23 DE MAIO de 1965

 

Nesta data o governo brasileiro se submeteria à política externa imperialista dos Estados Unidos e participaria com tropas da invasão da República Dominicana. A criminosa invasão, que recebeu o nome de Operação Power Pack, visava derrubar o governo democrático de Juan Bosch.
 
 
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No ano era 1965 o ditador Castelo Branco queria demonstrar seu alinhamento incondicional aos EUA. Os norte-americanos pressioaram a OEA (Organização dos Estados Americanos) para aprovarem sua invasão ao país caribenho. Só conseguiram apoio do Brasil, do Paraguai de Alfredo Strossner e da Nicarágua de Anastacio Somoza, todas nações sob regimes autoritários naquela época.

As tropas brasileiras entraram, ao lado dos marines, em choque com os seguidores do reformista Juan Bosch. 

A guerra civil começou com a destituição do presidente eleito Juan Bosch. Os EUA temiam que Bosch, que havia promovido uma reforma agrária nas terras do ex-ditador Rafael Trujillo,se transformasse em um novo Fidel no mar do Caribe. 

Logo veio o golpe militar, mas os partidários de Bosch partiram para o contra-ataque e a guerra entre as facções. No final, em 1966, o poder ficou nas mãos de Joaquín Ballaguer, que fora vice-presidente no regime sanguinário de Trujillo. 

A posição estratégica da ilha motivou invasões, seja da França, do vizinho Haiti ou dos EUA, que ocuparam o país de 1916 a 1922. Entre os discípulos mais brilhantes das forças de ocupação se encontrava Rafael Trujillo.

A partir de 1930, ele se mostrou em maior exemplo de ditator latino-americano que se apropria das riquezas do país e massacra seus opositores. No final, só saiu do poder morto, assassinado por seus antigos seguidores a tiros quando saía da casa de uma amante.

A República Dominicana vive agora sob regime democrático, e as próximas eleições presidenciais estão marcadas para maio de 2004.

 

 

 

 

4 de maio de 1937

 

 

 

Nesta data nos deixava Noel Rosa, o poeta da Vila e um dos maiores compositores brasileiros. Primeiro filho de seu Manoel e dona Marta de Medeiros Rosa, Noel veio ao mundo em 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, RJ, em parto difícil - para não perderem mãe e filho, os médicos usaram o fórceps para ajudar, o que acabou causando-lhe a lesão no queixo, que o acompanhou por toda a vida.

Franzino, Noel aprendeu a tocar bandolim com sua mãe - era quando se sentia mais importante, lá no Colégio São Bento. Sentava-se para tocar, e todos os meninos e meninas paravam para ouvi-lo extasiados. Com o tempo, adotou o instrumento que seu pai tocava, o violão.

Magro e debilitado desde muito cedo, dona Marta vivia preocupada com o filho, pedindo-lhe que não se demorasse na rua e que voltasse cedo para casa. Sabendo, certa vez, que Noel iria à uma festa em um sábado, escondeu todas as suas roupas. Quando seus amigos chegaram para apanhá-lo, Noel grita, de seu quarto: "Com que roupa?" - no mesmo instante a inspiração para seu primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval de 1931, onde vendeu 15000 discos!

Foi para a faculdade de medicina - alegria na família - mas a única coisa que isso lhe rendeu foi o samba "Coração" - ainda assim com erros anatômicos. O Rio perdeu um médico, o Brasil ganhou um dos maiores sambistas de todos os tempos.

Genial, tirava até de brigas motivo de inspiração. Wilson Batista, outro grande sambista da época, havia composto um samba chamado "Lenço no Pescoço", uma ode à malandragem, muito comum nos sambas da época. Noel, que nunca perdia a chance de brincar com um bom tema, escreveu em resposta "Rapaz Folgado" (Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha) . Wilson, irritado, compôs "O Mocinho da Vila, criticando o compositor e seu bairro. Noel respondeu novamente, com a fantástica "Feitiço da Vila". A briga já era um sucesso, todo mundo acompanhando. Wilson retorna com "Conversa Fiada" (É conversa fiada / Dizerem que os sambas / Na Vila têm feitiço). Foi a deixa para Noel compor um dos seus mais famosos e cantados sambas, "Palpite Infeliz" . Wilson Batista, ao invés de reconhecer a derrota, fez o triste papel de compor "Frankstein da Vila" , sobre o defeito físico de Noel. Noel não respondeu. Wilson insistiu compondo "Terra de Cego". Noel encerra a polêmica usando a mesma melodia de Wilson nessa última música, compondo "Deixa de Ser Convencido"

Noel era tímido e recatado, tinha vergonha da marca que trazia no rosto, evitava comer em público por causa do defeito e só relaxava bebendo ou compondo. Sem dinheiro, vivia às custas de poucos trocados que recebia de suas composições e do auxílio de sua mãe. Mas tudo que ganhava era gasto com a boemia, com as mulheres e com a bebida. Isso acelerou um processo crônico pulmonar que acabou em tuberculose. Noel morreu no Rio de Janeiro, em 04 de maio de 1937, aos 26 anos, vitimado pela doença.

Carô Murgel

 

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O poeta da Vila sofreu e cantou um grande amor, que, para ele, “tem sempre um triste fim”. O romance entre Noel Rosa e a dançarina Juraci Correia - ou apenas Ceci - foi um dos casos de amor mais lírico da história da MPB

Bruno Viveiros Martins

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    Foto de Noel Rosa, 1937. Conhecido pelos seus sambas bem-humorados, o poeta falava sério ao cantar o amor.

    Foto de Noel Rosa, 1937. Conhecido pelos seus sambas bem-humorados, o poeta falava sério ao cantar o amor.

    Numa festa de São João no bairro carioca da Lapa, em 23 de junho de 1934, Noel Rosa conheceu uma dama de cabaré que o encantou: Juraci Correia de Moraes. Ceci, como era mais conhecida, era uma adolescente de 16 anos, recém-chegada da cidade serrana de Nova Friburgo. Nessa data em que Noel era homenageado no Cabaré Apolo, Ceci conseguia seu primeiro emprego como dançarina. Começaria aí um dos casos de amor mais líricos da história da canção popular brasileira.

    Até então, Noel já havia conquistado a fama com o sucesso “Com que roupa”; posto o país à venda em “Quem dá mais?”; composto emboladas com o Bando dos Tangarás; arriscado sambas anatômicos, como “Coração”, epistolares, como “Cordiais saudações”, e fonéticos, como “Picilone”. Noel declarava todo o seu amor ao “feitiço sem farofa” de Vila Isabel, envolvia-se em polêmicas com Wilson Batista sobre a malandragem e o valor do sambista, e andava pelos morros do Estácio, Salgueiro, Mangueira e Matriz na companhia de Cartola, Bide, Canuto, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres.

    Noel cantou os bêbados, os maltrapilhos, os maltratados, a boemia, a cidade, a noite, a modernidade, os acertos e os desmazelos do Brasil. Cantou de forma crítica, irreverente, satírica, bem-humorada. Debochado, zombou da tragédia alheia e também da sua própria. Afinal, era um homem comum, como todos os seus personagens. Por essa razão, suas canções eram ouvidas no cinema, no carnaval, no rádio e no teatro.  O “bacharel” da Vila não precisou de diploma de colégio para desvendar o mistério do samba. Segundo Noel, o samba “não vem do morro nem da cidade”.

    Tudo isso parece ter perdido um pouco do seu brilho diante do encontro com uma jovem que se tornaria uma das mulheres mais desejadas da Lapa. O romance entre Noel e Ceci durou três anos, os últimos da vida do compositor. E rendeu várias brigas, muita confusão, algumas idas e vindas e sambas impecáveis, como “Dama do cabaré”, “O maior castigo que eu te dou”, “Quem ri melhor”, “Só pode ser você”, “Pra que mentir”, “Silêncio de um minuto”, “Último desejo”.

    Suas composições, principalmente as dedicadas a Ceci, pouco se assemelham ao estilo dos sambas extrovertidos, em tom de galhofa e sátira, com que Noel cantava o cotidiano do povo carioca. Ao cantar o amor, ele fala sério. Porém, fala na língua do povo. Adota a linguagem do cotidiano como antídoto e usa tudo aquilo que era tido como prosaico, popularesco, vulgar, impróprio... Para os críticos, nada disso convinha a uma obra que tematizasse o amor, sentimento sublime, dedicado às figuras femininas quase inalcançáveis.

    Noel Rosa propõe uma nova atitude diante da canção popular, da mulher e do amor. Sem prosopopeias, ele canta os sentimentos vividos e não sonhados. Suas personagens são de carne e osso, e em nada se parecem com musas encasteladas em altares longínquos. Seus sambas empregam a linguagem coloquial para cantar os diversos aspectos da vida carioca. Seu modo intimista e descontraído de cantar e de se fazer acompanhar em várias gravações de suas composições coloca sua obra em sintonia com o universo urbano da época.
    Durante muito tempo, os compositores assumiram um modelo bem comportado para falar da mulher como “moças de família” e “esposas dedicadas”, consagradas em canções como “Ai que saudades da Amélia” (1942), de Ataulfo Alves e Mário Lago. Este samba, de enorme sucesso, cristalizou a imagem idealizada de que a “mulher de verdade” não faz exigências, não tem desejo próprio nem vaidade. Ela apenas cumpre de forma resignada e submissa os deveres do lar. Poeta muito soturno, Noel deixa clara a sua preferência pelas mulheres da noite, como na canção “Dama do cabaré”, composta em 1936 e dedicada a Ceci:

    Foi num cabaré na Lapa
    Que eu conheci você,
    Fumando cigarro,
    Entornando champanhe no seu soirée.
    Dançamos um samba,
    Trocamos um tango por uma palestra.
    Só saímos de lá
    Meia hora depois de descer a orquestra.
    Em frente à porta um bom carro nos esperava,
    Mas você se despediu e foi pra casa a pé.
    No outro dia lá nos Arcos eu andava
    À procura da dama do cabaré.


    Por meio de suas canções de cunho amoroso, Noel Rosa lança o moralismo às favas numa época em que a figura feminina era quase sacralizada. Cantar o amor carnal, erótico, sem decoro e livre dos códigos de compostura, por uma dançarina de cabaré e sofrer por uma mulher que não vivia dentro dos padrões de conduta social era desafiar o sempre convicto lema da defesa da moral e dos bons costumes.

    Em fins de 1936, o sambista da Vila andava afastado do burburinho da Lapa. Corria a notícia de que Ceci tinha um novo amor: o ator de teatro e também compositor Mário Lago (1911-2002). No dia de seu aniversário, 11 de dezembro, Noel resolveu ir ao encontro da amada. Decide, então, procurá-la para trocar algumas palavras. Quem sabe um jantar no fim da noite? Ela aceitou o convite, mas já era tarde. O silêncio entre os dois havia se tornado absoluto. Noel confessou o seu luto em uma canção destinada a homenagear um “um amor cheio de glória” que lhe pesa na memória. Na noite em que saiu para comemorar seu aniversário, compôs ironicamente, ao pé da cama da musa, seu “Último desejo”, canção que anunciava o fim do romance:

    Nosso amor que eu não esqueço,
    E que teve o seu começo
    Numa festa de São João
    Morre hoje sem foguete,
    Sem retrato e sem bilhete,
    Sem luar, sem violão.
    Perto de você me calo,
    Tudo penso e nada falo
    Tenho medo de chorar.
    Nunca mais quero o seu beijo,
    Mas meu último desejo
    Você não pode negar.
    Se alguma pessoa amiga
    Pedir que você lhe diga
    Se você me quer ou não,
    Diga que você me adora,
    Que você lamenta e chora
    A nossa separação.
    Às pessoas que eu detesto,
    Diga sempre que eu não presto
    Que meu lar é o botequim,
    Que eu arruinei sua vida,
    Que eu não mereço a comida
    Que você pagou pra mim.


    Com esse samba em forma de testamento, Noel se despede de Ceci. Despojado de qualquer extravagância ou sentimentalismo, ele cantou o amor de maneira simples e requintada, em que letra e melodia são elaboradas de forma cuidadosa. Sua desilusão era uma experiência do mundo real. Seus versos são cantados na primeira pessoa, mas já não havia mais nada o que fazer em nome desse amor. Não existe em Noel qualquer oposição entre vida e arte. Cronista da modernidade urbana, seus sambas estão impregnados de vida, mesmo quando o assunto é o fim do amor.

    O compositor não teve tempo de ouvir a gravação lançada pela cantora Aracy de Almeida (1914-1988) em março de 1938. Ela só foi possível porque Noel, já com a saúde muito debilitada, confiou seu registro ao amigo e parceiro Vadico (1910-1962). O lançamento póstumo, poucos meses após sua morte, fez um grande sucesso na voz de Aracy de Almeida, que foi, ao lado de Marília Batista, uma das principais intérpretes de Noel Rosa. Ainda no início da carreira, a cantora já dava mostras da personalidade forte que a marcou ao longo de sua vida artística.

    Na gravação de “Último desejo”, Aracy tomou a liberdade de fazer ligeiras alterações em alguns versos. Ela canta “Que meu lar é um botequim” em lugar de “Que meu lar é o botequim”. A modificação leva a crer que o narrador teria um lar, longe da boemia. A versão original, ao contrário, deixa claro que ele não teria outro lar que não fosse o próprio bar. Fato sintomático, se lembrarmos que Noel era casado com Lindaura Martins, mas confessava seu amor a Ceci em um samba reconhecidamente autobiográfico. “Último desejo” foi regravada em 1963 por Marília Batista, em uma versão que também levanta polêmica. Segundo ela, o compositor teria ensinado à cantora uma segunda parte do samba diferente da versão consagrada por Aracy.

    A história do amor de Noel por Ceci foi revisitada de forma magistral por uma cantora ainda novata, recém-chegada da Bahia, em 1965: Maria Bethania. Nesse ano, ela lança o compacto “Maria Bethania canta Noel Rosa”. Fiel à dor do “filósofo do samba”, Maria Bethania acentua o tom de melancolia, dotando ainda de mais pesar a exatidão dos versos do sambista. Acompanhada somente pelo violão de Carlos Castilho, ela volta ao passado para homenagear o compositor e também Aracy de Almeida. Na década de 1950, a intérprete fez uma série de gravações do repertório do sambista, contribuindo para que Noel fosse redescoberto pelas novas gerações por meio de discos como “Canções de Noel Rosa com Aracy de Almeida”, lançado em 1955.

    Considerada uma das obras-primas de Noel Rosa, “Último desejo” mereceu muitas regravações. Todas elas contribuem para que esse samba cumpra o seu papel: lembrar o sentimento dedicado pelo sambista à sua amada. Mesmo sabendo que todo “grande amor tem sempre um triste fim”.

    Bruno Viveiros Martins é autor do livro Som Imaginário: a reinvenção da cidade nas canções do Clube da Esquina (Editora UFMG, 2009).

    Saiba Mais - Bibliografia

    ALMIRANTE. No tempo de Noel Rosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
    MAXIMO, João; DIDIER, Carlos. Noel Rosa, uma biografia. Brasília: Linha Gráfica: Ed. UnB, 1990.
    NAVES, Santuza Cambraia. “Modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila!: a cidade fragmentada de Noel Rosa”. Estudos Históricos, v. 16, p. 251-268. Rio de Janeiro, 1995.
    PACHECO, Jacy. Noel Rosa e sua época. Rio de Janeiro: G.A. Penna, 1955.

    Saiba Mais - Discos

    ARACY DE ALMEIDA. “Canções de Noel Rosa com Aracy de Almeida”. Continental, 19

 

 

 

 

25 de abril de 1974

 

 

Nesta data o povo português saiu as ruas e derrubou o regime salazarista e estabeleceu as liberdades democráticas promovendo transformações sociais do país. Após o golpe militar de 1926, foi estabelecida uma ditadura no país. No ano de 1932, Antônio de Oliveira Salazar tornou-se primeiro-ministro das finanças e virtual ditador. Salazar instalou um regime inspirado no fascismo italiano. As liberdades de reunião, de organização e de expressão foram suprimidas com a Constituição de 1933. 


Portugal manteve-se neutro durante a Segunda Guerra Mundial. A recusa em conceder independência às colônias africanas estimulou movimentos guerrilheiros de libertação em Moçambique, Guiné-Bissau e Angola. Em 1968 Salazar sofreu um derrame cerebral e foi substituído por seu ex-ministro Marcelo Caetano, que prosseguiu com sua política. A decadência econômica e o desgaste com a guerra colonial provocaram descontentamento na população e nas forças armadas. Isso favoreceu a aparição de um movimento contra a ditadura. 

No dia 25 de abril de 1974, explode a revolução. A senha para o início do movimento foi dada à meia-noite através de uma emissora de rádio, a senha era uma música proibida pela censura, Grândula Vila Morena, de Zeca Afonso. Os militares fizeram com que Marcelo Caetano fosse deposto, o que resultou na sua fuga para o Brasil. A presidência de Portugal foi assumida pelo general António de Spínola. A população saiu às ruas para comemorar o fim da ditadura e distribuiu cravos, a flor nacional, aos soldados rebeldes em forma de agradecimento.

 

 22 de abril de 1870

 

En esta data nació uno de los más geniales teóricos y políticos de la humanidad: Vladimir Ilich Lenin.

"Nadie, como él, fue capaz de interpretar toda la profundidad y toda la esencia y todo el valor de la teoría marxista. Nadie, como él, fue capaz de interpretar esa teoría y llevarla adelante hasta sus últimas consecuencias. Nadie, como él, fue capaz de desarrollarla y de enriquecerla en la forma en que él lo hizo", dijo el Comandante en Jefe Fidel Castro Ruz, en ocasión del centenario de su natalicio.

Lenin fue una persona con sentido del deber revolucionario. Como teórico y político legó una doctrina revolucionaria, resultado de la aplicación consecuente del marxismo-leninismo en nuevas condiciones históricas, y su labor rebasó los límites de su patria, convirtiéndolo en inspirador del movimiento progresista mundial.

Los enemigos del socialismo han tratado de demonizarlo, han tratado de negar la dimensión histórica de su pensamiento y acción.

Pero a Lenin le correspondió encontrar el campo de la acción concreta para llevar la teoría a la práctica. Entre sus aportes al marxismo y al progreso de la humanidad se destacan su teoría del imperialismo como última fase del desarrollo capitalista, la creación del partido de nuevo tipo, la revolución socialista y la dictadura del proletariado, la relación indisoluble entre la liberación nacional y la liberación social, los principios de la coexistencia pacífica y la teoría sobre las vías de construcción del socialismo.

Su obra queda como un nuevo punto de partida en la historia. Como lo describen muchos de los que lo conocieron nunca se creyó infalible ni ocultó sus propios errores; se caracterizaba por ser una persona con una voluntad indesviable, un hombre de fuerza mental y mucha modestia, que se distinguía por su socialibilidad y disposición alegre, libre de poses o gestos artificiales y por eso ni sus más acérrimos adversarios pudieron eclipsar ni su carisma ni su grandeza.

Como señaló Fidel en el centenario del natalicio de Vladimir Ilich Lenin el 22 de abril de 1970: Lenin es de esos casos humanos realmente excepcionales. La simple lectura de su vida, de su historia y de su obra, el análisis más objetivo de la forma en que se desenvolvió su pensamiento y su actividad a lo largo de su vida, lo hacen en realidad ante los ojos de todos los humanos un hombre verdaderamente excepcional.

 

 21 de abril de 1792

Nesta data o Alferes da Cavalaria de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, primeiro herói da luta pela independência brasileira, dava ao mundo um exemplo de coragem e abnegação pela causa da liberdade. Por seus ideias de Independência, Abolição, República, Indústrialização e Ensino Público e Gratuito, o militar mineiro deu sua vida, passando à história como símbolo da Independência Nacional. Apenas 30 anos após seu martírio, o país conquistava sua liberdade definitiva do jugo colonial. Dariam sequência à luta heróica de Tiradentes, José Bonifácio, que, com habilidade, inteligência e perspicácia, levou o Brasil a declarar, em 1822, o rompimento com o domínio português. E Getúlio Vargas, que, com a Revolução de 1930, resgatou a figura de Tiradentes, libertou as imensas forças produtivas contidas pelo retrógrado modelo agrário exportador e iniciou o processo de industrialização do país. Com o avanço de sua revolução, Getúlio preparou o terreno para a entrada em cena da classe operária brasileira. Depois dele vieram Juscelino, Jango, Teotônio, Tancredo, Claudio Campos e muitos outros. Agora, em 21 de abril de 2009, nasceu o Partido Pátria Livre ((PPL), uma legenda que reúne patriotas de todos os recantos do país e tem como objetivo central completar a obra iniciada por Tiradentes e Getúlio. Adotando e enriquecendo o programa nacional-desenvolvimentista como instrumento de luta para enterrar a podridão neoliberal [ a nova máscara do imperialismo] que assola o nosso país e o mundo, o PPL torna-se o herdeiro atual dos construtores do Brasil. 

