“Apoio incondicional a Dilma desfigura a história da UNE”

“Apoio incondicional a Dilma desfigura a história da UNE”

Katu Silva, secretário-geral da entidade e coordenador do Mutirão critica: “A UNE não pode apoiar um governo que criou as MPs 664 e 665 e atacou a educação brasileira”

A expectativa é grande para saber qual será a posição que a União Nacional dos Estudantes (UNE) tomará frente à política neoliberal - historicamente rechaçada pelos estudantes – adotada pelo governo da presidente Dilma Rousseff, a partir da realização do seu 54º congresso, entre os dias 3 e 7 de junho, em Goiânia, onde o movimento estudantil debaterá as bandeiras dos estudantes e elegerá a nova diretoria da entidade para os próximos dois anos.

A UNE apoiará ou não este governo que corta R$ 9,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação (MEC) como ajuste para sair da crise e ao mesmo tempo, em quatro meses, paga R$ 146 bilhões de juros a banqueiros?

 “É inadmissível que a entidade fique a reboque de interesses mesquinhos e contra os interesses do povo. A UNE não pode apoiar um governo que levou ao Congresso Nacional e, distribuindo cargos de segundo escalão a deputados, conseguiu a aprovação das MPs 664 e 665, que cortam e limitam o acesso ao seguro desemprego, cortam a pensão das viúvas, e se empenha em legitimar a terceirização das atividades-fim, em todos os setores, com o PL 4330 – afinal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se reuniu com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para garantir a tramitação do projeto e a presidente já disse que seu ministro não faz nada que ela não mande”, criticou Katu Silva, secretário-geral da UNE e dirigente do movimento Mutirão (PPL).

De acordo com o movimento Juntos! (PSOL), que compõe o campo denominado “Oposição de Esquerda” na diretoria da entidade, não há diferença na política praticada pelo PT e o PSDB. “A velha oposição de direita, de maneira hipócrita, critica o governo, escondendo que as atuais práticas espúrias do petismo são, na verdade, as práticas históricas do PSDB”. “Ainda que, publicamente, PT e oposição de direita troquem farpas, o fato é que, hoje, ambos têm na essência um acordo: ‘ajustar’ a economia retirando direitos do povo”, destaca a tese do movimento.

“Dilma e Levy operam um corte orçamentário de pelo menos R$ 70 bilhões somente em 2015, afetando o conjunto das áreas sociais e programas ligados à moradia, saúde e educação. Enquanto é o povo quem paga pela crise, os multimilionários seguem lucrando aos bilhões, como demonstra o crescimento exponencial dos lucros dos bancos no primeiro trimestre. Uma completa injustiça”, ressalta o Juntos!

 CORTES

 Katu Silva apontou a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), maior universidade federal do país, como exemplo do que está acontecendo nas universidades com a política adotada por Dilma. “O seu orçamento (da UFRJ), que já havia sido contingenciado em 20% em 2014, e agora em mais 30%, não é suficiente para o pagamento de funcionários e contas como água e luz. Situação não vista nem nos tempos de FHC. Desde o começo do ano, podemos ver a gravidade da situação. O início das aulas foi adiado, o Museu Nacional – o mais antigo do país, fechado, e 56 cursos paralisaram as atividades em decorrência da crise”, afirma.

Para o movimento Juntos!, é escandaloso que se cortem verbas da educação justamente quando a área precisa de mais orçamento. “Falta de tudo: professores, funcionários, infraestrutura, restaurantes universitários, moradia, transporte, verbas para viagens, para atividades de pesquisa e extensão etc. As taxas de evasão crescem, pois o governo não dá condições de permanência”, conta a tese ao congresso do coletivo.

 EXPANSÃO

 “O Reuni, política de expansão da Universidade Pública, foi o primeiro a ser enterrado. Logo em 2012, Dilma derrubou pela metade o orçamento destinado às obras que buscavam expandir o acesso, de R$ 1,9 bilhão ele caiu para R$ 950 milhões, após seis anos de aumentos consecutivos”, denuncia o Mutirão.

