Agricultura no socialismo - Entrevistas com Ivan Benediktov

Agricultura no socialismo - Entrevistas com Ivan Benediktov

 

Para a História do Socialismo  
www.hist-socialismo.net 
Original em russo disponível em www.stalinism.narod.ru  
Tradução portuguesa e notas de CN, Fev. 2005 
_____________________________ 
Ivan Alekssandrovitch Benediktov 
Stáline e Khruchov 
(Entrevista publicada na revista Molodaya Gvardia, 1989, N.º 4, págs. 12-65) 
Esta entrevista com Ivan Alekssandrovitch  Benediktov, personalidade que durante 
duas décadas (entre 1938 e 1959) ocupou postos chave na governação da Agricultura do 
nosso país, conhecedor profundo dos métodos e  estilo de trabalho de I.V. Stáline e H.S. 
Khruchov e de outras destacadas figuras da política e da economia, baseia-se em várias 
conversas que com ele mantive entre 1980 e 1981 como jornalista da  Gosteleradio da 
URSS. Nesse período, Ivan Alekssandrovitch  estava reformado mas tinha uma intensa 
actividade social, designadamente na Associação de Amizade URSS-Índia. No final da sua 
carreira pública, Benediktov foi embaixador da URSS, primeiro na Índia (1959-1967) e 
depois na Jugoslávia (1967-1970). 
Enquanto preparava emissões sobre a cooperação indo-soviética, não consegui conterme e comecei a colocar a Ivan Alekssandrovitch questões sobre um tema que me 
interessava mais. Benediktov, com a reserva característica de um funcionário do 
aparelho, respondia inicialmente de forma seca e lacónica, dando claramente a entender 
que não estava disposto a perder tempo com  conversa fiada. Todavia, julgo que ao se 
aperceber da sinceridade do meu desejo de  compreender o passado, começou a falar de 
forma desinibida, com prazer e abertamente, concordando até conversar especialmente 
sobre temas agudos à volta de uma chávena  de chá no seu espaçoso apartamento de 
«comissário do povo» na Rua Gorki.  
Ivan Alekssandrovitch não se opôs à publicação das suas declarações, apesar de 
duvidar fortemente que tal fosse possível. Nisto verificou-se que tinha toda a razão: todas 
as minhas tentativas de «colocar» a entrevista numa revista literária, mesmo na versão 
mais truncada, resultaram num fracasso.  No entanto, apesar de ter perdido uma 
esperança real, continuei a insistir: pretendia demonstrar ao antigo comissário do povo 
que as suas apreciações pessimistas eram inconsistentes e, eventualmente desse modo, 
fixar um alicerce para o prosseguimento ulterior do tratamento literário das suas 
memórias. Passados alguns meses após ter recebido mais uma rejeição por parte da 
redacção de uma conhecida revista, Ivan Alekssandrovitch faleceu... As motivações para 
continuar a luta caíram por si próprias e entreguei o original «à roedora crítica dos 
ratos». 
Hoje, quando se tornou moda publicar obras antes proibidas, contrárias aos 
postulados oficiais, penso que faz novamente sentido voltar a ele. Claro que, de longe, nem 
com todas as afirmações de Benediktov se  poderá concordar: algumas delas, hoje tal 
como naqueles anos, considero-as erradas. Penso até que ele próprio responderia hoje de 
forma diferente a algumas perguntas. Contudo, mantive tudo como estava, tudo como ele 
disse naquele tempo quando tive a oportunidade de o encontrar. 
V. Litov, membro da União dos Jornalistas da URSS, 
doutorado em Ciências Económicas* 
1Desde os finais dos anos 70 que se observa uma queda evidente na nossa 
economia. Nos documentos oficiais é explicada quer por dificuldades 
objectivas, quer por falhas subjectivas. A maioria dos cientistas e especialistas 
considera que a raiz do mal está na ausência de um autêntico mecanismo 
económico de desenvolvimento e gestão da economia e, em especial, da 
introdução dos avanços científico-tecnológicos... Gostaria de conhecer a 
opinião de um homem que ocupou um importante cargo na nossa economia 
num período em que esta registava das maiores, se não as mais elevadas taxas 
de crescimento do mundo... 
Temo decepcioná-lo com o meu «conservadorismo e «dogmatismo». Considero que o 
sistema económico vigente no nosso país até  aos anos 60 poderia ainda hoje garantir 
elevadas e estáveis taxas de crescimento, uma orientação firme para a eficácia e qualidade e, 
como consequência natural, a elevação constante do bem-estar de largas camadas de 
trabalhadores. Claro, a vida é a vida, algumas coisas teriam de ser mudadas e renovadas. 
Mas isto refere-se apenas a alguns estrangulamentos e pormenores porque, em geral, o 
amaldiçoado pelos economistas «sistema stalinista», como você correctamente observou, 
demonstrou uma alta eficácia e vitalidade. Foi graças a ele que, no final dos anos 50, a 
União Soviética era em termos económicos e sociais o país mais dinâmico do mundo. Um 
país que partiu convictamente do seu atraso, aparentemente insuperável face às potências 
capitalistas mais desenvolvidas, mas que em alguns sectores chave do progresso científicotecnológico catapultou-se para a frente. Basta  recordar as nossas realizações no espaço, o 
desenvolvimento para fins pacíficos da energia atómica, os êxitos nas ciências 
fundamentais. 
Enganam-se aqueles que pensam que nós conseguimos tudo isto à custa de factores 
extensivos e quantitativos. Nos anos 30 e 40, e mesmo nos 50, a tónica, quer na indústria 
quer na agricultura, colocava-se não na quantidade mas na qualidade; os indicadores mais 
importantes e decisivos eram o crescimento  da produtividade do trabalho mediante a 
introdução de novas máquinas e a redução dos custos de produção. Estes dois factores 
foram colocados na base do crescimento económico, eram eles que determinavam a 
avaliação e promoção dos dirigentes económicos, era exactamente isto que se considerava 
como o mais importante e como uma decorrência directa dos ensinamentos do marxismoleninismo. Claro que, hoje, tal «rigidez»  e linearidade parecem um pouco ingénuas e 
também é verdade que na altura produziram  determinados efeitos negativos. Mas no 
conjunto a orientação foi tomada de forma inteiramente correcta, o que é demonstrado pela 
experiência das actuais empresas americanas, da Alemanha Ocidental e japonesas, muitas 
das quais já planificam não só o crescimento da produtividade do trabalho, mas também a 
redução dos custos de produção num horizonte de vários anos... 
O mesmo pode ser dito sobre a esfera social e o clima político-ideológico na sociedade. A 
massa fundamental dos cidadãos soviéticos estavam satisfeitos com a vida e olhavam para o 
futuro com optimismo, acreditavam nos seus dirigentes. Quando Khruchov lançou o 
objectivo de alcançar a mais alta produtividade do trabalho no mundo e atingir as mais 
avançadas fronteiras no campo do progresso  científico-tecnológico, poucos duvidaram do 
êxito final, tão grande era a convicção nas suas forças e capacidade de alcançar e ultrapassar 
a América. 
Mas Khruchov não era Stáline. Um mau capitão é capaz de fazer encalhar o melhor 
navio. Foi o que aconteceu. Os nossos capitães primeiro perderam o rumo, falhando os 
ritmos estabelecidos, depois começaram a saltar de um extremo para o outro e a seguir 
deixaram mesmo escapar o leme das mãos, deixando a economia num impasse. Como não 
desejavam reconhecer abertamente a sua incapacidade, claramente incompatível com altos 
cargos, deitaram as culpas no «barco», no «sistema», montando uma ininterrupta cadeia 
de produção de decisões e resoluções sobre o seu «desenvolvimento» e «aperfeiçoamento». 
2Por seu lado, os «teóricos» e cientistas começaram a justificar este carrossel de papel com 
«inteligentes» considerações sobre um alegado «modelo económico optimizado» que, por 
si próprio, asseguraria de forma automática a resolução de todos os nossos problemas. Aos 
dirigentes bastaria sentarem-se na cabina de comando deste «modelo», carregando de 
tempos a tempos num ou noutro botão. Uma ilusão absurda, puramente de gabinete, 
académica! 
No entanto, até Lénine incentivou as experiências, a busca de soluções 
optimizadas... 
Não vem a propósito a citação que faz de Ilitch, nada a propósito. A tendência para as 
reorganizações e reformas, o constante prurido  reestruturador foi classificado por Lénine 
como o mais infalível sinal de burocratismo, quaisquer que sejam as roupagens 
«marxistas» de que se veste. Lembre-se das proféticas palavras leninistas de que o sistema 
não passa de um sistema, e que há ainda o nível de «habilidade» para trabalhar, tanto «em 
cima» como «em baixo», o qual não se pode submeter ao sistema. Não se deve alvoroçar o 
povo com «rupturas de sistema» e reorganizações, avisou Vladimir Ilitch ainda no início 
dos anos 20, recrutem-se pessoas e controle-se a execução real das tarefas, isto será 
valorizado pelo povo. Este importantíssimo, talvez o mais importante ensinamento 
leninista sobre a governação, o qual atravessa literalmente todas as últimas obras, notas e 
documentos de Ilitch, na prática (em palavras é claro que todos estão a favor) está hoje 
esquecido. Porque nos surpreendemos então que, apesar da avalanche de «amadurecidas» 
resoluções e reorganizações, as coisas vão de mal a pior no nosso país? 
Durante o tempo de Stáline, a palavra de ordem «quadros e controlo resolvem tudo» era 
aplicada à vida de forma consequente e firme. Apesar de evidentes erros e falhas (quem não 
os tem?), foram resolvidas todas as tarefas históricas maiores que se colocaram ao País, seja 
a criação das bases económicas do socialismo, a derrota do fascismo ou a reconstrução da 
economia nacional. Nomeie-me nem que seja apenas um problema, social ou económico, 
que Khruchov e os seus sucessores tenham conseguido, já não digo resolver, mas pelo 
menos atenuar. Por todo o lado o que vemos é toneladas de papel e gramas de obra, o 
avanço real em frente continua a não se ver. Antes pelo contrário, estamos a ceder posições 
conquistadas... 
Compreenda bem o que lhe digo. Eu não sou  contra as reformas ou reorganizações 
enquanto tais. Eu sou contra que se concentrem nelas as atenções, esperando que mais uma 
resolução produza resultados milagrosos. É preciso diminuir  dez vezes o número de tais 
resoluções e reorganizações e canalizar todos as forças para um trabalho meticuloso, duro, 
rotineiro na realização de poucas mas rigorosas e concretas tarefas. Então sim, surgem os 
resultados milagrosos, reforça-se a confiança do povo no Partido, a qual, infelizmente, fica 
agora mais abalada a cada ano que passa. Refira-se que aqui não estou a descobrir a 
América. Era exactamente neste espírito que trabalhava o aparelho estatal-partidário nos 
chamados anos do «culto da personalidade». Penso que não é em vão, mas antes com 
bastante sucesso, que a experiência daqueles  anos é estudada por dirigentes das maiores 
corporações monopolistas do Ocidente. 
Ivan Alekssandrovitch, perdoe-me pela franqueza mas as suas 
considerações parecem-me demasiado simplistas. Depreende-se das suas 
palavras que, em última instância, tudo depende de quem está à frente do 
País... Não se estará a atribuir dessa forma uma espécie de força demoníaca ao 
factor subjectivo, o que, sem dúvida, contraria os pressupostos fundamentais 
do marxismo-leninismo?... 
Lénine, segundo a sua lógica, «contrariou-os» quando, após o fim da guerra civil, 
declarou que para a vitória do socialismo na Rússia era apenas necessário «nível cultural» 
3dos comunistas. Por outras palavras, aptidão para governar o País, em relação ao que eram 
«gotas  de  água  num  mar  de  povo».  Isto  era  afirmado  em  condições  de  uma  terrível 
destruição, fome, de um atraso medieval no campo, numa situação em que o País, citando 
as palavras de Lénine, lembrava «um homem espancado até à morte»! 
A esmagadora maioria dos cientistas e especialistas, tanto da Rússia como do 
estrangeiro, hipnotizados pelos chamados «factores objectivos», apelidavam publicamente 
o plano de Lénine como uma «ilusão doentia», uma aposta nas «forças demoníacas do 
Partido Bolchevista». Os demónios são demónios, mas o facto é que nós construímos o 
socialismo em prazos curtíssimos malgrado todos «os mochos sábios» com os seus graus e 
títulos académicos. 
Mas as analogias históricas não convencem  ninguém. É preferível falar do presente. 
Mesmo no actual sistema económico temos dezenas de empresas, quer na indústria quer na 
agricultura, que estão ao nível mundial e em  certos aspectos até o superam. Veja, por 
exemplo, a unidade de construção metalomecânica em Ivanov, dirigida por Kabaidze, ou o 
famoso kolkhoz do presidente Bedulia. 
A condição mais importante, decisiva para o êxito dos sectores mais avançados (naviosalmirante) da nossa economia é o nível de direcção, a competência profissional do director 
ou do presidente. Se Kabaidze ou Bedulia não prepararem os seus sucessores, tudo 
começará a descarrilar, resvalando para o  nível medíocre e cinzento que predomina no 
nosso País. Daqui conclui-se que a raiz do mal não está no sistema económico existente, nas 
condições que oferece às pessoas com talento capazes de fazerem milagres (!), mas no que 
se costuma designar como «factor subjectivo-pessoal». Muito se fala entre nós sobre o 
aumento do papel deste factor no socialismo. Trata-se de facto de uma constatação 
correcta, só que o papel deste factor não pode ser entendido de forma simplista e cor-derosa. Um dirigente inteligente e competente  acelera substancialmente o desenvolvimento 
de uma empresa, de um ramo, de um país; da mesma forma que um fraco e medíocre o 
trava e o atrasa gravemente. Por isso, os quadros dirigentes têm de ser submetidos a uma 
exigência rígida e a um controlo constante e global da sua evolução profissional, ideológica, 
moral e política. Sem isto o socialismo não só não realiza como, pelo contrário, perde a sua 
superioridade histórica. 
Falar da criação de um «novo sistema» é falar de um sistema de grande escala, 
amplamente disseminado e profundamente  reflectido, de revelação, promoção e 
estimulação da evolução de pessoas talentosas em todos os  escalões de direcção, quer 
estatais quer partidários. Se conseguirmos  preparar e «munir» os altos objectivos com 
algumas dezenas de milhares de Kabaidze e de Beluia, o País realizará um forte arranque 
em frente. Se não, continuará a marcar passo ao som da fanfarra das habituais resoluções e 
reorganizações. A principal tarefa  partidária  e,  em  grande  parte,  do  aparelho  de  Estado, 
deve consistir exactamente na descoberta e promoção de pessoas com talento. Ora, neste 
momento, só se pensa nisto quase em último lugar, dedicando-se praticamente todo o 
tempo à preparação das habituais decisões e resoluções e de sonoras iniciativas para as 
propagandear. Mas, mais do que isso, as pessoas talentosas e brilhantes são preteridas em 
favor dos obedientes, dóceis e medíocres que irrompem agora até em cargos ministeriais. E 
quando «em cima» tudo está de pernas para o ar, «em baixo» as coisas não andam em 
frente. Não me surpreendo nada com o aumento do descontrolo nos processos económicos 
e sociais na sociedade, com o enfraquecimento da disciplina, da consciência e 
responsabilidades dos trabalhadores comuns, com o disparo do que hoje se costuma 
chamar de «fenómenos anti-socialistas». Repito, a principal causa dos nossos males está na 
baixa abrupta do nível da direcção partidária-estatal, no esquecimento dos geniais 
ensinamentos de Lénine sobre a selecção dos quadros e o controlo de execução como 
instrumento fundamental e decisivo de influência partidária. 
Pelo que conheço dos documentos oficiais e afirmações de destacados 
historiadores, quem começou a desembaraçar-se de pessoas talentosas ao 
4mais alto nível, foi exactamente Stáline, cuja política de quadros considera 
exemplar … 
Se quiser compreender a essência dos problemas tem de pensar mais com a sua própria 
cabeça. Desde a chegada de Khruchov ao  poder surgiram tantas falsidades nesses 
documentos que nos causam, por vezes, assombro: como foi possível aparecerem tais coisas 
nas nossas publicações partidárias, comunistas! Quanto a esses «destacados» cientistasespecialistas que hoje escrevem uma coisa, amanhã outra e depois de amanhã outra ainda, 
também são uma fonte muito pouco fiável. 
Quanto ao fundo da questão, durante o período de Stáline, a promoção para os mais 
altos escalões da governação baseava-se exclusivamente nas qualidades políticas e de 
eficácia (claro que houve excepções, mas eram bastante raras, o que confirmava a regra). O 
principal critério era a capacidade de uma pessoa para, num curtíssimo prazo, alterar uma 
situação para melhor. Não eram tidas em conta quaisquer considerações de fidelidade 
pessoal ou proximidade com o «chefe», a chamada «cunha», já não falando das relações 
parentesco-familiares. Para além disso,  as pessoas com quem Stáline simpatizava 
particularmente serviam de exemplos para os outros e o grau de exigência era mais rígido e 
severo. Refiro-me a V.M. Molotov
1
, a G.K. Jukov
2
, N.A. Boznessenski
3
, ao construtor de 
aviões A.S. Iakovlev
4
 e alguns outros… 
O autêntico sistema bolchevista existente nesses anos de selecção e distribuição de 
quadros permitia que nos postos-chave do Partido, Estado e Exército, estivessem 
efectivamente as pessoas mais talentosas e preparadas do ponto de vista profissional, que 
realizaram, segundo os padrões  actuais, feitos impossíveis,  literalmente milagrosos. N.A 
Boznessenski, A.N. Kossíguin5
. D.F. Ustinov
6
, V.A. Malechev
7
, I.F. Tevossian8
, B.L. 
Bannikov
9
, A.I. Chakhurin10
, N.C. Patolitchev
11
 são apenas alguns dos muitos que possuíam 
enormes capacidades e talentos e, o que não é menos importante, ocuparam altos cargos no 
auge das suas forças. No período de Stáline, o Governo soviético, pela sua composição 
etária, era certamente o mais jovem do mundo. Eu, por exemplo, tinha 35 anos quando me 
designaram Comissário do Povo para a Agricultura da URSS, e o meu caso não foi nenhuma 
excepção mas antes constituía a regra. A maioria dos comissários do povo tinha mais ou 
menos essa idade e mesmo muitos secretários regionais do partido, nessa altura, não teriam 
mais do que 30 anos. A palavra de ordem, «Entre nós, os jovens têm caminho em todo o 
lado», nos anos 30 e 40, era aplicada à vida de forma consequente, com persistência e uma 
firmeza férrea. Quando comecei a trabalhar  numa instituição para a agricultura, ainda 
muito novo, tinha a firme convicção de  que o meu sucesso na carreira dependia 
exclusivamente dos meus méritos e esforços e não das conjunturas criadas ou da 
intercedência de familiares influentes. Como muitos outros da minha geração, sabia que se 
me revelasse à altura das funções não ficaria muito tempo no mesmo lugar, não teria de 
«mendigar» durante longos anos uma promoção a seguir a outra, desperdiçando a energia e 
a vitalidade da juventude a classificar papelada burocrática, mas que rapidamente me 
abririam caminho, «subindo-me» vários degraus para «cima», lá onde se influencia e 
decide. 
Posso afirmar com todo o fundamento que a opção de promover jovens era uma linha 
consciente, pensada nos seus diversos aspectos e exaltada, quer pelo próprio Stáline, quer 
por outros membros do  Politbureau  do  CC  do  nosso  Partido.  Esta  linha  revelou-se 
inteiramente adequada. Estou convencido de que se nós tivéssemos entrado em guerra com 
comissários do povo e comandantes do exército sexagenários, o resultado poderia ter sido 
outro… Só pessoas jovens, criativas e capazes de pensar para além dos padrões habituais 
poderiam resolver as tarefas de complexidade inédita e a tremenda pressão dos anos da 
guerra. 
Recordo-me a este propósito de Dimitri Fedorovitch Ustinov, que foi Comissário do 
Povo para o armamento durante a guerra. Ainda muito jovem, não possuindo naturalmente 
uma grande experiência de vida e como engenheiro, teve a coragem de tomar em algumas 
5horas, por sua conta e risco, várias importantes decisões sobre a construção e equipamento 
de fábricas militares, que normalmente exigiriam muitos meses de trabalho de grandes 
equipas e o envolvimento dos institutos de projectos e outros tantos meses para coordenar a 
acção com as diversas entidades… No entanto, como reconheceram os especialistas, 
Ustinov não se enganou nos cálculos… 
Ou Avraami Pavlovitch Zaveniaguin12
 que tanto fez também pela defesa, pela ciência e 
equipamento. «Isso é impossível, inconcebível, contraria a experiência internacional», 
alarmavam-se os nossos altos intelectuais,  cientistas luminares e especialistas. Mas 
Zaveniaguin conseguiu o que queria e realizou aquilo que era «impossível» e 
«inconcebível». 
Veja ainda a composição do alto comando do Exército Vermelho. É claro que as 
repressões de 1937-1938 enfraqueceram-no e permitiram que alguns marechais e generais 
com espírito antigo reforçassem as suas posições. Mas, paralelamente, prosseguia o 
processo de selecção e formação de pessoas talentosas, capazes de conduzir a guerra 
segundo os métodos modernos. Em geral, nas vésperas da guerra, os postos de comando, 
quer no exército quer no Estado-maior, eram ocupados na sua esmagadora maioria por 
pessoas de mérito, oficiais militares capazes, cujo acerto da escolha viria a ser confirmada 
pela brutal experiência dos combates. G.K. Jukov, A.M. Vassilevski
13
, K.K. Rokossovski
14
I.S. Konev
15
, K.T. Meretskov
16
 e outras gloriosas figuras militares nossas, conseguiram 
impor-se nos campos de batalha aos melhores cabos de guerra da Alemanha de Hitler, que 
possuía, indiscutivelmente, o exército mais poderoso do mundo capitalista. 
Mas não se tratou apenas do memorável talento, patriotismo e entusiasmo 
revolucionário do nosso povo. Todas estas  excelentes qualidades, como nos mostra a 
experiência dos últimos anos, desaparecem quase completamente quando não existe ordem 
e a devida organização das coisas, quando está ausente o autêntico sistema bolchevista de 
selecção, promoção e estimulação das pessoas com talento. 
Não posso concordar com a afirmação de alguns «peritos» em história, de que as 
pessoas jovens e dotadas foram chamadas ao  aparelho  do  Estado  e  do  Partido  para 
preencher o «vácuo» criado em resultado das repressões dos anos 30. Em primeiro lugar, 
com os jovens, ombro a ombro, trabalhavam quadros mais velhos e experientes, garantindo 
uma combinação bastante eficaz entre juventude e experiência. Em segundo lugar, e isto é o 
principal, mesmo depois das repressões de 1937, não faltavam concorrentes para os postos 
chave, incluindo experientes figuras de mérito. Digo isto com toda a segurança porquanto 
me recordo bem da situação existente na altura nos ministérios ligados à agricultura. E nos 
restantes o quadro era sensivelmente o mesmo. Recordo-me também do descontentamento 
dos veteranos, membros do Partido antes da revolução, com a nomeação de jovens 
comissários do povo. Havia de tudo… Mas  o CC defendia firmemente a sua linha, não 
fazendo quaisquer concessões a serviços e feitos heróicos antigos. 
Independentemente do que possam dizer sobre Stáline, enquanto desempenhou funções 
de direcção esteve sempre rodeado de um número de pessoas dotadas e talentosas 
incomparavelmente maior do que Khruchov, já sem falar dos seus sucessores. Diga-se 
também que a responsabilidade pelas falhas  era concreta, individual e não diluída no 
colectivo como agora, quando desaparecem milhares de milhões e regiões inteiras são 
deixadas ao abandono sem que nunca se identifiquem os responsáveis! No nosso tempo, 
uma situação deste tipo era simplesmente  inconcebível. Um Comissário do Povo que 
permitisse um gasto excessivo de dois ou três mil rublos punha em risco não o seu cargo, 
mas a vida! Admito que para alguns isto possa parecer cruel, no entanto, do ponto de vista 
dos interesses estatais e do povo, tal procedimento, em minha opinião, é plenamente 
justificado. 
É sem dúvida positivo que, nos últimos anos, tenham terminado os ataques a Stáline por 
parte de indivíduos com mentalidade pequeno-burguesa ou de vítimas das repressões, e se 
tenha começado a mostrar de forma mais objectiva a sua actividade estatal e militar. No 
6entanto, infelizmente, os métodos e estilo  de trabalho não foram regenerados, talvez 
simplesmente não o consigam fazer... 
Fica-se com a impressão de que rejeita radicalmente a reforma de 1965 e vê 
a salvação no slogan stalinista «Os quadros resolvem tudo». No entanto, esta 
reforma não foi de longe uma invenção de gabinete de burocratas decididos a 
vingar-se de Stáline, custe o que custar. Mais do que uma vez aconteceu 
encontrar-me com dirigentes de empresas e  kolkhozes dos mais avançados, 
que se queixavam dos defeitos do sistema económico criado nos anos 30 e 40, 
em especial quanto aos indicadores  de avaliação. Da mesma forma, a 
«gravitação» em torno do factor quadros está ligada, pelos vistos, a 
especificidades da história do nosso  País e é pouco provável que hoje se 
justifique, tanto mais que contradiz a experiência mundial... 
As pessoas aspiram sempre ao melhor, enquanto os dirigentes, mesmo os mais 
empenhados, desejam um alívio da sua pesada e frequentemente ingrata missão. 
Humanamente é possível entender ambos: o  nivelamento salarial, a incompetência das 
«cúpulas» atingem dolorosamente sobretudo os colectivos mais empenhados. No entanto, a 
resolução de questões de Estado exige uma atitude de Estado que não pode submeter-se a 
interesses pessoais ou sectoriais, aos quais,  infelizmente, se vergam pessoas de grande 
dignidade que me merecem todo o respeito. 
Posso dizer que apoio a actual revisão,  mas nunca uma alteração capital do nosso 
sistema económico, já que as suas enormes potencialidades e possibilidades, repito, estão 
demonstradas nas experiências dos anos 30, 40 e 50. 