 

 

 17 de abril de 1961

 
 
 
Nesta data fracassa a tentativa de um grupo de gusanos exilados em Miami de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, com o apoio do governo dos Estados Unidos, O objetivo da invasão era provocar um levante que derrubaria Fidel Castro, o líder do povo cubano. Fidel estava em curso de colisão com os Estados Unidos quase desde que tomou o poder. Dwight D. Eisenhower, antecessor imediato de Kennedy na Casa Branca, fazia ameaças de todos os tipos. Eisenhower já tinha usado a CIA para derrubar governos “indesejáveis” no Irã e na Guatemala. Em 1960, no último ano de sua presidência, ele apelou novamente para os serviços da agência. A CIA bolou um plano para financiar, equipar e treinar na Guatemala um grupo de cubanos que haviam emigrado para os EUA. A ideia era ajudá-los em uma invasão anfíbia. Para dar cobertura à operação, haveria bombardeios à força aérea de Cuba. 

Prosseguir com o plano para derrubar o líder cubano, ou colocá-lo em fogo brando? Esse era o dilema que Kennedy enfrentou quando substituiu Eisenhower na Casa Branca em janeiro de 1961. Após discutir o tema espinhoso em incontáveis reuniões com conselheiros nas primeiras semanas de sua presidência, Kennedy decidiu dar sua bênção à invasão, desde que fosse executada tão discretamente quanto possível – e com o papel americano na operação dissimulado. 

Kennedy pediu aos agentes da CIA para substituirem o local preferido deles para a invasão – Trinidad, ao sul da costa cubana – por um menos populoso e ostensivo. Eles trouxeram a ideia da Baía dos Porcos, uma enseada na costa sul da ilha, de população mais esparsa, a 145 quilômetros a sudeste da capital, Havana. 

A operação mostrou-se um desastre humilhante. Antes do ataque, um bombardeio aéreo por B-26s nas principais instalações aeronáuticas de Cuba, em 15 de abril, não conseguiu destruir toda a força aérea de Fiel. Quando a frota de exilados aproximou-se de Cuba, seus barcos estavam danificados pelos recifes de corais. Fidel rapidamente mobilizou sua milícia de 200 mil homens e, no dia a invasão, 17 de abril, despachou forças consideráveis para a praia. Ele também teria aumentado a vigilância sobre opositores à sua liderança – dificultando as pretensões americanas de que o ataque fosse o pavio de um levante de quinta- colunas.

Enquanto isso, JFK deu outro golpe na operação ao cancelar o segundo bombardeio nos campos aéreos de Cuba, temendo que isso revelasse ao mundo o envolvimento dos EUA. Isto permitiu que Fidelo usasse os aviões que sobreviveram ao ataque inicial, conjuntamente com o fogo da infantaria, para atacar os invasores. Em 19 de abril, a tropa de gusanos apoiados pela CIA começou a se render. A invasão da Baía dos Porcos havia fracassado.

 

 

 16 de abril de 1889

 

Nesta data nasceu Charles Chaplin, o maior gênio do humor e da irreverência de todos os tempos. Ele foi ator, cineasta, dançarino, diretor e produtor inglês. Também conhecido por "Carlitos". Foi o mais famoso artista cinematográfico da era do cinema mudo. Ficou notabilizado por suas mímicas e comédias do gênero pastelão. O personagem que mais marcou sua carreira foi "O Vagabundo" (The Tramp), um andarilho pobretão com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, vestido com um casaco esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu coco, uma bengala e seu marcante bigode.

Charles Chaplin (1889-1977) nasceu em Londres, Inglaterra, no dia 6 de abril de 1889. Seu pai Charles Spencer Chaplin, era vocalista e ator e sua mãe Hannah Chaplin, era cantora e atriz. Seus pais se separam antes de Charles completar três anos. Em 1894 com apenas cinco anos Chaplin subiu ao palco e cantou a música "Jack Jones". Seu pai era alcoólatra e tinha pouco contato com o filho. Morreu de cirrose hepática em 1901. Sua mãe foi internada em um asilo e Chaplin foi levado para uma casa de trabalho e depois transferido para uma escola de crianças pobres.

Em 1908 emprega-se em teatros de variedades e faz sucesso como mímico. Em 1910 iniciou sua primeira turnê nos Estados Unidos com a trupe de Fred Karmo, retornando a Inglaterra só em 1912. Em 1913 estréia no cinema, nos estúdios Keystone Film Company, onde criou em 1915 a comédia "O Vagabundo" seu mais famoso personagem, um andarilho, pobretão, com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, vestido com casaco esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largo que o seu número, um chapéu coco uma bengala e seu marcante bigode.

Charles Chaplin dirigiu, editou e produziu vários curta e longa metragens. O cinema mudo era entendido por todos. Produziu vários filmes que se tornaram clássicos do cinema nudo, entre eles "O Garoto" em 1921, que conta a história de um bebê que acaba ficando aos cuidados de um vagabundo; "Em Busca do Ouro" em 1925, que se passa no Alasca em plena corrida do ouro; "Luzes da Cidade" em 1931, que conta a história do vagabundo que se finge de milionário para impressionar uma florista muda, por qual se apaixonou, sendo esse o primeiro filme produzido na época do cinema falado; "Tempos Modernos" em 1936, que satiriza a mecanização da modernidade e "O Grande Ditador" em 1940, em que toma partido contra o fascismo e as perseguições raciais na Europa. Passou a ser perseguido pela direita americana, simpatizante do nazismo. Foi expulso do país depois de uma manobra de Edgar Hoover, chefe do FBI.   

Charles Chaplin tem uma vida sentimental intensa casa-se quatro vezes, as três primeiras com estrelas do cinema. Com 54 anos, conhece a filha do teatrólogo irlandês Eugene O'Neill, Oona, de 18 anos, que se torna sua quarta mulher e com quem vive até o fim da vida, tendo seis filhos. Perseguido pelo macarthismo, muda-se em 1952 para Corsier sur Vevey, na Suíça.

 

 

15 de abril de 1912

 

 

 

Nesta data nascia Kim Il Sung, presidente da Coréia Popular.  Kim Il Sung é o Patriarca da nação coreana. O líder comandou a heróica e prolongada luta pela independência do país da invasão estrangeira e dirigiu a revolução e a construção socialista até 1994, data de seu falecimento.

Depois de derrotar os japoneses quando tinha apenas 33 anos, Kim Il Sung liderou a luta contra a agressão norte-americana, de 1950 a 1953. O império, que promoveu quase dois mil provocações armadas no paralelo 38 para forçar a Coréia a iniciar a guerra, foi recha-çado. Numa atuação fulminante, o Exército Popular, fundado e incentivado por Kim Il Sung, empurrou as hordas ianques até o extremo sul da península.

Da situação de destruição a que o ataque japonês e, depois, dos EUA, a levaram, a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) se levantou, construiu uma poderosa e pujante economia, acabou com o analfabetismo e o desemprego, tornou-se um país soberano, independente e culto. Desenvolveu a tecnologia e a ciência. Siderurgia, química, máquinas-ferramentas, aviões, aços finos. Tecnologia nuclear para fins pacíficos, permitindo o fornecimento de energia em condições naturais precárias. Um rico e crescente movimento editorial e artístico.

Com o povo unido em defesa de sua independência, o presidente Kim Il Sung enfrentou a política guerreira e intervencionista dos EUA, tarefa hoje continuada e aprimorada pelo seu filho e sucessor, Kim Zong Il.

O império mantém até hoje mais de 37 mil soldados armados na fronteira com a Coréia do Sul e promove um bloqueio criminoso, com a pretensão de submeter a RPDC. O Exército Popular, criado em 1942, cresceu e se integrou profundamente com seu povo, e tem sido um elemento fundamental para a defesa e desenvolvimento da nação, dissuadindo as ameaças do governo Bush.

“Historicamente é inevitável que uma Nação dividida artificialmente por forças estrangeiras se reunifique. Não há manobra frenética dos divisionistas do exterior e do interior que possa suprimir a firme vontade de toda a Nação pela reunificação da Pátria, nem deter a torrente atual em prol desta causa”, afirmou o grande revolucionário Kim Il Sung, expressando o anseio maior do povo coreano.

Em junho de 2001, seguindo os princípios legados pelo líder, o atual dirigente da RPDC Kim Zong Il promoveu um histórico encontro com o presidente da Coréia do Sul, Kim Dae Jung, que representou um marco na superação das imposições do império. Famílias separadas durante anos se encontraram, festivais culturais e esportivos reuniram a juventude corea-na, eventos comerciais deslancharam, ferrovias paradas voltaram a funcionar.

Fonte  Hora do Povo

 

 

 13 de abril de 2002

 Nesta data o presidente Hugo Chávez retorna ao poder nos braços do povo depois da derrota do golpe organizado pela mídia reacionária e forças direitistas apoiadas pelo governo dos EUA.  

 

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Presidente da Venezuela no II Encontro Mundial de Solidariedade à Revolução Bolivariana:

Hugo Chávez: “Caiu a máscara desse imperialismo que tentava se camuflar”

“O neoliberalismo, cristalinamente, fracassou. E acho que há algo mais importante ainda dentro dessa realidade: em boa parte do mundo, as forças que estão construindo um novo caminho para um mundo melhor, mais justo e humano, estão avançando”, afirmou o presidente venezuelano Hugo Chávez

“Caiu a máscara desse imperialismo que tentava se camuflar. O neoliberalismo, cristalinamente, fracassou. E acho que há algo mais importante ainda dentro dessa realidade, que é que em boa parte do mundo, as forças que estão construindo um novo caminho para um mundo melhor, mais justo e humano, estão avançando na América, Europa, África e Ásia. Há perspectivas alentadoras no horizonte. A batalha está começando, mas vamos ganhar a batalha!”, afirmou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao inaugurar o II Encontro Mundial de Solidariedade com a Revolução Bolivariana da Venezuela, no Salão Ayacucho, no palácio de Miraflores, em Caracas.

Durante o evento, Chávez esteve acompanhado pelo vice-presidente José Vicente Rangel, membro do gabinete ministerial, assim como pelos comandantes das Forças Armadas do país. Entre as personalidades internacionais, foram convidados para fazer parte da mesa  o dirigente da organização camponesa latino-americana Via Camponesa, o hondurenho Rafael Alegria, o economista belga Eric Toussaint; o coordenador da Organização Povo em Luta do Haiti, Gerard Pierre Charles.

“A Venezuela é o melhor exemplo de resistência e dignidade contra a ingerência grosseira que o governo de George W. Bush comete, porque a vitória de vocês é a de todo o povo da América Latina”, apontou Márcia Campos, na solenidade que contou com mais de 250 convidados internacionais e nacionais.

Os delegados se uniram a milhares de venezuelanos para comemorar o segundo aniversário da derrota do golpe contra o governo de Hugo Chávez. Uma série de painéis debateu a Alca, aspectos do processo revolucionário na Venezuela, a democracia e os direitos humanos agredidos pelo imperialismo norte-americano.

No último dia da Conferência, os convidados internacionais se dividiram em grupos e foram visitar os bairros de Caracas, onde se familiarizaram com os programas sociais do governo.

Conheceram também detalhes sobre as manobras dos setores golpistas sustentados pelos EUA para atingir o governo legítimo do país. “A fraude das assinaturas para tentar o referendo que revogaria o mandato do presidente Chávez, a escandalosa e programada atuação anti-nacional de um setor da mídia comandada pelos EUA, os criminosos infiltrados para tentar usurpar as diretorias de entidades populares, são episódios repudiados pela imensa maioria dos venezuelanos. A organização das mulheres, dos trabalhadores, dos jovens, cresce em todos os cantos do país e é, como diz o presidente Chávez, a maior garantia de vitória para as mudanças em curso”, assinalou Márcia.

“Todos os amigos aqui presentes não vieram exatamente para ser solidários, a verdade é que são parte deste projeto de construção de um mundo melhor, sem guerras de rapina como a que acontece contra o heróico Iraque”, concluiu Hugo Chávez.

SUSANA SANTOS

Fonte   Horra do Povo

 

12 de abril de 1961

 

 

 

Nesta data, pela primeira vez o homem viajou ao espaço. Em 12 de abril de 1961, na primeira missão espacial tripulada, a cápsula soviética Vostok 1, transformou o coronel Yuri Alekseye-vich Gagarin no primeiro homem no espaço a completar uma órbita em 89,1 minutos. Foi a primeira experiência humana a defrontar-se com algo estranho fora do Planeta Terra.  “Eu estou vendo a Terra e ela é tão bonita! É azul", disse Gagarin.    

Assista ao vídeos sobre a vida de Gagarin e a viagem ao espaço

http://www.youtube.com/watch?v=MGX54nv59nI

 

http://www.firstorbit.org/watch-the-film

 

10 de abril de 1984

Nesta data, após 20 anos de ditadura militar, o Brasil foi agitado com o maior ato cívico de sua história, até aquela data, tendo a participação de 1,4 milhão de pessoas. O Comício da Candelária, catedral católica localizada na cidade do Rio de Janeiro, marcou o movimento em favor das "Diretas Já", reivindicando eleições livres para a escolha do presidente da república no Brasil. Após o golpe de 64, somente em 1989 retornariam as eleições diretas para presidente do Brasil.  

9 de abrll de 1949

Nesta data é realizado o I Congresso Brasileiro de Defesa da Paz, na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro. O encontro tinha como objetivo denunciar a politica agressiva levada a efeito pelo imperialismo norte-americano. Neste ano, o povo chinês conquistaria a sua independência definitiva, após a II Guerra Mundial, e abriria caminho para a construção do socialismo. O encontro da UNE  pela paz mundial foi reprimido à bala pela polícia do governo Dutra. Depois da  saída de Getúlio do governo no Brasil e da morte do presidente Roosevelt nos Estados Unidos, uma direita raivosa e fascista tomou o poder e iniciou, tanto internamente nos EUA, como exportando para todo o planeta, inclusive para o Brasil, uma política de perseguição aos democratas e às pessoas ligadas à esquerda. Foi uma verdadeira caça às bruxas.

 

 

4 de abril de 1968

 

 

Nesta data, Martin Luther King foi assassinado em Menfhis, no Tennessee. King foi o maior líder contra a discriminação racial nos Estados Unidos. A direita racista norte-americana não conseguiu conviver com um homem que tinha apenas um sonho: que todos os seres humanos fossem iguais e pudessem viver em paz em seu país.   

 

 

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A morte de Martin Luther King

 

 

 

 


Na cena do crime: King (o terceiro da esq. para a dir.) na
sacada do Lorraine; um dia depois, ele morreria naquele
exato local
PESADELO AMERICANO

Martin Luther King, líder da causa dos direitos civis nos Estados Unidos, foi morto com um tiro de rifle num hotel de Memphis. A polícia caçou um suspeito. O país entrava em ebulição.

O sonho radiante da conquista da liberdade, dos direitos civis reconhecidos e da harmonia racial nos Estados Unidos transformou-se num amargo pesadelo na tarde de 4 de abril de 1968, em Memphis, no Tennessee. Martin Luther King Jr., de 39 anos, pastor batista e herói da luta dos negros americanos por igualdade, foi assassinado na varanda do segundo andar do Hotel Lorraine, onde estava hospedado. Laureado com o prêmio Nobel da Paz de 1964, o "doutor King", como era conhecido, conversava com integrantes de sua comitiva, pouco antes de sair para jantar, quando foi atingido no lado direito do pescoço por um único e fatal projétil de alto calibre, disparado de uma distância estimada entre 50 e 100 metros. A bala explodiu sua mandíbula e o arremessou contra a parede interna do edifício. King ainda foi levado para o hospital Saint Joseph, próximo dali. Menos de uma hora depois do brutal atentado, foi declarado morto. A polícia de Memphis, que ainda não havia identificado o atirador, ficou à procura de um homem de cerca de 30 anos, vestindo terno e gravata pretos, visto por testemunhas deixando as redondezas em um Mustang último modelo. O suspeito era branco.


Último discurso: 'Eu vi a Terra Prometida'
A chocante notícia do assassinato de Luther King causou tumulto em Memphis e levou o governador do Tennessee, Bufford Ellington, a convocar 4.000 homens da Guarda Nacional e impor um toque de recolher aos 550.000 habitantes da cidade - 40% dos quais eram negros. Nas horas seguintes ao crime, 60 pessoas foram presas em Memphis. A agitação alastrou-se de imediato para outros 110 municípios americanos, nos quais foram registrados confrontos de civis com policiais, incêndios e saques a residências e comércios. O saldo de 39 mortos e mais de 2.500 feridos era o sombrio prenúncio de uma onda de violência racial que preocupou sobremaneira o governo de Lyndon Johnson. Num pronunciamento de televisão transmitido menos de uma hora depois do anúncio do assassinato, o presidente conclamou os americanos a rejeitar a "violência cega" que tirou a vida de King. "A divisão da população americana e o desrespeito à lei não nos levarão a lugar algum", observava Johnson, que no passado já havia recebido o líder negro no Salão Oval da Casa Branca. Apelos semelhantes vieram de figuras eméritas e díspares da malha social americana. Roy Wilkins, diretor-executivo da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), maior e mais influente organização de direitos civis da época, nos Estados Unidos, afirmou que King estaria "ultrajado" com os tumultos. Robert F. Kennedy, ainda em campanha para a indicação do Partido Democrata à eleição presidencial, fez um discurso emocionado em Indianápolis, onde clamou pela união popular. "Neste momento tão difícil, devemos nos perguntar que tipo de nação somos e para que direção queremos seguir. Podemos optar pelo ódio, pela polarização entre brancos e negros; ou podemos fazer um esforço, como Martin Luther King o fez, para entender e compreender, e para trocar a violência, essa mancha de sangue que se espalhou por nossa terra, por um esforço de compaixão e amor." Até mesmo militantes mais radicais, como Charles "37X" Kenyatta, do Harlem, e Ron Karenga, de Los Angeles, subiram em carros de som a fim de dissipar a animosidade latente na comunidade negra. "Vamos nos manter calmos pelo doutor", diziam a seu público.


Fora do controle: policial ataca saqueador
Premonição - Por ironia, foi justamente a tentativa de manutenção da calma e da ordem que levou Martin Luther King de volta a Memphis um dia antes de sua morte. Uma semana antes, o admirado ativista dos direitos civis, que presidia a Conferência Sulista de Liderança Cristã (SCLC, na sigla em inglês), estivera na cidade para liderar uma marcha em apoio à greve de 1.300 funcionários negros da limpeza pública por melhores condições de trabalho e salários decentes - paralisação que já durava dois meses, sem concessões do intransigente prefeito Henry Loeb. Trabalhadores de diversas áreas e estudantes aderiram ao movimento, que, no início do mês de fevereiro daquele ano, já havia reunido mais de 25.000 pessoas para um sermão do próprio reverendo. Entretanto, no dia 28 de março, a selvageria tomou conta da mobilização, que saiu por completo do controle dos seus organizadores. Lojas do centro da cidade foram pilhadas e houve um violento confronto entre os manifestantes e a polícia. Duzentas pessoas acabaram presas, 62 ficaram feridas e um rapaz de 16 anos foi alvejado à morte.

De acordo com seus auxiliares, Martin Luther King, que planejava para o final de abril um ato em Washington em favor dos negros e brancos assacados pela pobreza no Sul do país - marco inicial de sua "Campanha das Pessoas Pobres", nova menina dos olhos do pastor de Atlanta -, chegou a pensar em não voltar mais a Memphis depois dos distúrbios. Entretanto, decidiu que era necessária uma nova aparição na cidade de modo a colocar em prática seu discurso, mostrando à população local que a não-violência era a melhor arma na luta pela justiça econômica e social. "Memphis será uma Washington em miniatura", declarou Martin. Os dirigentes da SCLC dividiram-se, mas por fim aprovaram a viagem de seu presidente ao Tennessee, esperando apagar a imagem negativa deixada uma semana antes pelos grevistas.


Traslado do corpo: a caminho de Atlanta
O líder desembarcou em Memphis na manhã do dia 3 de fevereiro, num vôo da Eastern Airlines cuja decolagem do aeroporto de Hartsfield, em Atlanta, foi atrasada por conta de ameaças de uma bomba a bordo - um esquadrão canino vasculhou as bagagens, sem nada encontrar. O reverendo se hospedou no quarto 306 do modesto Lorraine, de um casal de proprietários negros, localizado próximo à famosa Rua Beale e ao Templo Mason, sede da Igreja de Deus em Cristo e ponto de partida e de chegada das marchas pelos grevistas. Ali, naquela noite, estava programado um sermão de Martin Luther King aos trabalhadores. Uma tempestade atingiu Memphis ao escurecer, e um público frustrantemente pequeno acompanhou o que seria o último discurso do ativista, em que parecia estar pressentindo a própria morte. King mencionou o episódio da bomba no aeroporto de Atlanta e assegurou manter a serenidade diante das ameaças constantemente dirigidas a ele. 

