Caem PIB, consumo, investimento, indústria e a renda nacional bruta

Estagnação e retrocesso. É um dos piores desastres econômicos da história do país

O mais preocupante no resultado das Contas Nacionais – i. é. do Produto Interno Bruto (PIB) - do primeiro trimestre do ano, é que a presidente Dilma acha que esse não é um problema seu.

A tal ponto que convocou um debilóide para falar aos seus ministros sobre a diferença entre o "PIB do povo" (isto é, a renda média segundo a PNAD, do IBGE) e o "PIB dos economistas" - o PIB real, cujo núcleo é composto pela soma do valor adicionado em cada setor da economia. Como é evidente, se a renda média está subindo mais que o PIB, isto significa que a produção interna está sendo impedida de crescer, não que a renda esteja decolando para Alpha Centauro – e a consequência é o encalacramento do país no deficit externo, pois, sem aumento do produto interno, a renda será crescentemente gasta em importados.

Qualquer sujeito medianamente inteligente entende isso. Mas a presidente Dilma acha que resolve o problema com charlatães e débeis mentais. Talvez aquele pessoal que, no passado, convocava os astrólogos, fosse mais racional.

Disse a presidente a empresários que "nós fomos o quarto maior crescimento do G20". Trata-se de uma fuga evidente (mesmo se verdade fosse, o crescimento microscópico de 0,2% não deixaria de ser microscópico por causa disso). Mas, além disso, é, rigorosamente, mentira.

Dos membros do G20, 13 deles já divulgaram o resultado de suas contas nacionais no primeiro trimestre: oito – repetindo: oito – cresceram mais que o Brasil. Foram: Índia (+2,1%); Japão (+1,5%); China (+1,4%); Indonésia (+1,2%); Coreia do Sul (+0,9%); Alemanha (+0,8%); Inglaterra (+0,8%); e México (+0,3%) - cf. OECD, "Quarterly National Accounts, Gross domestic product, Growth rate compared to previous quarter, seasonally adjusted".

Mas, disse a presidente, "nós fizemos o possível e o impossível" para que o país crescesse. Não sabemos como ela fez o impossível, mas essa frase oca é apenas para evadir-se da responsabilidade por um dos piores desastres econômicos da história do país. Tanto assim que, em seguida, atribuiu o crescimento nulo ao suposto pessimismo dos empresários ("um problema seríssimo de expectativa; enquanto esse problema não passar, fica muito difícil o processo").

Quanto à solução do problema, consiste nos empresários - que, com seu pessimismo, afundaram o PIB - apoiarem-na para que seja reeleita: "após a eleição vai mudar a expectativa".

Se as coisas melhorarem em novembro, não vai ser porque a srª Rousseff foi reeleita.

A razão é que problemas econômicos não caem do céu. O resultado desastroso do PIB foi, precisamente, o resultado de uma política econômica desastrosa. A mesma que a presidente quer continuar, tanto que, para mantê-la, fez "o possível e o impossível". Logo, a solução é mudar o presidente por outro melhor.

O crescimento da economia do país, foi 0,2% em relação ao trimestre anterior, o que, na prática é zero. O consumo das famílias foi menor que no trimestre anterior. O investimento não apenas caiu -2,1%, como, também, caiu pelo terceiro trimestre seguido, em relação ao anterior: -2% (terceiro trimestre de 2013), -1,2% (quarto trimestre de 2013) e -2,1% (primeiro trimestre de 2014).

A taxa de investimento (investimento/PIB) - que Dilma prometeu elevar para 25% - caiu para 17,7% do PIB.

Para que o leitor tenha uma ideia de como essa taxa é ridícula para uma economia com o tamanho - e as necessidades - da nossa, a taxa de investimento da China é 47,7% do PIB; da Nicarágua, 30,4%; da Índia, 34,8%; da República do Congo é 34,6%; do Equador, 28,9%; da Indonésia, 33,4%; do Peru, 28,4%; da Malásia, 27,1%; da Colômbia, 24,5%; do Vietnã, 25,3%; do Chile, 23,6%; e da Argentina, 23,5% (cf. FMI, "World Economic Outlook Database, April 2014").

Desde o primeiro trimestre de 2011 – ou seja, desde o primeiro trimestre do governo Dilma - a taxa de investimento está caindo: de 19,5% (primeiro trimestre de 2011) para 18,8% (primeiro trimestre de 2012), depois 18,2% (primeiro trimestre de 2013), e, agora, 17,7% (primeiro trimestre de 2014).

Resta saber como é possível crescer com o investimento (isto é, os gastos com ampliação da capacidade produtiva) caindo há 36 meses.

O PIB industrial foi negativo (-0,8%), também pela terceira vez consecutiva: -0,1% (terceiro trimestre de 2013), -0,2% (quarto trimestre de 2013) e, agora, -0,8%. Pelo critério usado habitualmente, isso configura uma recessão industrial.

A situação é tão ruim que, ao mesmo tempo que caiu o investimento, a "poupança bruta" também caiu, assim como a taxa de poupança (poupança bruta/PIB) - que era de 17% do PIB no primeiro trimestre de 2011 e agora está em 12,7%.

Como a poupança bruta é definida como a "parcela da renda disponível bruta que não é gasta em consumo final", como se explica que ela tenha caído apesar da queda geral na demanda (investimento + consumo das famílias).

A questão é referida logo em seguida, no relatório do IBGE: "A Necessidade de Financiamento alcançou R$ 66,3 bilhões ante R$ 56,0 bilhões no mesmo período do ano anterior. O aumento da Necessidade é explicado, principalmente, pelo acréscimo de R$ 1,5 bilhões em Renda Líquida de Propriedade enviada ao Resto do Mundo e pela redução no montante de R$ 8,0 bilhões no Saldo Externo de Bens e Serviços".

Na verdade, caiu também a renda nacional bruta (também chamada PNB: produto nacional bruto), que, ao contrário do PIB, inclui as transações com o exterior: de R$ 1,3 trilhão (quarto trimestre de 2013) para R$ 1, 2 trilhão (primeiro trimestre de 2014). Como consequência, a "renda disponível bruta" (renda nacional bruta menos as transferências de recursos enviadas e recebidas do resto do mundo) caiu -6,41% em relação ao último trimestre de 2013.

Detalhamos um pouco mais do que normalmente as contas nacionais porque só um irresponsável tentaria ignorar uma situação de tal gravidade – ou, pior, tentaria passar para os outros um mundo irreal, como se não existissem problemas, quando eles são gravíssimos. Não há reeleição que valha tal contorção de caráter. Evidentemente, não há outro jeito de superar essa situação, senão conhecendo-a.

Sobre as causas, o estrangulamento da economia por juros altíssimos – e, por consequência, também por um câmbio que flutua contra o país, subsidiando mercadorias importadas contra as nacionais, e a própria desnacionalização das empresas – só poderia conduzir à desindustrialização do país, portanto, ao pântano: estagnação e retrocesso.

Entre 1931 e 1979, o Brasil cresceu à média de 6,4% ao ano, com um aumento médio do investimento de +7,9% ao ano. A média de crescimento do país no período republicano é 4,4% ao ano.

A do governo Dilma, dificilmente chegará a 1,9%.

CARLOS LOPES

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