Não avalio as reformas de Kossíguin todas da mesma forma. Alekssei Nikolaievitch, o 
qual respeito profunda e sinceramente, foi, indiscutivelmente, o mais competente, hábil e 
conhecedor dirigente económico dos últimos anos, o que, refira-se, provocou uma 
manifesta hostilidade por parte de Khruchov que não suportava pessoas mais aptas do que 
ele. Nas propostas de Kossíguin existem elementos valiosos e úteis, os quais podem e 
devem ser aplicados no mecanismo económico. Mas apenas como elementos rigorosamente 
subordinados ao princípio da planificação. No seu conjunto, a orientação para o lucro, para 
a activação das relações monetário-mercantis, para a regeneração dos factores de mercado 
como base reguladora do desenvolvimento, nas nossas condições, é extremamente 
prejudicial e perigosa. Uma tal alteração da estratégia económica conduzirá 
inevitavelmente, e já conduziu, à desvalorização do carácter planificado da economia, ao 
declínio da disciplina estatal em todos  os escalões, à acentuação dos processos 
incontroláveis económicos e sociais, ao aumento dos preços, inflação e outros fenómenos 
negativos. Existem, claro, determinados efeitos positivos. Mas, no quadro dos efeitos 
negativos que enumerei, não são relevantes. 
Nos seus pontos de vista, Ivan Alekssandrovitch, existe, na minha opinião, 
uma clara contradição. Afirma que  o afastamento do sistema económico 
stalinista teve um enorme efeito negativo. Contudo, na prática, esse 
afastamento não existiu: as reformas dos anos 60 não se concretizaram, 
patinaram logo aos primeiros passos. No essencial, nas últimas décadas, 
manteve-se o mesmo sistema que foi criado nos anos 30 e 40. Neste sentido é 
mais lógico pressupor que as nossas dificuldades decorrem da essência do 
próprio sistema e não em resultado da sua alteração... 
Eu já lhe falei dos maus capitães que são capazes de encalhar o mais moderno navio... É 
verdade que as reformas de Kossíguin patinaram, aqui você tem razão. No entanto, mesmo 
assim alguma coisa conseguiram fazer, abalando o princípio da planificação e a disciplina 
do Estado. Pergunte a qualquer director de  fábrica o que é que ele precisa em primeiro 
7lugar para cumprir o plano e garantir uma produção de qualidade? Certamente que lhe 
dirá: o fornecimento regular de materiais e equipamentos, ou seja o cumprimento por parte 
dos fornecedores de todas as suas obrigações. Ora é exactamente este aspecto que hoje está 
colocado em segundo plano, cedendo lugar aos indicadores de valor e à perseguição do 
lucro. 
Admito perfeitamente que se as reformas de Kossíguin tivessem sido realizadas até ao 
fim e não medrosamente apenas em parte, como agora se habituaram a fazer com qualquer 
questão, uma série de indicadores económicos melhoraria significativamente. Mas isso teria 
um preço demasiado alto e, o mais importante, custos sociais que do ponto de vista dos 
interesses do Estado não se justificariam. Neste caso, o remédio proposto pelos adeptos das 
reformas cardinais teria um efeito pior do que a doença: com a ajuda de tais 
«medicamentos» uma doença pulmonar transformar-se-ia num tumor cancerígeno. 
Felizmente que, por enquanto, os efeitos negativos do modelo de mercado revelam-se, 
por assim dizer, na sua variante congelada e diminuída. Na Jugoslávia, onde se repercutem 
de forma mais decidida e consequente, e onde há muito passaram a fase na qual nos 
encontramos, estes efeitos negativos manifestaram-se com todos os seus cambiantes. O 
voluntarismo dos mercados provocou graves  distorções entre os diferentes ramos do 
aparelho económico, entre regiões inteiras do País, a base científica-tecnológica envelhece 
irremediavelmente, enquanto na economia está literalmente entregue aos egoísmos de 
«grupo». Apesar de a Jugoslávia ter conseguido nos anos do pós-guerra elevar 
substancialmente o nível de vida da população, ter alcançado nítidos êxitos na produção de 
várias mercadorias e no conjunto dos ramos do sector dos serviços, este incremento foi 
obtido numa base malsã e à custa de factores que inevitavelmente conduzem à formação de 
uma situação explosiva e a uma crise geral da  sociedade, o que, aliás, é dito abertamente 
pelos principais economistas do País. 
O «socialismo de mercado» conduziu a um  aumento insustentável da inflação, a uma 
acentuada diferenciação e polarização social (a tal ponto que, neste aspecto, a Jugoslávia, já 
ultrapassou  vários  países  capitalistas),  a  um  desemprego  maciço  e,  como  consequência 
natural, ao crescente descontentamento de  amplas camadas de trabalhadores, sobretudo 
operários, cujas greve, há muito, se tornaram um acontecimento habitual. Não tenho 
dúvidas de que se abrirmos todas as eclusas ao mercado voluntarista no nosso país, esperanos um futuro igual ou até talvez pior... São ingénuas as esperanças de que tal voluntarismo 
poderá ser contido dentro dos limites do socialismo e sob o controlo do plano. Na 
Jugoslávia, muitos economistas sensatos e dirigentes tentaram-no e não conseguiram nada. 
É que, nesta matéria, agem factores objectivos que não podem ser anulados com vontades 
subjectivas, mesmo que sejam as mais bem intencionadas... 
Falemos então da «experiência mundial». A tendência aqui, por sinal, não é favorável 
aos factores de mercado, antes pelo contrário. O reforço dos princípios da planificação e a 
aposta no futuro são elementos que se observam hoje em todas as maiores corporações 
americanas, japonesas e da Alemanha Ocidental que determinam o clima da economia 
capitalista. Os gestores das  companhias florescentes, em especial das japonesas, pensam 
cada vez mais no dia de amanhã e mesmo no depois de amanhã, dão passos que contrariam 
a regulação mecanicista da conjuntura do mercado. Sem falar do crescimento do sector 
económico estatal em praticamente todos os países capitalistas e da adopção e realização 
com sucesso de programas económicos e técnico-científicos de longo prazo, área em que 
nalguns aspectos até fomos ultrapassados pelos capitalistas. Enquanto isso, os seus 
economistas-«inovadores» apresentam o alinhamento pelas referências monetárias 
mercantis quase como a panaceia para todos os males! 
Se pretendemos retirar alguma coisa de útil do estrangeiro, e não apenas falar disso do 
alto das tribunas, é preciso começar pela criação de um autêntico sistema científico e 
moderno de formação, desenvolvimento e promoção de quadros. Nisto o Ocidente deixounos muito para trás. Veja-se o facto de  que, mesmo com um nível semelhante de 
equipamento técnico de produção, as firmas  capitalistas, através dos chamados factores 
8organizacionais, determinados em primeiro lugar pela competência dos quadros dirigentes, 
conseguem uma produtividade do trabalho  duas a três vezes superior à nossa. Os 
empresários ocidentais dão mais atenção e tempo à questão da preparação de quadros do 
que às reorganizações e reestruturações. Penso mesmo que os saltos que damos, de um 
extremo ao outro, nessas reorganizações levariam à falência, ao fim de duas semanas, 
qualquer empresa capitalista, mesmo a mais florescente.  
Mas as empresas ocidentais têm uma estrutura organizativa de 
administração muito mais elaborada do que a nossa... Porque não copiar a sua 
experiência! 
É preciso copiar com inteligência e não mecanicamente. Devemos seguir sempre o nosso 
caminho e adoptar apenas o que corresponde às particularidades da economia nacional e se 
integra organicamente nela. Como fazem, por exemplo, os japoneses. 
Uma pessoa minha conhecida, regressada de uma missão de trabalho no Japão, contoume que nas empresas das maiores corporações, onde praticamente não existem cartazes de 
propaganda, viu apenas um slogan inscrito «Os Quadros Resolvem Tudo!», e os japoneses 
sabem a quem pertence este slogan... Tendo introduzido este princípio de forma 
consequente e de acordo com as suas especificidades nacionais em todos os elos sem 
excepção do processo produtivo, os patrões da corporação conseguiram, numa série de 
orientações principais, ultrapassar até os seus concorrentes americanos. Nos chamados 
«círculos de qualidade», que permitem às firmas japonesas livrarem-se dos produtos com 
defeito, é utilizada a experiência do nosso movimento stakhanovista17
, a experiência da 
organização da emulação socialista e, em particular, o sistema de produção sem defeito de 
Saratov
18
, o que não é escondido no Japão... As mais importantes companhias do país do 
sol nascente elaboram regularmente planos de introdução das propostas de racionalização 
feitas pelos operários, os mais empenhados dos quais são publicamente apresentados e 
enaltecidos, como nos anos 30 e 40 no nosso País. Contaram-me que são exactamente os 
especialistas japoneses quem mais revela interesse pelo Pavilhão da «Emulação Socialista», 
no Parque de Exposições em Moscovo, onde estudam minuciosamente tudo o que de valor 
aparece nesta área. Outro facto interessante é que, no Japão, os operários que mais se 
distinguem na racionalização e produtividade recebem por isso recompensas simbólicas. 
Lá, com algum fundamento, pensam que os factores ideológicos e morais (o colectivismo 
corporativo, a ajuda mútua, a solidariedade) produzem efeitos muito mais fortes do que o 
mero estímulo material! Pois nós descobrimos isso ainda nos anos 30. Descobrimos e... 
esquecemos, deixámo-nos seduzir pelos estímulos puramente materiais, pondo de lado 
outros que são tão ou mesmo mais eficazes. 
Temos assim que os capitalistas utilizam  activamente a nossa experiência e os nossos 
êxitos, enquanto nós renunciamos na prática às nossas enormes vantagens objectivas, 
ajoelhamo-nos resignados perante o famigerado «modelo de mercado», tomando como 
referência a economia capitalista não de ontem, mas de anteontem! Se isto é «inovação» e 
«progresso» então o que será «conservadorismo» e «retrocesso»? 
Lembro-me a propósito de outro episódio. No final dos anos 30, como Comissário do 
Povo para a Agricultura da URSS, desempenhava em simultâneo o cargo de presidente do 
comité da Exposição Agrícola da União Soviética que estava instalada no local do actual 
Parque de Exposições dos Êxitos Económicos da URSS. Stáline e outros membros do 
Politbureau acompanhavam o trabalho da exposição com grande atenção, considerando-a 
como o principal centro para a divulgação do movimento  Stakhanovista no sector da 
agricultura. Enquanto observava os expositores, Stáline reparou que alguns legumes, frutas 
e hortaliças vindos das explorações mais avançadas, tinham um aspecto que, no mínimo, 
era pouco comercializável. 
9«- O que se passa camarada Benediktov?», perguntou-me. «Isto é uma exposição de 
resultados avançados ou de produtos estragados?» 
«- Os produtos são transportados para a  exposição pelo caminho-de-ferro, o que, 
naturalmente, demora alguns dias. O  Goscontrol
19
 não autoriza o transporte aéreo, 
considerando que se trata de uma despesa injustificada.» 
«- O Goscontrol está a ver este assunto a partir da sua capelinha departamental. O que 
você tem de fazer é abordar o problema com uma posição de Estado e não permitir que o 
formalismo deite tudo a perder. Como Comissário do Povo e presidente da Exposição deve 
defender esta posição e lutar contra tal formalismo. As pessoas devem poder ver com os 
seus olhos a qualidade dos legumes e frutas  que é possível cultivar. É preciso despertar 
nelas o desejo e a atracção pelas experiências mais avançadas, para que as divulguem. 
Agora assim, está a economizar milhares mas a perder milhões.» 
Imediatamente a seguir, os produtos passaram ser transportados de avião. Stáline tinha 
razão: tive oportunidade de testemunhar várias vezes como as delegações de  kolkhozes e 
Sovkhozes literalmente se deslumbravam com a ideia de «criar destas beterrabas e couves». 
Refira-se que o movimento stakhanovista permitiu elevar a produtividade do trabalho 
no País, no mínimo uma vez e meia, aumentar ao mesmo tempo a consciencialização e a 
cultura de trabalho dos operários comuns e kolkhozianos. E tudo isto num prazo curtíssimo 
e sem quaisquer grandes despesas. 
E mesmo assim continua a ser difícil de acreditar que a política de quadros 
durante o período de Stáline estava a um nível muito acima dos nossos 
tempos. Agora, pelo menos, não há repressões em massa, acabou o despotismo 
cruel e as ilegalidades que eliminaram as melhores pessoas, a nata intelectual 
da Nação… Ou acha que 1937 reforçou as fileiras dos quadros dirigentes? 
Penso que quando conhecer não apenas uma parte mas todos os factos e documentos 
relacionados com o tema das repressões, quando os analisar e reflectir sobre o contexto da 
tensa e complexa situação da  altura, sentirá vergonha das frases falsas ditas por pessoas 
exasperadas e desorientadas, que perderam a capacidade de raciocinar de forma sadia. O 
nosso país não teria podido livrar-se de forma tão rápida e decidida da idade média e seguir 
em frente, não teria conseguido, apesar de todos os sofrimentos, tornar-se numa moderna e 
grande potência, e a cultura soviética nunca teria atingido o apogeu do seu florescimento se, 
como afirma, «a nata da Nação» tivesse sido sistematicamente eliminada pelo «maldoso» 
Stáline e o seu círculo. Exactamente porque  se conseguiu emancipar e promover ao mais 
alto nível a parte mais talentosa, corajosa, criadora e honesta do nosso povo foi possível 
tomar a dianteira e superar provações que nenhum outro país no mundo suportaria. Mas 
quando a política de quadros se alterou, quando passou a aplicar-se à escala nacional uma 
política de perseguição e acossamento das pessoas talentosas, quando o oportunismo e o 
carreirismo se tornaram moda, as forças criadoras do povo começaram efectivamente a 
definhar e chegámos à infâmia de precisarmos de importar regularmente cereais e outros 
produtos alimentares, de haver penúria de produtos de primeira necessidade, de termos 
uma esfera de serviços esgotada e continuarmos a atrasar-nos em relação ao Ocidente no 
campo técnico-científico. Estou convencido de que as baixas exangues que sofremos nas 
últimas décadas na economia, política e ideologia, superam várias vezes os danos causados 
pelas repressões e ilegalidades dos anos 30  e 40. No fundamental, o potencial criador de 
várias gerações das mais talentosas e sadias do nosso povo foi desperdiçado e corroído na 
sua base moral pela ideologia e psicologia  pequeno-burguesas. Por isto, não tenhamos 
dúvidas, pagaremos o mais alto preço. 
É verdade que nos anos 30, milhares de pessoas inocentes foram vitimadas. É óbvio que 
uma pessoa cujos pai ou mãe tenham sido injustamente fuzilados não pode consolar-se com 
o facto de que por cada vítima inocente muitos mais tenham sido condenados justamente. 
10Aqui é preciso passar por cima da nossa própria dor, deixar de olhar para a história através 
de um prisma de exasperação pessoal. Mais que não seja em nome da elementar 
objectividade – já sem falar da atitude de classe e de partido que, para muitos dos 
«intelectos» que refere, é como um pano vermelho para um touro… Apesar de tudo o que se 
possa dizer sobre aquele tempo, a atmosfera de então caracterizava-se não pelo medo, pelas 
repressões ou pelo terror, mas por uma poderosa onda de entusiasmo revolucionário das 
massas populares, sentindo-se pela primeira vez depois de muitos séculos donos da própria 
vida, sinceramente orgulhosos do seu País, da sua Pátria e que acreditavam profundamente 
nos seus dirigentes. 
É preciso analisar o que se passou com objectividade, rigor documental, profundidade e, 
sobretudo, a partir das nossas posições de classe. Temos de estabelecer o número total de 
vítimas, quer inocentes quer culpadas, determinar a responsabilidade de Stáline, dos que o 
rodeavam, bem como os muitos excessos ocorridos na província com o beneplácito das 
autoridades locais. Só depois disto estar esclarecido poderemos lançar raios e coriscos… 
Mas nós fazemos tudo ao contrário. Primeiro fazemos alarde, atolamo-nos na lama, e só 
depois começamos a pensar: teremos feito bem, ou será que apenas criámos um amontoado 
de problemas artificiais cuja superação exigirá esforços heróicos? Estou convencido de que 
já é tempo de pensarmos sobre a necessidade  de  reconstituir  um  quadro autêntico do 
passado. Enquanto não o fizermos os nossos inimigos continuarão, à custa do nosso 
silêncio, a fabricar uma versão sua cada vez sólida. 
Há muito que se devia ter começado, até porque nesta área o trabalho é gigantesco. Boa 
parte disto foi oferecido por Khruchov, que odiava Stáline e transferiu para a grande 
política os seus interesses mesquinhos e  a sua exasperação pessoal. Pessoas competentes 
disseram-me que Khruchov deu ordem para ser destruída uma série de documentos 
importantes relacionados com as repressões dos anos 30 e 40. Certamente que, em 
primeiro lugar, desejou esconder a sua participação nas ilegalidades em Moscovo e na 
Ucrânia, onde, para ficar nas boas graças do Centro, assassinou muitas pessoas inocentes. 
Ao mesmo tempo foram destruídos documentos de outro tipo que demonstravam 
irrefutavelmente a fundamentação das acções  repressivas adoptadas no final dos anos 30 
contra algumas destacadas figuras do Partido e do Exército. A táctica é óbvia: encobrir-se a 
si próprio e lançar todas as culpas pelas  ilegalidades para cima de Stáline e dos 
«stalinistas», os quais eram vistos por Khruchov como a principal ameaça ao seu poder. 
Entretanto distraí-me, caí em suposições,  comecei a falar sobre algo que não conheço 
com profundidade. São precisos documentos e factos indiscutíveis e não os possuo. Por isso 
peço-lhe que não aborde mais este tema: não é meu hábito falar sem provas documentais… 
Eu tenho ainda menos hipóteses de vir a aceder a esses testemunhos 
documentais, os arquivos permanecerão fechados por muito tempo… Estudos 
sérios não existem sobre esta matéria, para os ideólogos do Partido este é um 
tema proibido e agora você, um participante activo nesses acontecimentos, 
recusa-se a revelar o que sabe… Que fazer, eu quero saber a verdade! Vou ter 
com esses escritores e «intelectuais»  que, segundo o que me diz, mais não 
fazem que turvar as águas! Ou com os kremlinólogos ocidentais que, como 
justamente observou, são tão hábeis a fabricar as suas versões! 
Pronto, pronto, eu conto-lhe um episódio  verdadeiro da minha  vida, ocorrido, se a 
memória não me falha, em 1937. Tire você próprio as conclusões… 
Nessa altura ocupava um cargo de direcção no Comissariado do Povo para os Sovkhozes
da URSS. Ao entrar de manhã no gabinete encontrei uma notificação para me apresentar 
urgentemente no NKVD [Comissariado do Povo para os Assuntos Internos]. Era algo que 
não provocava especial surpresa ou preocupação, porque era frequente os colaboradores do 
Comissariado do Povo serem chamados a  prestar declarações sobre processos de 
investigação de grupos de sabotadores na nossa instituição. 
11O investigador, de aspecto inteligente e simpático, cumprimentou-me educadamente e 
propôs que me sentasse. 
«- Que tem a dizer sobre os colaboradores Petrov e Grigoriev (altero os apelidos por 
questões de ética (I.B.)? 
«- São óptimos especialistas, comunistas honestos e dedicados à causa do Partido e ao 
camarada Stáline» – respondi sem sequer pensar. Tratava-se de dois dos meus amigos mais 
próximos, éramos, como se costuma dizer, unha com carne… 
«- Tem a certeza disso?» perguntou o investigador, cuja voz me pareceu transparecer um 
sentimento de decepção. 
«- Absoluta, respondo tanto por eles como por mim próprio.» 
«- Então veja estes documentos». E passou-me para as mãos várias folhas de papel. 
Ao lê-las, fiquei gelado. Tratava-se de uma declaração sobre «A actividade sabotadora de 
I.A. Benediktov no Comissariado», realizada durante vários anos «ao serviço da 
espionagem alemã». Tudo, todos os factos enumerados no documento tinham 
efectivamente ocorrido: as aquisições na Alemanha de máquinas agrícolas impróprias para 
as nossas condições, ordens e directivas erradas, o menosprezo de queixas locais justas e 
mesmo algumas tiradas minhas feitas na brincadeira, num círculo restrito, para 
impressionar amigos com o meu sentido de humor... Claro que tudo aquilo era resultado da 
minha ignorância, inépcia, falta de experiência – nunca tinha havido, nem podia haver da 
minha parte qualquer má intenção. No entanto, todos aqueles factos estavam agrupados e 
interpretados com uma tal habilidade demoníaca e uma lógica irrefutável que, colocandome no lugar do investigador, de imediato e sem hesitações teria acreditado nos «propósitos 
sabotadores de I. A. Benediktov». 
Mas um golpe mais terrível esperava-me mais à frente: abalado pela espantosa força da 
mentira, não reparei logo nas assinaturas de quem tinha forjado o documento. O primeiro 
apelido não me surpreendeu (tratava-se de um tratante, mais tarde condenado com pena de 
prisão por calúnia, que fizera denúncias sobre muitas pessoas do Comissariado e que, por 
isso, já ninguém levava a sério). Mas quando  vi os apelidos que constavam na segunda e 
terceira linhas então fiquei literalmente hirto: eram as assinaturas de Petrov e Grigoriev, 
pessoas que eu considerava como os meus melhores amigos, aos quais confiava tudo 
inteiramente! 
«- O que é que tem a dizer sobre esta declaração?», perguntou o investigador quando viu 
que eu tinha, mais ou menos, voltado a mim. 
«- Todos os factos aqui expostos tiveram lugar, nem precisa de os verificar. Mas estes 
erros cometi-os por ignorância e falta de experiência. Arrisquei em nome dos interesses do 
trabalho, assumi a responsabilidade em momentos em que outros teriam preferido cruzar 
os braços. As afirmações sobre sabotagem intencional e as ligações com a espionagem 
alemã são uma mentira absurda.» 
«- Continua a considerar Petrov e Grigoriev como comunistas honestos?» 
«- Sim, continuo, e não consigo compreender o que os fez subscrever esta falsificação...» 
Mas na verdade já começava a compreender, projectando na memória certos sinais de 
afastamento, frieza e tensão que tinham surgido imediatamente após a minha nomeação 
para um posto chave no Comissariado... Tanto Petrov como Grigoriev seriam, 
possivelmente, melhores especialistas do que eu, mas seguiam a filosofia dos «mochos 
sábios», travando por vezes a minha iniciativa e a sede de mudanças rápidas. 
«- Compreendo que não queira afundar os seus amigos», disse o investigador depois de 
reflectir alguns momentos. «Mas, infelizmente, o comportamento deles está longe de ser o 
que diz. É claro que recolhi algumas informações sobre si e não são más: é uma pessoa 
12empenhada, bastante capaz. Mas já em relação aos seus amigos, «comunistas honestos», 
são más. Ivan Alekssandrovitch, quero que compreenda a nossa posição: admite que os 
factos tiveram lugar e diz que não tem qualquer dúvida sobre a honestidade daqueles que o 
acusam de sabotagem. Concordará que enquanto  tchekistas temos que agir em 
conformidade. Pense novamente se tudo o que nos disse é verdade. Eu compreendo, agora 
está numa situação complicada, mas não vale a pena desesperar porque ainda não 
chegámos a nenhuma conclusão», disse-me o investigador na despedida, apertando-me a 
mão. 
Não sei como consegui chegar a casa, nem o que disse à minha mulher. Na memória 
ficou-me apenas a maneira febril como telefonámos aos nossos amigos e como a minha 
mulher, cerrando obstinadamente os lábios para não chorar, escreveu cartas e postais aos 
familiares e pessoas próximas (as relações com famílias de «inimigos do povo» poderiam 
ser-lhes fortemente prejudiciais e tínhamos simplesmente a obrigação de os avisar. 
Da parte da tarde, no gabinete, quando  tentava vencer pensamentos e presságios 
sombrios e entender o sentido dos papéis que tinham chegado, tocou o telefone: 
convidavam-me a comparecer no Comité Central na manhã do dia seguinte. «Está decidido, 
estou morto», pensei eu, «expulsam-me do Partido e, depois, julgamento». 
A minha mulher não aguentou mais e passou a noite a chorar. De manhã, preparou-me 
uma pequena trouxa com alguns pertences, com os quais segui para o edifício do Comité 
Central na Praça Velha. Recordo-me do olhar  perplexo que me lançou a mulher, já com 
alguma idade, que estava sentada na recepção da sala de reuniões. «Isso pode deixar aqui», 
disse, mostrando-me uma cadeira junto à porta. Na reunião, foram debatidas questões 
sobre o desenvolvimento da agricultura. Quase que não conseguia entender o sentido das 
intervenções, esperava que dissessem o meu apelido e começassem a estigmatizar-me. Por 
fim, alguém falou no meu nome... era Stáline. 
«O burocratismo no Comissariado não diminui», disse ele devagar e pesadamente. 
«Todos nós respeitamos o Comissário do Povo... um velho bolchevique, veterano de guerra, 
mas não há meio de ele conseguir combater o burocratismo, é verdade que a idade também 
já não ajuda. Ouvimos opiniões e decidimos  reforçar a direcção do sector. Proponho a 
nomeação para o cargo de Comissário do Povo do jovem especialista Benediktov. Alguém 
está contra? Não? Considera-se o assunto resolvido». 
Após alguns minutos, quando todos começavam a sair, aproximou-se de mim 
Vorochilov20
: «Ivan Alekssandrovitch, o camarada Stáline pede que vá ter com ele». 
Numa sala espaçosa reconheci os rostos bem conhecidos das fotografias de Molotov, 
Kaganovitch e Andreev
21
«- Eis o nosso novo Comissário do Povo», disse Stáline quando me aproximei dele. 
«Então, concorda com a decisão tomada ou tem alguma razão contra?» 
«- Tenho, camarada Stáline, três ao todo.» 
«- Diga então! 
«- Em primeiro lugar sou demasiado novo, em segundo, trabalho há pouco tempo nas 
novas funções e faltam-me experiência e conhecimentos. 
«- A juventude é uma insuficiência que passa. Só é pena que passe tão depressa. Nós é 
que precisávamos um pouco mais dessa insuficiência, não é Molotov?» Este pigarreou de 
forma indefinida, ajustando as lentes no nariz. «Experiência e conhecimento é algo que se 
adquire», continuou Stáline. «Teria sido para mim um prazer ter estudado, mas você, pelo 
que me disseram, teve-o que chegue. Mas não se encha de orgulho que nós ainda lhe vamos 
fazer muitos galos na cabeça. Prepare-se para ter uma vida difícil, o Comissariado tem sido 
negligenciado. E qual é a terceira razão?» 