"Cheguei a Memphis e alguns já começaram a lançar ameaças, ou comentar as ameaças que estão por aí, ou o que alguns irmãos brancos doentes iriam fazer comigo", começou ele. Em seguida, o premonitório anúncio. "Bem, eu não sei o que virá agora. Teremos dias difíceis pela frente. Mas isso não importa para mim agora porque eu subi ao topo da montanha. Não me importo mais. Como qualquer pessoa, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade é boa. Mas não estou mais preocupado com isso agora. Quero apenas cumprir a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E lá de cima eu enxerguei. Eu enxerguei a Terra Prometida. É provável que eu não entre lá com vocês. Mas quero que vocês saibam esta noite que nós, como um povo, chegaremos à Terra Prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem! Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor!"


A visão de um assassino: foi desta janela que partiu o tiro fatal contra o reverendo
Som de dinamite - No dia seguinte, 04, Martin Luther King e outros membros da SCLC, incluindo seu amigo e confidente Ralph W. Abernathy, passaram o dia inteiro no quarto 306 do Lorraine, traçando estratégias para uma marcha prevista para a semana seguinte. Encerrada a reunião, já no final da tarde, o presidente tomou um banho e saiu do quarto por volta das 18 horas, vestindo terno preto e camisa branca. Seu motorista, Solomon Jones Jr., esperava a fim de levá-lo à casa do reverendo Samuel Kyles, onde o pastor seria recebido para jantar. Antes de chegar ao Cadillac, entretanto, King demorou-se cerca de três minutos na varanda do hotel, em frente ao quarto. Um de seus auxiliares, Jesse Jackson, estava no térreo, ao lado de um músico chamado Ben Branch, que se apresentaria à noite em um evento no Templo Mason. Jackson apresentou Branch ao "doutor", que fez um pedido ao intérprete: "Quero que você cante a música Precious Lord hoje. E cante bonito". Também do térreo, o motorista Jones aconselhou o chefe a colocar um sobretudo para proteger-se do frio. 

Não houve tempo, porém. Um estampido parecido com uma explosão de dinamite, segundo o relato de uma das testemunhas, fez todos os presentes se jogarem no chão - exceto Martin Luther King, arremessado contra a parede verde do hotel pelo impacto mortal do tiro de um rifle Remington calibre 30.06, aparentemente vindo da hospedaria do outro lado da rua. Com a parte inferior da face desfigurada, a vítima caiu à beira da porta, no centro de uma poça de sangue. Seus assistentes trouxeram toalhas para tentar estancar o ferimento. Foi tudo em vão. A ambulância do Corpo de Bombeiros demorou cerca de dez minutos e levou King ao Saint Joseph. Nada pôde ser feito. Os médicos declararam sua morte às 19h05, segundo reportou o porta-voz do hospital, Paul Hess. 

Em Atlanta, Coretta King, mulher do líder negro, foi avisada do atentado pelo prefeito de Atlanta, Ivan Allen Jr., que providenciou um avião para levá-la a Memphis. Os dois já estavam no terminal de embarque quando chegou a confirmação do óbito. Sem forças, Coretta preferiu então retornar à modesta residência do casal, no bairro negro de Vine City, em Atlanta - para onde Abigail McCarthy, esposa do senador Eugene McCarthy e amiga de longa data de Coretta, também se dirigiu assim que soube da infausta notícia. Telefonemas de condolências não demoraram a aparecer. O senador Robert Kennedy foi um dos primeiros a ligar, e prontificou-se a mandar um avião para transportar o corpo de volta a Atlanta.


Jesse Jackson e King: uma conspiração?
O quarto 5 - Enquanto isso, na cena do crime, investigadores esquadrinhavam as redondezas, especialmente a hospedaria do outro lado da rua Mulberry. Junto à janela do banheiro coletivo, a polícia encontrou uma cápsula vazia. O que os investigadores acreditaram ser a arma do crime, além de uma maleta e binóculos, foram recuperadas não muito longe dali. A gerente do estabelecimento, Bessie Brewer, apontou o hóspede que se registrou como John Willard como um provável suspeito. Além de ter aparência física muito semelhante à de um homem visto por testemunhas deixando o local rapidamente após os disparos, Willard pediu especificamente na recepção para ficar no quarto 5 - o que tem a melhor vista para o hotel Lorraine. Dois homens chegaram a ser detidos pouco depois do crime, mas acabaram sendo liberados em seguida. O escritório local do FBI, por meio do agente Robert Jensen, entrou nas investigações do assassinato, a pedido do procurador-geral Ramsey Clark.

Na opinião de um dos auxiliares do líder ativista, os investigadores não precisariam ir muito longe para encontrar o criminoso. Jesse Jackson, um jovem de 27 anos da Carolina do Sul que integrava a diretoria da SCLC, não se cansou de insinuar aos repórteres uma possível conspiração oficial, com participação da polícia no atentado. Integrantes da comitiva de King garantiram que, segundos depois do tiro, policiais armados com rifles, metralhadoras e capacetes começaram a chegar à área do hotel - oficiais bem diferentes daqueles que já estavam dando plantão no local, fazendo a segurança de King na cidade. "Não precisamos chamar a polícia. Ela estava aqui em segundos. Eles me perguntaram: 'De onde veio o tiro?' Eu disse, 'Atrás de vocês'. A polícia estava vindo de onde veio o tiro." Jackson e o resto do mundo anseiavam pelo resultado das investigações, que apontariam o responsável por assassinar não apenas Martin Luther King Jr., mas também um pouco da esperança dos americanos.
 
 
1 de abril de 1964

 

Nesta data ocorre a prisão pelos golpistas do governador de Pernambuco, Miguel Arraes. Imediatamente após o golpe 1964, os militares iniciaram ameças e chantagens contra grandes nomes da política brasileira. Tentaram cooptar alguns desses nomes com o objetivo de dissimular a violência cometida contra a democracia. Ao então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, deram-lhe a opção de adesão com renúncia 'espontânea', ou prisão. Cercado no Palácio das Princesas, o sertanejo Miguel Arraes honrou a fibra que lhe dera fama. 'Não vou trair a vontade dos que me elegeram', mandou dizer aos emissários do Exército. Foi preso imediatamente. Sobral Pinto, famoso jurista da época, conseguiu-lhe um habeas corpus, cujo relator foi Evandro Lins e Silva. Em 1965, Arraes exilou-se na Argélia. Em 1967 foi condenado à revelia a 23 anos de prisão. Voltou ao país com a abertura, em 1979. A coerência que o transformara em legenda, impulsionou a retomada da carreira política. Arraes elegeu-se governador mais duas vezes em Pernabuco, em 1986 e 1994. 

 

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 O golpe militar de 1964 depôs o presidente João Goulart no dia 31 de março. Um dia depois, tropas do Exército cercaram o Palácio do Campo das Princesas. Como Arraes recusa a proposta de renúncia, é deposto e preso. Foi levado para o 14º Regimento de Infantaria, no Recife e, posteriormente, para Fernando de Noronha, onde permaneceu até dezembro. Ao retornar, ficou preso na Companhia de Guarda da Capital, sendo transferido para a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, no Estado do Rio.

          

        Por força de habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, Arraes é solto em 21 de abril de 1965. Foram impetrantes do habeas corpus, que recebeu o nº 42.108, Heráclito Fontoura Sobral Pinto e Antônio de Brito Alves, e teve como relator o Ministro Evandro Lins e Silva. Anteriormente à decisão unânime do STF, proferida a 19 de abril, Arraes tivera negados, por duas vezes, requerimentos formulados a órgãos da Justiça Militar, visando a cessação do constrangimento ilegal a que estava sendo submetido.

         

        Mas, devido a um manifesto com críticas formuladas aos inquéritos policias-militares do regime, é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, no dia 20 de maio. Sob ameaça de nova prisão, consegue asilo na Embaixada da Argélia, em 24 de maio, e viaja para Argel no dia 16 de junho. Nessa época, é implantado o bipartidarismo no Brasil, passando a existir como partidos políticos apenas a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Arraes declara-se adepto do MDB, de oposição ao governo militar. A sua volta ao Brasil ocorreu em 15 de setembro de 1979, após 14 anos de exílio, tendo sido beneficiado pela Lei de Anistia, sancionada em 28 de agosto.                   

         

        Em 1982, é eleito deputado federal por Pernambuco, com 191.471 votos, um recorde em pleitos proporcionais no Estado. Em 1984, apoiou a candidatura de Tancredo Neves, na escolha indireta para a Presidência da República.

         

       Com mais de 500 mil votos sobre o candidato José Múcio Monteiro, Miguel Arraes obtém, em 1986, o seu segundo mandato de governador de Pernambuco. Cumprindo uma promessa de campanha, volta pela porta da frente do Palácio do Campo das Princesas, em alusão a sua deposição pelos militares, em meio a uma grande festa popular realizada em 15 de março de 1987. Nessa gestão mantém a aproximação com o homem do campo e excluídos de forma geral. Lança programas sociais de impacto, como o “Chapéu de Palha” (consistia na contratação de canavieiros, para trabalhar em pequenas obras públicas, visando amenizar os períodos de entressafra da cana-de-açúcar, quando grande número de trabalhadores fica sem renda), e a “Água na Roça”, que bancava motobombas para irrigação. Nesse período é implantado um grande programa de eletrificação de pequenas propriedades.  

         

       Em fevereiro de 1990, sai do PMDB, filiando-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Em março, renuncia ao mandato de governador e candidata-se a deputado federal, obtendo 339.197 votos, sendo, proporcionalmente, a maior votação de um deputado no País. Em 1992, assume a presidência nacional do PSB.

         

      Ao vencer no primeiro turno das eleições de 1994, com 54,12% dos votos, Arraes  governaria Pernambuco pela terceira vez, tendo assumido o cargo em 1º de janeiro de 1995. Esta gestão seria marcada por denúncias de emissão irregular de precatórios, operação que se constitui na emissão de títulos públicos para pagamento de dívidas judiciais. Respaldado por uma lei estadual, que autorizava o pagamento de salários de funcionários, obras e outros encargos públicos, com os recursos provenientes dos precatórios, o governo emitiu 408 mil títulos e arrecadou R$ 402 milhões.

         

     A operação financeira acabou ficando conhecida como o “escândalo dos precatórios” e influenciou diretamente na disputa para o governo do Estado em 1998, sendo fartamente explorada pela coligação de partidos políticos que apoiava Jarbas Vasconcelos. Arraes sofreria, então, a sua maior derrota político eleitoral, perdendo a eleição com uma diferença superior a um milhão de votos.

         

     Em 2002, é eleito pela terceira vez deputado federal e, em 2003, pela sexta vez consecutiva, é reconduzido à presidência do PSB.

         

     No dia 13 de agosto de 2005, 58 dias após o seu internamento no Hospital Esperança, Miguel Arraes faleceu de choque séptico causado por infecção generalizada.

         

     Encerrava-se um ciclo da política nacional, representado por mais de cinqüenta anos de vida pública, direcionada para a defesa das classes menos favorecidas da população. Era chamado pela massa dos trabalhadores rurais de Pai Arraia. Os camponeses o viam como o “pai dos pobres”, alguém que reconhecia os seus direitos e sabia promover acordos que revertiam na melhoria de vida da população.

         

     Com a morte do homem, fica o mito que entra para a história da política brasileira.      

 

Fonte 

Lúcia Gaspar

Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

 

 

 

 

31 de março de 1964

 

 

Nesta data tem início o golpe militar que derrubou o governo democrático de João Goulart. A ditadura foi implantada no país para atender aos interesses dos monopólios e bancos americanos. Não foi por outro motivo que o governo norte-americano participou ativamente do golpe. Seu objetivo era usar os militares brasileiros para derrubar um governo popular que retomava o caminho vitorioso do nacional-desenvolvimentismo, iniciado com a revolução de 30, sob a liderança de Getúlio Vargas  

 

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João Goulart: o discurso da Central do Brasil e a verdade histórica (1)

CARLOS LOPES

O discurso do presidente João Goulart no comício da Central do Brasil, a 13 de março de 1964, tornou-se, logo em seguida, um dos documentos mais difamados da nossa História. Até estudos e trabalhos sérios, e bem intencionados, referem-se a ele como o "estopim" ou "uma das causas" do golpe de Estado ocorrido apenas 19 dias depois.

No entanto, nada, em seu conteúdo, aponta para isso. Naturalmente, não se trata apenas do conteúdo do discurso, mas das circunstâncias em que foi proferido – e da própria presença do presidente naquela manifestação, em que centenas de milhares de brasileiros compareceram para apoiá-lo.

Entretanto, continua a ser indispensável, como ponto de partida, o conhecimento do que Jango falou naquele dia – por isso, publicaremos na íntegra esse discurso, a partir da próxima edição.

Como sempre, escrevemos uma introdução – mas, o leitor nos perdoará, essa introdução, escrita de modo algo apressado, ficou grande demais. Por isso, estamos publicando-a hoje em separado. Resta-nos repetir o padre Antonio Vieira, na famosa carta que saiu mais longa que o desejado: "desculpe-me, não tive tempo para ser breve".

 

WASHINGTON

 

Hoje, 48 anos depois, ainda faz-se necessário insistir na verdade histórica – apesar dos mais sinceros participantes dos acontecimentos de 1º de abril de 1964 já a terem reconhecido, em especial o general de Exército Antonio Carlos de Andrada Serpa, membro do Alto Comando até 1980, com sua frase lapidar: "em 1964, nós seguramos a vaca para os americanos mamarem".

Serpa era um homem reconhecidamente culto – mas não encontrou forma melhor, nem poderia encontrar, do que esta síntese em português popular.

Por mais que houvesse setores descontentes com a política de Jango – e havia, como o próprio então coronel Serpa é um exemplo, apesar das pesquisas de opinião da época, como mostrou Jorge Ferreira em seu "João Goulart", registrarem a ampla popularidade do presidente – o golpe jamais teria sido desfechado se não fosse o "sinal verde" de Washington.

Que sentido havia em depor um presidente, quando as eleições estavam marcadas para o ano seguinte – e ele não poderia concorrer a elas?

Usando um modo de expressão típico do ex-presidente Jânio Quadros, poder-se-ia dizer que o candidato favorito para as eleições de 1965, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, não era do agrado dos golpistas – e que eles viam, aliás, com razão, o seu próprio candidato, Carlos Lacerda, como destinado à derrota.

No entanto, não foi isso que argumentaram – até porque essa argumentação, pela sua sinceridade golpista, era impublicável.

Portanto, restou o pretexto alegado pelo então embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, ao responder a uma pergunta do embaixador da Suíça em Washington, Felix Schnyder: "o sr. Goulart e seu governo", disse Gordon, "estavam prestes a instalar, apesar da constituição, um regime ditatorial"; Jango, insistiu Gordon, "não respeitava os procedimentos constitucionais" (reunião entre Gordon e Schnyder, 6/07/1966 – nessa época, Gordon fora promovido a secretário-assistente de Estado para Negócios Interamericanos; o relato da reunião encontra-se num telegrama de Schnyder, do dia seguinte, divulgado há alguns dias pelo governo suíço).

É interessante que, diante de uma certa estranheza do embaixador suíço com os primeiros "atos institucionais", Gordon tenha dito que "se os militares tivessem promulgado isso [o Ato Institucional nº 1] desde o começo, os Estados Unidos seriam obrigados a se mostrar mais reticentes. Mas, depois de sido acordado, o reconhecimento [ao regime] não pode ser mais retirado".

Gordon, um professor de relações internacionais em Harvard, era um mentiroso como poucos – como se pode ver pela última afirmação, a de que o reconhecimento diplomático de um regime "não pode ser mais retirado". Como se alguém no governo dos EUA, muito menos, evidentemente, o próprio Gordon, tivesse alguma vez pensado em tal hipótese...

O golpe de 64 foi desfechado para instalar uma ditadura sob o patrocínio de Washington. Diante de um constrangimento, Gordon não hesitou em descarregar sobre os militares brasileiros a responsabilidade principal pelo golpe e pela ditadura. Mas, o ato institucional a que ele se refere foi decretado em 9 de abril de 1964, portanto, logo no "começo" - e Gordon estava no Brasil. Como mostrou Chomsky num "paper" dirigido, precisamente, à universidade em que o embaixador norte-americano era professor, Gordon chamou o golpe de Estado de 1964 de "a única, a mais decisiva vitória da liberdade em meados do século XX", e, depois, quando despontaram denúncias de tortura, declarou que o regime imperante em nosso país era "totalmente democrático, o melhor governo que o país já teve" (v. Noam Chomsky, "American Foreign Policy", Harvard University, 1985).

Naturalmente, ele considerava que esse governo era, antes de tudo, obra sua. Foi, aliás, quase o que ele disse em 1976. Depois de passar 12 anos negando sua participação, ou do governo dos EUA, ou da CIA, no golpe, Gordon declarou então que, em 1964, "a administração Johnson preparara uma intervenção militar no Brasil" (cf. The New York Times, "Lincoln Gordon Dies at 96; Educator and Ambassador to Brazil", 21/12/2009).

 

PRETEXTO

 

Naturalmente, em 1976 já se tornara muito difícil – e até pouco "respeitável" - negar o que todo mundo sabia, depois de uma erupção de provas que até hoje não se extinguiu.

O pretexto de que Jango queria rasgar a Constituição de 1946, e implantar uma ditadura, levou somente oito dias para se desmoralizar: logo no preâmbulo – por sinal, redigido por um civil - do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964, está escrito que o golpe de Estado (aliás, "a revolução vitoriosa"), perpetrado supostamente em defesa da Constituição, "... se investe no exercício do Poder Constituinte. (…) … como o Poder Constituinte, se legitima por si mesma. (…) Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normalidade anterior à sua vitória".

Qual o conteúdo dessa "investidura" ficou claro em seguida - mais escandalosamente quando, em fevereiro de 1965, foi assinado o Acordo de Garantia de Investimento com os EUA, em Washington, com um texto também redigido pelo governo de Washington (segundo declarou em agosto de 1967, em depoimento ao Congresso dos EUA, Anthony M. Solomon, secretário-assistente de Estado para Assuntos Econômicos do governo Johnson). Para os leitores que quiserem conhecer esse texto vergonhoso, há uma cópia na base de dados da Divisão de Atos Internacionais (DAI) do Ministério das Relações Exteriores: www2.mre.gov.br/dai/investeua.htm.

A essência do texto era inteiramente inconstitucional – em 1965 ainda estava em vigor, apesar dos "atos institucionais", a Constituição de 1946 - e já fora rejeitada pelo governo João Goulart.

Mas não era apenas nos acordos internacionais que a ditadura, sob a administração econômica do notório Roberto Campos (quer dizer, Bob Fields), foi submissa aos EUA. Como observou, na época, um de nossos maiores juristas e combatentes nacionalistas:

"... as instruções para pedidos de financiamentos em certos bancos oficiais esclarecem, sem qualquer constrangimento, que os pedidos de empréstimos acima de cem mil dólares (US$ 100.000,00), em cruzeiros, mesmo efetuados por esses bancos oficiais brasileiros a firmas brasileiras, deverão receber o consentimento do governo norte-americano, através de sua Agência Internacional de Desenvolvimento (AID)". (Osny Duarte Pereira, "A Constituição do Brasil 1967", Civilização Brasileira, 1967).

A observação de Osny Duarte Pereira pode ser considerada completamente isenta: quando a ditadura, na época do presidente Geisel, implementou o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), ele, sem se afastar um milímetro de seus pontos de vista, foi dos primeiros a registrar positivamente este plano econômico. Não era, portanto, alguém que não reconhecesse méritos, até da ditadura - quando os havia.

No entanto, o período imediatamente após o golpe de Estado não admitia concessões ao nacionalismo – até mesmo para ex-membros da UDN a situação estava além do limite. Como registra o desembargador Osny, no livro que acabamos de citar, nem a bancada governista assinou a "Constituição de 1967", por seu caráter marcadamente entreguista:

"O Povo Brasileiro não poderá sofrer a vergonha de voltar, em 1967, aos idos de 1902 e aceitar, em vez de uma Constituição, um Estatuto de Capital Estrangeiro que nem sequer está subscrito pelos deputados e senadores. Ninguém quis assiná-lo. Foi promulgado pelas Mesas do Congresso, contrariando a tradição do Direito Constitucional Brasileiro. (…) Todos exprimiram sua repulsa, pela forma que a pressão política autorizava a um congressista exprimir-se. Cerca de 106 representantes, dados como integrantes da maioria, antes mesmo de promulgada a Constituição, assinaram um compromisso de colocá-la abaixo" (Osny Duarte Pereira, op. cit.).

 

REFORMAS

 

Agora, voltemos ao discurso de Jango: além de algumas mudanças democráticas – ampliar a liberdade partidária e estender o direito de votar e ser votado a todos os brasileiros maiores de idade, acabando com a exclusão dos analfabetos e "praças de pré" - a reforma constitucional que ele propõe (e por via congressual), consiste, essencialmente, na alteração de um parágrafo, o 16º do artigo 141 da Constituição de 1946, que inviabilizava a reforma agrária, ao determinar que as desapropriações "por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social" somente poderiam ser feitas "mediante prévia e justa indenização em dinheiro" - ou seja, proibindo que o pagamento da terra improdutiva, para fins de redistribuição, fosse feito em títulos do governo e a longo prazo.

