Carlos Lopes: Governo segura investimentos da Eletrobrás no primeiro semestre

Carlos Lopes: Governo segura investimentos da Eletrobrás no primeiro semestre

 

Em seis meses, o Grupo Eletrobrás investiu apenas 
R$ 2,5 bilhões da dotação anual de R$ 10 bilhões

Existe algo espantoso no Relatório do 3º bimestre do Orçamento das estatais - e não é o fato de que, de janeiro a junho, 90% de todos os investimentos das 72 estatais federais foram feitos por um único grupo de empresas, o Grupo Petrobrás; ou de que 64,9% de todos os investimentos correspondem a uma única empresa, a própria Petrobrás; ou de que 83,8% dos investimentos correspondem apenas a dois programas governamentais, ambos ligados à Petrobrás (“programa de petróleo e gás”: 54,4%; “programa de combustíveis”: 29,4% dos investimentos).

Na verdade, em termos monetários, essas cifras revelam-se ainda insuficientes para as nossas necessidades na área do petróleo e derivados, como o leitor pode conferir:

1)   Total dos investimentos das estatais:

R$ 46.507.342.376;

2)   Investimentos do Grupo Petrobrás (23 empresas):

R$ 41.684.919.459;

3)  Investimentos da Petrobrás:

R$ 30.182.508.224.

Considerando que a Petrobrás tem o pré-sal para desenvolver, essas quantias, investidas no primeiro semestre, são até modestas, sobretudo quando era possível, perfeitamente, aumentar esses recursos com financiamentos (nada menos que 85,2% dos recursos investidos foram de geração própria; apenas 1,8% dos recursos vieram de operações de crédito de longo prazo  – ver relatório cit., p. 4).

Mesmo considerando esses espantos, o que parece realmente espantoso é a miséria – considerando o tamanho, as necessidades e o potencial do Brasil - investida em energia elétrica, ou seja, os investimentos das 19 empresas do Grupo Eletrobrás. Todo o programa de energia elétrica do governo correspondeu a apenas 5,8% dos investimentos das estatais. Abaixo, um resumo das principais empresas do grupo e seus investimentos de janeiro a junho; entre parênteses, a percentagem em relação ao total dos investimentos das estatais no mesmo período:

1) Investimentos do Grupo Eletrobrás:

R$ 2.568.265.899 (5,5%);

2)  Eletronuclear:

R$ 565.181.451 (1,2%);

3)  CHESF:

R$ 551.666.759 (1,2%);

4)   Amazonas Distribuidora - AmE:

R$ 513.341.135 (1,1%);

5)  Furnas:

R$ 303.011.068 (0,7%);

6)  Eletrosul:

R$ 171.150.466 (0,4%);

7) Eletronorte:

R$ 111.683.936 (0,2%).

Certamente aparecerão alguns para dizer que é isso mesmo, pois os investimentos das empresas elétricas já foram amortizados – em suma, as hidrelétricas já foram pagas. Logo, não seriam necessários mais investimentos de vulto.

No entanto,  a dotação anual, em 2013, para investimento do Grupo Eletrobrás é R$ 10.240.591.487. Ou seja, em seis meses, ou meio ano, o Grupo Eletrobrás investiu apenas 25% de seu orçamento para investimento. Evidentemente, o governo está segurando ou “contingenciando” os investimentos da Eletrobrás, numa situação de crescimento cadente da economia – projeta-se menos de 2% para a variação do PIB este ano -, ao que se junta a tentativa de desmonte desse grupo de empresas estatais, com a demissão de 4 ou 5 mil dos funcionários mais experientes e a recusa de qualquer aumento salarial para os que insistirem em ficar, ou seja, para os que quiserem lutar pelo controle nacional da energia elétrica. E tudo isso sob o tacão do Banco Mundial.

A quem beneficia o crime, isto é, essa política? Obviamente, aos especuladores da energia, incluindo as multinacionais que se infiltraram no sistema elétrico durante o governo Fernando Henrique, um grupo especialmente bandidesco.

O problema da suposta argumentação de que os investimentos da Eletrobrás seriam modestos porque, no essencial, já foram feitos, é, em primeiro lugar, as necessidades do país. No momento, nossa capacidade de geração de energia elétrica (124.390.285 kW) é inferior à da Itália, país muito menor e sem o mesmo potencial energético – longe disso – que o nosso (cf. EPE/MME, Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2012, p. 23 - não nos deteremos, hoje, sobre a transmissão e distribuição, apesar de sua evidente importância, pois não é necessário para o que queremos demonstrar).

Aliás, segundo a mesma fonte oficial, nossa capacidade de geração é 9,6 vezes inferior à dos EUA; 8 vezes inferior à da China; 2,6 vezes inferior à do Japão; 2 vezes inferior à da Rússia; 1,7 vezes inferior à da Índia – e paramos por aqui porque o que queremos não é esmagar o leitor sob um monte de dados, mas enfatizar o estrangulamento de nossa capacidade, após as barbeiragens privatizantes de Fernando Henrique, que redundaram no apagão de 2001.

A consequência é que a oferta de energia elétrica passou a ser um limitante do crescimento – não tanto, diga-se de passagem, quanto à mediocridade dos últimos dois anos e meio, na qual as restrições elétricas não tiveram papel, mesmo encarecendo os custos (mas esse encarecimento foi, sobretudo, um produto da especulação, não exatamente dos problemas de exiguidade material, embora seja evidente que não interessa aos especuladores que aumentemos qualitativamente a nossa capacidade de geração e transmissão de energia elétrica).

A questão é mais estratégica: para crescer durante vários anos (como alguns dizem: de forma sustentada) a uma taxa que nos permita superar as nossas carências, teremos que ampliar o nosso parque elétrico – o que é mais fácil hoje do que na época em que os presidentes Getúlio, Juscelino e Jango revolucionaram o panorama da energia elétrica no Brasil.

Mas não será com investimentos de R$ 2,5 bilhões em seis meses, bloqueando metade dos recursos, que faremos tal empreendimento.

 
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