Então contei a Stáline a minha ida ao NKVD. Ele franziu o semblante, ficou calado e 
depois, olhando-me fixamente, disse: 
13«- Responda francamente, como comunista: essas acusações têm algum fundamento?» 
«- Nenhum, excepto no que toca à minha inexperiência e inépcia.» 
«- Muito bem, pode ir trabalhar que nós trataremos dessa questão.» 
Só dois dias depois dessa conversa, quando me telefonou um dos secretários do CC, 
compreendi que o perigo passara. Quanto à trouxa, foi-me enviada nesse dia do CC para o 
Comissariado. Estava de tal modo aturdido que me esquecera completamente dela... 
Ao que parece, Stáline não quis alterar uma decisão já tomada, e isso 
salvou-o.... 
Não concordo. Ao longo de muitos anos de trabalho, constatei várias vezes que os 
procedimentos formais ou ambições pessoais pouco significavam para ele. O que contava 
para Stáline era o trabalho e, se fosse necessário, não o confrangia alterar decisões tomadas, 
não se preocupando nem um pouco sobre o que pudessem outros pensar ou dizer. Tive 
simplesmente sorte porque o caso sobre a minha fictícia «sabotagem» caiu sobre o seu 
controlo pessoal. Nas questões relacionadas com processos de pessoas acusadas de 
sabotagem, Stáline tinha fama de liberal no Politbureau da altura. Normalmente, punha-se 
do lado dos acusados e conseguia inocentá-los, embora, claro, tenha havido excepções. Isto 
encontra-se bem descrito nas memórias de  Tchuianov, antigo primeiro-secretário do 
Partido na região de Stalinegrado. E mesmo eu presenciei várias vezes desavenças entre 
Stáline com Kaganovitch e Andreev, considerados «rapaces» nesta matéria. Os argumentos 
de Stáline assentavam fundamentalmente na ideia de que mesmo com os inimigos do povo 
era necessário lutar dentro do campo da legalidade, nunca saindo  dele. Outro qualquer 
membro do Politbureau que recebesse o meu caso poderia ter dado seguimento às calúnias 
dos invejosos e canalhas. 
Quer dizer que as repressões e arbitrariedades eram feitas nas costas de 
Stáline, sem o seu conhecimento? Todavia, no XX Congresso foram 
apresentadas provas irrefutáveis de que foi exactamente Stáline o iniciador 
das repressões e quem escolhia as principais vítimas... 
Quanto à irrefutabilidade tenho as maiores dúvidas. Tudo foi feito à pressa com o 
evidente propósito de difamar Stáline e, sobretudo, os que o apoiavam. Quebrando a sua 
resistência, Khruchov e o seu círculo mais chegado contavam conseguir uma situação de 
monopólio no Partido e no Estado. Quando se trava uma luta pelo poder, lançam-se todo o 
tipo de argumentos, muitas vezes duvidosos. Por exemplo, as claras alusões à participação 
de Stáline no assassinato de Kirov22
, que ressoaram no famoso relatório de Khruchov, 
nunca foram confirmadas com provas reais.  As  palavras  de  Khruchov  de  que, 
alegadamente, Stáline «comandava as operações militares pelo globo», revelaram-se 
absurdas, como confirmaram praticamente todos os marechais e generais que com ele 
trabalharam durante a guerra. De um modo  geral, o relatório de Khruchov no XX 
Congresso, a par de factos evidentes, está  cheio de aspectos obscuros, contraditórios, 
simplesmente incompreensíveis, em especial, no que toca à participação nas repressões dos 
membros do  Politbureau na altura, entre os quais, como é sabido, se incluía o próprio 
Khruchov... Repito: aqui é preciso um estudo meticuloso dos documentos e materiais de 
arquivo, uma análise profunda e uma reflexão a partir das nossas posições partidárias de 
classe, considerando todos os factores e circunstâncias e não apenas os que se encaixam 
num determinado esquema teórico. 
Mas no nosso país, em vez se fazer essa análise e reflexão, utiliza-se «o restabelecimento 
da verdade histórica» como cobertura para ajustar contas com os adversários políticos e 
ganhar um sedutor capital ideológico como «inovadores» e «combatentes» contra mais um 
«ismo», o que, evidentemente, é apresentado  como um «enorme contributo criativo». O 
14próprio Khruchov se tornou vítima dessa trama, no mínimo, suspeita. Foi injuriado com 
todas as palavras, depois totalmente excluído de todos os documentos históricos, como se 
não tivesse existido tal figura na história do País. A nossa cultura política é ainda pouca, há 
muitos oportunistas reles, a ânsia de obter resultados imediatos acaba por colidir com os 
interesses estratégicos de longo prazo... 
Temos portanto de esperar pela análise e estudo dos arquivos. O que, pelos 
vistos vai durar muito tempo... O que fazer agora, quando os opositores do 
socialismo desferem golpes sensíveis sobre a nossa ideologia, minam a 
confiança das pessoas no Partido, denigrem o caminho percorrido pelo povo? 
Como propagandista e leitor da  Sociedade Conhecimento confronto-me 
frequentemente com auditórios de jovens que colocam muitas perguntas sobre 
o tema do culto da personalidade e das repressões. Que posso eu responder, 
como preencher este vazio se mesmo nas memórias que se publicam, quando 
se publicam é claro, tudo o que se relaciona mais directamente com o tema é 
implacavelmente cortado. Porque é que você, participante e testemunha 
nestes acontecimentos, não nos dá a sua opinião, a sua versão, a sua hipótese? 
Veja, este tema é tratado por pessoas absolutamente incompetentes e mal 
intencionadas, que apresentam a sua opinião como uma verdade acabada e 
convencem-se disto... Ou você, Comissário do Povo de Stáline, comunista, 
afinal não tem como replicar e devemos nós envergonhar-nos da nossa 
história? 
A sua insistência convence. De facto não  precisamos de nos envergonhar da nossa 
história. Com todas as suas páginas dramáticas, esta é uma história heróica, a história de 
um grande povo. O que posso dizer, não tenho outra escolha, é a minha opinião pessoal, 
não assente, repito, nos necessários documentos e factos. 
Fui efectivamente um participante nos acontecimentos desses anos, encontrei-me 
muitas vezes com Stáline, conhecia bem destacados dirigentes do Partido e da economia 
dos anos 30 e 40, estive presente em muitas reuniões do  Politbureau. Todavia, a maior 
parte do tempo ocupei-me das questões da  agricultura e, naturalmente, percebo muito 
menos do resto. Um pouco mais, certamente, do que os actuais críticos, mas não com 
necessário profissionalismo. Peço que tenha isto em consideração. 
As repressões dos anos 30 e parte dos anos 40 resultaram, principalmente, de factores 
objectivos. Em primeiro lugar, da resistência encarniçada dos declarados e, em especial, dos 
dissimulados inimigos do Poder Soviético. Os primeiros eram significativamente menos 
numerosos que os segundos, e nisto residia toda a dificuldade. 
Nem de longe, todos os que, em consequência da Revolução de Outubro, perderam a sua 
riqueza, os privilégios, a possibilidade de viver à custa do trabalho dos outros, fugiram para 
o estrangeiro. Muitas destas pessoas, aproveitando-se da confusão e da balbúrdia dos 
primeiros anos pós revolução, conseguiram infiltrar-se no aparelho de Estado e no Partido, 
até mesmo no NKVD [Comissariado do Povo dos Assuntos Internos]. Tanto mais que havia 
grande carência de pessoas formadas, de especialistas qualificados. A «quinta coluna» 
potencial era constituída por uma parte significativa da inteligentsia anterior à revolução, 
que tinha perdido uma série de privilégios e regalias, designadamente no plano material, e 
estava agora ao serviço do aparelho soviético, como se costuma dizer, a contragosto, por 
não ter outra alternativa... Com esta  «quinta coluna» relacionavam-se os  népmans
[empresários do período da Nova Política Económica], tal como os  kulaks [proprietários 
rurais ricos] que odiavam o Poder Soviético, parte dos camponeses médios e alguns 
operários, vitimados em consequência de excessos e da desordem que, inevitavelmente, 
acompanha qualquer revolução e as grandes transformações sociais. Um perigo menor, mas 
perfeitamente perceptível, vinha da actividade clandestina dos grupos e grupelhos políticos 
da burguesia, pequena-burguesia e até de  monárquicos, muitos dos quais mantinham 
15ligações regulares com os círculos da emigração. Tudo isso não era uma invenção do Stáline 
ou do NKVD, mas a mais prosaica realidade existente. 
Basta dizer que no decurso das  investigações do chamado caso  Prompartia  [partido 
industrial], que tinha evidentes objectivos anti-soviéticos, foram desmascaradas cerca de 
duas mil pessoas que de forma consciente e orientada praticavam actos de sabotagem. Em 
meados dos anos 30, testemunhei pessoalmente casos de sabotagem consciente na 
indústria química e de curtume. E mesmo no Comissariado do Povo dos  Sovkhozes da 
RSFSR [República Soviética Federativa Socialista da Rússia] e no Comissariado do Povo da 
Agricultura da URSS, onde trabalhei, alguns especialistas vindos da inteligentsia anterior à 
revolução não perdiam uma oportunidade para nos passar uma rasteira. 
A actividade da oposição trotskista-zinovievista
23
 e mais tarde bukharinista
24
 era 
reforçada com este tipo de acções subversivas. É verdade que os seus líderes, ainda nos 
finais dos anos 20, foram obrigados a recuar e a intervir com discursos de arrependimento. 
No entanto, muitos correligionários de Trotski e de Bukharine tinham ficado nos aparelhos 
do Partido e do Estado, no Exército, nos órgãos de segurança de Estado, onde prosseguiam 
a sabotagem ao Poder Soviético no campo ideológico, evocando hipocritamente os ideais de 
Outubro. Note-se que, também no comando do Exército Vermelho, havia bastantes oficiais 
czaristas. Muitos deles, incluindo Tukhatchevski
25
, Iakir
26
, Uborevitch27
 e outros, 
passaram-se para o lado dos  bolcheviques na sequência de um grande trabalho de 
organização e propaganda realizado por Trotski, cujo contributo para o reforço da defesa da 
Revolução, como sabe, foi altamente valorizado por Lénine. É certo que a maioria dessas 
pessoas, conservando certos preconceitos e convicções antigas próprios do seu extracto 
social, eram leais ao Poder Soviético. Mas havia quem andasse com as tripas do avesso, o 
que constituía uma ameaça determinada, uma  vez que Trostki, com as suas excelentes 
capacidades organizativas e talento conspirador, já emigrado, conseguia manter ligações 
regulares com os descontentes no interior do País. E nem sequer é preciso falar dos muitos 
agentes enviados nos anos 30 para o território da União pelos serviços de espionagem 
capitalistas. 
É evidente que os adversários do Poder Soviético, não obstante representarem por certo 
alguns milhões de pessoas, constituíam uma clara minoria do povo. No entanto, dada a 
importância dos cargos que exerciam, o seu nível intelectual mais elevado, educação e 
conhecimentos, ignorá-los como potencial ameaça para o socialismo teria sido uma 
leviandade criminosa, inadmissível para um político sério. Numa situação em que os países 
capitalistas não escondiam a sua hostilidade e se aproximava o embate com o fascismo, o 
governo do País estava simplesmente obrigado a empreender firmes medidas em grande 
escala para se resguardar de possíveis ataques pelas costas, neutralizar a potencial «quinta 
coluna» e garantir a máxima unidade nos escalões de direcção do Partido, Estado e 
Exército. 
Referiu-se aos inimigos do Poder Soviético e aos adversários ideológicos de 
Stáline. Mas entre as vítimas de repressão havia muitas pessoas que eram 
capazes de dar a vida por Stáline... 
É verdade. Mas isso apenas demonstra que as repressões não eram motivadas pela falta 
de lealdade pessoal a Stáline, como alguns pretendem fazer crer, mas por outras razões 
mais sérias. Quais? Pense-se, mais que não seja, no processo que se impunha de 
saneamento e rejuvenescimento da direcção. 
Entre a velha guarda partidária, que conseguiu entusiasmar e levantar as massas para a 
Revolução de Outubro, havia, nas palavras de Lénine, algumas «figurinhas» de «santos de 
pau caruncho» que sabiam «empertigar-se e palrar», mas não eram capazes de trabalhar de 
forma inovadora, à altura das tarefas que se colocavam ao país. O meu Comissariado, por 
exemplo, era dirigido por um velho bolchevique, pessoa honesta e, sem dúvida, com mérito 
(por isso não refiro o seu nome), mas incapaz de organizar as coisas. Inúmeros encontros e 
16exortações, reuniões com «brilhantes» palavras de ordem, constantes vivas à revolução, a 
Lénine, a propósito e a despropósito, era esse o seu estilo, o qual, simplesmente não estava 
em condições para alterar. E de nada servia o elevado grau de formação e cultura, as suas 
grandes qualidades morais: as aptidões práticas são insubstituíveis. 
Nos seus últimos escritos, Lénine sublinhou várias vezes que a maioria do Partido (cerca 
de nove em cada dez), era constituída por pessoas incapazes de responder às novas 
exigências, apelando por isso à sua substituição nos lugares de responsabilidade, à sua 
«exclusão», sem contemplações perante quaisquer serviços que tivessem prestado. Tudo 
isto correspondia à realidade. Naturalmente  que a promoção em massa de pessoas mais 
jovens, dotadas e capazes de trabalhar em novos moldes não podia processar-se de forma 
indolor. Provocou descontentamento, ressentimentos e acusações da parte dos veteranos, 
cuja resistência também foi preciso quebrar. 
Mas é claro que a maioria não foi vítima disto. 
Lembra-se das palavras de Lénine de que os russos eram maus trabalhadores em 
comparação com os operários dos países  ocidentais? Confessemos: o desleixo, a 
irresponsabilidade, a indolência está-nos no sangue; do operário ao ministro, temos uma 
cultura de trabalho reduzida, para não dizer primitiva. E para arrancar todos estes «sinais 
de nascença do passado» será preciso ainda muito tempo e esforços. 
Estou convencido de que, nos anos 30, quando estávamos perante uma questão de vida 
ou de morte do Estado Soviético, era preciso utilizar todo o arsenal de combate contra as 
nossas chagas ancestrais russas, recorrendo, a par de estímulos materiais e morais, a 
medidas do foro administrativo e mesmo punitivo-repressivas. Sim, sim, esse chicote, sem 
o qual, muitas vezes, não é possível extrair  de uma parte da nossa população (não tão 
pequena quanto isso) aquela rudeza elementar, selvagem, boçal. 
Folheie os últimos volumes das obras completas de V.I. Lénine, onde estão reunidas as 
suas cartas de trabalho, os telegramas e notas. Não se cansava de repetir que «nas nossas 
condições, com estes malditos hábitos de desleixo, qualquer coisa se desconjunta em duas 
semanas se não a ajustarmos e verificarmos, se não dermos três chicotadas
28
». «Em nome 
de Cristo, ponham alguém atrás das grades da prisão. Sem isso, não se consegue nada
29
». 
Praticamente em todas as linhas apelava a «chicotadas», às prisões e repressões, incluindo 
a pena capital, por descuido, negligência, desleixo, subornos e tentativas de «camuflar» 
actos vis. E estes apelos tinham em vista quem? Funcionários dirigentes, incluindo os dos 
escalões mais altos, bolcheviques, que tinham passado pelas prisões, por trabalhos 
forçados, pelo exílio. Lénine respeitava as pessoas, valorizava as suas qualidades práticas. 
Mas quando a situação o pedia, revelava uma severa exigência, não hesitando em adoptar 
as medidas mais rigorosas e drásticas, «punitivas», se quiser. Stáline herdou este estilo, e 
nesse tempo não poderia ser de outra forma. 
Na situação específica dos anos 30 e 40, os actos de negligência, irresponsabilidade e 
incúria tinham obrigatoriamente de ser equiparados a crimes políticos. E as pessoas, 
estando conscientes disto na sua grande maioria, apoiavam tais medidas. Do ponto de vista 
prático, é absolutamente indiferente qual a razão por que uma fábrica, construída à custa de 
uma tremendo esforço, não produz a quantidade de bens necessários a todos: se devido às 
diversões de agentes inimigos ou à mais  elementar inépcia daqueles que se revelam 
incapazes de organizar a produção e pensam mais nos seus interesses pessoais do que nos 
da sociedade... A mim não me comove nada a história tocante de uma mãe com dois filhos 
que foi condenada a vários anos de prisão pelo roubo de duas espigas de trigo. É claro que, 
no seu plano pessoal, a sentença é no mínimo cruel. Mas este exemplo dissuadirá, por 
muito tempo, que centenas ou milhares de outros amigos do alheio deitem a mão a bens do 
Estado, enriquecendo à custa  de outros... Não é verdade que  hoje, ladrões descarados e 
trapaceiros de todos os tipos privam o Estado de milhares de milhões, talvez mesmo 
dezenas de milhares de milhões de rublos, que poderiam, por exemplo, ser destinados a 
prestações sociais não de uma nem duas, mas de milhões de mães?  
17Mas desviei-me do assunto. Em suma, as  repressões  dos  anos  30  foram,  no  seu 
fundamento, inevitáveis. Penso que se tivesse vivido mais 15 anos, Lénine teria tomado a 
mesma via. Não é por acaso que os críticos mais consequentes de Stáline e do chamado 
«stalinismo» cedo ou tarde acabam a criticar Lénine. Em última análise, não se pode acusar 
estas pessoas de falta de lógica. 
É certo que, com Lénine, os excessos e desvios teriam sido muito menos. 
Na sua opinião, em que é que consistiram em concreto esses excessos e qual 
é a fronteira que separa os factores objectivos dos erros e falhas subjectivos? 
Eu já disse que, no aparelho do Partido e nos órgãos do NKVD, havia inimigos ocultos do 
Poder Soviético, assim como carreiristas de diverso tipo, cobiçosos e aventureiros. Guiados 
pela sua cupidez e pelos seus interesses pessoais, inscreveram nas listas dos «inimigos do 
povo» pessoas honestas e talentosas, fabricaram «casos», chamando como «testemunhas» 
todo  o  género  de  canalhas,  do  tipo  dos  meus  amigos  Petrov  e  Grigoriev.  Os  abusos  e 
desvios, em especial ao nível local, foram  também resultado do baixo nível político e 
sociocultural (simplesmente não podia haver outro) dos quadros dirigentes locais. Ainda 
para mais, a propaganda acentuava a «urgência» nesta matéria. A procura de actos de 
«sabotagem», designação que passou a classificar indistintamente todos os incidentes, até 
erros acidentais e outros causados pela inexperiência de pessoas honestas, tornou-se numa 
espécie de psicose entre amplas massas da população. É certo que o ideal seria investigar 
individualmente e com objectividade todos os casos de suspensão ou paragens da produção, 
a origem dos defeitos nos produtos, apurando com minúcia as situações resultantes de 
inexperiência, as provocadas por negligência criminosa e as que eram de facto consequência 
de actos conscientes de sabotagem. No entanto, muitas vezes isso não acontecia, era muito 
mais  simples  e  fácil  lançar  as  culpas  de  tudo  nos  «inimigos  do  povo»,  tanto  mais  que  a 
memória desses inimigos, escarnecendo das  pessoas simples durante o tempo do czar, 
ainda estava fresca… 
De certo modo, repetiu-se a situação dos primeiros anos da revolução e da guerra civil, 
quando a fúria de um ódio multi-secular de  explorados contra exploradores, provocou a 
morte de dezenas de milhares de inocentes das camadas «alta» e «média». Será justo 
culparmos Lénine, Djerjinski
30
 e os seus companheiros destes excessos e crueldades? Em 
termos abstractos podemos responder que sim, houve aqui e ali desatenções, falhas, 
precipitações, etc. No entanto, na prática, era simplesmente impossível conter de uma 
penada as paixões despertadas, parar a carnificina e o derramamento de sangue. Os 
bolcheviques fizeram tudo o que estava ao seu alcance, pondo a própria vida em risco, mas 
nem sempre lograram refrear a fúria das massas. Algo de semelhante ocorreu nos anos 30 
com Stáline. 
É verdade que o facto de muitos milhares de pessoas honestas, inocentes, terem sido 
vitimadas durante as repressões significou um grande dano para a nossa sociedade. Mas, no 
global, a firme depuração em grande escala do aparelho partidário-estatal e do Exército 
reforçou o país e teve um papel positivo. Nunca houve, nunca haverá na história 
verdadeiras transformações revolucionárias sem os seus custos, por vezes extremamente 
elevados e dolorosos. 
Fala de «fúria popular», mas as repressões eram organizadas pelo aparelho 
do Partido e pelos órgãos do NKVD, os quais estavam nas mãos de Stáline… 
Mas de onde vinham as pessoas que estavam no aparelho do Partido e nos órgãos de 
segurança de Estado? Claro que vinham do povo, no fundamental dos meios operários e 
camponeses. E reflectiam necessariamente o seu estado de espírito, o seu modo de pensar, a 
sua psicologia. E os operários e camponeses, também na altura, não estavam todos na 
vanguarda… 
18O dramatismo da situação residiu no facto de que a depuração, o reforço do país, teve de 
ser feito através de um aparelho, quer partidário quer estatal, que estava imundo. Por isso, 
uma onda de depuração era seguida de outra, desta vez já contra os que tinham cometido 
ilegalidades e abusos no exercício das suas funções. De resto, em termos relativos, os órgãos 
de segurança do Estado terão sido dos que mais sofreram. Eram «depurados» de forma 
regular e radical, sem qualquer complacência pelos serviços prestados ou biografias 
revolucionárias. 
Não tenho dúvidas de que Stáline sabia das arbitrariedades e ilegalidades praticadas no 
decorrer das repressões, sofreu com isso e tomou medidas concretas para a correcção dos 
excessos cometidos e para a libertação de pessoas honestas da prisão. Aliás, naquele 
período, não se fazia muita cerimónia com os  caluniadores e denunciantes. Muitos deles, 
após os desmascaramentos, eram metidos nos mesmos campos para onde tinham sido 
enviadas as suas vítimas. Paradoxalmente, muitos deles, soltos no período de Khruchov, 
vendo-se em liberdade, desataram a apregoar mais alto que todos sobre as ilegalidades 
stalinistas, conseguindo até publicar memórias sobre o assunto. 
Desculpe, o que diz sobre a não participação de Stáline na repressão de 
pessoas honestas não é convincente. Mas mesmo admitindo isso como 
verdade, então, em primeiro lugar, ele tinha a obrigação de reconhecer 
perante todo o povo as ilegalidades cometidas, em segundo lugar, reabilitar os 
que sofreram injustamente e, em terceiro, tomar medidas para que tais 
ilegalidades não pudessem ocorrer mais  no futuro. Veja que nada disto foi 
feito… 
Visivelmente, você não está ao corrente dos factos. No que respeita às duas primeiras 
considerações que faz, lembro-lhe que o Plenário  de  Janeiro  do  CC  do  PCU(b)  [Partido 
Comunista de toda a União (bolchevique)]  em 1938, reconheceu publicamente as 
ilegalidades cometidas em relação a comunistas e pessoas sem partido honestos, aprovando 
sobre este assunto uma resolução específica que foi, aliás, publicada em todos os jornais 
nacionais. De forma igualmente aberta, o XVII Congresso do PCU (b), em 1939, referiu-se 
aos danos causados em todo o país pelas repressões infundamentadas. 
Imediatamente após o Plenário do CC, em Janeiro de 1938, milhares de pessoas 
reprimidas ilegalmente, incluindo oficiais militares, começaram a regressar dos locais de 
reclusão. Todos foram oficialmente reabilitados e Stáline apresentou pessoalmente 
desculpas a alguns deles. 
No que se refere ao seu terceiro considerando, já lhe disse que o aparelho do NKVB foi 
provavelmente o mais atingido pelas repressões, uma grande parte exactamente por ter 
sido chamada a responder pelos abusos de poder e represálias sobre pessoas honestas... A 
responsabilidade maior por essas repressões, como saberá, coube a Iagoda e a Ejov, antigos 
Comissários do Povo para os Assuntos Internos. Juntamente com os seus mais próximos 
colaboradores, foram condenados à pena capital e fuzilados pela morte das melhores 
pessoas, de experientes quadros do Partido. Quem lhes sucedeu, Béria, tinha fama de 
«liberal» e, nos primeiros momentos, restringiu de facto as proporções das repressões. No 
entanto, seduzido pelo poder, cedeu também a abusos e desagregou-se completamente no 
plano moral e de vida. Um ano e qualquer coisa antes da morte de Stáline, foi demitido do 
posto de Comissário do Povo e os seus colaboradores devotos foram detidos e colocados sob 
investigação. O cerco a Béria cerrava-se inexoravelmente e não foi por acaso que, nos 
últimos meses de vida de Stáline, desenvolveu uma actividade febril, sendo o primeiro, 
imediatamente após a sua morte, a desencadear a campanha de difamação do líder. 
Mas falemos agora das medidas contra as repressões tomadas pelo XVIII Congresso do 
PCU(b), em 1939, que revogou a prática comum até então de depurações regulares no 
Partido. Na minha opinião pessoal, considero que foi uma decisão errada. Preocupado com 
os danos causados pelas repressões em massa, Stáline caiu noutro extremo e nitidamente 
19precipitou-se. Lénine estava muito mais  próximo da verdade quando sublinhou que o 
partido governante deve depurar-se constantemente dos que se aproveitam do poder e dos 
que a ele se encostam. O esquecimento deste ensinamento custou-nos terrivelmente caro. É 
verdade que só agora nos damos conta disso, na altura não duvidei da justeza da decisão 
tomada. 
A propósito das perguntas que me tem feito, veio-me à memória um episódio. Quando, 
nos finais de 1939, muitas pessoas condenadas injustamente começaram a regressar dos 
locais de reclusão aos comissariados da Agricultura, expressei, na presença de Stáline, a 
minha satisfação a respeito deste assunto.  A sua reacção, no entanto, foi para mim 
inesperada. 
«- Para onde é que antes estavam a olhar?», perguntou, zangado, Stáline. 
«Provavelmente até conheciam essas pessoas, compreendiam em que situação se 
encontravam. Porque é que não intercederam em sua ajuda, e não vieram ter comigo no fim 
de contas? Não querem ter chatices? Se desejam uma vida sossegada devem sair do 
Comissariado. Aí, os “mochos sábios” podem causar muitos prejuízos.» 