Como ressalta o presidente, tratava-se de um dispositivo que não existia em nenhum país civilizado – e ele cita os exemplos, entre eles o da constituição japonesa, elaborada durante o governo do general MacArthur, no Japão ocupado pelos EUA.

O interessante aqui é que essa proposta de reforma constitucional, que serviu como suposta prova do desrespeito de Jango à propriedade privada (logo ele, um dos maiores proprietários rurais do país), e, portanto, de seu caráter "subversivo", acabou sendo realizada pela ditadura, através da Emenda Constitucional nº 1 – a alteração da Constituição de 1967, decretada pela Junta que sucedeu Costa e Silva, que resultou no que se chamou, depois, "Constituição de 1969".

A partir de então, o pagamento das desapropriações puderam ser feitas em títulos, o que foi mantido, muito justamente, pela Constituição de 1988.

 

A QUESTÃO

 

Resta saber porque resolver o problema agrário era tão imperioso para Jango – e até, depois, para a ditadura, que alterou tremendamente a estrutura fundiária, ainda que não no mesmo sentido democrático.

O problema consiste em que, no início da década de 60, as relações econômicas no campo brasileiro tornaram-se incompatíveis com a continuação do desenvolvimento – e, aqui, para evitar qualquer mal entendido, frisamos: trata-se do desenvolvimento capitalista, dentro dos marcos do capitalismo.

Especialmente a produção de alimentos chegou a um estrangulamento, o que significou carestia – ou seja, aumento da inflação -, à medida que prosseguia a industrialização e a população passava a ser principalmente urbana: a parcela urbana da população do Brasil, que era de 31,24% no Censo Demográfico de 1940, passou a 44,67% (1960), 67,59% (1980) – e hoje está acima de 80% (cf. IBGE, Censo demográfico 1940-2007).

Portanto, era necessário aumentar a produtividade do campo, em boa parte tomado por latifúndios improdutivos, sob pena de bloquear a industrialização, e, portanto, o desenvolvimento.

A solução de Jango era clara: democratizar o acesso à terra, redistribuindo as áreas improdutivas. Além disso, "adotou medidas importantes que se refletiram no futuro da agricultura, quando reestruturou o Ministério da Agricultura, criou a Companhia Brasileira de Alimentos e a Superintendência Nacional de Abastecimento, ampliou a atuação da Comissão de Financiamento da Produção e autorizou a Sunab a constituir a CIBRAZEM – Companhia Brasileira de Armazenamento" (cf. José Cassiano de Freitas, "A política agrícola do regime militar de 1964: aspectos jurídicos, financeiros e socioeconômicos", UNIFOR/CCJ, Fortaleza, 2008).

Devido ao golpe de Estado, não se prosseguiu nesse caminho quanto à propriedade da terra – mas o próprio governo Castelo Branco teve que emitir, ainda em 1964, uma lei de reforma agrária, conhecida como "Estatuto da Terra" (Lei nº 4.504, de 03/11/1964), onde se define, em seu artigo 1º, parágrafo 1º, a reforma agrária como "o conjunto de medidas que visem a promover melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade".

Essa lei, na maior parte, permaneceu inaplicada – mas não por acaso ela foi emitida, e apenas alguns meses depois do golpe. O problema agrário tornara-se crucial até para aqueles que tomaram o poder contra a reforma agrária que Jango pretendia – e que acabaram por definir nos mesmos termos.

O problema é que com as relações econômicas no campo sendo um entrave ao desenvolvimento, nem mesmo o modelo econômico dependente que a ditadura implantou seria viável.

 

OS NÚMEROS

 

Mas que caminho, então, seguiu a ditadura? Vejamos alguns números, todos retirados dos Censos do IBGE.

A distribuição percentual, no Brasil, da área ocupada pelos estabelecimentos agropecuários, entre 1960 e 1985, apresenta uma notável imobilidade:

I) os de menos de 10 hectares (1 ha=10 mil metros quadrados) variaram de 2,24% da área total dos estabelecimentos (1960) para 2,66% dessa área total (1985);

II) os que vão de 10 ha a menos de 100 ha foram de 19,04% da área total (1960) para 18,55% (1985);

III) os de 100 ha a menos de 1000 ha passaram de 34,43% da área (1960) para 35,06% (1985);

IV) e os de 1000 ha ou mais, que, em 1960, ocupavam 44,15% da área total dos estabelecimentos agropecuários, em 1985 ocupavam 43,73% (cf. IBGE, Censo Agropecuário, 1920/2006).

Portanto, não houve reforma agrária alguma nesse período.

No entanto, os estabelecimentos agropecuários aumentaram de 3.337.769 (1960) para 5.801.809 (1985).

Em outras palavras, e usando os exemplos extremos:

A parcela de 2,24% da área ocupada pelos estabelecimentos agropecuários com menos de 10 ha, em 1960, correspondem a 1.495.020 estabelecimentos; já os 2,66%, de 1985, correspondem a 3.085.841 estabelecimentos agropecuários.

Da mesma forma, os 44,15% da área total que era ocupada pelos estabelecimentos agropecuários com mais de 1.000 ha em 1960, correspondem a 32.480 estabelecimentos, mas os 43,73% de 1985 correspondem a 50.105 estabelecimentos (cf. IBGE, Estatísticas do século XX, tabela 6.1a).

Evidentemente, há um problema quando há mais de 3 milhões de propriedades que ocupam apenas 2,66% da área total dos estabelecimentos agropecuários, enquanto apenas cerca de 50 mil ocupam 43,73% da área total, para ficar apenas nos extremos registrados pelos censos do IBGE.

A ditadura manteve intacta essa concentração da propriedade da terra. O que ela fez foi aumentar a área total, isto é, estender a fronteira agropecuária, sem nenhuma democratização do acesso à terra.

Assim, a área total ocupada por estabelecimentos agropecuários passou de 249.862.142 ha (1960) para 376.286.577 (1985). Uma expansão, portanto, de 126.424.435 ha (ou 1.264.244,35 quilômetros quadrados – mais de 1/6 da área terrestre do país).

Nitidamente, o que houve foi uma expansão da área ocupada pelos estabelecimentos agropecuários, mantendo inalterada a concentração da propriedade da terra – mas irrigada, é verdade, por uma abundância diluviana de crédito agrário, sobretudo na década de 70, usando as instituições que Jango criara, além de, sem tocar na propriedade da terra, implementar a política estabelecida no segundo governo Getúlio: preços mínimos, armazenamento e transporte, garantia da atividade rural e assistência técnica e extensão rural (v. José Cassiano de Freitas, op. cit.).

Ou seja, a ditadura, sem alternativa, foi obrigada a recorrer à política dos seus principais inimigos – Getúlio e Jango.

Mas, naturalmente, essa adesão foi inserida num modelo dependente. Por exemplo, o aumento de produção das culturas voltadas para a exportação foi bem maior que o aumento da produção voltada para o mercado interno – porém, mesmo estas últimas aumentaram substancialmente a produção. Recorrendo apenas a três exemplos: pelos números do IBGE, o milho passou de 10,4 milhões de toneladas (1963) para 22 milhões de toneladas (1985), isto é, dobrou a produção; a produção de feijão aumentou de 1,3 milhão de toneladas (1963) para 2,2 milhões t; a de batata-inglesa foi de 1,2 milhão t (1963) para 1,9 milhão 7 (1985).

No entanto, com esse crescimento fundamentalmente extensivo da produção (ainda que não se possa subestimar os aumentos de produtividade consequentes à ação da Embrapa – inclusive com a introdução de uma cultura que era insignificante antes de 1969: a soja), permaneceu o gargalo. O que a ditadura fez foi adiar o seu enfrentamento, expandindo a área da agropecuária.

Quanto aos seus projetos supostamente de reforma agrária, em 21 anos de ditadura foram assentadas 77.465 famílias. Para que o leitor tenha uma ideia, segundo o INCRA, durante os oito anos do governo Lula foram assentadas 574.600 famílias – ou seja, mais de sete vezes o que a ditadura assentou em 20 anos. Mesmo os números do MST, que são diferentes do INCRA, apontam que 163.191 famílias foram assentadas no governo Lula – isto é, mais do dobro das assentadas durante duas décadas de ditadura.

Além disso, já há sinais de que precisamos enfrentar outra vez esse gargalo – o que é visível nos problemas trazidos pelo chamado "agronegócio" e na porta aberta para a desnacionalização: o caso do etanol é mais do que exemplar, no pior sentido que possa ter esta palavra.

 

 

João Goulart: o discurso da Central do Brasil e a verdade histórica (2)

Continuação da edição anterior

Publicamos hoje a primeira parte do discurso de João Goulart, proferido no dia 13 de março de 1964 para cerca de 200 mil pessoas em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em apoio às reformas que o presidente pretendia implementar ainda naquele ano. Nacionalização das refinarias de petróleo, democratização do acesso à terra, ampliação da liberdade partidária com extensão do direito de voto a todos os brasileiros maiores de 18 anos, reforma educacional e maior controle nacional da economia, incluindo limites às remessas de lucro ao exterior, são alguns dos principais pontos das reformas estruturais, chamadas reformas de base, que foram estancadas pelo golpe de Estado que derrubou o presidente apenas 19 dias depois do histórico pronunciamento

JOÃO GOULART

Devo agradecer às organizações sindicais, promotoras desta grande manifestação, devo agradecer ao povo brasileiro por esta demonstração extraordinária a que assistimos emocionados, aqui nesta cidade do Rio de Janeiro. Quero agradecer, também, aos sindicatos que de todos os estados mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os patrícios, neste instante mobilizados em todos os recantos do país, e ouvindo o povo através do rádio ou da televisão.

Dirijo-me a todos os brasileiros, e não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas. Dirijo-me também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem e que pagam em sofrimento, pagam em miséria, pagam em privações, o direito de serem brasileiros e o de trabalhar de sol a sol pela grandeza deste país. Presidente de oitenta milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios. Vou falar em linguagem rude, mas que é sincera e sem subterfúgios. É também a linguagem de esperança, de quem quer inspirar confiança no futuro, mas de quem tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade que vivemos.

Aqui estão os meus amigos trabalhadores, pensando na campanha de terror ideológico e de sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu Presidente, na presença das lideranças populares mais representativas deste país, que se encontram também conosco, nesta festa cívica.

Chegou-se a proclamar, trabalhadores brasileiros, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse dona da democracia, ou proprietária das praças e ruas. Desgraçada a democracia que tiver de ser defendida por esses democratas. Democracia para eles não é o regime da liberdade de reunião para o povo. O que eles querem é uma democracia de um povo emudecido, de um povo abafado nos seus anseios, de um povo abafado nas suas reivindicações. A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia do anti-sindicato, ou seja, aquela que melhor atenda aos seus interesses ou aos dos grupos que eles representam. A democracia que eles pretendem é a democracia dos privilégios, a democracia da intolerância e do ódio. A democracia que eles querem, trabalhadores, é para liquidar com a Petrobrás, é a democracia dos monopólios, nacionais e internacionais, a democracia que pudesse lutar contra o povo, a democracia que levou o grande Presidente Vargas ao extremo sacrifício. Ainda ontem eu afirmava no Arsenal de Marinha, envolvido pelo calor dos trabalhadores de lá, que a democracia jamais poderia ser ameaçada pelo povo, quando o povo livremente vem para as praças – as praças que são do povo. Para as ruas – que são do povo.

Democracia, trabalhadores, é o que o meu governo vem procurando realizar, como é do meu dever. Não só para interpretar os anseios populares, mas também para conquistá-los pelo caminho do entendimento e da paz. Não há ameaça mais séria para a democracia do que tentar estrangular a voz do povo, dos seus legítimos líderes populares, fazendo calar as suas reivindicações.

Estaríamos, sim, brasileiros, ameaçando o regime, se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, desta Nação e desses reclamos que, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, levantam o seu grande clamor pelas reformas de base e de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será o complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros, que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria. Ameaça à democracia, enfim, não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo brasileiro, é explorar os seus sentimentos cristãos, na mistificação de uma indústria do anticomunismo, insurgindo o povo até contra os grandes e iluminados ensinamentos dos grandes e santos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado nacional.

O inolvidável Papa João XXIII é que nos ensina, povo brasileiro, que a dignidade da pessoa humana exige normalmente, como fundamento natural para a vida, o direito e o uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade para todos. É dentro desta autêntica doutrina que o governo brasileiro vem procurando situar sua política social, particularmente no que diz respeito à nossa realidade agrária. O cristianismo nunca foi o escudo para privilégios condenados pelo Santo Padre, nem também, brasileiros, os rosários podem ser levantados contra a vontade do povo e as suas aspirações mais legítimas. Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas esperanças. Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena maioria.

Àqueles que reclamam do Presidente da República uma palavra tranquila para a Nação, àqueles que em todo o Brasil nos ouvem nesta oportunidade, o que eu posso dizer é que só conquistaremos a paz social através da justiça social.

Perdem seu tempo, também, os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais, como perdem também seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra o povo, contra os seus direitos ou contra as suas reivindicações. Ação repressiva, trabalhadores, é a que o governo está praticando e vai ampliar cada vez mais e mais implacavelmente, aqui na Guanabara e em outros Estados, contra aqueles que especulam, contra as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo, que sonegam gêneros alimentícios ou que jogam com seus preços. Ainda ontem, dentro de associações de cúpula de classes conservadoras, ibadianos de ontem levantaram a voz contra o Presidente pelo crime de defender o povo contra os que o exploram na rua e em seus lares, através da exploração e da ganância.

Mas não tiram o sono as manifestações de protestos dos gananciosos, mascaradas de frases patrióticas, mas que, na realidade, traduzem suas esperanças e seus propósitos de restabelecer impunidade para suas atividades antipopulares e antissociais.

Por outro lado, não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar – e tenho proclamado e continuarei proclamando nos recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição. Há necessidade, trabalhadores, da revisão da Constituição da nossa República, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação. A Constituição atual, trabalhadores, é uma Constituição antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, uma estrutura injusta e desumana. O povo quer que se amplie a democracia, quer que se ponha fim aos privilégios de uma minoria; quer que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja facilitado participar da vida política do país, através do voto, podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e que seja assegurada à representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações, ideológicas ou religiosas.

Todos, todos os brasileiros, todos têm o direito à liberdade de opinião, de manifestar também sem temor seu pensamento. É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na própria Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros. Está nisso, trabalhadores, está nisso, povo brasileiro, o sentido profundo desta grande e incalculável multidão que presta, neste instante, sua manifestação ao Presidente, que vem também lhe prestar conta de seus problemas, mas também de suas atitudes e de sua convicções nas lutas que vem enfrentando, luta contra forças poderosas, mas confiando sempre na unidade do povo e das classes trabalhadoras, unidade que há de encurtar o caminho da nossa emancipação. É apenas de se lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional. São, certamente, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez, e com tanta cegueira, ser, amanhã, responsáveis, perante a História, pelo sangue brasileiro que possa ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos à caminhada do Brasil e à emancipação do povo brasileiro.

De minha parte, à frente do Poder Executivo, tudo continuarei fazendo para que o processo democrático siga o caminho pacífico, para que sejam derrubadas as barreiras que impedem a conquista de novas etapas e do progresso. E podeis estar certos, trabalhadores, de que, juntos, governo e povo, operários, camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros que colocam os interesses da Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir, e prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação social do país. O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade. A maioria dos brasileiros já não se conforma com a ordem social imperfeita, injusta e desumana. Os milhões que nada têm se impacientam com a demora, já agora quase insuportável, em receber os dividendos de um progresso tão duramente construído também com o esforço dos trabalhadores e o sacrifício dos humildes. Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, de novas escolas, de hospitais para o povo sofredor; mas sabemos, trabalhadores, que nada disso terá sentido profundo se ao homem não for assegurado o sagrado direito ao trabalho e a uma justa participação no desenvolvimento nacional.

Não, trabalhadores; não, brasileiros: sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria neste país. Nada adianta dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem iludir e enganar o povo brasileiro. Meus patrícios, a hora é a hora da reforma, brasileiros, reforma de estrutura, reforma de métodos, reforma de estilo de trabalho e reforma de objetivo para o povo brasileiro. Já sabemos que não é mais possível produzir sem reformar, que não é mais possível admitir que esta estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional, para milhões e milhões de brasileiros, da portentosa civilização industrial, porque dela conhecem apenas a vida cara, as desilusões, o sofrimento e as ilusões passadas.

O caminho das reformas é o caminho do progresso e da paz social. Reformar, trabalhadores, é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada, inteiramente superada, pela realidade dos momentos em que vivemos.

Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da Supra. Assinei-o, meus patrícios, com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos. Ainda não é a reformulação do nosso panorama rural empobrecido. Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado. Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.

O que se pretende com o decreto que considera de interesse social, para efeito de desapropriação, as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais, e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.

Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, que se apoderam das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou setenta bilhões de dinheiro do povo, não deve beneficiar aos latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas, sim, ao povo.

Não o podemos fazer, por enquanto, trabalhadores, como é de prática corrente em todos os países do mundo civilizado: pagar a desapropriação de terras abandonadas em títulos da dívida pública e a longo prazo.

Reforma Agrária com pagamento prévio do latifúndio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. Reforma agrária, como consagrado na Constituição, com pagamento prévio e a dinheiro é negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso, o decreto da Supra não é a reforma agrária.

Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária autêntica. Sem emendar a Constituição, que tem acima dela o povo, poderemos ter leis agrárias honestas e bem intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.

 

João Goulart: o discurso da Central do Brasil e a verdade histórica (3)

Continuação da edição anterior

"Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederão. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, e pacificamente, os graves problemas que a História nos legou"

JOÃO GOULART

Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a Supra, graças a essa colaboração, meus patrícios, espero que dentro de menos de sessenta dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios ao lado das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reivindicação, aquela que lhes dará um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalharam para o dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer a reforma sem mexer a fundo na Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional aquela parte que obriga a desapropriação por interesse social a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.

No Japão do pós-guerra, há vinte anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com vinte e quatro anos de prazo, juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o general MacArthur de subversivo ou extremista?

Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos. Cento e cinquenta mil famílias foram beneficiadas.

No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, vinte anos de prazo, juros de 5% ao ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.

Na Índia, foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses. Essas leis abrangem cerca de sessenta e oito milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia.

Portanto, não existe argumento capaz de poder afirmar que no Brasil, uma nação jovem, que se projeta para o futuro, não se possa também fazer a reforma da Constituição para fazer a reforma agrária autêntica e verdadeira.

A reforma agrária não é capricho de um governo ou programa de um partido. É produto da inadiável necessidade de todos os povos do mundo. Aqui, no Brasil, constitui a legenda mais viva da esperança do nosso povo, sobretudo daqueles que labutam no campo. A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.

Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não têm dinheiro para comprar.

Assim, a reforma agrária é indispensável, não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas, também, para dar mais trabalho às indústrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano.

Interessa, por isso, também, a todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria, e no bem-estar do seu povo.

Como garantir o direito de propriedade autêntica quando, dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?

O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e haveremos de conquistar.

Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada pelo povo brasileiro. O próprio custo da produção, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios, está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50% da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para o plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabalhou para o proprietário. Esse inquilinato rural desumano e medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país.

A reforma agrária só prejudica uma minoria de insensíveis, que deseja manter o povo escravo e a Nação submetida a um miserável padrão de vida.

E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. É claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender os anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento.

Governo nenhum, trabalhadores, povo nenhum, por maior que seja o seu esforço, e até mesmo o seu sacrifício, poderá enfrentar o monstro inflacionário que devora os salários, que inquieta o povo assalariado, se não forem efetuadas as reformas de estrutura e de base exigidas pelo povo e reclamada pela Nação.

Tenho autoridade para lutar pela reforma da atual Constituição, porque esta reforma é indispensável e porque o seu objetivo único e exclusivo é abrir o caminho para a solução harmônica dos problemas que afligem o nosso povo. Não me animam, trabalhadores - e é bom que a Nação me ouça –, quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederão. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, e pacificamente, os graves problemas que a História nos legou.

Dentro de 48 horas vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano. Nela, estão claramente expressas as intenções e os objetivos deste governo. Espero que os senhores congressistas, em seu patriotismo, compreendam o sentido social da ação governamental, que tem por finalidade acelerar o progresso deste país e assegurar aos brasileiros melhores condições de vida e trabalho, pelo caminho da paz e do entendimento, isto é, pelo caminho reformista, pacífico e democrático.

Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas cento e cinquenta ou duzentas mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reivindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente, para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas deste país. Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.

A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas e a Destilaria Rio-Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.

