela 4.1, p. 57)?

A ministra, em seu artigo, não contesta os números do Ipea e do IBGE. Portanto, deve achar que 10,5 milhões de pessoas passando fome não são “significantes” - e que aquele que ganha 986 reais deixou de ser pobre. Os 10,5 milhões de famintos devem ser tão insignificantes, que a ministra considera que a fome é “um fenômeno praticamente superado”.

Porém, segundo diz, a pobreza é um fenômeno “multidimensional”, não se limita somente à renda, tese que, modestamente, atribui ao Banco Mundial, sendo ela apenas uma fiel seguidora desta sapiente instituição, conhecida pelas suas preocupações sociais.

Ela repete, literalmente:

O objetivo das políticas sociais não se resumiu a transferir renda por meio do Bolsa Família. O grande desafio era fazer com que os mais pobres tivessem também educação, saúde, saneamento, eletricidade e moradia. A partir de 2011, o acesso à renda e a serviços e a inclusão produtiva no campo e nas cidades se intensificaram com o Plano Brasil Sem Miséria” (grifo nosso).

Não será exagero concluir que a ministra considera que a renda é um aspecto secundário da pobreza e da miséria. Mas não tiraremos (ainda) essa conclusão. Resta saber onde estão esses serviços públicos  (educação, saúde, saneamento, etc.) a que os mais pobres estão tendo acesso (significativamente, ela omitiu os transportes urbanos, porque esses todo mundo sabe como estão, em qualquer parte do país).

Mais importante ainda são alguns detalhes práticos: como será que as crianças e adolescentes, entre aqueles 10,5 milhões de desnutridos e esfomeados, usufruem, por exemplo, da “educação”?

Como é possível ter um bom aproveitamento na escola com a barriga roncando de fome ou com a cabeça fixa no prato de comida que não se comeu (ou, como vi algumas vezes no Nordeste, com o cérebro entorpecido pelo álcool, que, às vezes, é a única fonte de calorias)?

A ministra pode achar que, com a aprovação automática, isso não é um problema – mas, aí, além da fome, a educação torna-se um problema, melhor dizendo: torna-se uma farsa.

Pois é dessas realidades, em sua rudeza, que nós estamos falando – não de abstrações ou de marketagem indecente ou das fantasias de intelectuais medíocres ou solitários.

Como é fraude recorrente nos dilmistas, a ministra dilui o fracasso do governo Dilma no sucesso do governo Lula – o número dos extremamente pobres, entre 2003 e 2009 (não houve PNAD em 2010, ano do Censo), caiu 48% (saíram dessa situação 12.645.066 pessoas).

Porém, diz a ministra que seus números são os do “índice multidimensional” do Banco Mundial. Com esse índice, ela transformou os 5,5% de “extremamente pobres” mais os 15% de cronicamente pobres (população abaixo da linha equivalente a duas vezes a da miséria) em 1,1%!

Nem o grande J. Cristo, quando alimentou cinco mil pessoas, multiplicando cinco pães e dois peixes, conseguiu semelhante milagre. Pelo menos nenhum dos quatro evangelistas registrou algo nem de longe comparável ao feito da ministra Campello.

A diferença é que Cristo - segundo Mateus, Lucas, Marcos e João – teve que multiplicar peixes e pães para realmente alimentar o povo que seguia seus passos após o assassinato de João Batista. Já a ministra Campello, para transformar 20% de pobres em 1,1%, não precisou alimentar ninguém, nem fazer coisa alguma – fez o seu milagre sem que nenhum vivente (ou morrente) deixasse de passar fome.

Por justiça, somos obrigados a registrar que tal fenômeno paranormal não pode ser descarregado sobre as costas – bem largas – do Banco Mundial.

Por decreto, no “Brasil Sem Miséria”, o governo Dilma rebaixou a linha da miséria para R$ 70 (setenta reais) mensais, praticamente a metade do que era no governo Lula (v. HP 03/06/2011).

Qual foi o resultado desse rebaixamento da “linha da miséria”, hoje em R$ 77 (setenta e sete reais)?

O resultado pode ser evidenciado por uma comparação: em 2004, os miseráveis - os que recebiam abaixo da renda suficiente para uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias adequadas a um ser humano - eram 13,22% da população.

Se, naquela época, fosse usada a “linha da miséria” do governo Dilma, esse percentual cairia para 7,6%, sem que um único brasileiro deixasse de passar fome.

Essas percentagens estão no banco de dados do Ipea, tanto aquelas que correspondem às linhas da miséria e da pobreza baseadas nas calorias necessárias a um ser humano – critério da ONU, OMS, FAO – quanto aquelas que correspondem às linhas subnutridas do “Brasil Sem Miséria”.

A partir desses percentuais, é possível calcular o que isso significa em número de pessoas: o número de  miseráveis em 2004 cairia de 23.577.095 para 13.554.154 de brasileiros somente com essa manipulação - melhor dizendo, com essa falsificação da “linha da miséria”.

Apenas para ressaltar: seriam eliminadas, do número de “extremamente pobres”, 10 milhões de pessoas (10.022.941), sem que nenhuma delas deixasse de passar fome.

É verdade que em 2011, quando a linha da miséria foi efetivamente rebaixada, exclusivamente devido aos avanços do governo Lula, foram eliminadas 3,5 milhões (3.563.512) de pessoas. Mas apenas gente que perdeu a capacidade de identificar-se com os outros seres humanos – ou seja, perdeu sua humanidade - pode achar que 3,5 milhões de pessoas, que não têm reconhecida pelo governo nem a própria fome, é coisa de somenos.

Ou a ministra Campello - ou sua chefe - gostariam de estar entre essas 3,5 milhões de pessoas? Ou entre as 10,5 milhões que passam fome enquanto elas jogam com os “números”?

CARLOS LOPES

 

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