No entanto, insisto, continua a ser difícil de acreditar que Stáline não 
soubesse o que se estava a passar no Comissariado dos Assuntos Internos... 
Durante o período de Stáline, os comissariados tinham uma grande liberdade de acção. 
Isto era considerado como a principal premissa da capacidade de iniciativa e da autonomia 
do trabalho. O controlo, bastante rigoroso e constante, realiza-se na elaboração dos planos, 
na definição das orientações «estratégicas» do desenvolvimento dos sectores, bem como em 
relação aos resultados concretos das políticas aplicadas. Ninguém interferia com o trabalho 
corrente quotidiano de um Comissariado, como acontece hoje, em que um ministro, antes 
de dar um passo, não falando já das grandes decisões, tem de chegar a acordo várias vezes 
com as correspondentes subdivisões do Comité Central e outras instâncias de direcção. De 
resto, na altura, com excepção do departamento agrícola, não existiam quaisquer outros 
departamentos sectoriais no CC. É claro que sempre consultei os colaboradores do CC, as 
outras instituições, mas era autónomo nas decisões que tomava, por vezes até contra a 
opinião deles.  
Pela amarga experiência de outros e em parte da minha própria, sabia que a 
responsabilidade pelos resultados seria  individual, nenhuns «conselheiros» ou 
«colaboradores», incluindo secretários do CC ou mesmo membros do Politbureau, podiam 
ser chamados à colação. Stáline rapidamente nos tirava o hábito de nos escondermos atrás 
de costas alheias, passando a responsabilidade, como por vezes dizia irritado, para «um 
kolkhoz de pessoas irresponsáveis». Penso que em relação aos outros comissariados, 
incluindo o NKVD, funcionava o mesmo princípio. 
Este estilo elevava o nível de responsabilização dos quadros dirigentes, permitia 
identificar com nitidez «quem era quem» na prática, coisa que hoje é difícil de determinar: 
há demasiadas assinaturas e acordos que possibilitam a um dirigente eximir-se de qualquer 
responsabilidade. Mas havia, infelizmente, o reverso da moeda. Refiro-me ao «isolamento» 
dos comissariados das influências externas  e à possibilidade de abusos de poder. 
Aparentemente, estas circunstâncias manifestaram-se quando à frente do NKVD foram 
colocadas pessoas bem preparadas do ponto de vista profissional, mas pouco consistentes 
no plano político e ético-moral. Quando o controlo se apertou, foram demitidas dos seus 
cargos e pagaram pelos seus actos. Entretanto, tinham sofrido pessoas inocentes e sem 
dúvida que Stáline tem aqui uma quota-parte de responsabilidade. 
Hoje é fácil gritar sobre os erros do passado, muito mais difícil é determinar e 
compreender as suas causas. Aliás, sempre foi mais fácil falar do que reflectir. Neste 
sentido, entendo bem os seus colegas jornalistas e literatos… 
20Permita-me que lhe coloque mais uma pergunta ardilosa. Disse que Stáline 
até incentivava os comissários do povo a defenderem as pessoas injustamente 
reprimidas. É curioso, mas teria você conservado o seu cargo se interviesse em 
favor, digamos, de Tukhatchevski,  Voznessenski  ou  de  Bliukher31
? A opinião 
corrente é que foram reprimidos porque Stáline os encarava como 
concorrentes na luta pelo poder… 
Em favor das pessoas que enumerou não teria intercedido pela razão simples de que, na 
altura, estava inteiramente convencido da  sua culpa, como, aliás, estava a esmagadora 
maioria dos soviéticos. Quanto à «luta pelo poder» e à eliminação dos «concorrentes», 
desculpe mas não passam de invenções ocas. 
As apreciações simplificadas são sempre atractivas. A este propósito disse muito bem 
Belinski
32
: «Quanto mais estreita for uma opinião, mais ela será acessível à maioria, que 
gosta de que o bom seja sempre bom e o ruim sempre ruim, não querendo sequer ouvir 
falar de que um mesmo objecto possa conter em si o bom e o ruim». E se, na sua essência, 
repito mais uma vez (agora sem qualquer  ressalva sobre a minha incompetência), o 
despotismo e a avidez de poder nada tiveram a ver com as repressões, pelo menos no caso 
de Stáline, já que em relação aos que o rodeavam a situação é distinta… 
Encontrei-me e conversei com  Stáline dezenas de vezes, vi como ele decidida os 
problemas, como se relacionava com as pessoas, como reflectia e hesitava, procurando 
saídas para as situações mais complicadas. Posso afirmar peremptoriamente: sentindo 
profundamente os mais altos interesses do Partido e do País, ele nunca teria sido capaz de 
os pôr em causa, eliminando como potenciais concorrentes pessoas talentosas. Os 
pretensos peritos que, com ar catedrático, proferem tais alarvidades, simplesmente não 
conhecem a verdadeira situação de como as coisas se faziam na direcção do País. 
Apesar da opinião corrente, nesses anos,  todas as questões, incluindo as que se 
relacionavam com a destituição de figuras destacadas do Partido, do Estado e Exército, 
eram decididas no  Politbureau de forma colegial. Nas reuniões do  Politbureau havia 
frequentemente debates e discussões inflamadas, onde eram expressas opiniões diferentes, 
por vezes opostas, naturalmente enquadradas  nos objectivos angulares do Partido. Não 
havia uma unanimidade implícita e submissa – Stáline e os seus camaradas não 
suportavam tal coisa. Digo isto com inteiro  fundamento porquanto estive muitas vezes 
presente nas reuniões do Politbureau. 
É verdade que o ponto de vista de Stáline, regra geral, impunha-se. Mas isto acontecia 
porque ele objectivamente equacionava os problemas de forma aprofundada, via mais longe 
e mais fundo que os outros. As pessoas são pessoas e gradualmente habituavam-se a isto, 
seguindo a lei do menor esforço, e deixavam de defender os seus pontos de vista até ao fim. 
Stáline dava-se conta do perigo que isto representava, zangava-se, mostrava como exemplo 
N.A. Boznessenski, que defendia firme e consequentemente as suas opiniões. Contudo não 
conseguiu alterar a situação. Ao passar  a barreira dos 70 anos, começou a ceder 
notoriamente. A idade e a tremenda tensão dos assuntos de Estado produziam, 
visivelmente, os seus efeitos. Mas no final  dos anos 30, a colegialidade no trabalho do 
Politbureau revela-se de forma muito precisa. Houve casos, bastante raros é certo, em que 
Stáline ficou em minoria nas votações. Isto  aconteceu em particular no referente às 
repressões, matéria em que Stáline tinha posições mais «suaves» dos que muitos outros 
membros do Politbureau. 
Estou convencido que Tukhatchevski, Iakir, Bliukher e outras grandes figuras foram 
reprimidas por razões políticas e na  sequência de decisões colegiais do  Politbureau. 
Motivações pessoais, se é que as houve, tiveram um papel secundário. Outra questão é a de 
saber até que ponto aquelas razões eram fundamentadas e reflectidas. Naturalmente que 
era possível cometerem-se erros. Mas para compreendermos e reconstituirmos um quadro 
autêntico do passado precisamos de fazer uma abordagem política sob a perspectiva dos 
interesses do Estado e de realizar uma análise aprofundada e multilateral do assunto… 
21E quanto a Tukhatchevski… 
Não se cansam de repisar no mesmo: Tukhatchevski, Tukhatchevski… por todo o lado se 
ouve que o verdugo do Stáline matou o mais talentoso cabo-de-guerra soviético. Quantas 
vezes falei sobre os anos 30, e sempre a mesma pergunta… Até que um dia, já farto de tudo 
isto, fui ter com um velho conhecido, aliás, crítico assumido de Stáline, que esteve 
directamente ligado ao trabalho da comissão para a reabilitação de Tukhatchevski. 
«- Era um homem complicado», respondeu-me. «Não lhe agradava a direcção do 
Partido no Exército e também não lhe faltava presunção e sobranceria aristocrática. No 
entanto, raramente aparecem chefes militares  como ele, com um avanço de décadas, um 
enorme talento, não era por acaso que os alemães o temiam mais do que a todos os outros. 
Foram eles que forjaram a falsificação e o NKVD fabricou o processo. Do ponto de vista 
jurídico, a acusação é totalmente inconsistente. Foi justamente reabilitado, não tenhas 
dúvidas. 
«-Espera lá, então tanto fumo e afinal não havia nenhum fogo? A acusação foi assinada 
pelo Bliukher e Alksnis
33
. Sabes bem que não eram capazes caluniar gente honesta mesmo 
sob ameaça de morte… 
«- Sim, alguma coisa houve. Foi apurado que Tukhatchevski convocou uma reunião 
secreta, onde foram discutidos os planos  para a destituição de Vorochilov (então 
Comissário do Povo – V.L.). Mas juridicamente nenhum aspecto da acusação ficou provado. 
«- Ora bem, estás a ver! Em qualquer país isso é motivo suficiente para a destituição e 
mesmo para julgamento. Em todo o lado os ministros da Defesa são destituídos e nomeados 
pelas mais altas instâncias. Pensas que Tukhatchevski contava convencer Stáline e outros 
membros do Politbureau com a sua eloquência? Então para que era o secretismo? O que 
temos é um caso de conspiração, de traição ao Estado… 
«- Não te exaltes, Ivan! Tu nunca percebeste grande coisa de jurisprudência. São 
necessárias provas concretas, factos precisos, indícios irrefutáveis, numa palavra, todos os 
atributos da legalidade, e nestes caso tudo foi forjado. E também não é verdade que 
Tukhatchevski fosse um traidor, o mais provável é que se tenha tratado de um caso de 
intriga, de uma luta entre o talento e a nulidade…» 
Juridicamente não sei, mas do ponto de vista da defesa dos interesses do país, se é 
verdade que Tukhatchevski e o seu grupo tinham a intenção de destituir o Comissário do 
Povo para a Defesa, era necessário removê-los de cargos decisivos! A guerra aproximava-se 
no mapa, estava em causa o destino do socialismo, do povo, manter no mais alto comando 
pessoas capazes de infringir a mais elementar disciplina, o seu dever militar, teria sido um 
crime. Podemos imaginar o rumo que tomariam os acontecimentos se, nos momentos 
críticos  da  guerra,  em  vez  de  um  só  general que traiu a Pátria, Vlassov, tivéssemos tido 
algumas dezenas, ainda para mais nos postos mais influentes! E de pouco nos serviria que o 
golpe pelas costas ao «regime stalinista» assentasse ou não em «pressupostos ideológicos». 
O resultado teria sido o mesmo. O exército francês foi destroçado em poucas semanas pelos 
fascistas em grande parte porque nos círculos político-militares do país não havia unidade, 
os generais brigavam com os políticos e entregam-se a sentimentos derrotistas. 
Veja que, se cavarmos um pouco mais fundo, se questionarmos as ideias preconcebidas, 
a visão esquemática do «déspota Stáline que eliminou pessoas de grande talento» começa a 
ruir por si própria... Penso que boa parte do que se passou nas repressões nos anos 30 e 40 
ultrapassará os limites desta visão esquemática se estudarmos o assunto de forma objectiva 
e séria. 
A sua opinião é convergente com as posições de uma destacada figura do 
Partido Bolchevista, próxima de V.I. Lénine, Helena Dmitrievna Stassova34
22Apesar de toda a antipatia que sentia em relação a Stáline, considerava que 
não se podia responsabiliza-lo directamente pelas repressões injustificadas e 
pela eliminação de pessoas honestas. Helena Dmitrievna insurgiu-se contra as 
acções de Khruchov, considerava-o como um «aventureiro irresponsável», um 
«visionário fantasista»35
. A sua análise também se aproxima das 
considerações do grande escritor alemão L. Feuchtwanger36
, que visitou a 
União Soviética em 1937 e publicou as suas impressões num livro. 
Feuchtwanger quis investigar pessoalmente se na realidade Stáline estava a 
eliminar pessoas com talento só para reforçar o seu regime e o seu 
despotismo. O escritor, que manifesta  o seu desacordo de princípio com os 
métodos «bolchevistas» de governação, em particular no «campo das artes», 
esteve presente nos processos de  Piatakov e de Radek, conversou 
pessoalmente com muitos acusados e chegou à firme conclusão de que os 
processos eram inteiramente fundamentados e que as acções de Stáline e dos 
seus camaradas correspondiam aos mais altos interesses do povo e do Estado 
soviético. Feuchtwanger qualificou o  comportamento de muitos intelectuais 
ocidentais, que lançaram rumores sobre as «malfeitorias stalinistas», como 
míopes, indignos e infames. Mas tudo isto, tal como as opiniões, é pouco 
convincente: há demasiados factos evidentes que o contradizem... 
Que posso eu fazer, este é o meu ponto de vista pessoal e avisei-o de que são necessários 
materiais e documentos de arquivo que não possuo. Mas quanto à «evidência», aconselho-o 
a ser prudente. Nós condenámos o voluntarismo, mas não tem havido por enquanto 
vontade de relatar a história, apesar de neste sentido terem sido dados nos últimos anos 
alguns passos tímidos...  
Pense ainda numa coisa. Nos «despóticos anos 30», as actas dos processos políticos 
eram publicadas e eram de facto acessíveis a qualquer pessoa, apesar de conterem opiniões 
e versões contrárias à posição oficial. Com Khruchov, partidário da «abertura» e da 
«transparência» [glasnost, em russo], tudo isto foi colocado em fundos secretos e de acesso 
reservado. Não terá sido porque esses documentos contradizem a «evidência» dos «factos» 
apresentados e interpretados oficialmente? 
Quanto a Feuchtwanger, o que lhe posso dizer é que não estava sozinho. Romain 
Rolland, Henri Barbusse, Anderson-Nexö
37
 e outros escritores progressistas, cientistas e 
artistas plásticos, apoiaram abertamente a política de Stáline e dos seus camaradas. Mesmo 
Enstein, pouco dado aos «métodos musculados» na política, recusou-se a subscrever um 
apelo condenando as repressões... É um facto indesmentível que a nata da intelectualidade 
ocidental, que permaneceu fiel aos ideais do progresso e do humanismo, demarcou-se da 
campanha estridente de desmascaramento «dos crimes stalinistas». Ao contrário, os 
hipócritas e sediciosos, que traíram estes ideais, chegando ao colaboracionismo com o 
fascismo e a reacção, berraram mais alto que todos contra o «terror stalinista». É também 
um bom assunto para reflectir... 
Foi Comissário do Povo para a Agricultura da URSS exactamente numa 
altura em que, na biologia soviética, se agudizou o conflito entre os partidários 
da tradicional doutrina de Mitchúrin e a genética, entre Lessienko38
 e 
Vavilov39
. Sabe-se que Stáline e o seu comissariado apoiaram Lessienko e a 
escola soviética de genética foi autenticamente destroçada e muitos dos seus 
sobreviventes, incluindo Vavilov, reprimidos. A biologia nacional, que nesse 
tempo era das mais avançadas, começou a ficar seriamente atrasada em 
relação aos padrões mundiais. Concordará que, depois de tudo isto, 
dificilmente se acreditará na competência da direcção stalinista da ciência. Já 
não falo dos métodos inadmissíveis de represálias contra os que divergiam da 
23linha dominante. Khruchov, apesar de todos os seus defeitos, relacionava-se 
com os cientistas pelo menos de forma civilizada… 
Khruchov tem muito mais culpas no atraso da genética do que Stáline. Nos anos 30, era 
incomparavelmente mais difícil prever as suas perspectivas de desenvolvimento do que nos 
anos 50. Nikita Sergueievitch ficou literalmente enfeitiçado com as espantosas promessas 
de Lessienko, nas quais, ao contrário de Stáline, acreditava incondicionalmente, o que fez 
com que os investigadores genéticos não recebessem o apoio necessário, ainda por cima 
numa altura em que já começavam a vislumbrar-se êxitos palpáveis. Não tenho dúvidas de 
que Stáline, dotado de uma intuição extraordinária para o valor prático da aplicação de 
novas orientações, se tivesse durado mais cinco ou seis anos, os investigadores genéticos 
teriam recebido tudo o que pediam e muito mais. Podem apontar-lhe outras insuficiências, 
mas concentrar forças e recursos nos sectores decisivos, descobrir e promover talentosos 
cientistas-organizadores era uma coisa que fazia como ninguém. É um facto que foi Stáline 
um dos primeiros líderes políticos do mundo a tomar consciência do enorme significado 
prático da investigação nuclear e da exploração espacial. É igualmente sintomático que 
tenha sido ele a dar todo o apoio a I.V. Kurtchatov40
 e S.P. Koroliev
41
, então quase 
desconhecidos e pouco considerados pela elite académica. Quebrando a paralisia e 
rotineirismo dos cientistas da época, o CC do Partido, sob a direcção de Stáline, «iluminouse» e atribuiu uma importância de Estado  a estas orientações que a muitos, mesmo no 
mundo científico, pareciam fantasistas. Em resultado, apesar do seu atraso económico de 
décadas em relação ao Ocidente, o nosso País conquistou as posições mais avançadas nos 
sectores chave do progresso científico-técnico, lançando os fundamentos materiais do 
estatuto de grande potência. 
Já falou disso no início da nossa conversa a propósito da economia… 
E então, repito mais uma vez, terá de ter paciência se me quiser ouvir até ao fim. 
A maioria das escolas inovadoras, que colocaram a ciência soviética nas últimas 
fronteiras mundiais, foram criadas e ganharam força no amaldiçoado, por jornalistas e 
literatos, período stalinista. O seu florescimento aconteceu no final dos anos 50 e inícios da 
década de 60. A partir daí, gradualmente, tudo começou a andar para trás. Distintas escolas 
nacionais começaram a definhar, os interesses de grupo e o monolitismo de clãs de notáveis 
tornaram-se dominantes na ciência, a qualidade dos cientistas, em particular na área 
humanitária, baixou nitidamente. 
Julgo que encontrará nos jornais inúmeros  exemplos  de  como  poderosos  clãs  de 
cientistas afastam talentosos «forasteiros». Pode dizer o que quiser, mas eu estou 
absolutamente convencido de que, hoje, no  início dos anos 80, o CAU [Coeficiente de 
Actividade Útil]42
da nossa ciência é muito menor do que o de há 40 anos e todo o tipo de 
porcaria, que impede o seu desenvolvimento normal, é incomparavelmente maior. De resto, 
os processos de depuração estão atrasados em todo o lado. 
Ainda assim gostava que me desse mais pormenores sobre a genética… 
Muito bem, voltemos a ela. No final dos anos 30 e nos primeiros anos do pós-guerra, 
quando o País sentia graves carências de forças e recursos, primeiro para aguentar o 
embate com o fascismo, depois para a sua reconstrução a partir de ruínas, não podíamos 
dar-nos ao luxo de manter uma ciência estéril, afastada das exigências cruciais da vida. 
Naqueles anos, tudo se submetia literalmente ao objectivo do reforço do potencial 
económico e militar, qualquer problema era antes de mais analisado sob este ângulo. 
As investigações científicas  realizadas por Lessienko e os seus colaboradores estavam 
orientadas com precisão para resultados concretos e, numa série de casos, já tinham 
produzido efeitos práticos palpáveis. Refiro-me designadamente ao aumento do 
24rendimento das colheitas e à introdução de novas culturas agrícolas, mais promissoras. Os 
trabalhos de Vavilov e dos seus discípulos  nem sequer num futuro previsível prometiam 
quaisquer resultados práticos, quanto mais no horizonte de então. 
Note-se também que entre os genéticos predominavam cientistas com espírito burguês e 
tiques elitistas, por vezes claramente contrários ao povo, fazendo gala do seu «apolitismo» e 
da sua fidelidade à «ciência pura», a qual, alegavam, não podia ocupar-se com as 
necessidades «terrenas». Alguns deles chegaram a solidarizar-se quase que abertamente 
com as odiosas teorias racistas do fascismo e trabalharam na sua demonstração. Um desses 
snobes académicos, o biólogo Timofeev-Ressovski, optou mesmo pela traição pura à Pátria, 
ficando voluntariamente na Alemanha fascista onde, durante toda a guerra, trabalhou no 
Instituto de Investigação Científica de Berlim, estreitamente ligado aos serviços especiais 
do Reich de Hitler. 
Tais pessoas, naturalmente, não despertavam simpatia. Mas o principal, repito, foi que 
os genéticos não conseguiram demonstrar na altura a importância e as perspectivas de 
desenvolvimento das suas investigações. 
É claro que hoje se torna evidente que o  «pragmatismo» excessivo revelado travou o 
desenvolvimento da «grande ciência». Mas os culpados por este engano são sobretudo os 
que tinham a responsabilidade directa pelas ciências académicas e, também de certo modo, 
eu  como  ministro  da  Agricultura  da  União.  Stáline, que sempre esteve bastante afastado 
deste problema, incitava-nos, aliás, constantemente a acompanhar as orientações 
promissoras da ciência, os mais recentes avanços e as inovações técnicas, a defender os 
cientistas talentosos dos ataques e intrigas dos medíocres e invejosos. 
Mas o erro que cometemos não teve, apesar de tudo, um significado decisivo. Mesmo 
agora, do alto das décadas que já passaram,  continuo a considerar que a linha política 
adoptada pelo Partido de aproximar, por todos os meios, a ciência agrónoma à vida, às suas 
exigências e necessidades, estava no fundamental certa. O próprio Vavilov, que dirigia na 
altura o Instituto de Fitocultura, reconheceu  isso  na  prática  ao  prometer  várias  vezes 
alargar o âmbito extremamente especializado da sua investigação e reorientar a actividade 
do Instituto para a realidade da Agricultura. 
Mas não vai negar que, na polémica  Lessienko-Vavilov, a vitória ficou do 
lado da ignorância e desonestidade, da intolerância com pontos de vista 
diferentes e que a simpatia de Stáline por Lessienko criou condições para que 
se afirmasse na biologia esse monolitismo de um grupo de pessoas que hoje se 
tornou, eventualmente, no maior travão ao desenvolvimento da ciência… 
Porque é que não vou negar?!... Nego e negarei com firmeza. Mas primeiro permita-me 
que resmungue um pouco, eu que sou um velho. A forma tendenciosa e unilateral como 
coloca as perguntas não o enobrece. A sensação que tenho, ao vê-lo repetir invenções 
medíocres que os chamados «círculos intelectuais» gostam  de veicular, é que você já 
defende determinadas posições. Para que é  que quer então as minhas opiniões? Um 
jornalista deve ser objectivo e isento se desejar verdadeiramente compreender algo, e não 
repetir incompreensíveis frases em voga. Quero a este propósito citar as notáveis palavras 
de V.I. Lenine: «Não se podem analisar factos em separado, é necessário ter em conta todo 
o conjunto de factos relacionados com a questão em análise, sem excepção, já que, de outra 
forma, surge inevitavelmente a suspeita de que, em vez de uma ligação objectiva e de uma 
interdependência dos acontecimentos históricos no seu todo, estamos perante um 
cozinhado «subjectivo» para justificar um  eventual caso sujo. E isto acontece… mais 
frequentemente do que parece»43
Pelos vistos você também caiu nesse «cozinhado subjectivo». Só que em relação a 
Stáline, alguns políticos sem escrúpulos fizeram-no para justificar os seus próprios actos 
indecorosos, enquanto na história de Vavilov, o mesmo foi feito por figuras da ciência 
igualmente sem escrúpulos. 
25Aceito a crítica e tentarei ser mais objectivo embora, como compreenderá, 
não seja fácil desistir de imediato daquilo que considerava ser incontestável... 
Não obstante, como avalia as afirmações, amplamente divulgadas, que acusam 
Lessienko de charlatanismo e apresentam Vavilov como um mártir? 
Como o mais típico dos exemplos de sectarismo. Empenhadas em manter o seu 
monopólio (como é sabido, nos  últimos 20 anos, os cientistas genéticos têm dominado 
alguns dos mais importantes sectores da  biologia), certas pessoas fazem circular 
informações notoriamente falsas e caluniadoras dos seus «concorrentes». 
Conheci bem Trofim Denissovitch Lessienko,  os seus pontos fortes e fracos. Posso 
afirmar com segurança que foi um grande  e talentoso cientista que fez muito pelo 
desenvolvimento da biologia soviética, o que nunca foi posto em causa pelo próprio Vavilov, 
o qual, aliás, o levou para a grande ciência, valorizando extraordinariamente os primeiros 
passos do jovem agrónomo. E é um facto que com base nos trabalhos de Lessienko foram 
criadas importantes culturas agrícolas como o trigo tremês44
 «Liutentses-1173» e 
«Odesskaia -13», a cevada «Odesski-14» e o  algodoeiro «Odesski-1», foram elaborados 
numerosos novos processos agrotécnicos, designadamente, a vernalização
45
 e o corte do 
algodoeiro. Um discípulo leal de Lessienko, que o respeitou profundamente até ao fim dos 
seus dias, foi Pavel Panteleimonovitch Lukianenko
46
, talvez o mais talentoso e fértil 
seleccionador, responsável pelo desenvolvimento de 15 novas espécies regionais de trigo de 
inverno, nomeadamente algumas mundialmente conhecidas como a «Bezostaia-1», 
«Avrora» e «Kavkaz». O que quer que digam  os «críticos» de Lessienko, nos campos 
cerealíferos do País predominam culturas introduzidas por ele e pelos os seus seguidores e 
discípulos. Era bom se tivéssemos mais «charlatães» como ele! Há muito que teríamos, 
provavelmente, resolvido o problema do rendimento das colheitas e retirado da ordem do 
dia o do abastecimento do País com cereais. Os êxitos dos cientistas genéticos permanecem 
por enquanto muito mais modestos (não será também devido a esta sua posição frágil, aos 
seus baixos resultados práticos, que lançam ruidosas acusações aos seus adversários?). Não 
nego os seus êxitos, entenda-se, mas estou convencido de que o estabelecimento do 
monopólio de uma escola científica produz grandes malefícios... 
Por outro lado, é verdade que muitas das premissas de Lessienko não tiveram 
confirmação experimental e algumas outras revelaram-se erradas. Mas indique-me um só 
cientista que seja que nunca se tenha enganado, nem tenha colocado hipóteses falsas? E por 
isso declaramo-lo «charlatão»? 