Procurei, trabalhadores, depois de estudos cuidados elaborados por órgãos técnicos, depois de estudos profundos, procurei ser fiel ao espírito da lei que foi inspirada nos ideais patrióticos e imortais de um brasileiro que também continua imortal em nossa alma e em nosso espírito.

Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas.

O imortal e grande patriota tombou, mas o povo continua a caminhada, guiado pelos seus ideais. E eu, particularmente, vivo hoje momento de profunda emoção ao poder dizer que, com este ato, soube interpretar o sentimento do povo brasileiro.

Alegra-me ver, também, o povo reunido para prestigiar medidas como esta, da maior significação para o desenvolvimento do país e que habilita o Brasil a aproveitar melhor as suas riquezas minerais, especialmente as riquezas criadas pelo monopólio do petróleo. O povo estará sempre presente nas ruas e nas praças públicas para prestigiar um governo que pratica atos como estes, e também para mostrar às forças reacionárias que há de continuar a sua caminhada no rumo da emancipação nacional.

Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.

Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros, pelos universitários que sempre têm estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares e nacionalistas.

Ao lado dessas medidas e desses decretos, o governo continua examinando outras providências de fundamental importância para a defesa do povo, especialmente das classes populares.

Dentro de poucas horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o pagamento em dólares. Apartamento, no Brasil, só pode e só deve ser alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranquilos que dentro em breve esse decreto será uma realidade.

E realidade há de ser também a rigorosa e implacável fiscalização para que seja cumprido. O governo, apesar dos ataques que tem sofrido, apesar dos insultos, não recuará um centímetro sequer na fiscalização que vem exercendo contra a exploração do povo. E faço um apelo ao povo para que ajude o governo na fiscalização dos exploradores do povo, que são também exploradores do Brasil. Aqueles que desrespeitam a lei, explorando o povo – não interessa o tamanho de sua fortuna, nem de seu poder, esteja ele em Olaria ou na rua do Acre – hão de responder perante a lei pelo seu crime.

Aos servidores públicos da Nação, aos médicos, aos engenheiros do serviço público, que também não me têm faltado com seu apoio e o calor de sua solidariedade, posso afirmar que suas reivindicações justas estão sendo objeto de estudo final e que em breve serão atendidas. Atendidas porque o governo deseja cumprir o seu dever com aqueles que permanentemente cumprem o seu para com o país.

Ao encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado para enfrentar a luta, que tanto maior será contra nós quanto mais perto estivermos do cumprimento do nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei que o povo também apertará sua vontade contra aqueles que não reconhecem os direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.

Sei das reações que nos esperam, mas estou tranquilo, acima de tudo porque sei que o povo brasileiro já está amadurecido, já tem consciência da sua força e da sua unidade, e não faltará com seu apoio às medidas de sentido popular e nacionalista.

Quero agradecer, mais uma vez, esta extraordinária manifestação em que os nossos mais significativos líderes populares vieram dialogar com o povo brasileiro, especialmente com o bravo povo carioca, a respeito dos problemas que preocupam a Nação e afligem todos os nossos patrícios.

Nenhuma força será capaz de impedir que o governo continue a assegurar absoluta liberdade ao povo brasileiro. E, para isto, podemos declarar, com orgulho, que contamos com a compreensão e o patriotismo das bravas e gloriosas Forças Armadas da Nação.

Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, e pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

 

 

30 de março de 1964

 
 
 
 
Nesta data o presidente eleito do Brasil, João Goulart, discursa no Automóvel Clube, em reunião com mais de mil sargentos, realizada para reivindicar mais democracia e melhores condições de vida. Goulart já denuncia nesta reunião as atividades golpistas dos serviçais do governo dos Estados Unidos que conspiravam contra seu governo. 
 
Neste mesmo momento os golpistas já estavam atuando. O presidente mandou um recado aos insubordinados dizendo que confiava no povo para a defesa de seu mandato, e destacava que o momento exigia calma dos brasileiros, “para fazer face ao clima de intrigas feitas por grupos poderosos”. Jango disse ainda que o financiamento das ações dos conspiradores vinha de fora do país. 
 
“Tantos recursos para campanha tão poderosa, para mobilização tão violenta contra o governo, eu diria simplesmente, sargentos brasileiros, que tudo isto vem do dinheiro dos profissionais da remessa ilícita de lucros”, afirmou. 
 
Antes de justificar a necessidade das Reformas de Base, o presidente que seria deposto defendeu-se dos que o atacavam com violência e cinismo. “Elas (as reformas) são, acima de tudo, reivindicações legítimas do povo brasileiro, indispensáveis ao desenvolvimento do nosso país”. Na parte final do discurso, pareceu antever o golpe – e antecipar que não reagiria: “nesta noite, na hora em que se estão praticando as maiores indisciplinas, não admitirei que a desordem seja promovida em nome da ordem; não admitirei que o conflito entre irmãos seja pregado”. 
 
Alguma horas mais tarde o general Olímpio Mourão conduzia tropas de Minas para o Rio para a derrubada de Jango.

 

 

 

 

28 de março de 1968

 

Nesta data o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, então com 17 anos, foi morto pela repressão da ditadura no Rio de Janeiro. Edson era um dos 300 estudantes que jantavam no restaurante estudantil do Calabouço no final da tarde de 28 de março de 1968 quando o local foi invadido por policiais em busca de estudantes que protestavam contra as barbáries da ditadura no Brasil.

 

A mobilização em torno da morte do estudante foi o estopim para a primeira grande manifestação pública daquele ano, que culminaria três meses depois na Marcha dos 100 mil. O evento foi um dos principais protestos contra a Ditadura Militar. Diante do aumento das manifestações públicas o governo Costa e Silva intensificou a repressão política, culminando com a edição do Ato Institucional 5 (AI-5).

 

O velório e o enterro do estudante foram transformados em ato político. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o trajeto do corpo da Assembleia Legislativa do Rio, onde foi velado, até o Cemitério São João Batista, onde aconteceu o enterro. A morte trágica do jovem secundarista do calabouço selou o início da conscientização geral do povo brasileiro de que o regime fascista e pró-americano, implantado em 1964, tinha que ser derrubado.   

 
 
 
 
 
Nesta data o Ceará saiu na vanguarda na luta  pela liberdade e enterrou a escravidão em suas terras. Foi a primeira província do Brasil a abolir a vergonhosa exploração escravista. O município de Redenção (antes chamado de Acarape), localizado no Maciço de Baturité, recebe esse nome por ter sido a primeira cidade brasileira a libertar todos os seus escravos. Os escravos eram traficados para os centros cacaueiros, cafeeiro e açucareiro por bons preços. Essa exploração foi, aos poucos, despertando repulsa entre os cearenses que iniciaram, em Fortaleza, em 1879, um movimento emancipador denominado “Perseverança e Porvir”.
 

 

Os primeiros abolicionistas foram José Amaral, José Teodorico da Costa, Antônio Cruz Saldanha, Alfredo Salgado, Joaquim José de Oliveira, José da Silva, Manoel Albano Filho, Antônio Martins Francisco Araújo, Antônio Soares Teixeira Júnior.

 

Em 1880, esses abolicionistas fundaram a Sociedade Libertadora Cearense com 225 sócios, cujo presidente provisório foi João Cordeiro. Para divulgar seus ideais, em 1881, fundaram o Jornal O Libertador.

 

As datas festejadas pelo município de Redenção, foram marcantes no processo de libertação dos escravos. Em 25 de março de 1881, por exemplo, a Sociedade alforriou 35 escravos. Outra sociedade contribuiu para o movimento abolicionista. Tratou-se do Centro Abolicionista 25 de dezembro, fundado em 19 de dezembro de 1882. Dessa maneira, em 25 de março de 1884, foi abolida a escravidão no Ceará.

 

Os jangadeiros cearenses também aderiram ao movimento abolicionista e, em janeiro de 1881, fecharam o porto de Fortaleza ao embarque de escravos. Eles eram liderados por Francisco José do Nascimento, conhecido como Dragão do Mar.

 

No dia 1º de janeiro de 1883, a Vila do Acarape, atual Redenção, emancipou seus escravos há menos de um ano antes da província do Ceará. O povo redencionista guarda na memória o gesto heróico de ter libertado seus 116 escravos. Assim, Redenção é conhecida como Rosal da Liberdade.

O Ceará foi a primeira província do Brasil a abolir a escravidão. Esse ato é comemorado três vezes ao ano em Redenção. A data já faz parte do calendário de eventos culturais da cidade. Tanto que, além deste dia, também é comemorada em mais duas outras datas: 1º de janeiro e 25 de março.

 

Em janeiro de 1881, ouviu-se em Fortaleza o grito: “No porto do Ceará não se embarcam mais escravos!” Vinha de um grupo de jangadeiros liderados por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde. Com o apoio da população e até mesmo de militares, eles decidiram não mais fazer o transporte de negros até o porto - a profundidade da região não permitia que os navios atracassem. O governo manda tropas, mas não consegue obrigar os jangadeiros a retomar a travessia. Chico é demitido do posto de prático na Capitania dos Portos.

A ação dos trabalhadores não foi isolada. Em 1º de janeiro de 1883, o movimento emancipador articulado pela Sociedade Cearense Libertadora consegue a alforria de todos os escravos da vila de Aracape (hoje Redenção). José do Patrocínio comparece à solenidade. Em maio, Fortaleza adere ao movimento. Em setembro é a vez de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

25 de março de 1884, o presidente da província do Ceará declara a abolição da escravatura em todo o seu território. O Estado entra para a história por ter sido o primeiro a acabar, ao menos oficialmente, com o trabalho escravo no País.

A participação de Chico da Matilde é relembrada nas celebrações do acontecimento. Apelidado de Dragão do Mar, ele e sua jangada Liberdade são levados para o Rio de Janeiro. Desfila pelas ruas, é aclamado pela multidão. A embarcação entra no acervo do Museu Nacional, mas desaparece tempos depois.

Com o movimento cearense, o governo imperial se vê pressionado. Em 1885 decreta a Lei do Sexagenário, que alforriava os escravos com mais de 60 anos. Três anos depois, em 13 de maio de 1888, vem a Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel. Nas palavras de Joaquim Nabuco, “a emancipação do Ceará foi o acontecimento decisivo para a causa abolicionista”.


SAIBA MAIS 
Centro de Cultura e Museu de Arte Dragão do Mar:www.dragaodomar.org.br.

 

 
 

 

 

 

19 de março de 1964

 

 

Nesta data a direita, financiada e apoiada pelo governo norte-americano, organizou uma caminhada de desavisados em São Paulo pedindo um golpe militar para derrubar João Goulart, presidente do Brasil, eleito democraticamente. O golpe fascista foi concretrisado alguns dias depois da marcha e o país amargou uma ditadura estupida que perseguiu, torturou e assassinou centenas de patriotas e calou a imprensa democrática. Uma parte da imprensa apoiou o golpe. Sua primeira medida, além da repressão política, foi implantar um brutal arrocho salarial e iniciar a entrega de nossas riquezas a seus patrões dos carteis e monopólios internacionais, principalmente os norte-americanos. Soube-se depois que o governo dos EUA, grande interessado na derrubada do presidente João Goulart. mobilizou tropas que permaneceram em navios próximos à costa brasileira para invadir o país caso houvesse resistência popular ao golpe.  

 

 

16 de março de 1968

 

 

 

Nesta data o Exército Americano, através da Companhia Charlie, da 11ª Brigada de Infantaria, perpetrou o criminoso massacre de civis na pequena aldeia da provincia sul-vietnamita de Quang Ngai, que ficou conhecido como “Massacre de My Lai”. Foram assassinados 504 civis vietnamitas, alguns dos quais mutilados. O horror, comandado pelo oficial William Laws Calley Jr., sob ordens diretas do presidente dos EUA, Richard Nixon, chocou o mundo e mostrou a todos o grau de podridão a que havia chegado o imperialismo americano.

 

A carnificina foi tão monstruosa que Hugh C. Thompson, Jr. piloto de helicóptero em missão de reconhecimento que, ao presenciar o sucedido, ameaçou disparar as metralhadoras do seu helicóptero sobre as forças americanas se a chacina de civis vietnamitas não parasse naquele instante. Assim pôs cobro a um dos mais tenebrosos episódios de toda a guerra do Vietnam e da história dos EUA.

 

Quando as tropas penetraram na aldeia, o tenente Calley, lhes disse: "É o que vocês estavam esperando: uma missão de procurar e destruir". Calley diria mais tarde ter recebido ordens para "limpar My Lai", considerada um feudo dos combatentes da FNL. '"As ordens eram para matar tudo o que se mexesse"', diria mais tarde um dos militares americanos ao jornalista Seymour Hersh, que daria a conhecer ao mundo o horror praticado pelo exército dos EUA naquela aldeia

 

Sob o comando de Calley, o pelotão não poupou ninguém. Em apenas quatro horas, mataram os animais, queimaram as choupanas, violaram e mutilaram as mulheres, assassinaram homens e trucidaram as crianças. Para sobreviver, alguns habitantes tiveram que fingir-se de mortos, passando horas no meio dos cadáveres. No final da orgia de sangue, havia 504 cadáveres dos aldeões, em sua grande maioria idosos, mulheres e crianças (cerca de 170), todos desarmados e assassinados a sangue frio.

 

Pouco mais de um ano depois do massacre, o ex-atirador de helicóptero Ronald Ridenhour (1946 1998), que foi informado do ataque por meio de testemunhos de vários soldados da Companhia C, enviou 30 cartas de sua casa, no Arizona, relatando o que tinham exposto a ele - cartas enviadas para o presidente Richard Nixon, autoridades militares, senadores e congressistas. A maioria jamais respondeu suas cartas, com exceção do congressista Morris Udall, que telefonou a Ridenhour prometendo fazer tudo a seu alcance para o esclarecimento do massacre.

 

O exército iniciou as investigações em 23 de abril de 1969 e, em setembro, poucos dias antes de seu desligamento do exército, acusou o tenente Calley pelo assassinato de 109 “seres humanos orientais”, número reduzido depois para 102. Esse fato foi pouco divulgado pela imprensa (o New York Times, em 8 de setembro, destacou apenas no final da página 38 e o assunto parecia encerrado, até o repórter free lance Seymour Hersh (1937) retomar a questão.

 

Em 22 de outubro de 1969, um conhecido de Hersh, o advogado Geoff Cowan, informou que o exército procurava submeter um sujeito à corte marcial, em segredo, pela morte de aproximadamente 75 civis sulvietnamitas. Dois dias e 25 telefonemas depois, Hersh descobriu que o número de civis era 109. Conseguiu cerca de US$ 1 mil do Fundo de Jornalismo de Investigação, voou para Fort Benning e, em 11 de novembro, entrevistou o tenente Calley. Depois os números foram subindo e se aproximando do verdadeiro, divulgado depois pelos vietnamitas: 504 mortos.

 

 

 

 

 

 

15 de março de 1789

Nesta data a Inconfidência Mineira, movimento revolucionário liderado por Tiradentes, que pretendia libertar o Brasil do domínio e da espoliação colonial europeia, foi covardemente traída. Na tarde de 15 de março de 1789, Silvério dos Reis apunhala seus companheiros pelas costas e entrega ao Visconde de Barbacena, governador de Minas, nomeado por Portugal, os planos dos inconfidentes para escorraçar os exploradores do Brasil. Corrompido pelas propinas e benesses da coroa, o traidor Silvério passou a se locupletar com cargos palacianos e a advogar os supostos benefícios da submissão do Brasil aos interesses estrangeiros. Como os traidores, invertebrados e neoliberais de hoje, que entregam nossas riquezas aos trustes e aos monopólios imperialistas, Silvério também passou a defender as “concessões” e as “parcerias” com as potências estrangeiras. O pretexto sempre foi o mesmo: atrair "investimentos" e "tecnologias" para "desenvolver" o país. Como se os açambarcadores de fora tivessem algum interesse em desenvolver o Brasil. O que eles querem, e sempre quiseram, foi se apoderar de nossas riquezas, do nosso sangue e de nosso trabalho. O povo nunca perdoou os traidores da Pátria. Tanto assim que infernizou Silvério até os últimos dias de sua vergonhosa existência. E hoje, esse mesmo povo já mostrou, nas ruas, em junho e julho do ano passado, que os novos Silvérios que estão entregando nossos minérios, nossa infraestrutura, nossa energia e nosso petróleo do Pré-sal, também não conseguirão dormir sossegados se insistirem em sua traição ao país.                 

14 de março de 1883

Nesta data morreu Karl Marx, o maior gênio da ciência e da revolução social e o desbravador de uma nova sociedade. A sociedade socialista, progressista, fraterna e igualitária, que enterrará de vez a escravidão assalariada, a ganância destrutiva dos oligopólios privados, dos biliardários e dos bancos e suas guerras de rapina. Marx apontou os caminhos de uma sociedade livre, que organizará consciente e coletivamente a produção dos bens materiais, culturais e dos serviços de que a humanidade tanto precisa para se desenvolver harmonicamente. Segundo Marx, essa será a sociedade da fartura e dos homens livres. A consciência libertará o homem, dizia ele, e abrirá as portas de um futuro radiante superando definitivamente a miséria, a fome e a ignorância, ou seja, a pré-história da Humanidade. 

 

 

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Foi Marx que decifrou o "código da economia de crise"

 

No artigo abaixo, o economista Nilson Araújo de Souza responde ao artigo de Paul Krugman, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), em que este atribui a Keynes o mérito de ter desvendado a teoria das crises econômicas. "Inquestionavelmente, sobressai dessa literatura a monumental obra de Marx. Nada que pelo menos se lhe igualasse foi produzido antes ou depois. Foi precisamente Marx, e não Keynes, que `decifrou o código da economia de crise’. Isso não está em nenhum livro em particular ou em qualquer capítulo isolado de seus livros. Está no conjunto de sua obra, da qual a mais importante é, certamente, O Capital", destacou Nilson

 

A incapacidade de pensar passou a ser uma marca registrada dos apologistas da desordem mundial que impera atualmente. E por isso vivem à cata de mitos na tentativa de fugir da realidade. Um de seus mitos mais caros, forjado depois da derrubada da União Soviética, é o de que o marxismo morreu. Demonstração de que até eles, apesar de suas mentes entorpecidas, percebem que isso não passa de um mito é o fato de que, volta e meia, vêm a público criticar o que consideram as idéias de Marx. Se o marxismo já estivesse morto e enterrado, como dizem, não se justificaria essa preocupação.

 

Quem foi ultimamente utilizado nesse esforço de criticar o marxismo foi um prestigiado economista do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Paul Krugman. Ele, inclusive, não foi um dos que mais se esmagou diante da onda neoliberal, que, felizmente, já entrou em decadência. Não ficou por aí papagueando que o mercado pode tudo e que o Estado deveria desaparecer de cena. Ele se manteve numa trincheira no essencial positiva e que, na verdade, se trata da última tentativa do pensamento burguês fazer ciência na área da economia: o keynesianismo.

 

Depois de um século em que o pensamento econômico burguês, depois do auge a que chegara com David Ricardo, iniciara seu processo de vulgarização, que teve seu momento particularmente vulgar com a chamada escola neoclássica no fim do século passado e começo deste século, a grave crise em que o capitalismo se meteu com a Grande Depressão de 1929 terminou por despertar a alguns economistas que abraçavam essa corrente - liderados pelo inglês John Maynard Keynes -, que realizaram um último esforço de fazer ciência, em resposta a uma necessidade que o sistema tinha de buscar novos caminhos para sair da crise. De lá para cá, dessa mata não tem saído coelho. Sua última criação são esses arremedos de ideologia que compõem o neoliberalismo.

 

Obrou bem Paul Krugman ao permanecer fiel ao pensamento keynesiano nesses tempos de obscurantismo intelectual que caracteriza os meios acadêmicos. Só não fez bem foi em ficar enciumado com as comemorações que se fizeram neste ano de aniversário dos 150 anos do Manifesto Comunista, ocasião em que, segundo ele, "artigos proclamam que a turbulenta economia mundial de hoje é exatamente o que o grande homem previu. Um colunista do New Yorker chegou a proclamar Marx como o pensador do futuro".

 

Tomado de ciúmes, procurou atribuir a Keynes méritos que são sabidamente de Marx. E o fez já a partir do título de seu artigo: "Keynes decifrou o código da economia de crise". Diz que chegou a essa conclusão depois de examinar a literatura anterior: "Eu tentei examinar a literatura pré-keynesiana sobre ciclos econômicos: é um vasto deserto". Dr. Krugman, o senhor não tem motivos para ficar tão inseguro. Para reconhecer os inquestionáveis méritos de Keynes, não é necessário atribuir a ele nada do que legitimamente não lhe pertence.

 

Não é nenhum deserto a literatura sobre as crises econômicas anterior a Keynes. Ao contrário, é muito abundante. Teve início no começo do século passado com Sismondi de Sesmondi, Rodbertus e Robert Malthus, em forte polêmica com Ricardo, e foi retomada por Karl Marx na segunda metade do século. Entre fins do século passado e começo deste século, ocorreu uma das mais ricas polêmicas do pensamento econômico, precisamente sobre a teoria das crises, em que se envolveram pensadores marxistas e não-marxistas, como Karl Kautski, Otto Bauer, Rosa Luxemburgo, Hilferding, Conrad Smith, Tugan-Baranovski, Lenin, Joseph Schumpeter, entre outros. Precisa estudar mais economia, Dr. Krugman.