O Juntos! lembra ainda que o governo Lula aumentou as vagas nas federais, mas que com os cortes no REUNI a qualidade de ensino é fortemente prejudicada. “Se o número de estudantes cresceu cerca de 100%, o de professores não chegou a crescer 50%. O mesmo na ampliação dos espaços físicos ou no orçamento. Na prática, o REUNI ampliou o acesso às universidades, sem, no entanto, apresentar um investimento compatível com tal ampliação”.

 ENSINO PRIVADO

“Através do Fies e do Pronatec o repasse de verbas públicas para as universidades particulares em apenas quatro anos (2010 a 2014), saltou de R$ 1,1 bilhão de reais para R$ 13,7 bilhões, um aumento de 1.370%. Em 2013, o governo Dilma ofereceu 1 milhão e 137 mil vagas nos vestibulares das universidades federais e 1 milhão e 659 mil vagas privadas financiadas por dinheiro público. Isso deixa claro qual é a prioridade do governo federal”, pontua Katu.

De acordo com o Juntos!, não é justo que o estudante que recorra às faculdades privadas, seja obrigado a lidar com faculdades de baixa qualidade, pautadas pelo mercado, com diploma desvalorizado em relação às universidades públicas e, ainda, com mensalidades abusivas. “Agora, além disso, o governo começa a desmontar o FIES e debitar a conta do ajuste nos estudantes, que perdem suas matrículas”, explica o movimento.

No FIES o resultado dos cortes foi que 157 mil estudantes, que já possuíam contratos, foram cortados e em sua maioria, desistiram da universidade. Além disso, outros 178 mil estudantes que tentaram foram rejeitados.

FORA DILMA

Para o movimento Mutirão “a UNE deve combater em cada universidade, em cada sala de aula deste país a política neoliberal da presidente. Nesse momento a única forma de ser verdadeiramente contra os cortes, pacotes de maldades contra os trabalhadores é pedir fora Dilma, fora Temer, fora Cunha, fora Calheiros, por eleições limpas”.

De acordo com o movimento Juntos! “a UNE não pode ter rabo preso com nenhum lado nesse jogo de culpados e corruptos. Queremos que a UNE esteja nas ruas para construir uma terceira via que, assim como na Grécia, aponte uma saída pela esquerda para a crise”.

 COMPROMISSO COM O ARROCHO

 Já a ala dilmista que se faz presente no congresso da UNE, tenta omitir a política de arrocho do debate e não enfrenta os cortes. A candidata a presidente da entidade pelo movimento Abre Alas (UJS), Carina Vitral, em entrevista publicada no último dia 20, no portal da UJS, sequer citou os cortes no orçamento das universidades federais, ou o atraso no pagamento de funcionários, das contas de água e luz, e muito menos o adiamento do início das aulas da UFRJ e a paralisação de 56 cursos ou o corte nos contratos do Fies.

A candidata da UJS também não citou nada sobre as MPs 664 e 665, nem condenou a omissão do governo quanto ao PL 4330. Atribuiu tudo ao “Congresso Nacional conservador”. Para a reformista a solução para os problemas do país é “a mãe das reformas, a Reforma Política”.

Sobre o Plano Nacional de Educação (PNE), a candidata não fez menção ao fato de que, com os cortes, a implementação do plano, que prevê 10% do PIB para a educação, está sendo enterrada. Quase um ano depois de aprovado, ao invés de se aumentar as verbas da educação, elas estão sendo drenadas. A representante da UJS se reservou em dizer que “a efetivação desses direitos é a principal luta para o próximo período” - sobre o que já está acontecendo, nem uma palavra.

Na mesma linha, a atual presidente da UNE, Vic Barros, também do movimento da UJS, em reunião da diretoria da entidade com a presidente Dilma, no mês passado, disse “entender que a política de ajustes é necessária”, mas que a UNE é contra os cortes na educação. Nem uma palavra contra a realização de superávit primário para pagamento de juros da dívida pública a banqueiros foi esboçada pela presidente da UNE.

Então como ser contra os cortes sem ser contra o “ajuste” de Dilma? Sendo a favor de cortar na saúde, na moradia, no seguro desemprego, na pensão das viúvas, nos salários dos trabalhadores?

MAÍRA CAMPOS

 

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