Sobre a luta entre as orientações de Vavilov e de Lessienko, abundam as especulações 
que deturpam o quadro autêntico do que se passou. Em primeiro lugar, esta luta decorreu 
com vitórias alternadas: houve vários momentos em que Lessienko esteve em minoria. Por 
exemplo, as decisões do Plenário do CC, de Fevereiro de 1947, apontavam uma série de 
orientações erradas do seu trabalho. Lembro-me bem da crítica contundente feita a 
Lessienko pelo responsável do Departamento para a Ciência do Comité Central do Partido, 
Iuri Jdanov47
, embora seja verdade que este, ao longo da discussão, alterou o seu ponto de 
vista. 
Mas continuemos em frente. Por muito que dramatizem a perseguição dos genéticos, o 
facto que permanece é que muitos cientistas desta orientação (duramente criticados na 
famosa sessão da Academia das Ciências  de Agronomia Lénine em 1948, onde os 
partidários de Lessienko predominaram), continuaram o seu trabalho, embora em piores 
condições. Daqueles cujos nomes me recordo (Nemtchinov, Dubinin, Rapoport, Jebrak), 
todos continuaram na ciência, apesar da condenação bastante violenta de Lessienko e dos 
seus partidários e, o que é relevante, apesar de terem rejeitado o acto de «arrependimento». 
Quanto às repressões, estas exerceram-se não  devido a visões diferentes, mas por acções 
concretas de sabotagem, não obstante, também aqui, se terem verificado casos de 
arbitrariedade e ilegalidades, os quais, aliás, atingiram também cientistas que estavam face 
26aos genéticos do outro lado das barricadas científicas. Se a memória não me atraiçoa, 
apenas se concretizou um só processo judicial pouco antes de a guerra deflagrar. 
Chamo ainda a sua atenção para uma outra circunstância. Após o destronamento de 
Lessienko e dos seus seguidores, todos os sectores chave das ciências biológicas foram 
ocupados pelos seus adversários científicos que aproveitaram a oportunidade. Basta isto 
para provar que «a eliminação geral dos genéticos» não passa de uma invenção maldosa, 
exagerada, infelizmente, por jornalistas e literatos incompetentes. 
No entanto, aparentemente, Stáline era benevolente com Lessienko e 
antipatizava com Vavilov... 
Nesse ponto posso concordar com você. Mas com uma ressalva: Stáline normalmente 
não se deixava guiar pelas simpatias ou antipatias pessoais, mas baseava-se nos interesses 
em causa. Penso que foi isso que aconteceu também neste caso. 
Não me recordo com exactidão, creio que foi em 1940, quando dois cientistas biólogos, 
Liubichev e Efroimson, endereçaram uma carta ao Comité Central. Num tom bastante 
violento, acusavam Lessienko de falsear factos, de rudeza e intriguismo entre outros 
pecados mortais. A carta apelava a uma severa deliberação do órgão contra o «charlatão», 
responsável por enormes prejuízos na ciência biológica. 
Coube-me participar na verificação daquelas afirmações. Lessienko, como seria de 
esperar, justificou-se, apresentando vários argumentos, uns convincentes, outros não, mas 
não exigiu quaisquer «represálias» em relação aos queixosos. Era o seu estilo, nunca quis 
transformar a ciência numa luta em que os concorrentes derrotados fossem 
obrigatoriamente afastados. Acreditava apaixonadamente, com fanatismo, que tinha razão, 
alimentando por vezes a esperança ingénua  de  que  os  seus  adversários,  perante  a 
irrefutabilidade dos factos, cedo ou tarde chegariam à mesma conclusão e «deporiam as 
armas», por vontade própria, sem interferências das instâncias dirigentes. «Está a ver», 
observou a propósito Stáline, que detestava as pequenas desavenças e contendas 
características dos meios científico e artístico. «Quase que querem metê-lo atrás das grades, 
enquanto ele continua a pensar primeiro que tudo no trabalho e não desce ao plano pessoal. 
É uma boa qualidade, de grande valor para um cientista». 
Outro facto típico de Lessienko ocorreu quando prenderam Vavilov. Os seguidores e 
«amigos» mais próximos deste, pondo-se a  salvo, confirmaram uns atrás dos outros a 
versão «sabotadora» do investigador. Lessienko, que na altura combatia as posições 
científicas de Vavilov, recusou-se categoricamente a fazê-lo e reafirmou a sua recusa por 
escrito. Note-se que na época, uma acusação de cumplicidade com «inimigos do povo» 
podia sair cara a pessoas com postos muito mais importantes do que o de Lessienko, e ele 
sabia-o perfeitamente... 
Não digo que Trofim Denissovitch tivesse  sempre um comportamento exemplar. Por 
vezes era dominado pela sua teimosia, facciosismo e propensão para frases políticas 
retumbantes. Mas não há certamente pessoas  sem defeitos. O importante é que as suas 
qualidades prevaleçam. 
No entanto, repare-se que o meu julgamento assenta nos valores morais da 
«humanidade». Estou convicto de que Stáline,    à  semelhança  do  que  fazia  com  outros 
problemas, terá analisado este sob uma perspectiva política. O que quero dizer com isto? 
A superação do atraso e o alcance das fronteiras mais avançadas do progresso científicotécnico exigia que o país tivesse cientistas de novo tipo, do tipo socialista, livres dos defeitos 
da intelectualidade burguesa russa, com a sua frouxidão, indolência desastrada e o seu 
desdém aristocrático pelo povo mais simples. Falando numa linguagem moderna, nos anos 
30 foi feita uma grande encomenda social de cientistas civicamente activos, estreitamente 
ligados aos trabalhadores e à sua luta revolucionária pela criação da nova sociedade, 
pessoas que não se conformassem com as rotinas e dogmas académicos, «dormindo sobre 
os louros», pessoas empenhadas na resolução das tarefas práticas necessárias. 
27O excelente filme «O Deputado do Báltico», cujo protagonista era inspirado no grande 
cientista-biólogo Timiriazev
48
, reflecte com profundidade e veracidade todo o dramatismo 
do confronto de um cientista como ele com a «mesquinhez educada», que na altura 
predominava na ciência, impregnada de hábitos e preconceitos burgueses. Infelizmente, a 
maior parte da intelectualidade anterior  à revolução tinha posições burguesas, os 
Timiriazev eram casos únicos. Mas foi das suas mãos que cientistas de novo tipo, socialista, 
saídos do povo profundo, como Lessienko, receberam o testemunho. Por seu lado, Vavilov 
nunca conseguiu livrar-se dos defeitos da elite académica pré-revolucionária. 
Na polémica científica que deflagrou nos  anos 30, Lessienko e os seus seguidores 
revelaram maior combatividade,  solidez, perseverança e firmeza de princípios. Vavilov, 
como reconheciam os seus correligionários, manobrava de uma para a outra posição, 
tentando manter boas relações com «uns  e com outros», o que a mim, por exemplo, 
causava irritação e desconfiança, levando-me  a supor que não estava convencido do que 
dizia ou que temia consequências. Penso que as pessoas que dirigiam directamente a 
ciência naquele período tinham os mesmos sentimentos, embora fosse claro que as decisões 
nestas matérias não deviam ser tomadas na base das emoções. 
Vavilov revelou também alguma cobardia e  fraqueza quando esteve sob investigação. 
Não aguentando a pressão psicológica do investigador, não só admitiu as calúnias contra si 
próprio, mas também denegriu os seus colegas, admitindo a existência de um grupo de 
sabotadores no Instituto de Fitocultura, o que provocou tormentos e sofrimentos a pessoas 
completamente inocentes. Só soube disto  muito mais tarde. Nesse período nem eu, 
enquanto comissário para a agricultura, nem muito menos Stáline, estivemos envolvidos 
nas peripécias da luta entre Lessienko e Vavilov ou nas circunstâncias da prisão deste 
último. 
Lessienko, mesmo sob a ameaça de esquartejamento, nunca se entregaria a si e muito 
menos aceitaria caluniar outros. Tinha uma vontade de ferro e princípios morais 
inabaláveis, dos quais era impossível demovê-lo. Outra coisa era que por vezes caía numa 
inexplicável teimosia e irritação e começava a fundamentar nas suas emoções a base 
«teórica». 
Suponho que não era por acaso que os jovens cientistas se sentiam atraídos por Trofim 
Denissovitch. Pode por vezes  faltar-lhes experiência, mas sabem muito bem distinguir o 
autêntico do que é falso. Estive algumas vezes em encontros de Lessienko com estudantes, 
pós-graduados e jovens cientistas e posso garantir-lhe  que ele sabia «aquecer» um 
auditório, conquistá-lo, incutir na juventude o desejo apaixonado pela busca criadora, pelo 
alcance  de  resultados  extraordinários.  Pelo  contrário,  os  cientistas  da  nata  pré-
revolucionária  (lembro-me  bem  da  minha  passagem  nos  anos  20  pela  Academia  de 
Agronomia) não despertavam especial simpatia em nós, juventude operária, que tínhamos 
a aspiração de explorar a grande ciência. Muitos deles aderiram à revolução com um grande 
atraso e fizeram-no com um «pau atrás das costas», como se costuma dizer, demonstrando 
manifesta hostilidade para com os «filhos da cozinheira» que ousavam iniciar a caminhada 
até ao Olimpo da ciência. Para os que  vinham dos meios operários e camponeses, 
Lessienko, dedicado aos ideais da revolução até à medula dos ossos, constituía o exemplo 
evidente do muito que um homem simples pode alcançar, possuído pela sede de verdade, 
pela vontade ardente de transformar a ciência numa poderosa alavanca para melhorar a 
vida das pessoas. É claro que tudo isto se reflectia na relação de Stáline com Lessienko, já 
que ansiava envolver activamente na ciência a juventude operária e camponesa. 
Mas disse que Stáline tinha sobre Lessienko uma opinião mais crítica do 
que Khruchov... 
É verdade. Ele via com mais clareza os defeitos do cientista. Na minha presença, várias 
vezes admoestou Trofim Denissovitch, embora  de forma delicada, pela sua tendência de 
andar sempre com uma «base marxista no bolso do casaco», ou seja, de levar a ideologia e a 
28terminologia marxistas para esferas onde  não existe uma relação directa. No mesmo 
sentido, Stáline fez considerações críticas ao relatório, por ele aprovado em geral, que 
Lessienko apresentou na referida sessão da Academia das Ciências de Agronomia Lénine 
em 1948. 
Interessante foi também a reacção de Stáline ao incumprimento da promessa de 
Lessienko de elevar o rendimento das colheitas em quatro ou cinco vezes. «Camarada 
Lessienko, pelos vistos, o objectivo que colocou é pouco realista», disse-lhe certo dia. «Mas 
mesmo que só consiga elevar o rendimento das colheitas uma vez e meia ou duas, isso já 
será um grande sucesso. De nada vale tirar o prazer aos cientistas de colocarem objectivos 
irrealistas, do ponto de vista prático. O que hoje parece irrealista amanhã pode tornar-se 
num facto evidente. Já temos muitos cientistas “mochos” que preferem levar uma vida 
calma, sem objectivos irrealistas. Se penalizássemos Lessienko apareceriam ainda mais 
“mochos” desses.» 
A propósito, já não de Lessienko, quero dizer-lhe que Stáline apoiou várias vezes os 
cientistas marginais, inventores-solitários que colocavam,  na opinião de especialistas 
reconhecidos, objectivos «irrealistas». Insistia para que lhes fosse dado apoio, recursos, etc. 
Tal como outros comissários, também eu levei muitas vezes «nas orelhas» por recusar 
apoio a um ou outro lunático que me aparecia  com  mais  um  projecto  do  «propulsor 
eterno». Na maioria dos casos, naturalmente, o «propulsor eterno» não funcionava, o que 
era comunicado a Stáline, mas houve também excepções. No entanto, os numerosos 
insucessos dos «artesãos-solitários» não o  desanimavam e voltava a insistir com os 
comissários para que prestassem atenção aos projectos «inovadores». Nessa altura, a 
atitude de Stáline parecia-me errada, já que  nos desviava de assuntos mais importantes, 
fazendo-nos perder muito tempo e paciência. Mas hoje vejo o assunto de outro modo. 
A nós, dirigentes da economia, Stáline habituou-nos a relacionarmo-nos com extrema 
atenção com os projectos e propostas dos «outsiders» e incentivarmos a actividade criadora 
das massas no campo da técnica, e conseguiu alguns resultados. É certo que os inventores e 
os operários que melhoravam os processos de produção, nos anos 30 e 40, não tinham só 
facilidades, especialmente aqueles que contrariavam a linha oficial (também então havia 
bastantes adeptos da «vida calma» em todos  os níveis). Mas, pelo menos, nesses anos 
lutava-se efectivamente e com resultados contra o conservadorismo, o rotineirismo, o 
«egoísmo de grupo» dos departamentos e instituições científicas. Havia muito menos disto 
do que há hoje. Casos de descobertas importantíssimas e de grande valor que ficam nas 
prateleiras durante décadas, enquanto os  seus autores são submetidos a refinadas 
perseguições e humilhações por parte de departamentos e institutos científicos que se 
guiam por interesses próprios, eram naqueles anos inconcebíveis. Os burocratas depressa 
se fariam apanhar em «actos de sabotagem» (e na sua essência é disso que se trata) com 
todas as consequências e incómodos correspondentes. Falando honestamente, quando leio 
os jornais de hoje descrevendo  os tormentos dos actuais Kulibin49
 e Polsunovi
50
, penso 
involuntariamente que, afinal de contas, o velho método era muito mais útil e «humano» 
para o País do que este sermões e apelos infindos «ao espírito de partido» feitos a partir das 
mais altas tribunas... 
No entanto em relação à genética, Stáline cometeu uma clara 
arbitrariedade, e a cibernética também foi desprezada... 
Por todo o lado não se ouve falar de outra  coisa: genética e cibernética, cibernética e 
genética. A acreditar nesses literatos e jornalistas, não teria existido ciência no período 
stalinista, mas apenas perseguições e erros absurdos... 
É verdade que se cometeram erros e falhas, o que é normal em qualquer actividade. 
Porém, o facto é que nos anos 30 tais erros eram incomparavelmente menores do que os de 
hoje e o próprio ambiente na ciência era mais saudável, criativo e, se quiser, havia mais 
moralidade. Em todo o caso, na altura,  os verdadeiros cientistas tinham papel 
29determinante, enquanto hoje  a situação criada pelos medíocres e nulos é tal que os 
verdadeiros cientistas asfixiam. Falo em particular da ciência agrónoma, mas as coisas são 
semelhantes um pouco por todo o lado. 
Dezenas ou mesmo centenas de institutos desnecessários, que trabalham para si 
próprios, milhões de ociosos que passam os dias sem fazer nada, clãs monopolistas de 
«notoriedades», que repartem a ciência em esferas de influência e juntam esforços apenas 
para se verem livres de «forasteiros» talentosos – eis o quadro actual, verdadeiro, da nossa 
ciência, a qual, pressupõe-se, está «liberta» do «diktat e violência» stalinistas! E se alguém 
honesto tentar pôr as coisas em ordem, limpar as esferas científicas dos elementos 
parasitários  e  todo  o  tipo  de  canalhas,  levantar-se-ia  de  imediato  um  clamor  em  todo  o 
mundo: «ó da guarda, é o regresso a 1937, aos métodos depravados e condenados do 
“culto”!». 
Em vez de se combater a torpeza dos nossos dias, que há muito supera, quer em escala 
quer pela gravidade dos efeitos, tudo o que no passado aconteceu, prefere-se remexer nos 
erros de há quarenta anos, os reais e os inventados, repisar sobre a genética e cibernética, 
cibernética e genética... O que, aliás, até se compreende: nada custa dar mais um pontapé 
nos líderes mortos, mas tentem fazer o mesmo com o director de um qualquer instituto ou 
simplesmente com um professor catedrático... 
«Procuramos as raízes», explicou-me um dia um literato meu conhecido. Porém, o mais 
certo, irmãos meus, é que devido à vossa incapacidade e falta de vontade de trabalhar como 
deve ser, apenas fazem barulho, entregando-se ao prazer, tão apreciado pelos burgueses 
esclarecidos, do «sensacional» e do «picante». Se procurassem de facto alguma coisa, então 
colocariam a questão de forma completamente diferente: porque é que aquilo que foi 
durante o período de Stáline uma única excepção, se tornou hoje na regra, se transformou 
num sistema generalizado, sem a destruição do qual a ciência soviética simplesmente não 
poderá alcançar os níveis mundiais mais avançados? 
Dir-me-á que isso aconteceu porque foram reprimidos os mais talentosos e os mais 
honestos. Mas por essa lógica também poderíamos com igual sucesso  atribuir as culpas 
pelos problemas de hoje a Pedro, o Grande, ou a Ivan, o Terrível. 
Passaram-se já 40 anos depois das repressões e mais do que uma geração de líderes 
partidários demarcaram-se dos «métodos viciados» do culto da personalidade, mas os 
nossos literatos continuam a matraquear na mesma tecla: Stáline, Stáline, Stáline... O facto 
é que nestas décadas, com o nosso sistema e o nosso povo talentoso, mais impoluto que os 
japoneses ou os alemães ocidentais, era possível fazer prodígios! Todavia, encontramo-nos 
voltados não para o progresso mas para o retrocesso. 
Permita, Ivan Alekssandrovitch,  que passemos a outro assunto. Foi 
Comissário do Povo e ministro da Agricultura durante Stáline e Khruchov. 
Será possível comparar a forma como cada um via os sectores mais 
importantes da economia? 
No  Politbureau,  Khruchov tinha fama de ser um especialista em agricultura. E em 
grande parte isto correspondia à realidade. Nikita Sergueievitch conhecia bastante bem os 
problemas do sector agrícola, em especial da agricultura, aproximando-se em 
conhecimentos e competência do nível de um bom agrónomo. Stáline neste aspecto era 
mais fraco, o que, aliás não escondia, procurando aconselhar-se nos momentos em que os 
problemas do sector eram discutidos. 
No entanto, por muito que isto seja paradoxal, enquanto dirigiu o País, Khruchov 
cometeu incomparavelmente mais erros e desacertos na área da agricultura. Entusiasmado 
com uma ideia, normalmente com base sensata, Nikita Sergueievitch ardia, literalmente, 
em desejos de a ver aplicada o mais rapidamente possível à vida, precipitava-se, ia por 
atalhos, perdendo a noção da realidade. O resultado foi que muitas das suas iniciativas 
tiveram consequências funestas, catastróficas, coisa que nunca aconteceria com Stáline... 
30Penso que a raiz de tudo isto estava na sua relação com os especialistas, com os 
cientistas, agrónomos e outras pessoas com competência na área da agricultura. 
Stáline, que colocava acima de tudo os interesses do trabalho, em regra, tomava as 
decisões, ouvindo a opinião dos especialistas  com maior autoridade, incluindo pontos de 
vista contraditórios, dos quais tirava as suas próprias conclusões.  Se os «dissidentes» 
tivessem argumentos fortes e convincentes, Stáline, normalmente, alterava a sua posição ou 
introduzia correcções substanciais, apesar  de ter havido casos em que revelou uma 
obstinação injustificada. Khruchov, cujo comportamento com o tempo era cada vez mais 
determinado pelas suas ambições pessoais, tinha outro tipo de relacionamento com os 
especialistas, sobretudo com os que pensavam de forma diferente. Por isso começaram a 
ganhar relevo aqueles que obedientemente sabiam fazer coro, adivinhar e «fundamentar 
cientificamente» a opinião já formada do Primeiro, que este nunca alterava mesmo perante 
a evidência dos factos. Pela mão ligeira de Nikita Sergueievitch, não só na agricultura como 
noutros sectores da economia, começaram a multiplicar-se com uma  rapidez inaudita os 
quadros dirigentes e científicos do género «engraxador», ofuscando os que estavam 
habituados a pensar pela sua própria cabeça e a defender os seus pontos de vista até ao fim. 
Essa sua opinião contradiz a ideia generalizada de que Khruchov, apesar de 
todas as extravagâncias, era mais democrático, humano e tolerante com as 
opiniões dos outros do que Staline… 
É uma ideia profundamente errada. A aparência é muitas vezes tomada pela essência, 
nisto reside todo o busílis da questão. O caso de Khruchov é ainda mais complexo, uma vez 
que durante o tempo em que permaneceu no posto n.º 1 ocorreram surpreendentes 
metamorfoses. 
Conheci bem Nikita Sergueievitch antes e depois da guerra. Era um dirigente forte, 
dinâmico e com uma capacidade de trabalho verdadeiramente extraordinária. Tinha grande 
inteligência que combinava com a argúcia  e sagacidade dos camponeses, poder de 
iniciativa, engenho, uma simplicidade e espírito democrático inatos, e uma habilidade de 
ganhar para o seu lado as mais diferentes pessoas. Todas estas qualidades permitiram-lhe 
merecidamente ocupar altos postos no Partido e entrar para o Politbureau. Nesses anos, 
Khruchov era efectivamente um democrata, ouvia opiniões de terceiros, tratava as pessoas 
com autêntico respeito. Aliás, era esse o ambiente geral criado por Stáline e os que o 
rodeavam, e Nikita Sergueievitch, inteligentemente, esforçou-se por lhes «seguir as 
peugadas». 
Quando se tornou Primeiro, e tendo reforçado o seu poder com o afastamento do grupo 
«antipartido», Khruchov começou a mudar a  olhos vistos. O seu democratismo natural 
começou a ceder lugar a tiques autoritários, o respeito pela opinião dos outros transformouse na perseguição aos que pensavam diferentemente, entre os quais foram imediatamente 
incluídos os que não manifestavam o entusiasmo devido a propósito das «inovadoras» 
ideias do «eminente marxista-leninista». 
Sinceramente, não me apercebi logo destas alterações e mantive o hábito, herdado dos 
tempos stalinistas, de dizer no  Politbureau e nas mais importantes reuniões aquilo que 
pensava e considerava ser o correcto, fosse  ou não do agrado do «chefe». Khruchov 
inicialmente reagia calmamente. No entanto, aos poucos, na sua relação comigo começou a 
sentir-se uma certa frieza e depois uma hostilidade aberta. Essa hostilidade senti-a mais 
intensamente quando me pronunciei contra uma proposta, no mínimo pouco inteligente, de 
Nikita Sergueievitch, que pretendia transferir a Academia de Agronomia de Moscovo para 
uma localidade rural. A campanha «Mais próximo da produção», lançada nessa altura, 
tinha gerado incongruências  graves que perturbavam a administração normal de muitos 
sectores da economia nacional. 
«Escuta Ivan, não te armes em valente», disse-me um amigo íntimo, que trabalhava no 
aparelho de Khruchov. «Ele não é o democrata que parece ser à primeira vista. De qualquer 
31maneira não conseguirás convencê-lo, mas arriscas-te seriamente a perder a pasta». Não 
tive em conta o conselho e em breve fui efectivamente afastado de cargos de direcção na 
economia e nomeado embaixador na Índia… 
De resto, mesmo na actividade diplomática não perdi o hábito de me «armar em 
valente», isto é, por outras palavras, de dar os passos que me pareciam necessários, mesmo 
que pudessem desagradar à direcção. Foi dessa maneira, actuando por minha conta e risco, 
que organizei, provavelmente pela primeira vez na nossa histórica soviética, a compra de 
um grande terreno no estrangeiro, em Deli, contíguo ao território da embaixada da URSS. 
Hoje, o valor dos terrenos na capital indiana é dez vezes superior, o que representa para nós 
importantes recursos em divisas. Contudo, nesse tempo, este tipo de operações era mal 
visto, sob a mira ideológica  de que a aquisição de propriedade fundiária era «alheia aos 
métodos socialistas» e mais própria da «renda burguesa» do que da comunista. A muito 
custo, recorrendo a ligações antigas no Plano Estatal e no Ministério das Finanças, consegui 
os recursos necessários. Nessa altura senti directamente o quanto tinha aumentado o 
burocratismo nos mais altos escalões, o alinhamento com as posições do Primeiro, a 
tendência para fugir à responsabilidade pessoal, garantindo cobertura por um número 
máximo de assinaturas e vistos. O «novo» estilo de administração estava instalado: o que é 
mau espalha-se muito mais depressa do que aquilo que é bom. A tendência para a cautela 
excessiva e para desviar responsabilidades para cima de outros sempre existiu no aparelho. 
Voltando à sua pergunta, quero deixar claro que foi exactamente Khruchov que começou 
a pôr de lado pessoas capazes de defender firmemente os seus pontos de vista até ao fim. 
Muitos comissários stalinistas, habituados a dizer frontalmente a mais amarga das 
verdades, gradualmente foram  saindo dos seus cargos. Aqueles que ficaram, salvo raras 
excepções, transformaram-se em cortesãos que tinham perfeita consciência das 
«empresas» ruinosas de Khruchov, mas respeitavam a relação de forças existente e quem, 
em última análise, a determinava... Khruchov teve razão quando, em Outubro de 1964, em 
resposta às acusações de «aventureirismo» e de «irrealismo», culpou os que com ele 
colaboravam de, com o seu assentimento e silêncio, terem contribuído para o resultado 
final. É verdade que se esqueceu de dizer que ele próprio incentivou esse estilo de 
comportamento, que acabou por se tornar predominante. Não podemos esquecer que foi 
exactamente Nikita Khruchov que afastou para sempre da «grande  política» figuras do 
chamado «grupo antipartido», com principal destaque para Molotov, que ousaram 
manifestar as suas opiniões sobre a actividade do Primeiro Secretário do CC, criticando 
duramente as suas insuficiências e erros. 
Admito que Khruchev fosse mais autoritário do que hoje se pensa, mas é um 
pouco difícil de acreditar que Stáline valorizava mais do que ele as opiniões 
dos outros e a independência das pessoas... 
E no entanto é essa a realidade. Leia as memórias de pessoas competentes, daqueles que 
conheciam bem Stáline, que trabalharam com ele lado a lado. G.K. Jukov, A.M. Vassilievski, 
K.K. Rokossovski, N.G. Kuznetsov, I.S. Issakov, S.M. Chtemenko e outros oficiais militares. 
Todos numa só voz reconhecem que Stáline valorizava as pessoas que pensavam de forma 
autónoma e que eram capazes de defender as suas opiniões. G.K. Jukov, que conhecia 
Stáline melhor do que ninguém, escreve claramente que com ele podia-se discutir e que a 
afirmação do contrário é simplesmente falsa. Ou passe os olhos pelo magnífico livro, «O 
objectivo da Vida», o melhor na minha opinião sobre o nosso tempo, do construtor de 
aviões A. Iakovlev. Nele encontra a avaliação isenta de um intelectual russo honesto, 
independente dos campos ideológicos, sobre o estilo e métodos de trabalho de Stáline, 
sobre as suas qualidades humanas. 