 

Mas, inquestionavelmente, sobressai dessa literatura a monumental obra de Marx. Nada que pelo menos se lhe igualasse foi produzido antes ou depois. Foi precisamente Marx, e não Keynes, que "decifrou o código da economia de crise". Isso não está em nenhum livro em particular ou em qualquer capítulo isolado de seus livros. Está no conjunto de sua obra, da qual a mais importante é, certamente, O Capital. Isso porque o objetivo central de sua obra econômica, e particularmente de O Capital, segundo ele próprio afirma, é "descobrir a lei econômica fundamental do capital". E foi precisamente nesse processo que ele descobriu que o capitalismo é uma "economia de crise", isto é, é uma economia essencialmente cíclica. Sua teoria da crise é, portanto, o conjunto de sua análise da dinâmica da economia capitalista. É o conjunto de sua obra econômica.

 

Concluiu Marx que o fundamento das crises capitalistas está justamente na forma como esse sistema se organiza para produzir e distribuir riquezas. É uma economia baseada na propriedade privada e na divisão social do trabalho. Daí deriva a necessidade inelutável, obrigatória, de o conjunto dos bens produzidos assumir o caráter de mercadoria, de bens produzidos para a troca. O mercado é a forma necessária através da qual os produtos são distribuídos nesse sistema. Ou seja, daí deriva seu caráter essencialmente mercantil. No entanto, ao produzir para outros e seu produto chegar a outros através de incontáveis processos de troca, cada produtor não tem a menor garantia a priori de que, ao final do processo, terá vendido o conjunto dos bens que produz. Pode ou não vender. É o que Marx chama de anarquia da produção. É uma produção que, por basear-se na propriedade privada, não pode ser globalmente planejada. E é essa a base das crises nas economias mercantis e das crises econômicas periódicas do capitalismo.

 

Mas não basta isso. Diz o grande pensador que essas crises resultam do "conjunto das contradições da economia burguesa". A possibilidade de não vender toda a produção gerada se realiza no capitalismo através da contradição produção-consumo. O consumo final depende, no capitalismo, basicamente dos que vivem de salário e de lucro. Ainda quando haja melhoria do salário real - isto é, aumento do poder de compra do salário -, a parcela do salário tende a diminuir em relação ao conjunto da renda nacional, na medida em que os ganhos de produtividade são majoritariamente apropriados pelos detentores do capital. Por outro lado, premidos pela concorrência e a conseqüente sede de acumulação, os capitalistas tendem a acumular - isto é, investir - uma parcela crescente de seus lucros, diminuindo a proporção destinada a seu consumo particular. Em conseqüência, o consumo final, mesmo quando cresce, o faz a um ritmo inferior à produção. É a isso que Marx chamava de subconsumo.

 

Mas o subconsumo não é a causa imediata da crise, diz Marx em sua polêmica com os ricardianos de esquerda. A produção pode crescer durante um determinado tempo, mesmo que o consumo final não a acompanhe, porque o "consumo intermediário", isto é, o consumo de meios de produção (máquinas, equipamentos, matérias-primas), pode substituí-lo. A própria lógica da economia capitalista leva a isso. A concorrência leva os capitalistas a buscar novas tecnologias e, conseqüentemente, a substituir o homem pela máquina. Enquanto for possível a substituição do consumo final pelo "consumo intermediário", a economia pode seguir crescendo. No entanto, esse processo cria uma outra contradição: o setor que produz meios de produção cresce mais rapidamente do que o que produz bens de consumo, provocando uma desproporção intersetorial. Em algum momento, essa contradição vai explodir e, ao explodir, traz à tona a contradição produção-consumo, tornando invendável parcela da produção gerada, formando estoques e demitindo trabalhadores. É a crise.

 

A questão é saber o que faz explodir essas contradições. Ou seja, o que detona a crise. Para Marx, é a queda da taxa de lucro. O que faz a taxa de lucro cair é o próprio processo de acumulação de capital. Como é o trabalho que produz valor e, portanto, a parcela deste que é apropriada pelo capitalista, que Marx chamou de mais-valor, que se manifesta principalmente sob a forma de lucro, a substituição do homem pela máquina faz com que o lucro gerado pelo trabalho não cresça na mesma proporção da acumulação de capital, ou seja, do crescimento da massa de capital investido. Em decorrência, a taxa global de lucro da economia tende a cair. No momento de auge da acumulação, essa situação se agrava porque, em face do esgotamento do exército de desempregados, aumenta o poder de reivindicação dos trabalhadores, impedindo que os capitalistas descarreguem sobre seus ombros os prejuízos decorrentes da queda dos lucros.

 

Com a queda da taxa de lucros, os empresários cortam os investimentos e, por conseguinte, as compras de meios de produção. Com isso, o "consumo intermediário" deixa de substituir o consumo final, fazendo o subconsumo aparecer em toda a sua plenitude. A redução das compras de meios de produção provoca demissão de trabalhadores nesse setor, reduzindo a massa salarial e fazendo contrair ainda mais o consumo total dos trabalhadores. O resultado é a queda das vendas do setor de bens de consumo, mais demissão, mais queda de salário e mais queda nas vendas. Em dificuldades, as empresas mais débeis fecham as portas ou vendem suas fábricas. As forças produtivas já não cabem nos estreitos marcos das relações de produção capitalistas, como diria Marx. Nesse processo, barateiam os elementos do capital fixo (máquinas, equipamentos, prédios) e se desvaloriza a força de trabalho - isto é, destroem-se forças produtivas. Só assim, a taxa de lucro volta a subir, reanimando de novo a economia. É essa a dinâmica da crise e do ciclo econômico capitalista. E isso está tin-tin por tin-tin na obra de Marx.

 

Keynes teve o mérito de, sacudido pela Grande Depressão, escapar dos preconceitos de seus mestres, os economistas neoclássicos, que achavam que, se as tais forças de mercado operassem livremente, a economia caminharia para o equilíbrio. Keynes percebeu que o processo era precisamente o contrário: se funcionassem livremente, as "forças de mercado" conduziriam, inevitavelmente, ao desequilíbrio, à crise. E, ainda que usando uma linguagem distinta, reproduziu, no fundamental, o raciocínio que já fora feito por Marx. Constatou ele que, quanto mais cresce o nível de renda da economia, também cresce o consumo total, mas a um ritmo inferior, isto é, os acréscimos de consumo derivados dos acréscimos de renda tendem a ser cada vez menores. Com isso, a propensão a consumir diminui com o crescimento da renda. Portanto, o consumo cresce menos do que a produção, como já constatara Marx.

 

Mas, completa Keynes, a crise só se instaura quando há um colapso do que ele chamava de Eficiência Marginal do Capital (EMC), que seria a expectativa de rendimento que poderia ser obtido pelo investimento da última unidade de capital. É a maneira keynesiana de ver o comportamento da taxa de lucro. Vários fatores poderiam levar ao colapso da EMC, dentre eles a percepção dos empresários de que estaria havendo uma queda da propensão a consumir. Com a queda da EMC, caem os investimentos, reduz a demanda de meios de produção, demitem-se trabalhadores, cai a massa salarial, cai o consumo e deflagra-se a crise.

 

Como se vê, um raciocínio muito parecido ao desenvolvido por Marx. Uma diferença é que, enquanto Keynes trabalha com a expectativa de queda da taxa de lucro, Marx trabalha com a queda efetiva dessa taxa. Mas, apesar da crença dos keynesianos, essa não é uma diferença muito grande, na medida em que, no fundamental, a expectativa keynesiana de queda do lucro é baseada no comportamento efetivo observado na taxa de lucro e, por outro lado, para Marx, não é necessário esperar o colapso efetivo da taxa de lucro para os empresários cortarem os investimentos; ao perceberem que a tendência à queda está se verificando, passam a esperar que ela vai seguir ocorrendo (expectativa) e, em face disso, antecipam o corte dos investimentos.

 

A diferença substancial é que Keynes, ao contrário de Marx, acreditava que, com a intervenção do Estado na economia, as crises poderiam ser evitadas. O Estado, por não pautar seu comportamento pelo que ocorre com a taxa de lucro, poderia realizar investimentos, mesmo com a EMC em queda; além disso, através do gasto público e de políticas de redistribuição de renda, poderia estimular o consumo, compensando a tendência à queda da propensão a consumir. Os keynesianos das várias vertentes, depois da crescente intervenção estatal do período de pós-guerra, chegaram a acreditar que o ciclo econômico havia sido abolido. O recrudescimento das crises desde os anos setenta mostrou que Marx tinha razão ao perceber que, independentemente da ação do Estado, a combinação do conjunto das contradições da economia capitalista conduziria, irremediavelmente, a crises econômicas periódicas.

 

O que os keynesianos não perceberam foi que o Estado, usando as políticas keynesianas, pode promover o desenvolvimento, ajudar a economia a sair da crise, mas, enquanto preponderar a propriedade privada e, portanto, o interesse individual na busca do lucro, a ação estatal não poderá impedir a emergência das crises periódicas, na medida em que não pode planejar o conjunto da atividade econômica. Então, Dr. Krugman, o mérito de Keynes não foi decifrar "o código da economia de crise", pois isso já havia sido feito por Marx. O seu mérito foi sistematizar melhor o que já havia de elaboração sobre o papel do Estado na economia, desde as formulações de Malthus, passando pelas de Alexander Hamilton e Frederick List, até as de Karl Manhein. Equivocou-se - mais seus discípulos do que ele próprio - ao atribuir ao Estado mais do que ele poderia dar, mas percebeu que, nesta época de domínio dos monopólios, torna-se praticamente impossível a saída automática das crises, tornando-se obrigatória a ação do Estado, ou seja, é impossível pensar o funcionamento da economia capitalista de hoje sem o papel do Estado, a despeito das alucinações dos adoradores modernos de um mercado em extinção.

 

NILSON ARAÚJO DE SOUZA

 

 

 

 

13 de março de 1964

 

Nesta data o então presidente João Goulart realizou comício na Central do Brasil, região central do Rio de Janeiro, para defender as reformas de base propostas por seu governo. Cerca de 200 mil pessoas acompanharam o discurso. Goulart prometeu lutar pelas reformas de base que garantitiriam, o desenvolvimento do Brasil, o fim da miséria e a soberania nacional. O discurso, que encheu de esperança o povo brasileiro e que desencadeou a escalada fascista, foi encerrado com as seguintes palavras: "Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributárias, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação, pela justiça social e pelo progresso do Brasil".

 

Leia a íntegra do discurso

 

 

Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.

 

Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.

 

Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.

 

Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do presente.

 

Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.

 

Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.

 

Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reinvindicações.

 

A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.

 

A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.

 

Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições.

 

Democracia é o que o meu governo vem procurando realizar, como é do seu dever, não só para interpretar os anseios populares, mas também conquistá-los pelos caminhos da legalidade, pelos caminhos do entendimento e da paz social.

 

 

 

Cerca de 200 mil pessoas se reuniram na Central do Brasil para ouvir o discurso de Jango em defesa das reformas de base (Arquivo Nacional / Correio da Manhã)

Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo; não há ameaça mais séria à democracia do que tentar estrangular a voz do povo e de seus legítimos líderes, fazendo calar as suas mais sentidas reinvindicações.

 

Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.

 

Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro.

 

O inolvidável Papa João XXIII é quem nos ensina que a dignidade da pessoa humana exige normalmente como fundamento natural para a vida, o direito ao uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade privada a todos.

 

É dentro desta autêntica doutrina cristã que o governo brasileiro vem procurando situar a sua política social, particurlamente a que diz respeito à nossa realidade agrária.

 

O cristianismo nunca foi o escudo para os privilégios condenados pelos Santos Padres. Nem os rosários podem ser erguidos como armas contra os que reclamam a disseminação da propriedade privada da terra, ainda em mãos de uns poucos afortunados.

 

Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.

 

Perdem seu tempo os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo. Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.

 

Ainda ontem, trabalhadores e povo carioca, dentro da associações de cúpula de classes conservadoras, levanta-se a voz contra o Presidente pelo crime de defender o povo contra aqueles que o exploram nas ruas, em seus lares, movidos pela ganância.

 

Não tiram o sono as manifestações de protesto dos gananciosos, mascarados de frases patrióticas, mas que, na realidade, traduzem suas esperanças e seus propósitos de restabelecer a impunidade para suas atividades anti-sociais.

 

Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.

 

Essa Constituição é antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas.

 

Todos têm o direito à liberdade de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.

 

Está nisso o sentido profundo desta grande e incalculável multidão que presta, neste instante, manifestação ao Presidente que, por sua vez, também presta conta ao povo dos seus problemas, de suas atitudes e das providências que vem adotando na luta contra forças poderosas, mas que confia sempre na unidade do povo, das classes trabalhadoras, para encurtar o caminho da nossa emancipação.

 

É apenas de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional.

 

São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu povo brasileiro.

 

De minha parte, à frente do Poder Executivo, tudo continuarei fazendo para que o processo democrático siga um caminho pacífico, para que sejam derrubadas as barreiras que impedem a conquista de novas etapas do progresso.

 

E podeis estar certos, trabalhadores, de que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação econômica e social deste país.

 

O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade”.

 

A maioria dos brasileiros já não se conforma com uma ordem social imperfeita, injusta e desumana. Os milhões que nada têm impacientam-se com a demora, já agora quase insuportável, em receber os dividendos de um progresso tão duramente construído, mas construído também pelos mais humildes.

 

Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.

 

Não, trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo. Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e as ilusões passadas.

 

O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos.

 

Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.

 

Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.

 

Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado.

 

Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.

 

O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.

 

Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, quese apoderaram das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve bemeficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo.

 

Não o podemos fazer, por enquanto, trabalhadores, como é de prática corrente em todos os países do mundo civilizado: pagar a desapropriação de terras abandonadas em títulos de dívida pública e a longo prazo.

 

Reforma agrária com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da SUPRA não é a reforma agrária.

 

Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.

 

Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação.

 

E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.

 

No Japão de pós-guerra, há quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de subversivo ou extremista?

 

Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias foram beneficiadas.

 

No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.

 

Na Índia foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses.

 

Essas leis abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, lutam contra a praga do latifúndio improdutivo.

 

Nações capitalistas, nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.

 

A reforma agrária não é capricho de um governo ou programa de um partido. É produto da inadiável necessidade de todos os povos do mundo. Aqui no Brasil, constitui a legenda mais viva da reinvindicação do nosso povo, sobretudo daqueles que lutaram no campo.

 

A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.

 

Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para comprar.

 

Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano.

 

Interessa, por isso, também a todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria e no bem-estar do seu povo.

 

Como garantir o direito de propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?

 

O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de conquistar.

 

Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social.

 

No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabahou para o proprietário. Esse inquilinato rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país.

 

A reforma agrária só prejudica a uma minoria de insensíveis, que deseja manter o povo escravo e a Nação submetida a um miseravel padrão de vida.

 

E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. E é claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento.

 

Governo nenhum, trabalhadores, povo nenhum, por maior que seja seu esforço, e até mesmo o seu sacrifício, poderá enfrentar o monstro inflacionário que devora os salários, que inquieta o povo assalariado, se não forem efetuadas as reformas de estrutura de base exigidas pelo povo e reclamadas pela Nação.

 

Tenho autoridade para lutar pela reforma da atual Constituição, porque esta reforma é indispensável e porque seu objetivo único e exclusivo é abrir o caminho para a solução harmônica dos problemas que afligem o nosso povo.

 

Não me animam, trabalhadores – e é bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos legou. Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano.

 

Nela, estão claramente expressas as intenções e os objetivos deste governo. Espero que os senhres congressistas, em seu patriotismo, compreendam o sentido social da ação governamental, que tem por finalidade acelerar o progresso deste país e assegurar aos brasileiros melhores condições de vida e trabalho, pelo caminho da paz e do entendimento, isto é, pelo caminho reformista.

 

Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país. Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.

 

A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.

 

Procurei, trabalhadores, depois de estudos cuidadosos elaborados por órgãos técnicos, depois de estudos profundos, procurei ser fiel ao espírito da Lei n. 2.004, lei que foi inspirada nos ideais patrióticos e imortais de um brasileiro que também continua imortal em nossa alma e nosso espírito.

 

Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas.

 

O imortal e grande patriota Getúlio Vargas tombou, mas o povo continua a caminhada, guiado pelos seus ideais. E eu, particurlamente, vivo hoje momento de profunda emoção ao poder dizer que, com este ato, soube interpretar o sentimento do povo brasileiro.

 

Alegra-me ver, também, o povo reunido para prestigiar medidas como esta, da maior significação para o desenvolvimento do país e que habilita o Brasil a aproveitar melhor as suas riquezas minerais, especialmente as riquezas criadas pelo monopólio do petróleo. O povo estará sempre presente nas ruas e nas praças públicas, para prestigiar um governo que pratica atos como estes, e também para mostrar às forças reacionárias que há de continuar a sua caminhada, no rumo da emancipação nacional.

 

Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.

 

Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares nacionalistas.

 

Ao lado dessas medidas e desses decretos, o governo continua examinando outras providências de fundamental importância para a defesa do povo, especialmente das classes populares.

 

Dentro de poucas horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que dentro em breve esse decreto será uma realidade.

 

E realidade há de ser também a rigorosa e implacável fiscalização para seja cumprido. O governo, apesar dos ataques que tem sofrido, apesar dos insultos, não recuará um centímetro sequer na fiscalização que vem exercendo contra a exploração do povo. E faço um apelo ao povo para que ajude o governo na fiscalização dos exploradores do povo, que são também exploradores do Brasil. Aqueles que desrespeitarem a lei, explorando o povo – não interessa o tamanho de sua fortuna, nem o tamanho de seu poder, esteja ele em Olaria ou na Rua do Acre – hão de responder, perante a lei, pelo seu crime.

 

Aos servidores públicos da Nação, aos médicos, aos engenheiros do serviço público, que também não me têm faltado com seu apoio e o calor de sua solidariedade, posso afirmar que suas reinvindicações justas estão sendo objeto de estudo final e que em breve serão atendidas. Atendidas porque o governo deseja cumprir o seu dever com aqueles que permanentemente cumprem o seu para com o país.

 

Ao encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto estivermos do cumprimento de nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei que o povo também apertará sua vontade contra aqueles quenão reconhecem os direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.

 

Sei das reações que nos esperam, mas estou tranqüilo, acima de tudo porque sei que o povo brasileiro já está amadurecido, já tem consciência da sua força e da sua unidade, e não faltará com seu apoio às medidas de sentido popular e nacionalista.

 

Quero agradecer, mais uma vez, esta extraordinária manifestação, em que os nossos mais significativos líderes populares vieram dialogar com o povo brasileiro, especialmente com o bravo povo carioca, a respeito dos problemas que preocupam a Nação e afligem todos os nossos patrícios. Nenhuma força será capaz de impedir que o governo continue a assegurar absoluta liberdade ao povo brasileiro. E, para isto, podemos declarar, com orgulho, que contamos com a compreensão e o patriotismo das bravas e gloriosas Forças Armadas da Nação.

 

Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

 

 

9 de março de 1500

 

 

Nesta data partia de Portugal a expedição chefiada por Pedro Álvares Cabral que em exatos 45 dias chegaria ao Brasil. De acordo com o relato contido na carta escrita por Pero Vaz de Caminha, a esquadra avistou o monte Pascoal a 70 km da costa no dia 22 de abril de 1500, uma quarta-feira. Naquela época Portugal estava na vanguarda em relação aos demais países da Europa no que diz respeito aos usos das novas tecnologias de navegação. Por isso, a descoberta do Brasil, ao contrário do que muitos pensam, não foi fruto do acaso, mas sim o resultado de um grande avanço tecnológico obtido pelos eminentes navegadores e cientistas da Escola de Sagres.

 

Desde a Antigüidade o mar mediterrâneo foi um velho conhecido dos europeus. No entanto, enfrentar o atlântico era algo que assustava os mais experientes navegadores. Esse medo do atlântico desaparecerá a partir da criação ou aperfeiçoamento de tecnologias que permitirão superar importantes problemas: 1- como ir e voltar a alto mar com segurança; 2- como se orientar e se localizar com precisão nessa empreitada, etc.

 

A caravela portuguesa será essa embarcação revolucionária que permitirá "navegar por mares nunca dantes navegados". Essa embarcação com suas velas triangulares - as embarcações tradicionais usavam velas quadradas - permitirá o avanço em zig-zag na direção desejada, mesmo com ventos contrários. Com a caravela os portugueses poderão chegar cada vez mais longe nas grandes aventuras dos descobrimentos. A bússola, que já era conhecida há muito tempo, permitia a localização. Somada ainda a instrumentos de localização como o quadrante e o astrolábio o problema da orientação em alto mar será resolvido.