A realidade é mesmo assim: normalmente as pessoas escolhem e aproximam-se das suas 
almas gémeas, na sua relação com o trabalho e com a vida. Sendo um homem com uma 
mente profundamente analítica, audaz, resoluto e determinado, Stáline estimulava essas 
32mesmas qualidades nos seus subordinados,  sentindo uma inquestionável simpatia por 
pessoas firmes e de pensamento independente,  capazes de defenderem os seus pontos de 
vista perante seja quem for e, ao contrário, detestava os cobardes, os aduladores que 
gostam de se «colar» à opinião previamente conhecida do chefe. E se em relação aos jovens 
novos funcionários era revelada alguma condescendência, uma espécie de «desconto» pela 
sua timidez e falta de experiência, aos quadros experientes e mesmo aos que gozavam de 
grande prestígio não se desculpavam tais «fraquezas humanas». «É um especialista hábil», 
disse certo dia Stáline a propósito de um deles. «Mas não se lhe pode dar um trabalho de 
direcção. É demasiado adulador. Tamanha dedicação aos seus superiores pode causar mais 
danos que o mais feroz dos inimigos. E não responderá por nada já que, dirá, tudo foi 
acordado com a direcção». 
Aconteceu-me, embora bastante raramente, contestar posições de Stáline. Discutir com 
ele não era nada fácil e não era apenas devido à pressão da sua colossal autoridade. Stáline 
habitualmente estudava os assuntos profundamente e sob os diversos ângulos, por outro 
lado, possuía uma intuição fina dos pontos  fracos e das posições do oponente. Nós, 
dirigentes económicos, tínhamos a certeza de que não seríamos penalizados pelo facto de 
contestarmos o líder, quanto muito este  manifestava algum desagrado que depressa 
esquecia. Mas se se viesse a demonstrar que tínhamos razão, então era certo que a nossa 
autoridade aumentaria aos olhos dele. Pelo contrário, se alguém escondesse a verdade, 
preferindo o silêncio por comodidade pessoal, isso acabaria por se saber e aí, o mais 
provável, era perder irremediavelmente a confiança de Stáline. Por tudo isto, habituamonos a dizer a verdade, fosse a quem fosse, sem cuidar do orgulho próprio dos superiores. 
Infelizmente, não houve sempre o necessário  rigor e coerência. Numa série de casos, 
Stáline, talvez devido à grave carência de quadros, talvez devido a considerações pessoais, 
permitiu a nomeação para altos cargos de pessoas com tendência para a adulação e 
habilidosamente capazes de se acomodarem à  conjuntura criada. Em minha opinião, isso 
aconteceu com a promoção de A.I. Vechinski
51
, que chegou a ocupar durante um certo 
tempo o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Tinha raros dons oratórios, uma 
extraordinária educação e profundos conhecimentos, mas no fundo era um oportunista. 
Mas, repito, normalmente a preferência era dada a pessoas de princípios, que pensavam 
autonomamente. Não foi por acaso que, durante os anos da guerra, Stáline indicou 
publicamente  como  seus  continuadores  os  nomes  de  G.K.  Jukov  e,  mais  tarde,  de  T.A. 
Voznessenski. Eram pessoas com vontade de ferro, carácteres firmes e frontais que, mais 
vezes do que quaisquer outros, refutaram as opiniões de Stáline no debate de assuntos 
militares e de Estado. 
Leia a intervenção de Stáline no último Plenário do CC do Partido da sua vida, onde, 
invocando a idade e problemas de saúde, pediu oficialmente que fosse substituído pelos 
menos em alguns altos postos. Na mesma ocasião, Stáline lançou duras críticas a dois dos 
seus mais próximos companheiros, V.M. Molotov e A.I. Mikoian52
, considerados por muitos 
como possíveis sucessores do líder. Apontou-lhes exactamente uma alegada falta de firmeza 
e de independência. Esta acusação, sobretudo no que respeita a V.M. Molotov, parece-me 
hoje injusta. Mas a atitude de Stáline é extremamente significativa. E não havia aqui 
qualquer espécie de «jogo escondido», de «esperteza bizantina», de que tantos gostam de 
especular os «kremlinólogos» e «sovietólogos» ocidentais, cujas obras tive oportunidade de 
conhecer suficientemente enquanto vivi no estrangeiro. O facto é que, pouco tempo depois, 
Stáline escolheu um sucessor do seu ponto de vista mais digno para ocupar um dos mais 
altos postos. Refiro-me a Panteleimon Kondratievitch Ponomarenko
53
, antigo primeiro 
secretário do CC do Partido Comunista da Ucrânia, que durante a guerra dirigiu o estadomaior do movimento de guerrilha no Quartel-General do Comando Supremo. Possuindo 
um carácter firme e independente, Panteleimon Kondratievitch era ao mesmo tempo, até à 
medula dos ossos, um democrata que gostava de trabalhar em colectivo, tinha empatia e 
sabia organizar o trabalho de um largo conjunto de pessoas num ambiente fraterno. 
33Provavelmente, Stáline valorizou ainda a circunstância de Ponomarenko não integrar o seu 
círculo mais próximo, possuir posições próprias e nunca ter fugido às responsabilidades. 
A nomeação de P.K. Ponomarenko para o cargo de Presidente do Conselho de Ministros 
da URSS chegou a ser assinado por vários membros do Politbureau e só a morte de Stáline 
impediu que a sua vontade fosse cumprida. Quando ascendeu a Primeiro Secretário do CC, 
Khruchov, que estava naturalmente dentro do assunto, tomou as medidas necessárias para 
afastar o mais possível Ponomarenko. Inicialmente foi enviado para o Cazaquistão, depois, 
em 1955, entrou no trabalho diplomático como embaixador na Polónia e mais tarde na 
Holanda. Mas até aqui a sua carreira foi curta: em breve o perigoso «concorrente» passaria 
à reforma, aliás em condições bastante humildes, já que não lhe foram atribuídas as regalias 
inerentes aos serviços prestados ao Estado. Este homem simples, modesto e despretensioso 
na vida pessoal, preocupado em cuidar dos familiares e entes próximos, viveu praticamente 
na miséria até que, finalmente, após a destituição de Khruchov, amigos seus intercederam 
junto do CC, garantindo-lhe recursos suficientes para uma velhice digna. 
Contei-lhe este episódio propositadamente para antecipar  as suas eventuais perguntas 
sobre a «humanidade» e o «amor ao próximo» de Khruchov em contraste com a 
«crueldade» e «despotismo» de Stáline. É verdade que Stáline podia ser brusco, por vezes 
injustificadamente, chegando a ser cruel.  Mas com ele, as pessoas responsáveis por 
determinadas falhas e que, por essa razão, eram despromovidas de funções, podiam 
novamente voltar a subir, como aconteceu com G.K. Jukov, S.K. Timochenko, L.Z. Mechlis 
e alguns comissários do povo. Com Khruchov, todos os que perdiam a confiança do 
Primeiro afundavam-se e nunca mais lhes era dada a mão. O mesmo se tem passado com os 
seus sucessores… Porquê? A diferença é que Stáline nunca quis quebrar as pessoas e davalhes sempre uma oportunidade para corrigir erros, compreendendo que não era fácil 
encontrar dirigentes capazes. Khruchov, por  seu lado, que pensava apenas em reforçar o 
seu poder, receava que as pessoas que ele ultrajara, se voltassem a altos cargos, pudessem 
representar um potencial perigo para esse poder… 
E em relação ao desmascaramento do culto da personalidade? Para muitos, 
Khruchov revelou nesse momento coragem política e humanismo, pelo menos 
em relação às vítimas inocentes. 
Não vejo especial coragem, muito menos política, no facto de alguém combater os 
mortos, fazendo deles bodes expiatórios dos erros do passado e, claro está, das 
insuficiências do presente. Tal «coragem»  é normalmente revelada pelos que bebem as 
palavras do «chefe» enquanto «vivo» e têm perante ele um comportamento «certinho». 
Depois, quando já não há perigo, desforram-se da sua cobardia e temor, amaldiçoando 
«corajosamente» o «tirano» e o «déspota». 
Entre os altos dirigentes, Khruchov era o que mais bajulava Stáline, demonstrando um 
medo doentio, que por vezes atingia o anedótico, o que, naturalmente, não elevava a sua 
autoridade aos olhos do Primeiro, o qual, mesmo sem isso, antipatiza com «Nikita», como 
lhe chamava irritado. Julgo que Khruchov sabia disto, mas nada podia fazer: há coisas que 
ultrapassam o alcance da nossa vontade. Nas reuniões do Politbureau e nas conferências de 
responsáveis em que participei, Nikita Sergueievitch, ao contrário, por exemplo, de Molotov 
ou de Jdanov que, por vezes, se opunham a Stáline de forma bastante ríspida, nunca tinha 
nada a dizer contra, não se atrevia a abrir a boca. 
Em relação à «humanidade», devo dizer que nada teve a ver com as verdadeiras razões 
do desmascaramento do culto da personalidade muito embora, num brinde mais 
emocionado, Khruchov pudesse deixar escapar uma lágrima verdadeira a propósito de um 
relato dilacerante sobre os sofrimentos  nos campos stalinistas. Apesar da sua 
insensibilidade relativamente às pessoas, era um homem emocional, nalgumas coisas até 
sentimental. A versão sobre a «humanidade»  das suas intenções servia na perfeição a 
Nikita Sergueievitch e ele fez tudo o que  podia para que o maior número possível de 
34crédulos engolisse este anzol ou, com mais exactidão, fingissem que acreditavam. E, quer 
no nosso país quer no estrangeiro, houve mais do que os suficientes. 
Pode ser que não saiba, mas eu ainda não me esqueci de que, nos anos 30 e 40, 
Khruchov mantinha uma sólida amizade com L.M. Kaganovitch, o «comissário de ferro», 
que tinha no Politbureau as posições mais severas e intransigentes em relação aos 
«inimigos do povo». Em estreito contacto com Kaganovitch, Khruchov, primeiro em 
Moscovo nos anos anteriores à guerra e mais tarde no pós-guerra, na Ucrânia, depurou com 
firmeza, até mesmo demasiada, as organizações do Partido dos «degenerados» e 
«elementos sabotadores». No decorrer das depurações sofreram muitas pessoas honestas, o 
que provocou o descontentamento de Stáline e levou à perda da sua confiança em 
Kaganovitch. Khruchov conseguiu reabilitar-se graças aos êxitos indiscutíveis na 
reconstrução da agricultura e indústria destruídas pela guerra. 
Recordo-me de nesse tempo ter telefonado a Nikita Sergueievitch, que era então 
primeiro secretário do Partido Comunista da República, em Kiev, pedindo-lhe que 
investigasse o caso de um grupo de quadros responsáveis da agricultura, alguns dos quais 
conhecia bem, que tinham sido expulsos do Partido sem fundamento, conforme era minha 
convicção. Após ter-me escutado atentamente, Khruchov prometeu-me falar com 
Kaganovitch, que tinha sido enviado pelo  Politbureau para a Ucrânia para o ajudar a 
organizar o trabalho. Mas deu-me a entender que a questão seria resolvida a contento, 
pedindo-me para «não fazer barulho no Centro, que isso poderia complicar a situação». 
Não sei se falou ou não com Kaganovitch, o certo é que não ajudou as pessoas. 
Há uma coisa por demais estranha que me chamou a atenção. Quando se fala de Stáline, 
todas as suas acções são normalmente explicadas pela luta pelo poder, mas quando toca a 
Khruchov, aquilo que fez foi motivado exclusivamente por razões nobres: «humanismo», 
«democraticidade», «compaixão» e por aí adiante. Não sei o que há aqui mais, se 
ingenuidade se uma ilusão consciente. Khruchov, tal como Stáline, era um político, cujas 
acções eram determinadas por  interesses políticos inteiramente prosaicos e totalmente 
afastados das elevadas categorias ético-morais... 
Gostava de saber a que se refere concretamente e, já agora, como explica o 
facto indiscutível de que o desmascaramento do culto da personalidade e das 
repressões maciças dos anos 30 e 40 tenha tido tão ampla repercussão 
positiva? 
A principal motivação de Khruchov era a luta pelo poder, por uma posição de monopólio 
nos aparelhos do Partido e do Estado, o que  acabou por conseguir, acumulando os dois 
postos mais importantes: o de Primeiro Secretário do CC do PCUS e o de Presidente do 
Conselho de Ministros da URSS. 
No início, porém, a situação de Nikita Sergueievitch era complicada. Apesar de estar 
bem colocado no Partido, a maioria dos membros do Politbureau não eram seus apoiantes, 
antes pelo contrário. Molotov, Malenkov, Kaganovitch, Vorochilov e outros destacados 
dirigentes do Partido e do Estado pertencentes ao anterior círculo de Stáline não tinham 
uma opinião favorável sobre Khruchov e encaravam-no como uma figura de compromisso, 
um califa por uma hora, posição que este, como é evidente, conhecia bem. Nos aparelhos 
locais do Partido e do Estado havia também muitas pessoas que tinham passado pela escola 
de Stáline e faziam uma avaliação muito céptica do projecto «inovador» de Khruchov. Ele 
precisava portanto de quebrar esta «oposição», apresentar os seus adversários sob uma 
perspectiva negativa, operar uma transformação maciça na consciência social, num espírito 
anti-stalinista. Refiro-me à preparação do terreno propício aos projectos pequenoburgueses e aventureiristas que contrariavam  o rigoroso realismo  da atitude marxistaleninista. A campanha de denegrimento de Stáline e a reabilitação das vítimas das 
«repressões» servia na perfeição estes objectivos, tanto mais que parte dos reabilitados 
35receberam cargos no aparelho do Estado e  do Partido, tornando-se, naturalmente, no 
sustentáculo de Khruchov. 
A «ampla repercussão social» também se explica pelos interesses inteiramente prosaicos 
de determinadas camadas e grupos sociais, como agora é moda dizer. Os sonoros aplausos 
do estrangeiro são compreensíveis: a campanha de descrédito de Stáline, que no Ocidente 
foi habilidosamente transformada numa campanha contra o Poder Soviético, enfraqueceu e 
dividiu o movimento comunista e operário  internacional, reforçou as tendências 
revisionistas oportunistas, lançou a confusão na mente e sentimentos das camadas 
progressistas, em resumo, beneficiou os inimigos do socialismo, os quais aplaudiram esta 
campanha no fundamental. 
Mesmo no nosso país, as invectivas contra  o culto foram saudadas por todo o tipo de 
ociosos, espertalhões, vigaristas que parasitavam à custa de outros, aqueles que não 
gostavam do trabalho honesto, da disciplina de ferro e da ordem. Ai de quem lhes toque que 
começam logo a gritar contra o «despotismo», «a restrição das liberdades», «os resquícios 
das repressões stalinistas»! As críticas a Stáline impressionaram particularmente uma parte 
dos funcionários do aparelho partidário-estatal, divorciados das  massas e com especial 
tendência para a burocratização, cansados do ritmo tenso e da rigorosa disciplina de 
trabalho, que viram no «novo estilo» de  Khruchov uma esperança de vida calma e 
distendida. E, como é óbvio, o «degelo» de Khruchov agradou a largos círculos dos meios 
artísticos, gente que, dada a sua especificidade social, sente inclinação para o 
individualismo, para o desregramento anárquico e sente-se incomodada pelo papel 
dirigente do Partido, disfarçando a sua  verdadeira posição com uma fraseologia 
«progressista» sobre a «liberdade», «humanismo» e «democracia». 
Muitos intelectuais não conseguem perdoar ao socialismo o facto de que no capitalismo 
poderiam ter uma vida mais confortável. É como se não percebessem que um país atrasado 
nos planos económico e cultural, que foi submetido a provações inauditas na história, tinha 
de dar prioridade às necessidades básicas do povo e simplesmente não estava em condições 
para desenvolver sofisticados bens de consumo e serviços modernos. Não acreditam na 
grandeza e envergadura dos nossos objectivos. Uma casa de campo e um automóvel é muito 
mais importante para esta gente do que os altos ideais do socialismo, em nome dos quais se 
bateram várias gerações de combatentes pela felicidade do povo. Incapazes de trabalhar de 
mangas arregaçadas, de lutar pelas suas ideias, ficam desnorteados e baixam os braços ao 
menor sinal de injustiça e indecência, começando a elogiar a liberdade «absoluta», acima 
das classes, e a proclamar a necessidade de um sistema mais «humano» e «democrático», 
no  qual  facilmente  se  adivinham  os  contornos do capitalismo «liberalizador». Nada 
preocupados com o que tal capitalismo implica para as pessoas simples, para a massa 
fundamental dos trabalhadores, estão prontos a submeter-se ao jugo do capital desde que 
lhes paguem mais. São exactamente estas pessoas que, de forma tão empenhada, se 
mostram intimidadas e intimidam os outros com os horrores do chamado «stalinismo», o 
qual, claro está, subentende os fundamentos angulares do sistema socialista e sobretudo o 
papel dirigente do Partido Comunista…  
A burguesia culta foi sempre o sustentáculo dos políticos sem princípios. Tanto no 
passado como no presente, tanto no Ocidente como, por muito triste que seja, na sociedade 
socialista. 
Falando com franqueza, a sua exposição parece-me demasiado 
esquemática, apesar de ter alguma coerência e lógica. Nas várias camadas da 
população, deparei-me várias vezes com pessoas honestas, leais ao socialismo, 
que consideram Stáline como um criminoso… E agora, se bem o compreendo, 
diz-me que Khruchov era apoiado pela parte mais burocratizante do aparelho 
partidário-estatal. Mas não foi Stáline que colocou o aparelho acima das 
massas e deu aos burocratas um poder inaudito? 
36Qualquer tentativa de explicar causas profundas peca inevitavelmente por 
esquematismo, e a que faço não é naturalmente excepção. Em todo o caso, tento explicar e 
não me desvio do assunto, refugiando-me  em enleados sentimentais-banais sobre a 
«coragem» e a «bondade» de Khruchov. 
É verdade que muitas pessoas honestas e pensantes foram induzidas em erro e ficaram 
desorientadas com materiais seleccionados de forma tendenciosa e por vezes falsificados. 
Isto  é  agravado  pelo  facto  de  não  termos  o  hábito  de  pôr  em  causa  a  versão  oficial,  para 
além de que a nossa capacidade de reflectir e discutir está a um nível muito baixo. Mas estes 
são fenómenos temporários. A verdade histórica, cedo ou tarde, virá à tona, por muito que a 
tentem afundar os políticos com os seus fins cúpidos ou certas individualidades dos círculos 
intelectuais. 
É mais fácil induzir em erro um professor ou um literato do que um simples operário, 
que avalia a política pelo critério mais fiel: pelo que ela proporciona ao quotidiano concreto 
da vida do cidadão comum. Apesar das condenações oficiais e desmascaramentos, Stáline 
continua a ter numerosos partidários em diferentes meios, especialmente entre os operários 
simples,  kholkozianos, militares, gente das gerações  mais antigas, que conheceram a 
situação daquele tempo por experiência pessoal e não através de artigos de jornal. Nem 
Khruchov nem os actuais dirigentes deixarão uma memória tão profunda e grata no povo, e 
nem podiam deixar, apesar de, por todo o lado, ostentarem o seu sentimento «popular». 
Em relação aos burocratas e aos privilégios que Stáline lhes terá dado, devo dizer-lhe 
que está completamente errado. Na prática, Stáline só conhecia o trabalho. Trabalhava com 
total dedicação 14, 15, 16 horas por dia, sem  qualquer trégua ou condescendência para 
consigo próprio. Submetendo-se ao seu ritmo, os membros do Politbureau, os comissários 
do povo, os quadros responsáveis dos órgãos centrais e mesmo locais trabalhavam com 
semelhante intensidade. 
Trabalhar 14 a 16 horas por dia não era para nós uma excepção, pelo contrário, era a 
regra. Quanto muito, íamos de férias uma vez em cada quatro ou cinco anos, mas nem 
todos se podiam orgulhar disso. Folgas praticamente não existiam. 
Uma disciplina de ferro, um controlo permanente, trabalhar até ao limite das forças e, o 
principal, a exigência de resultados concretos, a melhoria real das coisas, a sua ausência 
equivalia à destituição do cargo, sem olhar aos serviços prestados no passado – tudo isto 
conduziu a uma tal produtividade e eficiência no trabalho de direcção sobre a qual hoje 
apenas se poderá sonhar. Não me recordo, como exemplo, de nenhuma resolução ou 
directiva do CC, do  Politbureau  ou  do  Conselho  de  Ministros  que  não  tivesse  sido 
cumprida. Hoje, segundo se diz, é exactamente ao contrário. Entre as crescentes torrentes 
delas, não se encontra uma que tenha sido concretizada, pelo menos em parte... Aliás, nos 
nossos dias, não se tomava a sério os que  evocavam dificuldades e «circunstâncias 
objectivas». «Foram colocados nos vossos cargos exactamente para as superar», dizia 
habitualmente Stáline nessas situações. 
Encontrei e li o livro de Lion Feuchtwanger sobre a sua visita, em 1937, à União 
Soviética, do qual me falou. Nele escreve  nomeadamente que as pessoas que ocupavam 
cargos com alguma responsabilidade, «quase que não têm tempo para comer, quase que 
não dormem e acham normal chamar por telefone alguém que está no teatro a meio de uma 
representação ou telefonar-lhe  às três ou quatro da manhã para lhe perguntar algo de 
urgente. Nunca encontrei trabalhadores incansáveis em tal quantidade como em Moscovo... 
Se em Nova Iorque ou em Chicago não encontrei os propalados ritmos americanos de 
trabalho, vim encontrá-los aqui em Moscovo»54
. Uma descrição fidedigna, era mesmo 
assim! 
Aliás, na altura, nós, comissários do povo, nem sequer pensávamos em limusines do 
Estado, casas de campo, restaurantes e outros privilégios semelhantes. Não tínhamos 
tempo para isso, tanto mais que o mínimo abuso neste plano era punido implacavelmente: 
o Goscontrol e os partorg55
 do CC trabalhavam eficazmente e as críticas vindas da «base», 
da parte dos trabalhadores, eram tidas em conta, muito mais do que hoje. 
37O povo sabia que as regalias dadas aos dirigentes significavam o prolongamento do dia 
de trabalho em mais oito horas, por isso ninguém criticava ou se indignava como agora, em 
que, de facto, são dados muitos privilégios a um ministro sem que se vejam os resultados do 
seu trabalho durante anos. Resultados positivos, é claro... 
Por outras palavras, Stáline, cujo estilo  de vida se distinguia por um ascetismo e 
puritanismo bolcheviques, dirigia o aparelho com mão de ferro, considerando, com algum 
fundamento, como o tempo veio a demonstrar, que a multiplicidade das tentações na vida 
poderia diminuir a produtividade do trabalho dos dirigentes, minar a confiança das pessoas 
comuns neles, ou seja no Partido, aspecto do qual depende muita coisa no nosso país. No 
entanto, por vezes, Stáline fechava os olhos às pequenas fraquezas dos comissários do povo, 
em especial dos jovens, desde que, claro, não se reflectissem no trabalho... 
Como é óbvio, estes ritmos de trabalho e tal regime draconiano não agradavam a todos. 
As pessoas são pessoas, apetece-nos relaxar, dedicar pelo menos algum tempo à família, aos 
interesses pessoais, e alguns gostariam de saborear as honrarias e privilégios das altas 
posições... 
Quer dizer que Khruchov jogou com isso? 
Sim. Este factor «humano» contribuiu em muito para alargar e reforçar o apoio a 
Khruchov entre os dirigentes do Centro e em particular ao nível local. Nikita Sergueievitch 
defendia uma disciplina e um regime de trabalho mais «macios», fazia-se passar por uma 
pessoa «compreensiva» e capaz de «perceber a situação», embora no fundo fosse bastante 
exigente. Mas não foi por acaso que um dos primeiros sinais do «novo estilo» tenha sido a 
proibição de ficar no trabalho depois da oito da noite. Com Stáline,  muitos comissários do 
povo trabalham noites inteiras, o que, como é evidente, extenuava qualquer um. 
Por outro lado, Molotov e Malenkov, considerados como partidários entusiastas do estilo 
«duro» stalinista, condenaram firmemente  os mais pequenos desvios da disciplina 
partidária, o que, depreende-se, não lhes aumentou a popularidade dentro do aparelho... 
Não escondo que na altura estava longe de ser um «stalinista», Khruchov 
impressionava-me mais. Pensava que com ele teria mais liberdade de acção e seria capaz de 
levar a cabo o programa que concebera. Mas  as minhas expectativas goraram-se. Com 
Khruchov, a iniciativa dos ministros estreitou-se, diminuindo também em todos os níveis a 
exigência e a responsabilidade. Começou-se a pensar menos no trabalho e mais nos 
diferentes bens da vida. Penso que foi nessa altura que se abriu a fenda que, mais tarde, 
com os sucessores de Khruchov, viria a provocar o afastamento do aparelho das massas e, 
como reacção contrária, a manifestação  de hostilidade das amplas massas dos 
trabalhadores e do povo em relação ao aparelho, coisa que nos anos 30, 40 e mesmo 50, 
não existia. 
Mas o mais importante talvez nem seja isso. Reflecti muito sobre as razões do fracasso 
do «grande salto em frente» de Khruchov, porque é que estamos a marcar passo no mesmo 
sítio desde meados dos anos 70 (a reforma dá-nos tempo e a possibilidade de estudar um 
pouco) e cheguei a algumas conclusões. Desde os meados dos anos 50, altura em que 
começou a diminuir a exigência em relação aos quadros, que a vida impunha que essa 
exigência fosse pelo contrário  aumentada, sob pena de ser  impossível resolver as novas 
tarefas, mais complexas e de maior envergadura. Khruchov, que tinha passado pela escola 
stalinista, ainda tentou de alguma forma parar esse processo. Infelizmente, os seus 
sucessores deixaram-se ir na corrente reincidente das «forças e tradições da velha 
sociedade», como disse Lénine. Muitos postos do Partido e do Estado foram entregues a 
pessoas incompetentes e indignas dos seus altos cargos, que se revelaram incapazes de 
garantir uma direcção eficaz das tarefas. A promoção dos quadros deixou ter 
correspondência com os serviços reais prestados. Alguns tornaram-se ministros, secretários 
do CC e mesmo membros do  Politbureau, não por terem resolvido o problema do 
abastecimento de produtos alimentares na sua região ou por terem colocado as empresas 
38que dirigiram ao nível internacional, mas na sequência de uma correlação de circunstâncias 
que lhes foi favorável. 