 

Por volta de 1460, os portugueses começaram a usar o quadrante, instrumento que permitia estabelecer a distância - no sentido norte sul - entre o ponto de partida e o ponto onde se encontrava a caravela, tendo como referência a estrela polar. O astrolábio também permitia determinar essa distância, contudo, sua referência era o sol, o que possibilitará navegar abaixo da linha do equador onde a estrela polar não era vista, expandindo, assim, as explorações.

 

 

Nesta data operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano. 

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Viva o 8 de Março Dia Internacional da Mulher!


Companheiras e companheiros

    O dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher é comemorado no Brasil e no mundo como uma data importante para a luta das mulheres contra toda forma de discriminação, pela igualdade de direitos e pela ampliação da sua  participação política e social em todos os níveis, pela solidariedade entre os povos e a independência das nações.
    Em outubro desse ano, acontecerão as eleições para Presidente da República, governadores, deputados e senadores. Momento de suma importância para definirmos os rumos da vida nacional, o futuro que queremos para os milhões de brasileiros, filhas e filhos de nossa grande nação. Momento em que a participação feminina é ainda mais decisiva e fundamental.
          Vivemos dias difíceis. O Brasil parou de crescer. Quando elegemos Lula o país avançou, saiu da estagnação. Em seguida elegemos Dilma para continuar a avançar, para levar adiante as conquistas que os trabalhadores e o povo obtiveram durante o governo Lula, mas não foi o que aconteceu. O Brasil andou para trás. Nossa economia retrocedeu ao baixo nível de expansão da nefasta era FHC. Passamos de um crescimento de 7,5% no último ano do governo Lula para 2,7% em 2011, menos de 1% em 2012 e 2,3% em 2013, a previsão é crescer em 2014 pífios 1,7%. 
         Os juros, que Dilma havia prometido baixar, voltaram a ser os mais altos do mundo. A presidente não honrou os compromissos que assumiu com as mulheres, com os trabalhadores e o povo durante sua campanha em 2010, não ouviu a voz das ruas, não priorizou os interesses nacionais e o bem estar da população.
     Os apagões voltaram e se quisermos que parem de acontecer teremos que pagar mais caro a conta de luz, disse o Ministro das Minas e Energias. 
      As privatizações de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias voltaram a ser feitas com o novo nome de “concessões”. O petróleo do pré-sal foi entregue à Shell e à Total, empresas multinacionais que fazem parte do cartel do petróleo, em detrimento dos interesses da Petrobrás e do Brasil.
           Submetendo-se aos ditames dos monopólios, o governo tem realizado sucessivos cortes nos orçamentos reduzindo os investimentos públicos em saúde, educação, creches, habitação popular, segurança, transporte e em tudo que represente o crescimento do país. 
          A política de valorização do salário mínimo foi esvaziada. 
        A indústria recuou. O emprego industrial caiu, dificultando o acesso da mulher ao mercado de trabalho mais qualificado e com melhores salários. O BNDES que deveria ser o agente de uma política de fortalecimento da indústria brasileira prioriza a concessão de créditos para as empresas estrangeiras. Persiste a desigualdade nos salários entre homens e mulheres, mesmo que ambos exerçam as mesmas funções. 
      A política de desonerações do governo só tem favorecido as multinacionais, que não repassam aos preços de seus produtos os valores que recebem sob a forma de desoneração. 
       O governo manobrou para que o Senado não votasse o PLC 99/2013 que reduz o indexador das dívidas dos Estados e Municípios depois de ter assumido um acordo com governadores e prefeitos deixando-os de mãos atadas. Nem mesmo os pequenos projetos do Ministério da Mulher escaparam do facão do Ministro Mantega em seu afã para engordar o superávit primário, dinheiro que vai diretamente para os bancos, especialmente os bancos estrangeiros, setor que mais lucrou durante o governo Dilma.
        O Brasil foi escancarado para o capital externo; nunca antes tantas empresas brasileiras foram desnacionalizadas,  fazendo com que cada vez mais cresçam as remessas de lucros das multinacionais para suas matrizes em outros países. Nos últimos 12 meses, as contas externas acumulam déficit de US$ 81,6 bilhões (3,67% do PIB).

              O Brasil precisa voltar a crescer. E esses três anos de governo já demonstraram que sob comando de Dilma e sua política de juros altos, corte do investimento público e desnacionalização da economia isso não ocorrerá.


Ė hora de mudar! E o que representa a mudança hoje no Brasil é a ampla frente que está se constituindo em ritmo acelerado em torno do governador Eduardo Campos e da senadora Marina Silva.
          Participar dessa frente, fortalecê-la, apoiá-la nas disputas eleitorais que se darão em todos os níveis é o principal meio que as mulheres brasileiras têm à sua disposição para construir um futuro melhor para si e suas famílias.
          E vamos aproveitar essas eleições para avançar também na superação da situação que condena o nosso país ao 156º lugar no mundo em relação à participação de mulheres no Parlamento. No Brasil apenas 9% dos deputados são mulheres. Estaremos vigilantes para que os partidos políticos cumpram a lei que determina que 30% dos candidatos nas chapas ao legislativo sejam mulheres. Mas estamos cientes de que isso não garante que essas mulheres sejam eleitas. Ė preciso mais, e o período eleitoral é um excelente momento para debatermos propostas que levem o país a superar, de fato, essa realidade.

Viva o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher!
Com Eduardo e Marina para o Brasil voltar a crescer!
Pela ampliação da participação feminina no Legislativo!

ROSANITA CAMPOS
Vice-presidente Nacional do Partido Pátria Livre
e Secretária Nacional da Mulher do PPL
 

São Paulo, 8 de março de 2014. 

 

 

 

Nesta data o líder dos revolucionários soviéticos, e de todo o mundo, Josef Stalin, nos deixou fisicamente e passou a figurar entre os maiores nomes da História da Humanidade. Ele deu continuidade às conquistas iniciadas por Lenin com a Revolução de Outubro de 1917 e conduziu a luta até a consolidação da URSS, a primeira pátria socialista do mundo. Em sua homenagem republicamos hoje o artigo “A constelação dos falsificadores da História”, texto magistral de Claudio Campos sobre Stalin, seu papel na revolução mundial e a mediocridade de seus detratores. O texto foi publicado originalmente no jornal Hora do Povo. Publicamos também o poema "Uma canção a Stalin" de Nicolás Guillém.

 

 

A constelação dos falsificadores da História

 

O texto de Cláudio Campos que hoje publicamos saiu pela primeira vez em 1991, aqui, na Hora do Povo e depois foi incluído em seu livro “A História Continua”. Ele tem como tema a falsificação da História, a fraude em torno do período de construção do socialismo na URSS, especialmente as mentiras e difamações contra o líder que a comandou, José Stalin

 

Neste dia 5 de maio, o camarada Cláudio Campos completaria 59 anos. Secretário geral do Movimento Revolucionário 8 de Outubro e fundador da Hora do Povo, Cláudio construiu uma profunda e ampla obra que resgatou o período mais rico da História até então: a construção do socialismo na URSS. Sem o conhecimento e entendimento desta epopéia, deste empreendimento que abriu uma nova era para a Humanidade, afirmava Cláudio com justa razão, é impossível avançar conseqüentemente na conquista daquilo que Marx chamou “o reino da liberdade”, ou seja, na luta humana por um mundo solidário, fraterno e sem exploração.

 

Certamente, e exatamente por essa razão – isto é, para impedir que os explorados deixem de sê-lo e que os oprimidos alcancem sua libertação – os reacionários, os exploradores e toda a sua corte de escribas venais, panfletários do atraso, propagandistas do obscurantismo e acadêmicos vadios, empenharam-se em atirar sobre o período glorioso de construção do socialismo na URSS, e em especial sobre o seu líder, José Stalin, toda a lama que puderam expelir.

 

O esforço titânico de Cláudio foi no sentido de encontrar a verdade em meio a essa enxurrada de mentiras, difamações e delírios persecutórios. Uma tarefa realmente hercúlea, sobretudo considerando que desde a submissão de Kruschev a essa enxurrada repugnante, em 1956, dentro da própria URSS passou-se a considerar como versão oficial da sua própria história, àquela que a reação imperialista apresentava para combater e isolar a URSS e o socialismo. Naturalmente, tendo como história oficial a versão do inimigo, era impossível que a URSS mantivesse o gigantesco impulso que a fez sair do atraso para a dianteira entre os países do mundo, livrando, no caminho, a Humanidade da pior ameaça que ela já enfrentara, ao derrotar o nazismo. O espantoso, como escreveu Cláudio, não foram os acontecimentos no Leste europeu do início da década de 90. O espantoso é que mesmo com a traição de Kruschev, a difamação de sua própria história e a introdução crescente de mecanismos capitalistas, a URSS tenha resistido 40 anos, tanto eram sólidos os fundamentos sobre os quais o socialismo foi construído naquele período que teve Stalin por principal figura.

 

Era a verdade o que interessava a Cláudio. Ele compreendia intensamente a necessidade de que os revolucionários estivessem nela alicerçados para que pudessem contribuir para a libertação da Humanidade. Mais do que compreendia, ele sentia essa necessidade. Na busca da verdade ele jamais fez concessão alguma – pois que qualquer concessão nesse terreno é uma concessão à mentira, ao embuste e ao charlatanismo daqueles que querem manter a Humanidade escravizada.

 

O texto de Cláudio que hoje publicamos saiu pela primeira vez em 1991, aqui, na Hora do Povo e depois foi incluído em seu livro “A História Continua”. Ele tem como tema, exatamente, a falsificação da História, a fraude em torno de um período que hoje tem de servir não apenas como referência: as lições a tirar dele têm que ser incorporadas para que a revolução avance, assim como Marx e Lenin incorporaram as lições da Comuna de Paris, episódio heróico, porém que jamais pode ser comparado em magnitude e importância àquele da construção do socialismo na URSS.

 

Portanto, é mais do que necessário desmascarar a falsificação e os falsificadores que, como nota Cláudio, confessam o seu fracasso a cada novo livro que têm de escrever para repetir sempre as mesmas invencionices e deformações.

 

Quando escreveu este texto, Cláudio ainda não havia lido – como esclarece – o livro de Volkogonov. Baseia-se numa entrevista dada pelo último. Hoje, que esse livro já foi traduzido para o português, impressiona, naquilo que Cláudio escreveu, a argúcia, a profundidade que faz com que, mesmo sem tê-lo lido ainda, ele acerte inteiramente quanto ao seu conteúdo e quanto ao seu caráter. Esta argúcia e esta profundidade só são possíveis a quem dedicou a vida inteiramente a descobrir a verdade como condição para libertar os seres humanos das algemas que ainda – embora não por muito tempo – os aprisionam. Ou seja, um revolucionário verdadeiro, aquele que, nas palavras do Che, é “alguém guiado por grandes sentimentos de amor”.

 

CARLOS LOPES

 

 

 

 

CLÁUDIO CAMPOS

 

No final dos anos 60, o norte-americano Robert Conquest preencheu centenas e centenas de páginas, às quais deu o nome de “O Grande Terror”. O livro pretendeu ser um estudo exaustivo e em profundidade dos “crimes” e “expurgos” de Stalin, e obteve grande repercussão nos meios que queriam ouvir o que Conquest dizia. Ele era “apoiado” numa quantidade verdadeiramente impressionante de documentos, relatórios secretos e não secretos, atas de reuniões e congressos do PCUS, testemunhos, uma infinidade de depoimentos em livros, revistas e jornais.

 

No entanto, com exceção de certos escritos de Trotsky, não me lembro de ter lido até hoje nada mais falso, paranóico e anti-científico.

 

Conquest não revelava a menor capacidade de avaliar, analisar, confrontar de forma séria esses documentos, de maneira a poder estabelecer qual era, de fato, a verdade histórica. Ele estava doentiamente obcecado por uma fantasia que preestabeleceu de Stalin, e usava esses documentos simplesmente para pinçar aqui e ali, da forma mais irresponsável possível, os elementos que lhe permitissem reproduzir o seu tenebroso pesadelo. Revelava uma impermeabilidade verdadeiramente notável para os gritantes elementos de verdade contidos naqueles materiais, completa adstringência aos relatos mais inverossímeis e, sobretudo, uma imaginação absolutamente solta e pervertida na “interpretação” dos textos que reunira.

 

Não era, entretanto, um delírio apenas pessoal. Era o delírio que interessava à direita, aparentemente embasado numa infinidade de provas documentais, as quais não havia então quem tivesse tempo, disposição, clareza e recursos para contestar.

 

Por isso, ele pôde se propagar longe e relativamente fundo em todo o mundo, inclusive no Brasil. Foi em “O grande terror” que pela primeira vez se tentou demonstrar, da forma mais ridícula, a cínica tese de que “Stalin matou 30 milhões de pessoas”, tese essa que tem o objetivo de projetar sobre o socialismo o morticínio objetivamente cometido pelo capitalismo imperialista durante a II Guerra Mundial.

 

Desse livro, escrito sob os auspícios das mais renomadas Universidades e Institutos especializados dos Estados Unidos, me ficou a convicção da absoluta incapacidade da direita para o exercício da Ciência Histórica, especialmente em relação aos acontecimentos deste Século. Não significa que ela minta conscientemente. O problema é que ela não tem mais a menor capacidade e o menor interesse em distinguir o que é verdade e o que não é; ela vê apenas o que quer, e “vê” tudo o que lhe interessa “ver” para justificar e manter o decrépito e degenerado domínio dos cartéis imperialistas sobre a Humanidade.

 

Ficou claro, para mim, que não basta consultar uma infinidade de documentos. É preciso, sobretudo, ter a mente aberta para submetê-los ao método científico de análise e interpretação histórica; para ser objetivo não se pode ter interesses que estejam em contradição com esse método. É preciso, antes de tudo, estar disposto a conhecer a verdade, qualquer que seja ela. Caso contrário, quanto maior é a quantidade de fontes consultadas, apenas mais se embrulha a cabeça, mais se decola da realidade.

 

Tudo isso nos veio à mente a propósito das declarações do general Dmitri Volkogonov, publicadas sábado último pela “Folha de S. Paulo”.

 

Volkogonov é autor de “Triunfo e Tragédia”, uma nova confissão da direita de que tudo o que havia escrito antes sobre Stalin não havia tido o condão de esclarecer a verdade sobre o assunto. Exatamente da mesma forma que Conquest, Volkogonov procura impressionar o leitor com a suposta magnitude das fontes a que teve acesso. Falando sobre um novo livro que escreveu - “Trotsky” - que será publicado no ano que vem, ele garante que seu trabalho representa “um nível qualitativamente novo”, que “o mais importante é que pude tomar conhecimento de uma fundamental e massiva documentação sobre Trotsky não só na URSS, que antes era inacessível, como também em Harvard (EUA) e Amsterdã (Holanda). Jacta-se de que teve oportunidade de “penetrar”- sem dúvida, ele escolheu bem o verbo - “nos arquivos pessoais de Stalin, Béria, Molotov, Malenkov e outros bonzos do regime, assim como nos arquivos especiais da NKVD e da KGB”, e de que “possuo cópias de documentos únicos de arquivos pessoais de Trotsky. É em circunstâncias desse tipo que ele pretende sustentar a temerária afirmação de que o trabalho que iniciará agora será, nada mais, nada menos, “o primeiro livro honesto sobre Vladimir Lenin em nosso país.”

 

IMAGINAÇÃO

 

É pena que tudo isso, entretanto, não tenha possibilitado a Volkogonov se aproximar um milímetro sequer dos fatos reais, e, pelo contrário, tenha servido de estímulo para a sua incurável e doentia imaginação.

 

Ele pretende, por exemplo, que são esses documentos que o levam a afirmar que “Stalin era extremamente paranóico”, “sedento de poder”, que ele se “aterrorizava” com tais e tais “fantasmas”, que “tinha pavor de voar” e “paranóia de se afastar muito da União Soviética”. É evidente que essas são idéias preconcebidas que Volkogonov e outros têm há muito tempo, e que ele estava disposto a mantê-las quaisquer que fossem os documentos que encontrasse pela frente. Ele poderá preencher uma infinidade de páginas, reunir muitas “cópias de documentos únicos”, “arquivos especiais”, “retratos literários”, entrevistar muitos “parentes”, mas jamais provará essas afirmações, pela simples e boa razão de que isso não é verdade. Como afirmou Churchill, em plena guerra fria, após a divulgação do amontoado de sandices com que Kruschev tentou “apaziguar” o imperialismo, com a autoridade de quem participou intimamente com Stalin em várias decisões difíceis durante a Guerra, e foi quase sempre em relação a ele um inimigo feroz: “Stalin foi um homem com erudição e energia incomuns, com uma inabalável força de vontade, brutal, áspero, impiedoso tanto no trabalho como nas conversações; inclusive eu, educado no Parlamento Inglês, nunca pude contestá-lo em nada... Em suas obras soava uma força colossal. Esta força era tão grande em Stalin que parece que ele é inigualável entre os dirigentes de todos os tempos e povos... Stalin tinha uma inteligência profunda, lógica e razão, privado de todo pânico. Ele era um mestre perfeito para encontrar nos momentos difíceis para sair das situações mais complexas”. É natural que a um colonialista impiedoso como Churchill a lógica de Stalin parecesse “brutal e impiedosa”. Mas não é isso o que estamos discutindo.

 

RIDÍCULO

 

Estamos, por ora, apenas pondo em relevo o ridículo do pobre general Volkogonov pretender reprochar em Stalin “terrores”, “pavores” e “paranóias”. Aliás, deve-se reconhecer que Churchill, apesar de todo o seu mesquinho reacionarismo, tinha também uma grandeza que Volkogonov não tem. Quanto a não gostar de se afastar muito de sua pátria socialista, Stalin tinha nisso toda razão. Assim como o herói da mitologia grega, ele sabia que era da sua amada terra soviética que ele sorvia toda a sua força. Fora dela, ele era como um peixe fora d’água. É claro que Volkogonov não pode entender isso.

 

Aliás, há muitas e muitas outras coisas que Volkogonov não pode entender. Diz ele que “Josef Djugashvíli estava entre os melhores alunos de um seminário. Gostava muito de ler e tinha uma memória brilhante. Era fascinado pela idéia de Deus como absoluto. As relações contraditórias de Stalin com a Igreja foram facultadas de certa forma por seu pragmatismo. Ele apoiou tudo que fortalecesse seu reinado. Mas a atitude pessoal de Stalin frente a Deus permanecerá, creio eu, seu segredo pessoal”. Tudo que é grande demais para caber em sua minúscula cabeça, Volkogonov, compreensivelmente, transforma em “segredo”, “mistério”, etc, e só tem alguma esperança de elucidá-lo em algum arquivo da KGB. “Idéia de Deus como absoluto”... Talvez Volkogonov conheça alguma idéia de Deus que não o considere absoluto. Mas nós, que habitamos este planeta, e não o mundo da fantasia, só conhecemos essa. E o que os homens e mulheres do povo, bem como os religiosos sinceros - não nos referimos aos hipócritas - chamam de “Deus”? É a verdade, a justiça e o amor em seu mais alto grau de condensação. Para eles, é algo que existe fora do Homem. Para nós, marxistas, esses são valores e sentimentos inerentes ao Homem, que se desenvolvem e se transformam dentro do Homem. Para nós, portanto, nada têm de sobre-humanos ou sobrenaturais. Para nós, acima do Homem, só existem o céu e as estrelas - o que já não é pouco. É claro que Stalin, como um dos mais profundos pensadores marxistas que já existiram — provavelmente o mais profundo - não concebia nada que fosse sobre-humano ou sobrenatural. Mas apenas os medíocres e os tacanhos podem subestimar as coisas maravilhosas que os humildes e os oprimidos sintetizaram sob a idéia “absoluta” de Deus. Gorki, amigo íntimo de Stalin, escreveu coisas belíssimas sobre isso, algumas das coisas mais belas que já tivemos oportunidade de ler.

 

SAUDÁVEL

 

É a primeira vez que ouvimos falar que Stalin também se “fascinava” com o assunto. Achamos isso ótimo, extremamente saudável e, para quem conhece Stalin, extremamente previsível. Aliás, essa é a vantagem dessas “investigações” do tipo das de Conquest e Volkogonov. Elas provam exatamente o contrário do que pretendem. Já que, desde a década de 50, os arquivos secretos de todo o mundo tornaram-se muito mais acessíveis à direita do que à esquerda, o remédio é esquadrinhar essas patranhas, e extrair delas o que for possível. Confrontadas com o que sabemos de outras fontes, elas sempre nos fornecem alguns elementos interessantes...

 

Quanto ao fato do Estado socialista não perseguir as instituições religiosas, e inclusive garantir a sua existência, na medida em que elas representem sentimentos religiosos efetivamente existentes na população, isso só pode parecer estranho ou “contraditório” para um cabeça de bagre como Volkogonov.