É natural que, não sendo capazes de trabalhar verdadeiramente, estas pessoas ocupem o 
tempo com papelada e reorganizações. As directivas sucedem-se umas atrás das outras e 
perde-se a conta aos discursos com apelos a «trabalhar de forma inovadora». 
Votemos a questões mais concretas. Não poderia falar com mais detalhe 
sobre as diferenças das posições de Stáline e Khruchov em relação à 
agricultura? 
Essas diferenças ganharam contornos precisos já depois da morte de Stáline, quando 
Nikita Sergueievitch decidiu pasmar o mundo com os seus métodos «inovadores». É claro 
que já antes de 1953, Khruchov alimentava as suas ideias predilectas, os seus projectos para 
resolver este ou aquele problema. Todavia, ao contrário dos outros membros do 
Politbureau, não era capaz, ou melhor, não queria defender os seus pontos de vista, tanto 
mais que as tímidas tentativas que fez neste sentido foram severamente criticadas por 
Stáline, que não tolerava «projectos  manilovistas»56
, como costumava dizer irritado. 
Aparentemente, foi o medo hipertrofiado que Nikita Sergueievitch tinha de Stáline que lhe 
valeu a fama de ser um executante resignado, obediente e limitado, despojado de qualquer 
ambição política ou desejo de protagonismo... No futuro, na sua na luta pelo poder, 
Khruchov viria a utilizar habilmente esta falsa imagem que, no entanto, era partilhada por 
muitos. 
Mas voltando às diferenças. Antes de mais, elas tiveram a ver com as explorações 
agrícolas privadas dos kolkhozianos e dos trabalhadores dos sovkhozes, bem como com a 
actividade industrial artesanal e cooperativa. Mesmo após a conclusão da colectivização do 
campo, o sector individual continuava a desempenhar um papel importante. Nos anos pré-
guerra, as explorações individuais eram responsáveis por entre 60 a 90 por cento dos 
legumes, carne, leite, ovos e outros produtos agrícolas, à excepção, claro está, do trigo e das 
culturas técnicas. Produziam igualmente a maior parte da fruta e frutos secos. De resto, a 
maior parte dos rendimentos dos kolkhozianos, quer antes quer nos primeiros anos do pósguerra, provinha não das explorações colectivas mas exactamente da produção individual. 
Stáline considerava que esta era uma situação objectiva e inevitável por um longo período e 
opunha-se implacavelmente às tentativas de forçar o prosseguimento da «colectivização» e 
socialização, posição que testemunhei várias vezes. 
Inversamente, Khruchov julgava as explorações individuais, bem como a actividade de 
todo o tipo de cooperativas nos meios rurais, como «resquícios obsoletos do passado, os 
quais, supostamente, «desviavam» os camponeses do trabalho colectivo e impediam que o 
enorme potencial das «vantagens do socialismo» se revelasse no campo. 
Outro ponto substancial de divergência refere-se à política salarial. Com Stáline, os 
salários eram amplamente utilizados como incentivo à alta produtividade do trabalho e ao 
trabalho qualificado, como importante alavanca do aceleramento do progresso científicotécnico. Na agricultura, por exemplo, o salário dos agrónomos, mecanizadores, condutores 
de máquinas e outras  profissões determinantes para a  modernização da produção, era 
significativamente superior, nalguns casos em várias vezes, ao dos kolkhozianos e operários 
dos  sovkhozes. O sistema de incentivos à alta produtividade do trabalho funcionava 
igualmente de forma satisfatória. Os operários de vanguarda ganhavam muito mais do que 
os operários «medianos» e algumas categorias de  stakhanovistas não tinham sequer um 
tecto salarial. 
Um quadro semelhante observava-se na indústria, onde os engenheiros e, em especial, 
os construtores de novas máquinas recebiam muito mais do que os operários e os 
empregados dos ramos não produtivos. Lembro-me de que, no início dos anos 50, um 
professor universitário podia ganhar até mil rublos por mês, enquanto uma empregada de 
limpeza tinha um salário de 30 rublos, o que era visto como dentro da ordem das coisas. 
39As regalias materiais combinadas com estímulos ideológico-morais permitiram atrair os 
mais capazes e dotados para as fileiras de agrónomos, mecanizadores, engenheiros, 
construtores e outras profissões com um papel crucial no progresso  científico-técnico. E 
entre a população, em especial a juventude, desenvolvia-se a aspiração ao conhecimento e 
ao domínio da técnica moderna. 
Para Khruchov, que sempre ultrapassou todos os limites no que toca a sentimentos 
populistas, tal política era «socialmente injusta» e «não-socialista». Sob sua pressão, 
começaram a ser revistas as tabelas de vencimentos no sentido de eliminar «diferenças 
injustificadas» na retribuição do trabalho. Infelizmente, este processo prosseguiu depois de 
1964. Os resultados da violação voluntarista das mais importantes leis objectivas do 
socialismo são conhecidos: o nivelamento salarial foi estabelecido em praticamente todos 
os ramos que determinam o progresso científico-técnico, encurralando-se (não encontro 
outra palavra) o corpo dos engenheiros-construtores, cujo vencimento é quase mais baixo 
do que o de uma empregada de limpeza. E quando se vira de pernas para o ar o sistema de 
estímulos materiais, também na economia, como é natural, se desencadeia todo o tipo de 
incongruências, as quais, de forma alguma, favorecem o seu normal crescimento. 
Todavia, esta minha opinião é de hoje. Na altura, em meados dos anos 50, via isto tudo 
de modo diferente e, falando com franqueza,  até fiquei impressionado com o desejo de 
Khruchov de eliminar as injustiças na retribuição do trabalho das diferentes categorias de 
trabalhadores. 
No fundo, Nikita Sergueievitch era um extraordinário mestre do efeito de curto prazo, 
com reflexos fulgurantes, os quais, justiça lhe seja feita, cegaram temporariamente não só 
os seus seguidores, mas até os opositores. Porém, este efeito foi obtido à custa da 
secundarização dos interesses  estratégicos de longo prazo,  o que veio a traduzir-se em 
perdas colossais. Mas as pessoas vivem o dia de hoje, e Nikita Sergueievitch soube explorar 
habilmente esta fraqueza... 
Na literatura de memórias existem referências à discordância de Stáline 
com o absurdo projecto de Khruchov das agro-cidades... 
Não classificaria esse projecto como absurdo. Assentava na ideia perfeitamente racional 
de promover a integração da produção agrícola e industrial, diminuir as diferenças entre a 
cidade e o campo nas esferas social, de serviços e cultural. Devo dizer que quando Khruchov 
apresentou estas ideias a minha reacção foi positiva. No entanto, depois, influenciado pelas 
críticas sérias e bem fundamentadas da parte de grandes especialistas e cientistasagrónomos, passei a referir-me à teoria das «agro-cidades» com maior contenção. Foi-me 
demonstrado de forma bastante convincente que o nível de desenvolvimento alcançado no 
campo não permitiria, durante um período  de tempo ainda longo, caminhar para a 
integração da produção agrícola e industrial, pelo menos à escala de todo o país, como 
propunha Khruchov. Outra flagrante fuga em frente, e mais um exemplo de desprezo pela 
especificidade do campo, foi a tese sobre  a necessidade de centralizar e concentrar a 
população rural e liquidar as aldeias «sem futuro». Ulteriormente, as tentativas de forçar o 
processo de industrialização do campo, causaram, como é conhecido, grandes danos à 
agricultura. 
Nessa altura, Khruchov, num artigo publicado no  Pravda, apresentou com bastante 
desenvoltura a concepção das «agro-cidades».  Stáline, que habitualmente incentivava os 
dirigentes partidários a estudos teóricos, à  formulação de problemáticas, reagiu muito 
negativamente ao artigo, diria mesmo com hostilidade. Em breve o  Pravda publicaria 
outro texto em que a teoria das «agro-cidades» era submetida a uma crítica demolidora. 
Num círculo restrito, Stáline qualificou as buscas  khruchovianas ainda com mais 
severidade, considerando-as como «o mais  puro fantasismo», «uma fuga em frente 
esquerdista», «um delírio pequeno-burguês». Recordo-me bem destas palavras porquanto 
40Stáline repetiu-as à minha frente várias vezes, temendo, aparentemente, que eu fosse 
influenciado pela «teoria» khruchoviana. 
Stáline, embora valorizasse  as qualidades organizadoras de Khruchov, considerando-o 
um executivo brilhante, tinha uma fraca opinião sobre as suas capacidades políticas e 
teórico-ideológicas. Para além disso, nas suas relações com Khruchov, transparecia um 
manifesto desdém, coisa que Stáline nunca se permitia nas suas relações com os dirigentes 
partidários e do Estado, com excepção, talvez, de Béria. A minha impressão pessoal é que, 
ao relacionar-se de forma diferente com esta «dupla», Stáline pretendia demarcar-se do seu 
«não-bolchevismo», como se se desculpasse  pelo facto de, nos assuntos de Estado, ser 
forçado a recorrer a pessoas aptas, mas com formação ideológica duvidosa, uma espécie de 
«aliados políticos» conjunturais.  
Khruchov reagiu com bastante calma exterior e lisura ao sabão que Stáline lhe passara. 
Mas é claro que tudo não passava de uma aparência enganadora: Nikita Khruchov era uma 
pessoa com amor-próprio e ambição extremos,  apesar de ter conseguido ocultar isso 
durante algum tempo.  
Uma vez, no final de uma reunião em que Stáline, sem olhar a delicadezas, admoestou 
duramente Khruchov por uma asneira qualquer, descemos os dois para os carros que nos 
esperavam na rua. 
«- Ele sabe muito», disse de súbito e com azedume Khruchov. «Mandar é fácil, devia 
experimentar fazer algo de concreto...» 
«De quem se trata?», perguntei mecanicamente, ocupado que estava com os meus 
pensamentos (na reunião também eu tinha sido criticado e começara já a pensar na 
maneira de realizar as sugestões de Staline). 
«Sou eu a falar com os meus botões», disse Nikita Sergueievitch. «Levámos uma boa 
ensaboadela, temos de tirar as nossas conclusões». Recuperara o controlo de si e tentava 
agora sorrir amigavelmente. 
Só me dei conta no carro de que Khruchov se referia a Stáline. Como se costuma dizer, 
guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra... 
Afastei-me da questão que me colocou. A história das «agro-cidades» põe mais uma vez 
em evidência as diferenças entre Stáline  e Khruchov em relação aos problemas da 
agricultura. 
Stáline era realista até à medula dos ossos, por isso dava muito mais importância à 
especificidade do sector, agia de forma reflectida, fundamentada, sem precipitações, 
prevendo eventuais consequências a longo prazo desta ou daquela decisão. Khruchov era o 
contrário, ansiava por resultados rápidos e fulgurantes, tinha pressa e precipitava-se, 
passando por cima do nível real de desenvolvimento atingido e caindo num utopismo 
imperdoável e criminoso. 
Infere-se das suas palavras que a principal responsabilidade pela actual 
situação, bastante deplorável, da agricultura recai sobre Khruchov e naqueles 
que se afastaram da linha stalinista. Mas será que esta linha foi em si própria 
irrepreensível? Não houve os desvios e excessos da colectivização, a horrível 
fome de 1933, o «transvase» de meios do campo para a cidade e, finalmente, a 
submissão dos  kolkhozianos a uma servidão semifeudal, sendo-lhes negado 
até o direito a possuir passaporte? E mesmo assim, no período de Stáline, a 
nossa agricultura não conseguiu recuperar o seu atraso em relação ao 
Ocidente. Os documentos oficiais e investigações de reputados historiadores, 
atribuem a Stáline e aos que o rodeavam grandes responsabilidades. Ou não 
concorda com isto? 
41A julgar pela pergunta, você não conseguiu compreender correctamente a relação entre 
os factores objectivos e subjectivos e enfiou tudo no mesmo saco. Tentarei, tanto quanto 
puder, esclarecer os factos com verdade. 
É um erro de raiz atribuir a Khruchov ou  a Stáline todas as culpas pelo atraso da 
agricultura. Apesar de tudo, o principal aqui  são os factores objectivos, a especificidade 
histórica do desenvolvimento do país. Não podemos esquecer que, nos anos 20, os arados 
de madeira predominavam nos nossos campos, enquanto nos Estados Unidos, na Grã-
Bretanha e noutros estados europeus a mecanização da agricultura estava praticamente 
concluída. Foi de um agricultura atrasada e medieval que tivemos de extrair meios e forças 
para a industrialização do País, para a criação de um exército moderno e para a 
reconstrução da economia destruída pela guerra. Simplesmente não havia outra solução. 
Um mar de explorações privadas atrasadas tiveram de ser reconvertidas de acordo com as 
orientações da colectivização socialista, com todos os exageros e aspectos negativos 
inevitáveis. E tudo isto decorreu sob a pressão inimiga do cerco capitalista, em ritmo 
forçado e em curtíssimos prazos históricos (não havia outros). Estou convencido de que se 
tivéssemos atrasado cinco ou seis anos a colectivização ou a industrialização, a economia 
não teria podido garantir os meios necessários à vitória sobre o fascismo e o campo não 
seria capaz de alimentar o exército e a população, já sem falar do previsível surgimento de 
uma «quinta coluna» na retaguarda formada pelos proprietários  kulaks que odiavam o 
Poder Soviético. A verdadeira questão reside no facto de que a história não nos deu 
possibilidades «normais», tivemos que agir em circunstâncias «anormais», ou seja com 
ritmos forçados. 
Claro que o Partido, o Governo e Stáline, pessoalmente, fizeram muito para o 
desenvolvimento da agricultura e para a melhoria da vida dos camponeses, afirmo-o na 
qualidade de quem dirigiu o sector durante quase duas dezenas de anos. O campo sofreu 
um  poderoso  impulso  em  frente  na  modernização  da  organização  da  produção  e  do 
trabalho e na criação de condições civilizadas sócioculturais. Contudo, esperar resultados 
milagrosos como a eliminação do atraso em  relação ao Ocidente neste curto espaço de 
tempo, é simplesmente irrealista. Só no início dos anos 50, o Estado teve possibilidade de, 
pela primeira vez, destinar grandes recursos materiais e humanos para o desenvolvimento 
da agricultura. Até esta altura, a cidade viveu em grande parte à custa do campo, e não 
havia outra alternativa, a não ser talvez nas ilusões de gabinete dos «reputados 
historiadores». 
Não discuto que a vida dos camponeses era  nesse tempo difícil: trabalho intenso, 
impostos elevados e uma «dura» ligação ao local de residência. Aliás, o mesmo acontecia 
também na cidade. Não se esqueça de que, na Rússia czarista, o nível de vida da população 
estava atrasado 100 anos, ou mesmo mais, em relação aos países capitalistas desenvolvidos. 
Mas também não devemos carregar nas tintas: em comparação com o período anterior à 
Revolução de Outubro, as condições de vida e de acesso à cultura da esmagadora maioria da 
população rural alteraram-se significativamente no bom sentido. As grandes massas, quer 
de kolkhozianos quer de operários dos sovkhozes, no fundamental, estavam satisfeitas com 
a sua vida e olhavam para o futuro com muito mais optimismo do que agora, apesar de as 
actuais condições de bem-estar materiais serem impensáveis na época. Digo isto porque 
tenho ouvido muita gritaria sobre a pobreza nos campos durante os anos 30 e 40. A darmos 
crédito a alguns literatos ou mesmo dirigentes do Partido, todo aquele período teria sido 
atravessado pelo terror, repressões e violência em relação aos camponeses. É um disparate. 
Nenhum sistema político pode apoiar-se por muito tempo na violência, sendo que os que 
habitavam o campo nos anos 30 constituíam a maioria da população! Se tudo assentasse, 
como alguns tentam fazer crer, no medo do NKVD, não teria sido possível destroçar a 
máquina de guerra fascista, a mais poderosa no mundo, nem teria havido o heroísmo em 
massa  na  frente  e  na  retaguarda  nem,  em  última  análise,  o  nosso  país  teria  alguma  vez 
chegado a ser uma das duas superpotências mundiais. 
42Falou dos factores objectivos mas nada disse sobre os subjectivos... 
Já lá vou. Espera certamente que compare os actos de Stáline e de Khruchov, ou mais 
precisamente os erros por eles cometidos que atrasaram o desenvolvimento da agricultura. 
Em qualquer domínio os erros são inevitáveis e tanto Stáline como Khruchov cometeram 
bastantes. Mas há erros e erros. Stáline cometeu-os em questões de menor importância, 
secundárias, evitando-os nas matérias centrais, estratégicas. Khruchov era o contrário, 
entendia-se melhor quanto aos pormenores e detalhes, mas pensava mal, apressadamente, 
as decisões de Estado de grande envergadura, o que teve numa série de casos resultados 
simplesmente catastróficos. Há pouco falou da fome de 1933. A sua principal causa foi a 
seca, mas as consequências que teve no processo de colectivização do campo, que estava a 
ser concluído nessa altura, reflectiram-se num aumento dos excessos e complicações, 
inevitáveis em quaisquer grandes transformações sociais. Ambos estes factores tiveram um 
carácter objectivo e não era possível imputá-los à vontade, ainda que sobre-humana, de um 
líder.  Por  isso,  o  erro  de  Stáline,    se  é  que  existiu,  residiu  quanto  muito  no  facto  de  ter 
confiado de mais no então Comissário do Povo para a Agricultura, Iakovlev
57
, que não só 
não tomou as medidas necessárias para fazer face à calamidade, mas também encobriu 
efectivamente as acções sabotadoras dos trotskistas e outros «esquerdistas», que se tinham 
entrincheirado em órgãos de poder centrais e locais. Nessa altura eu trabalhava no Centro 
de Moscovo dos Sovkhozes Hortícolas e recebi do comissariado ordens tão estranhas, para 
não lhes chamar outra coisa, que se as tivesse cumprido poderiam ter provocado a 
desorganização da produção. Aliás, Iakovlev foi fuzilado por sabotagem juntamente com os 
seus cúmplices. De qualquer modo, as acções do seu grupo, apesar de terem agudizado a 
situação, não tiveram uma importância decisiva nos acontecimentos, os quais, repito, 
resultaram no fundamental de factores objectivos. 
Por sua vez Khruchov, ao assumir os comandos do Estado, cometeu erros estratégicos 
pelo seu carácter e consequências. Em meados dos anos 50, quando pela primeira vez havia 
a possibilidade de destinar grandes meios e forças para a agricultura, ele deu prioridade ao 
desbravamento de terras virgens, o que, como é óbvio, produziu resultados visíveis e 
rápidos, mas a longo prazo revelou-se ser uma decisão claramente errada. Não só porque o 
desbravamento das terras virgens foi feito à custa de regiões, às quais deveria ter sido dada 
uma atenção redobrada, caso da Ucrânia e das zonas de solo mais pobre da Rússia. Muito 
mais ruinosa se revelou a «viragem estratégica» da agricultura para os factores de 
crescimento extensivo, num momento em que estava na ordem do dia a transição para a 
intensificação da agricultura. Aliás, em todos os países, essa transição foi acompanhada de 
uma redução das áreas de sementeira. Por outras palavras, teria sido necessário caminhar 
em «profundidade» e nós, na ânsia de êxitos imediatos, apostámos no «alargamento», 
seguindo uma direcção notoriamente errada, perdendo assim, sem qualquer exagero, vários 
quinquénios agrícolas. 
Consequências extremamente negativas tiveram igualmente os ataques frontais de 
Khruchov contra as explorações agrícolas e, em particular, a redução do número de cabeças 
de gado que podiam integrar a propriedade pessoal dos  kolkhozianos e dos operários 
agrícolas dos sovkhozes. Isto apesar de a combinação flexível da propriedade social com a 
pessoal ter permitido, durante o período de Stáline, resolver muitos problemas. Pergunte às 
pessoas das gerações mais velhas, certamente que vos dirão que a variedade da oferta de 
produtos alimentares nas nossas lojas era duas vezes maior do que a que existe agora, no 
início dos anos 80. E, claro está, o alastramento a todos os sectores do nivelamento salarial 
e o gigantismo em que se converteu a eliminação das aldeias «sem  futuro», desferiram 
novos e sensíveis golpes na agricultura. 
Todavia, os líderes que substituíram Khruchov não só não corrigiram estes erros como, 
pelo contrário, os agravaram. Se Nikita Sergueievitch, como organizador forte e pessoa 
enérgica e empreendedora «sacudia» e predispunha de alguma forma os quadros dirigentes 
para o trabalho, os seus sucessores passaram a dar preferência aos sermões intermináveis. 
43Tudo isto, apesar dos enormes gastos, conduziu a agricultura a um «estado bastante 
lamentável», como justamente observou. 
Não terá caído numa contradição? Afirmou que Stáline era um bom 
conhecedor de pessoas, sabia qual era o seu verdadeiro valor… Como se pôde 
então enganar quanto a Khruchov, Béria, Vechinski e outras pessoas que 
entraram no seu círculo mais próximo? 
Não penso que tenha sido um engano. Stáline, tal como Lénine, sabia utilizar pessoas 
cujo perfil político considerava duvidoso,  não bolchevique. Não são só os marxistasleninistas, digamos a 100 por cento, que têm  o monopólio do saber-fazer, das elevadas 
qualidades de trabalho… Tanto Vechinski como Mekhlis ou Béria tinham um passado de 
mencheviques, uma «nódoa negra» nas suas biografias. Mas as suas vantagens 
profissionais prevaleciam claramente, para além de que não podiam interferir na definição 
da estratégia política. O próprio Lénine permitiu que Trotski, Zinoviev, Kameniev e 
Bukharine ocupassem altos cargos, apesar  de não os considerar como verdadeiros 
bolcheviques e autênticos teóricos marxistas. 
Parece que só gostamos dos extremos. Se elogiamos alguém, colocamo-lo nas nuvens, se 
censuramos, então temos de reduzi-lo a pó… Ou é um diabo ou um anjo, o intermédio é 
como se não existisse, não obstante, na realidade e pelo  contrário, existir e muito 
frequentemente. 
Veja, por exemplo, o caso de Béria. Apresentam-no como um amontoado de vícios, 
imagináveis e inimagináveis. É verdade que tinha vícios e que era um indivíduo indecente e 
sem escrúpulos. Eu, como outros comissários, passei muito por causa dele. Mas, apesar de 
todos os seus indiscutíveis defeitos, Béria  possuía uma vontade forte, qualidades de 
organizador, a capacidade de entender rapidamente a essência de um problema e de reagir 
instantaneamente a uma situação complicada, identificando os seus aspectos principais e 
secundários. 
O facto é que foi sob a sua direcção que se  criou, em prazos curtíssimos, a bomba 
atómica e que, nos anos da guerra, tão rapidamente se ergueram as indústrias de defesa. 
O pequeno erro de Béria é que deixava transparecer uma intenção consciente e mesmo 
objectivos «políticos». Penso que Stáline utilizou Béria, tal como Mekhlis, como um 
«cassetete do terror», com a ajuda do qual se malhava no desleixo, na incúria e na 
leviandade das classes dirigentes e noutras chagas nossas, que Lénine justamente apelidou 
de «oblomovismo
58
 russo». Refira-se que tal método, pouco atraente, funcionava 
eficazmente. 
É claro que houve casos em que o cassetete  de Béria atingia também as cabeças de 
pessoas honestas. 
Fosse como fosse, Béria, depois de ter sido demitido por Stáline do cargo de ministro da 
Segurança de Estado em 1952, foi de novo puxado para cima após a morte deste. Tornou-se 
vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS e encabeçou o Ministério da Segurança 
Interna, o qual passou a integrar também o Ministério dos Assuntos Internos. Por outras 
palavras, conseguiu um poder com o qual nem  sequer se atreveria a  sonhar no tempo de 
Stáline. No que respeita a Khruchov, é indubitável que Stáline, melhor que ninguém, via o 
seu «não-bolchevismo», os limites dos seus horizontes intelectuais e culturais, as suas 
ambições carreiristas. Porém, deu preferência à utilização das suas excelentes qualidades de 
executivo em altos postos partidários. E fez bem: enquanto trabalhou sob uma direcção 
rigorosa, Khruchov fez muito de útil. Outra coisa é o facto de não se enquadrar em nenhum 
dos parâmetros do posto decisivo do nosso país, apesar do seu grande desejo de ser o 
Primeiro. Nisto reside toda a tragédia... 
44Pode-se concordar que Khruchov era inferior a Stáline em muitos aspectos. 
Mas pelo menos não enviou pessoas honestas para a prisão, nem fez correr 
sangue. O povo nunca perdoará.... 
Mas está convencido de que tem legitimidade para se armar em arauto do povo? O povo 
no  nosso  país  é  diferenciado.  Para  os  professores universitários e literatos, obviamente, 
Stáline representa um «déspota» e um «ditador», para os trabalhadores de vanguarda, para 
muitas pessoas simples que viveram aquele tempo é um grande homem sábio, que lutou 
pela felicidade do povo e obrigou os responsáveis públicos a fazer o mesmo, esses que agora 
estão de barriga cheia, se deixaram burocratizar e divorciar das amplas massas. Serei 
ingénuo? Talvez... Mas quando contraponho estes dois extremos, recordo as profundas 
palavras de Karl Marx, de que um intelectual tem mais a aprender com um operário do que 
um operário com um intelectual... 
Desculpe, mas qual é a relação com a pergunta que lhe fiz? 
A mais directa. Fale com os trabalhadores simples e honestos do nosso povo. Dir-lhe-ão 
que «é hora de pôr ordem nas coisas, endurecer ao máximo a desleixada disciplina do 
Partido e do Estado, não hesitando perante as medidas mais drásticas». Costuma-se dizer 
que a voz do povo é a voz de Deus. Da minha experiência pessoal posso afirmar com 
segurança que, sem a permanente depuração do aparelho do partido e do Estado de todos 
os elementos indignos que nele se instalam, sem a repressão decidida, na sua raiz, das 
tendências e manifestações anti-socialistas nos altos escalões, não será possível assegurar 
um desenvolvimento rápido e seguro do País. Até porque esse «trabalho de saneamento» 
normaliza a situação no País, garante o influxo no Partido e na esfera da administração de 
jovens honestos, sensatos e talentosos, permite aproveitar o enorme potencial democrático 
do povo. É exactamente desde modo. Este potencial manifesta-se apenas num ambiente de 
ordem e disciplina férrea, de combate firme a todos os fenómenos anti-socialistas. De outra 
forma toda a participação se esvai no leito caudaloso da perniciosa loquacidade da 
demagogia, da dissolução anárquica e das lutas cúpidas por interesses pessoais e de grupo. 
Quanto trabalhei na Jugoslávia observei tudo isto até à exaustão... E esta disciplina e alta 
exigência para com todos, do mais ao menos importante, deve começar exactamente pelos 
dirigentes do mais alto escalão, caso contrário haverá consequências extremamente 
perigosas para o socialismo... 
Stáline, como já referi, decifrou com mais rapidez e profundidade do que ninguém a 
essência pequeno-burguesa dos slogans e projectos de Khruchov. Todavia, não conseguiu 
tomar as medidas necessárias que resguardassem o país e o socialismo mundial da chegada 
ao poder de líderes «não bolcheviques» do tipo de Khruchov e semelhantes... Em 
consequência, tivemos de pagar um alto  preço pelo seu esquerdismo e megalomania 
pequeno-burguesa. 
Dou-lhe mais um exemplo. Refiro-me a  Georgui Konstantinovitch Jukov, um 
talentosíssimo chefe militar, indiscutivelmente o melhor comandante da Segunda Guerra 
Mundial. A par de todas as suas qualidades pessoais invulgares, tinha igualmente defeitos 
evidentes, os quais são descritos com frontalidade e franqueza por Konstantin 
Konstantinovitch Rokossovski, no seu livro «O Dever do Soldado». 
Se a arrogância, grosseria, impertinência  e outros modos tarimbeiros podiam ser 
tolerados, já sua presunção, ambições e  pretensões «napoleónicas» constituíam uma 
ameaça política. Quando Stáline, que foi sempre benevolente com Jukov, se apercebeu 
disto, de imediato tomou as medidas necessárias. Um tribunal militar de honra, constituído 
por célebres marechais e almirantes, julgou  com severidade o comportamento de Jukov, 
que  teve  de  ouvir  muitas  palavras  duras,  embora justas. Todavia, levando em conta os 
grandes serviços prestados e a honestidade pessoal de Jukov, o tribunal pronunciou-se pela 
não adopção de medidas rigorosas que Malenkov e Béria claramente esperavam, tal como 
45Stáline, que os apoiava. No final, Stáline não só cedeu à vontade dos militares, limitando-se 
a baixar Jukov de posto, como, pouco antes da sua morte, voltou a promovê-lo para cargos 
decisivos. Tratou-se de um erro crasso. Em breve, Jukov viria a confirmar que os receios de 
Stáline tinham fundamento ao ingerir-se de forma inadmissível, mesmo para um chefe 
militar da sua dimensão, nos assuntos políticos do Partido. Como é sabido, em Junho de 
1957, ameaçou quase que abertamente o chamado «grupo antipartido», ou seja a maioria 
dos membros do Politbureau, com o uso da força militar. Ao dar o seu apoio a Khruchov, o 
qual Jukov pensava que mais tarde poderia facilmente controlar, o marechal esperava 
reforçar a sua situação. No entanto, como tantas vezes sucede, caiu no fosso que ele próprio 
tinha camuflado para outros caírem. Khruchov fazia muito menos cerimónia com os 
concorrentes perigosos do que Malenkov ou Molotov. 
Os resultados do domínio monopolista de Khruchov, ajudado por um Jukov de visão 
curta e desmedidas ambições pessoais, são evidentes. O País saiu dos trilhos leninistas de 
desenvolvimento, atrasou-se, prejudicando os interesses de dezenas ou mesmo centenas de 
milhões de pessoas, se tivermos em conta as implicações internacionais. 
Tudo isto poderia ter sido evitado se Stáline tivesse revelado a firmeza e a coerência que 
lhe eram características na identificação de fenómenos potencialmente perigosos para o 
socialismo. Por outras palavras, se tivesse eliminado qualquer possibilidade de Khruchov e 
Jukov surgirem como protagonistas. Não quero com isto dizer que tivessem de ser julgados 
e presos – já não era tempo disso. Teria sido suficiente impor a estas figuras, 
indiscutivelmente proeminentes, a reforma compulsiva... Dirá que teria sido injusto, cruel, 
um acto de repressão. Admito que sim, se analisarmos o assunto sob a perspectiva das suas 
«capelinhas pessoais», do ponto de vista dos  seus amigos, familiares e, claro está, dos 
nossos literatos de «elevada moral». Mas veja que no interesse de dezenas de milhões, da 
maioria esmagadora da população soviética,  estas «repressões» teriam sido necessárias e 
justas. Aliás, a autêntica política leninista começa exactamente pela defesa destes 
interesses, pela capacidade de colocar o geral e o todo acima do que é pessoal e de grupo. 
Recorda-se do que se passou com a «oposição operária»59
  em  1921?  Nas  suas  fileiras 
estavam muitas pessoas honestas e dedicadas aos ideais da revolução, mas que, no entanto, 
assumiram posições potencialmente perigosas para o socialismo. Vladimir Ilitch Lénine 
insistiu com a maior firmeza  para que fossem excluídas do  Partido e, ao falhar esse 
objectivo (a sua proposta foi derrotada por alguns votos), conseguiu afastar os membros da 
oposição dos postos decisivos, enviá-los para a província ou para o trabalho diplomático, 
como foi o caso de Alekssandra Mikhailovna Kollontai
60
… 
Talvez a maior falha de Stáline tenha sido o facto de não ter sabido ou, provavelmente, 
não ter tido tempo para preparar um substituto digno de si. Talvez não tenha tido tempo já 
que tomou determinadas medidas neste sentido. No XIX Congresso do Partido foi 
significativamente alargada a composição  do Presidium do Comité Central. P.K. 
Ponomarenko assumiu o cargo de Presidente do Conselho de Ministros e iniciou-se uma 
espécie de «experiência» com «jovens duplos»  de ministros… Porém, infelizmente, tudo 
acabou por seguir um rumo diferente. 
Para finalizar, o que deseja aos jovens que agora entram na vida activa? 
Tolstoi tem uma frase notável que vem a propósito: «O caminho correcto é este: assimila 
o que antes de ti outros fizeram e segue em frente». A minha geração assimilou as lições do 
leninismo e foi capaz de resolver todos os problemas que se colocaram ao País: construir o 
socialismo, defendê-lo da agressão fascista,  transformar o País numa grande potência 
moderna. A actual geração também conseguirá dar conta das suas complexas tarefas se 
souber aproveitar toda a valiosa experiência do passado, se assimilar os métodos 
bolcheviques de administração do País testados no passado e seguir em frente para alcançar 
a mais alta produtividade e eficiência do trabalho no mundo e a organização mais racional e 
humana da cultura, do lazer e da vida no nosso planeta. 
4647
                                                
O patriotismo, o amor à Pátria não é apenas um factor psicológico, é também uma 
poderosa força económica. Nos EUA e no Japão estes sentimentos são cultivados logo nas 
mais tenras idades, incutindo na juventude orgulho pelo seu país, pelo seu povo, pela sua 
cultura. No nosso país este orgulho é por vezes apelidado, por actuais literatos e alguma 
imprensa, como chauvinismo. 
Nós, como pioneiros do socialismo e internacionalistas  por convicção, temos razões 
acrescidas para nos orgulharmos do nosso país e das tradições heróicas do nosso povo. 
Apesar de todos os problemas e dificuldades, o futuro acabará por pertencer ao socialismo, 
enquanto que o capitalismo, não obstante os seus claros êxitos e conquistas, saíra 
inevitavelmente do palco da História. 
Espero que a nossa juventude não se perca perante as múltiplas dificuldades, que não 
ceda ao cepticismo vulgar, à descrença, à lamúria, mas que, arregaçando as mangas, lute 
pelos ideais do socialismo com a mesma energia, ardor e abnegação que caracterizaram a 
geração dos anos 30. 
Notas do tradutor 
1
Viatcheslav Mikhailovitcht Molotov (1890-1986), membro do PCUS desde 1906. 
Secretário do Comité Central do Partido Comunista da Ucrânia (1920), integra o 
Politbureau do PCUS (1926-57). Presidente do Conselho de Comissários do Povo (1930-41) 
e ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS (1939-1949 e 1953-1956). Em 1957 é 
designado embaixador na República Popular da Mongólia. 
2
Georgui Konstantinovitch Jukov (1896-1974), Marechal da União Soviética, 
coordenou as acções militares na batalha de Stalinegrado, entre muitas outras, e aceitou a 
capitulação da Alemanha fascista em 8 de Maio de 1945. Vice-ministro (1953-55) e ministro 
(1955-57) da Defesa. Candidato a membro do CC do PCUS (1941-46 e 1952-53), membro do 
CC do PCUS (1953-57), candidato a membro e membro do Presidium do CC do PCUS 
(1956-1957). Deputado do Conselho Supremo da URSS (1941-1958). 
3
Nicolai Aleksseievitch Voznessenski (1903-50), membro do PCUS desde 1919, 
presidente do Gosplan (1938-41 e 1942-45). Integra o CC do PCUS em 1939 e o PolitBureau 
em 1947. 
4
Alekssandr Sergueievitcht Iakovlev (1906-...), membro do PCUS desde 1938, dirigiu 
a criação de uma série de tipos de aviões. Caças Iak-1, Iak-2, com motor a hélice, e os jactos 
Iak-15, Iak-28, entre outros. Os jactos de passageiros Iak-40, Iak-42, auto do livro «O 
Objectivo da Vida» (1966). Deputado do Soviete Supremo da URSS desde 1946. 
5
Alekssei Nicolaievitch Kossíguin (1904-80), membro do CC do PCUS desde 1927. 
Comissário do Povo para a Indústria Têxtil (1939-40), ministro das Finanças da URSS 
(1948), ministro da Indústria Ligeira (1949-53), presidente do Gosplan (1959-60), vicepresidente (1960) e presidente (1964-80) do Conselho de Ministros da URSS, membro do 
CC do PCUS desde 1939 e do PolitBureau (1948-52 e 1960-80). 
6
Dmitri Fiodorovitch Ustinov (1908-80), membro do PCUS desde 1927, comissário do 
povo para o Armamento (1941-53), ministro da Indústria de Defesa (1953-57), vice e 
primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS (1957-65), ministro da Defesa 48
                                                                                                                                              
(1976). Membro do CC do PCUS desde 1952 candidato a membro (1966) e membro do 
PolitBureau (1976). 
7
Viatcheslav Alekssandrovitch Malechev (1902-57), membro do PCUS desde 1926. 
Comissário do Povo para a Metalomecânica Pesada (1939-1956), membro do CC do PCUS 
(1939) e do Presídium do CC do PCUS (1952-52). 
8
Ivan Feodorovitch Tevossian (1902-1958), membro do PCUS desde 1918 e 
combatente na guerra civil. A partir de 1939, ano em que passa a integrar o CC do PCUS, 
lidera uma série de comissariados (mais tarde designados ministérios) ligados à Indústria. 
Em 1956 é enviado como embaixador da URSS para o Japão. Deputado do Soviete Supremo 
da URSS desde 1937.Tevossian 
9
Boris Lvovitch Vannikov (1897-1962), membro do CC do PCUS desde 1919. Vice 
comissário da Indústria de Defesa (1937), Comissário do Povo para o Armamento (1939-
1941), Comissário do Povo para as Munições de Guerra (1942-46), primeiro vice-ministro 
da Indústria de Construção de Máquinas Médias (1953-58). Membro do CC do PCUS (1939-
61), deputado do Soviete Supremo da URSS (1946-50). 
10
Alekssei Ivanovitch Chakhurin (1904-1975), membro do PCUS desde 1925. 
Comissário do Povo (1940-46) e vice-ministro da Indústria de Aviação e vice-presidente do 
Comité de Estado para as Relações Económicas Exteriores (1953-59). Membro do CC do 
PCU(b) (1939-46). É reformado em 1959. 
11
Nikolai Semionovitch. Patolitchev (1908-…), membro do PCUS desde 1928. 
Responsável de comités regionais (1939-40), secretário do CC do PCUS (1946-47), primeiro 
secretário do CC do PC da Bielorrússia (1950-56), ministro do Comércio Externo da URSS 
(1958-85). Membro do CC do PCUS (1941-86). É reformado em 1985. 
12
Avraami Pavlovitch Zavieniaguin (1901-1956), director do Combinado Metalúrgico 
de Magnitorski e vice comissário da Indústria Pesada, responsável pela construção e 
director do Combinado metalúrgico de Norliski (1938) Vice comissário e vice ministro dos 
Assuntos Internos da URSS (1941-50), ministro da Metalomecânica, desde 1955. Membro 
do CC do PCUS desde 1956 (tinha sido candidato entre 1934-39 e desde 1952). Deputado do 
Soviete Supremo da URSS (1937-50). 
13
Alekssandr Mikhailovitch Vassilievski (1895-1977), membro do PCUS desde 1938, 
marechal da União Soviética (1943), coordenou as acções militares em várias frentes na 2ª 
Grande Guerra, ministro das Forças Armadas (1949-53), primeiro vice-ministro da defesa 
da URSS (1953-56). Membro do CC do PCUS (1952-1961), deputado do Soviete Supremo da 
URSS (1946-58). 
14
   Konstantin Konstantinovitch Rokossovski, (1896-1968) marechal da União 
Soviética (1944), comandou os exércitos em várias grandes batalhas durante a Segunda 
Guerra Mundial, designadamente Moscovo, Briansk e Donsk. Membro do PCUS desde 
1919, candidato a membro do CC (1961). Foi ministro da Defesa da Polónia (1949-56) e 
vice-ministro da Defesa da URSS (1956-57 e 1958-62). Deputado do Soviete Supremo da 
URSS (1946-49 e 1958). 
15
Ivan Stepanovitch Konev (1897-1973), marechal da União Soviética (1944), membro 
do PCUS desde 1918. Combatente na guerra civil, comandou exércitos em várias batalhas 
da 2ª Grande Guerra. Candidato desde 1939,  torna-se membro do CC em 1952. Deputado 
do Soviete Supremo da URSS desde 1937. 
16
Kirill Afanassievitch Meretskov (1897-1968) Marechal da União Soviética (1944). 
membro do PCUS desde 1917, participante na guerra civil de Espanha (1936-37), chefe 
militar na guerra soviético-finlandesa (1939), comandou vários exércitos e frentes na 2ª 49
                                                                                                                                              
Grande Guerra. Ministro-adjunto para os estabelecimentos militares de ensino superior 
(1955-64), candidato a membro do CC do PCUS (1939-56). Deputado do Soviete Supremo 
da URSS (1940-62). 
17
Alekssei Grigorievitch Stakhanov (1905/06-1977), mineiro iniciador de um 
movimento de massas de operários inovadores dos métodos de produção que foi designado 
com o seu nome. Em Agosto de 1935 estabeleceu um extraordinário recorde na extracção de 
carvão. Membro do PCUS desde 1936 e deputado do Soviete Supremo da URSS (1937-46). 
18
Saratov, região no sul da Rússia com grande concentração de indústrias de 
metalomecânica, construção de máquinas-ferramentas, motores e automóveis, 
electrodomésticos, etc. 
19
Goscontrol (Controlo Estatal), era constituído por diferentes órgãos de fiscalização da 
legalidade e disciplina, que incluíam na base os Sovietes. 
  
20
Kliment Efrimievitch Vorochilov  (1881-1969), marechal da União Soviética (1935), 
membro do PCUS desde 1908, um dos organizadores e responsáveis pelo Exército 
Vermelho. Herói da Guerra Civil. Em 1925 torna-se Comissário do Povo para os Assuntos 
da Guerra e do Mar e, em 1934, Comissário do Povo para a Defesa. Vice-presidente do 
Conselho de Ministros da URSS (1946), presidente do Presidium do Soviete Supremo da 
URSS (1953-60), membro do Politbureau (1926-60), membro do CC PCUS (1921-61 e a 
partir de 1966) 
21
  Andrei Andreevitch Andreev (1895-1971), membro do PCUS desde 1914, 
participante na Revolução de Outubro em Petrogrado, Comissário do Povo para as Vias de 
Comunicação (1931), membro do CC do PCUS (1920-1961), membro do Politbureau (1932-
52), deputado do Soviete Supremo da URSS (1937-62). 
22
Serguei Mikhailovitch Kostrikov (Kirov) (1886-1934), membro do PCUS desde 
1904, dirigiu a luta pelo Poder Soviético no Norte do Cáucaso. Primeiro secretário do 
Partido na região de Leninegrado (1926), membro do CC em 1923 e do Politbureau em 
1930. Vitimado por um atentado.  
23
 «Oposição Trotskista-Zinovievista» (1926-27), grupo fraccionário, constituído em 
partido ilegal, que contestava a possibilidade de construir o socialismo na URSS. 
24
Nikolai Ivanovitch Bukharin (1888-1938), fuzilado em 1938 no âmbito do processo 
sobre a actividade anti-soviética do «Bloco Trotskista de Direita», que se propunha 
restabelecer as relações de produção capitalistas na Rússia. 
25 Mikhail Nikolaievitch Tukhatchevski (1893-1937), marechal da União Soviética 
(1935), membro do PCUS desde 1918, chefe militar durante a guerra civil, vice-comissário 
da Guerra e do Mar (1931) e vice-comissário da Defesa (1934-36), candidato a membro do 
CC do Partido em 1934. 
26
Iona Emmanuil Iakir (1896-1937), membro do PCUS desde 1917, chefe militar na 
guerra civil, membro do CC do Partido (1934). 
27
Ieronim Pietrovitch Uborevitch (1896-1937), membro do PCUS desde 1917, 
comandante militar durante a guerra civil, ocupou vários postos no exército. Candidato a 
membro do CC do Partido (1930-37). 
28
Nota do autor: V.I. Lénine, obras completas, tomo 44, págs.364-370 [edição russa]  
29
Nota do autor: V.I. Lénine, obras completas, tomo 50, pág.161 [edição russa] 50
                                                                                                                                              
30
Feliks Edmundovitch Dzerjinski (1877-1926), membro do Partido desde 1895, foi 
um dos dirigentes da Revolução de 1905-07. Em 1907 é eleito membro do CC do Partido 
Social-Democrata Operário da Rússia. Preso e exilado durante vários anos, integrou o 
Centro Militar Revolucionário do Partido na Revolução de Outubro. Torna-se presidente 
em 1917 da Comissão Extraordinária de toda a Rússia (órgão de segurança interna, cujos 
membros eram designados como «tchequistas») e Comissário do Povo para os Assuntos 
internos (1919-23). Membro do CC (1917) e candidato a membro do Politbureau (1924). 
31
Vassili Konstantinovitch Bliukher (1890-1938), membro do PCUS desde 1916, 
marechal da União Soviética (1935), comandou batalhas durante a guerra civil, ocupou 
destacados postos militares, candidato a membro do CC (1934-1938). 
32
Vissaron Grigorievitch Belinski (1811-48), famoso crítico literário russo, democrata 
revolucionário e filósofo materialista.  
33
Iakov Ivanovitch Alksnis (1897-1938), membro do PCUS desde 1916, chefe militar na 
guerra civil, vice comandante (1921-31) e comandante da Força Aérea (1931-36). 
34 Helena Dmitrievna Stassova (1873-1966), participante nas revoluções de 1905-07 e 
de 1917, secretária do CC (1917-20), no Komintern (1921-26), membro da Comissão 
Internacional de Controlo do Komintern (1935-43).  
35
Nota do autor: Segundo testemunho de uma antiga secretária de E.D. Stassova, nos 
anos 50, no CC da União da Juventude Comunista Leninista de toda a URSS. 
36
Lion Feuchtwanger (1884-1954) 
37 Martin Andersen-Nexö, escritor dinamarquês (1869-1954) 
38
Trofim Denissovitch Lessienko (1898-1976), biólogo e agrónomo, deputado do 
Soviete Supremo da URSS (1937-66). 
39
Nikolai Ivanovitch Vavilov (1887-1943) biólogo, primeiro presidente da Academia 
das Ciências de Agronomia Lénine (1929-35) 
40
Igor Vassilevitch Kurtchakov (1902/03-1960), físico soviético, pioneiro na ciência e 
tecnologia atómica na URSS, dirigiu a investigação que levou à descoberta da divisão do 
átomo de urânio (1940), a construção do primeiro reactor nuclear na Europa (1946), da 
primeira bomba atómica soviética (1949), da primeira bomba termonuclear em todo 
mundo (1953) e da primeira central eléctrica atómica (1954). Membro do PCUS desde 1948, 
deputado do Soviete Supremo da URSS desde 1950. 
41
Serguei Pavlovitch Koroliev (1907-1966), cientista e construtor de mísseis e naves 
espaciais. Sob a sua direcção foram construídos os primeiros mísseis balísticos, os 
primeiros satélites para fins diversos, e as naves espaciais «Vostok», «Voskhod» nas quais 
se realizaram os primeiros voos espaciais e a primeira saída do homem no espaço sideral. 
Membro do PCUS (1953). 
42
Coeficiente de Actividade Útil: indicador de eficiência de um sistema baseado na 
relação do total da energia fornecida e da que é efectivamente transformada no ciclo de 
trabalho  
43
Nota do autor: V.I. Lénine, obras completas, tomo 30, pág. 351 [edição russa] 
44
Trigo tremês: variedade de trigo que nasce e amadurece em três meses. 51
                                                                                                                                              
45
Vernalização: técnica de redução do ciclo vegetativo de uma planta através do 
tratamento das suas sementes e bolbos com agentes químicos para apressar a sua floração 
ou frutificação. 
46
Pavel Panteleimonovitch Lukianenko (1901-1973), membro da Academia de 
Ciências da URSS (1964), membro do PCUS (1964), deputado do Soviete Supremo da URSS 
(1962). 
47
Iuri Andreievitch Jdanov (1919-...), cientista químico, membro do PCUS desde 1944, 
membro do CC (1952-56). Filho de Andrei Alekssandrovitch Jdanov (participante na 
revolução de Outubro e na guerra civil, membro do PolitBureau desde 1939). 
48
Kliment Arkadievitch Timiriazev (1843-1920), naturalista-darwinista, um dos 
fundadores da escola científica russa de fisiólogos de plantas. Foi deputado do Soviete de 
Moscovo em 1920.  
49
Ivan Petrovitch Kulibin (1725-1818), autodidacta russo, inventor de inúmeros 
sistemas mecânicos, concebeu o projecto e o modelo da ponte sobre o rio Neba com um só 
arco de 298 metros. 
50
Ivan Ivanvitch Polzunov (1728-1766), um dos inventores do motor térmico. É autor 
do primeiro projecto em todo do mundo (1763) de uma máquina a vapor com dois cilindros 
que acabou por não conseguir construir. 
51
Andrei Ianurievitch Vechinski (1883-1954), jurista e diplomata soviético. Membro 
do PCUS desde 1920, mencheivique entre 1903 e 1920. Procurador da União Soviética 
(1933-39), ocupou altos cargos no Ministério dos Negócios Estrangeiros (1940-53). 
Membro do CC (1937-50 e 1954). 
52
Anastas Ivanovitch Mikoian (1895-1978), membro do PCUS desde 1915. Foi um dos 
organizadores da luta pelo Poder Soviético no Azerbaidjão. Entre 1926-46 foi Comissário do 
Povo para o Comércio Interno e Externo, Comissário para o Abastecimento e Comissário 
para a Indústria alimentar. Ministro do Comércio Exterior (1946-49); ministro do Comércio 
da URSS (1953-55), primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS (1955), 
presidente do Soviete Supremo da URSS (1964-65). Membro do CC (1923-76), membro do 
Politibureau (1935-66), deputado do Soviete Supremo (1937-74). 
53
Panteleimon Kondratievitch Ponomarenko (1902-84), membro do PCUS desde 
1925. Primeiro secretário do CC do Partido Comunista da Ucrânia (1938), dirigiu o estadomaior da guerrilha a partir de 1942. Em 1948 torna-se em simultâneo secretário do CC do 
PCUS e ministro do Aprovisionamento da URSS, ministro da Cultura (1953), primeiro 
secretário do CC do PC do Kasaquistão (1954), embaixador da URSS na Polónia, Índia, 
Nepal e Holanda (1955-62). Membro do Presidium do Soviete Supremo da URSS (1941-51e 
1954-58). É reformado em 1978. 
54
Nota do autor: Lion Feuchtwanger, Moscovo, 1937, pág. 26 
55
Partorg (organizadores do partido), dirigentes eleitos nas organizações partidárias dos 
diferentes níveis. 
56 Manilov, um dos protagonistas da obra de Nicolai Gogol «Almas Mortas». Expressão 
utilizada para designar projectos irrealistas, inúteis e desligados da realidade. 
57
Iakov Arkadi Iakovlev (o seu verdadeiro apelido era Epchtein), membro do Partido 
desde 1913, foi um dos dirigentes que combateram pelo Poder Soviético na Ucrânia, 
ministro da Agricultura entre 1929 e 1933. Foi fuzilado em 1938. 52
                                                                                                                                              
58
 «Oblomovismo»,  termo com origem na personagem de Oblómov, protagonista do 
romance homónimo de Ivan Alekssandrovitch Gontcharov (1812-1891), que representa a 
inércia, a preguiça e a ociosidade. 
59
 «Oposição Operária», grupo fraccionário de tendência anarco-sindicalista formado no 
Partido Comunista da Rússia (bolchevique) entre 1920-22. Contestava o papel dirigente do 
Partido e do Estado Soviético, elegendo os sindicatos como a forma suprema de organização 
da classe operária, aos quais deveria ser entregue a administração da economia. 
60
Alekssandra Mikhailovna Kollontai (1872-1952), membro do PCUS desde 1915, 
participante na Revolução de Outubro, em Petrogrado. Membro do CC, foi Comissária do 
Povo entre 1917-18. Adere aos «Comunistas de Esquerda» em 1918 e à «Oposição 
Operária» em 1920-22. Foi a primeira mulher embaixadora no mundo. Representante de 
Negócios da URSS na Noruega (1923), no México (1926), embaixadora na Suécia (1930-
1945). 
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