 

Ele não esconde, em nenhum momento, que seu objetivo é fazer a apologia da sociedade e da ideologia burguesa - isto é, hoje, do capitalismo imperialista. Refere-se ao “comunismo”, isto é, ao marxismo, como “sistema totalitário”, “falsa idéia que aprisionou por longas dezenas de anos um quarto da humanidade” (assim mesmo, com h minúsculo), e coloca Trotsky, Lenin e Stalin no mesmo nível, brindando-os com o título de “caudilhos”. Totalitária é a ditadura dos cartéis e dos monopólios que sufoca a Humanidade, mas Volkogonov tem muito pouco em comum com esta última, e está, portanto, inebriado pelos decrépitos néons do imperialismo. Por outro lado, o socialismo verdadeiro de fato não é o sistema mais favorável para que poltrões como ele dêem livre expansão à sua mentalidade de capachos do capital monopolista. Já que ele não pode abrir mão dela, seu destino é sentir-se para sempre “aprisionado”, porque será doravante cada vez maior a capacidade da Humanidade de conter e por fim derrotar o imperialismo. Jamais houve, na História humana, homens mais comprometidos com a democracia do que Lenin e Stalin. Mas a democracia, para eles, não era essa gosma asquerosa, movida a dólar, através da qual se acobertam as piores canalhices contra os povos e contra a Humanidade - tão ao gosto de Volkogonov - mas, efetivamente, como o nome diz, o “poder do povo”, em beneficio do povo, doa a quem doer: patifes, magnatas, ladrões, vagabundos, renegados, etc. Candidatos a caudilhos são exatamente Volkogonov, seu líder Yeltsin, Gorbachov, e outros.

 

DEFENESTRADO

 

Mas parece que a coisa não está muito fácil para eles. Aliás, ele já foi convidado pelos generais soviéticos a cuidar dos seus assuntos em outra freguesia, e só não foi devidamente defenestrado das Forças Armadas porque seus aliados no Soviet conseguiram reunir uma maioria muito instável, em tomo do seu suposto “direito democrático” de insultar a História da União Soviética.

 

Não há porque se surpreender com a existência, na União Soviética, de homens como Volkogonov. A ideologia burguesa não se extingue de um dia para o outro, ela se camufla, se transforma, se esgueira, como réptil invertebrado que é, das mais diferentes formas, principalmente quando há 40 anos o socialismo estacionou na URSS, e inclusive retrocedeu. Porque estacionou? Porque a História não se desenvolve em linha reta, mas isso já seria tema para uma outra matéria.

 

Quanto a Trotsky, o titulo de caudilho representa um desmedido elogio. Ele jamais teve competência para se estabelecer sequer como caudilho, e, ao mesmo tempo, foi muito pior que um caudilho.

 

Volkogonov o bajula de todas as formas possíveis. Diz que “ele foi o arauto da revolução, seu oráculo e seu profeta”, endossa que “segundo alguns parâmetros intelectuais, Trotsky foi o líder superior da Revolução Russa. Ele tinha uma cultura européia elevada, uma educação enciclopédica (mesmo sem ter acabado a universidade)” - ora vejam só! - etc, etc.

 

O general-historiador anuncia que no ano que vem, quando seu livro for publicado, ele “revelará os segredos sobre o complô que matou Trotsky”. É pouco provável que cumpra a sua promessa, por uma forte razão: esse “complô” nunca existiu. Trata-se, na verdade, de uma inversão histórica. Quem se especializou em todo tipo de complô, os possíveis e os mais delirantes, foi exatamente Trotsky.

 

CONTRA-REVOLUÇÃO

 

Parece que a sua sina é mesmo, ad eternum, ser usado pela contra-revolução. Esta invariavelmente o apresenta como inteligência ímpar, um adversário temível, com o objetivo de vender a idéia de que a única maneira de “Stalin”- isto é, da revolução - batê-lo seria o recurso a meios ilícitos, golpistas, etc.

 

No entanto, comparados com Stalin, homens como Trotsky e Bukharin não passavam de personagens completamente medíocres, de verdadeiras toupeiras.

 

Ele gostava realmente de pontificar sobre tudo, mas não tinha conhecimento verdadeiro sobre coisa alguma. Foi talvez o maior mistificador de que se tem notícia, e apenas nisso pode ser considerado fora do comum. Tornou-se mestre em esconder sob altissonantes frases revolucionárias o mais completo esmagamento diante da realidade. Seu pensamento jamais foi marxista, como pretendia, e sequer dialético. Era dominado por um doutrinarismo compulsivo, estéril e completamente metafísico. Sua marca registrada, a “teoria” da “revolução permanente”, é o exemplo mais acabado disso. A luta revolucionária, isto é, a preparação da revolução, é permanente; a revolução, não. A revolução é o momento de salto de qualidade na correlação de forças políticas, que sucede a um determinado acúmulo de mudanças quantitativas nessa correlação; ela não tem como ser “permanente”. A idéia de uma “revolução permanente” é, na verdade, a negação da revolução, da dialética e do marxismo.

 

Durante 20 anos, até 1917, Trotsky foi sistematicamente triturado por Lenin, e nunca conseguiu reunir em torno de si mais do que meia dúzia de gatos pingados. Nesse período, Stalin esteve quase invariavelmente ao lado de Lenin; ao contrário de Trotsky, jamais se exilou, e, em meio ao incansável trabalho de organização, propaganda e agitação, que lhe valeu ser chamado por Lenin de “maravilhoso georgiano”, foi preso sete vezes, quase sempre na Sibéria, das quais fugiu seis.

 

Em 1917, a revolução entrou em uma nova fase. Trotsky resolveu suspender sua hostilidade – pelo menos a exterior – em relação ao partido bolchevique, e ingressou nele. Nessa época, Stalin desempenhou, por indicação de Lenin, a direção do “Pravda”, a coordenação do comitê militar do partido encarregado de organizar a insurreição, e, depois, a Secretaria-Geral do partido. Como se sabe, foi o partido quem organizou e se desincumbiu da insurreição. Enquanto isso, Trotsky mantinha, nos acontecimentos de Outubro, participação quase exclusivamente formal e discursiva.

 

Foi confiada a Trotsky, depois, a direção da organização do Exército Vermelho. Ele pôs em prática a política partidária para o setor da forma que lhe era habitual - isto é, a mais burocrática possível. Por várias vezes, o Comitê Central teve que despachar Stalin para a frente de batalha, com o objetivo de reverter situações desesperadas.

 

Lá chegando, sua primeira iniciativa, após tomar conhecimento da situação, era quase sempre dissolver o sistema de “comissários políticos”, instituído à la Trotsky, e estabelecer o sistema de comando único. Trotsky arrancava os cabelos de ódio, mas foi assim e unicamente assim que a vitória se tornou possível.

 

Assim que Lenin morreu, em 1924, Trotsky abriu a luta interna contra o partido. Em pouco tempo, suas redivivas e sofisticadas algaravias sobre a “revolução permanente” e outras foram demolidas por Stalin, na polêmica literária e nas reuniões e Congressos do partido. Basta ler os maravilhosos textos de Stalin dessa época para se perceber - desde que se tenha alguma coisa na cabeça - que Trotsky não tinha como deixar de ser seu freguês de caderninho. Em poucos meses, Trotsky estava reduzido praticamente a zero dentro do partido. Fora dele, ele já havia demonstrado a sua extrema fragilidade.

 

Era Trotsky quem não tinha qualquer perspectiva de vitória fora do caminho putchista, e ele era suficientemente irresponsável para empreendê-lo nas mais alucinadas formas. Ele próprio deixou isso explícito. Em declarações ao “New York Evening Journal” de 26 de janeiro de 1937, afirmou: “Só o assassínio pode remover Stalin”. Ele tinha razão. O povo, jamais o faria.

 

Durante os anos 30, ele se empenhou em unir o rebotalho da revolução e da contra-revolução nesse caminho. A “Folha de S. Paulo”, aliás, resolveu, enfim, assumir isso. Está lá na matéria, com todos as letras, e sem aspas: “Trotsky afirmava então contar com muitos seguidores no golpe que o levaria ao poder”. É, ele era fanfarrão assim mesmo.

 

Nós não temos nenhuma dúvida, além disso, de que Trotsky estava em contato com os alemães - como se depreende das minuciosas declarações de Piatakov (P. Kievsky), Radek e outros, durante os reveladores, e por isso mesmo odiados e caluniados processos de Moscou, além de numerosos outros indícios. Ele estava disposto a fazer-lhes várias concessões territoriais e outras, em troca da ajuda deles e de ser tolerado no “poder” no que sobrasse da União Soviética. Era a sua forma de extrair as lições de Brest-Litovski, a que, antes, havia se oposto, mas que depois não tinha nenhuma possibilidade de deixar de reconhecer a inevitabilidade. Para Trotsky, aliás, os “comunistas” à sua maneira não deviam ter nenhum compromisso com a idéia de Nação. É fora de dúvida que um acordo desse tipo era de todo interesse dos alemães.

 

A traição era tão repugnante, tão rasteira, que por muito tempo ninguém se deu conta dela. Era rasteira, mas não era inviável. Dela faziam parte, entre outros, o chefe do Estado-Maior do Exército - ex-oficial czarista -, o chefe do NKVD, e vários funcionários de alto escalão, em sua maioria membros da velha “oposição”, que Stalin e o partido, talvez com excessiva credulidade e benevolência, não haviam querido afastar das atividades partidárias e estatais. Uma série de sabotagens, que provocaram muitas vítimas, já haviam sido cometidas. Uma vez detectado, o complô foi debelado, com o rigor necessário, mas sem os paranóicos exageros que a hipocrisia e a presunção da contra-revolução se notabilizou em fantasiar.

 

Em 1940, quando da morte de Trotsky, Stalin não tinha dúvida de que a guerra de Hitler contra a URSS era só uma questão de tempo, e se aproximava rapidamente. Nessas circunstâncias, nós, infelizmente, ainda não estamos em condições de garantir que a disponibilidade de um “Petain” russo - responsável direto pelos crimes mais degradantes cometidos contra o povo da URSS - não fosse considerada um risco alto demais para a União Soviética. Isso, evidentemente, não implicaria num complô, mas num anti-complô. No entanto, consideramos essa hipótese altamente improvável. Os processos de Moscou haviam reduzido a credibilidade de Trotsky dentro da URSS virtualmente a zero, a quinta-coluna estava aniquilada, e é pouco provável que ele pudesse continuar sendo útil aos alemães.

 

Além disso, não acreditamos que Ramon Mercader fosse pessoa que um serviço secreto pudesse considerar em condições de executar missão tão grave. O trotskysta Isaac Deutscher foi um ficcionista alucinado, mas, no caso, não vemos razão para por em dúvida suas afirmações. Ele conta que, seguindo a secretária de Trotsky, noiva de Ramon, este estava então, há muito tempo, em deploráveis condições psicológicas. Os três tinham relação muito atritada, porque Trotsky não aceitava o relacionamento de sua secretária com Mercader, que, por sinal, já vinha de muitos anos. A “arma” que matou Trotsky foi uma pequena picareta de alpinismo - ele estava se iniciando nesse esporte - muito pouco efetiva para um profissional de serviço secreto que houvesse premeditado a morte. O que se sabe, com certeza, é que Mercader matou Trotsky, que ele era filho de uma comunista espanhola, e que viveu no Leste depois de libertado. Não há, até aqui, nenhuma evidência de que ele fosse agente soviético, e muito menos que tenha recebido ordens para executar Trotsky.

 

Volkogonov diz que viu “um documento com uma ordem pessoal de Stalin para a eliminação de Trotsky” e que esteve com pessoa que recebeu pessoalmente de Stalin a tarefa de “dirigir a operação de eliminação”. Vamos ver. Mas é estranho que ele, que diz ser “aterrador” o ato de só agora estarem sendo revelados arquivos secretos da KGB, resolva fazer-nos a todos esperar mais um ano - por sua exclusiva responsabilidade - para tomar conhecimento de documentos tão conclusivos. A menos, é claro, que ele esteja aprendendo deveras rapidamente as técnicas de marketing do capitalismo.

 

SINTOMÁTICO

 

Volkogonov faz também afirmações absolutamente ridículas, tais como “a NKVD contribuiu para eliminar duas das filhas de Trotsky, matar dois de seus filhos, dois genros, o irmão, a irmã, oito secretários e muitos de seus partidários”. Como assim, “contribuiu para eliminar”? Ou “eliminou”, ou não “eliminou”. É absurdo que a segurança soviética fosse se ocupar com todos esses parentes, antes de se ocupar com o próprio. É também sintomático que Volkogonov tenha sentido a necessidade de fazer a ressalva, num artigo tão curto, de que “utilizou” também “aquela parte do arquivo que o agente M. Zborovski [??] subtraiu da NKVD nos anos 30 em Paris”.

 

Perfeitamente, general Volkogonov. Nós temos a impressão de que os seus “arquivos pessoais e únicos” vão nos ajudar exatamente a desmascarar um pouco mais a sua turma.

 

Para terminar: Stalin construiu, e muito bem construído, o socialismo na URSS. Ele demonstrou assim, na teoria e na prática, que estava certo, e que Trotsky estava errado. Mas ele jamais afirmou que essa conquista era irreversível. Pelo contrário, ele alertou constantemente para esse risco. O atual retrocesso na União Soviética, que já vem de longo tempo, não é a “derrota de Stalin”, Volkogonov. É a vossa derrota, o vosso fracasso, a vossa indigência, e tem muito pouco significado “histórico”. Como você já deve ter reparado, essa indigência está ficando cada vez mais clara para o povo soviético, e para o mundo todo.

 

 

 

 

Pravda: “A vitória contra o nazismo na 2ª Guerra teve um líder, Josef Stalin”

 

“Passados sessenta e dois anos do final da II Guerra Mundial, vale a pena refletir sobre a enorme campanha que, há décadas, vem sendo desenvolvida contra a figura de Stalin, na verdade contra o líder do povo soviético nessa vitória”, afirma o presente artigo que, em comemoração do 62° aniversário da vitória do povo soviético contra as tropas nazistas, o jornal eletrônico Pravda publicou no dia 10

 

Nove de maio ( I ) é a data em que o povo soviético comemora o Dia da Vitória contra o fascismo. Epopéia de um povo que foi o responsável principal pela derrota do nazi-fascismo, sustentando com sacrifícios inauditos o combate às tropas de Hitler. “É indiscutível que o principal peso das lutas contra as forças armadas fascistas recaiu sobre a União Soviética. Foi a mais cruel, sangrenta e dura de todas as guerras que sustentou nosso povo. Basta dizer que mais de 20 milhões de soviéticos morreram durante o conflito.” ( II ) Uma vitória do Estado socialista, da União Soviética (URSS), do Exército Vermelho, em uma guerra de todo o povo, dirigida pelo Partido Comunista, e que tinha um líder, o seu principal dirigente, Josef Stalin.

 

Passados sessenta e dois anos do final da II Guerra Mundial vale refletir sobre a imensa campanha que, há décadas, vem sendo lançada contra a figura de Stalin, na verdade, contra o líder do povo soviético nessa vitória. E não só contra Stalin, mas também contra outras lideranças comunistas, como Lênin, fundador do Partido Comunista da Rússia (Partido Bolchevique) e o seu principal dirigente na revolução de outubro de 1917, e contra Mao Tse Tung, destacado líder de uma revolução popular e da derrota contra os invasores japoneses na China.

 

Contra eles, livros e mais livros são lançados e estampados com destaque nas prateleiras das livrarias. Cabe aqui uma indagação. Se o socialismo acabou, se é uma página virada da história, por que tanta necessidade de caluniar, de se bater contra aqueles que estiveram à frente dos povos que em alguns anos, algumas décadas, abalaram o mundo? Ou melhor, abalaram o domínio imperialista sobre os povos do mundo. Povos que descortinaram um novo horizonte, livre da miséria, da fome, da exploração de uma classe por outra, para um imenso contingente da população no mundo.

 

AVANÇOS

 

Países que em poucos anos experimentaram imensos avanços no campo social, da saúde, da educação, da tecnologia e que, com isso, impulsionaram a luta de classes do proletariado e dos povos em todo o mundo e obrigaram os governos dos países imperialistas e, em certos segmentos, também dos países dominados, a “concederem” um “Estado de bem-estar social” a um conjunto de trabalhadores. A possibilidade de novas revoluções chacoalharem o domínio imperialista, em particular dentro de seus próprios territórios, assustou as classes dominantes. Com os chamados “Estados de bem-estar social”, perdiam-se alguns anéis, para não se perder os dedos.

 

Nesse sentido, toda esta difamação (contra as principais lideranças dos países que experimentaram a construção do socialismo) não seria um temor, um medo das classes dominantes, da grande burguesia no mundo, da alternativa que os comunistas apresentam ou teriam condições de apresentar à barbárie capitalista, ao desemprego, à miséria, à violência e às guerras contra os povos explorados e oprimidos, promovidas pelo imperialismo na conjuntura atual? Por isso a necessidade de atacar os líderes, expressões das vitórias dos povos na construção do socialismo e na derrota do capitalismo, com a tentativa de desqualificar, por meio da mentira, do método fascista de repetir mil vezes uma mentira. E obstar reflexões, por pequenas que sejam, desestimular o conhecimento, o debate e estudo do marxismo, da ciência marxista, do marxismo-leninismo, das experiências de construção do socialismo, suas grandes vitórias e seus equívocos.

 

É a tentativa de impedir um balanço das experiências de construção do socialismo com base no materialismo histórico, analisando a luta de classes, a partir dos interesses da classe operária, das classes dominadas, da luta de posições teóricas, políticas e ideológicas, como expressões da luta de classes, em cada formação econômico-social e no mundo. A retomada do marxismo, do marxismo-leninismo, do partido revolucionário, se constitui em uma ameaça ao imperialismo, ao espectro que ora ronda o mundo, o espectro da barbárie capitalista.

 

Contra Stalin, em particular, não há artigo “politicamente correto”, para não dizer palatável, no campo da ideologia dominante, burguesa, que não contenha alguma alusão depreciativa à sua pessoa. O texto ou artigo pode estar se referindo a assuntos os mais variados e diversos, mas se for necessário dar um ar de “esquerda”, de “politicamente correto”, mas palatável, deve - noves fora - sobrar uma bordoada para Stalin. É sempre de bom tom criticá-lo, manter dele distância. “Crítica” geralmente sem um mínimo conhecimento ou pesquisa da história, da análise da conjuntura em que ocorreram estes acontecimentos históricos da época de Stalin. “Crítica” que, na maioria das vezes, repete as versões levantadas pela extrema direita internacional, abraçadas e divulgadas pelos revisionistas de todos os matizes.

 

NOVO OLHAR

 

Uma das acusações favoritas no momento, mas que também não é inédita, é a de que Stalin não preparou a URSS para a guerra contra o nazismo. Teria sido pego de surpresa, teria desdenhado dos que o advertiram sobre a iminência da invasão alemã. Teria sido um aliado de Hitler, do fascismo, com a realização do pacto de não agressão germâno-soviético. É uma acusação feita agora, repetidas vezes, que – mantida no senso comum – tem o propósito de tornar-se verdade. Se não é possível ignorar o papel que Stalin teve à frente da resistência do povo soviético, nos aspectos políticos, ideológicos e militares, tenta-se de algum modo depreciá-lo.

 

Ludo Martens ( III ) relembra esse questionamento, “Stalin preparou mal a guerra antifascista?”, em seu livro “Stalin, um outro olhar” ou “Stalin, um novo olhar”, na edição brasileira (Editora Revan) ( IV ). E, baseado em intensa e zelosa pesquisa em documentos, depoimentos, arquivos, vai responder a esse e outros ataques desferidos contra Stalin.

 

Como afirma Renato Guimarães, da Revan, em Nota do editor no Brasil: “É um livro muito documentado, que resulta de anos de trabalho paciente e minucioso de pesquisa. Quem o ler, mesmo quando muito informado sobre o tema, certamente se verá enriquecido com preciosa informação que desconhecia e poderá situar-se melhor para formar um juízo próprio em assunto tão polêmico e tão complexo.”

 

Sobre o papel de Stalin na preparação da URSS para a guerra, pela particular relevância em relação à vitória contra o nazi-fascismo, reproduzimos do livro de Ludo Martens:

 

“Stalin preparou mal a guerra antifascista?

 

Quando Kruschev tomou o poder, ele havia se desviado completamente da linha do partido. Para fazer isso, ele teve de atacar Stalin e sua política marxista-leninista. Em uma série de calúnias inverossímeis, ele chegou até a negar os imensos méritos de Stalin na preparação e na condução da guerra antifascista.

 

Assim, Kruschev pretendeu que, no curso dos anos 1936-1941, Stalin tinha preparado mal o país para a guerra.

 

KRUSHEV

 

Eis suas palavras:

 

‘Stalin levantou a tese segundo a qual a tragédia era o resultado do ataque surpresa dos alemães contra a União Soviética. Mas, camaradas, isso é de fato totalmente inexato. Desde que Hitler apoderou-se do poder na Alemanha, ele se atribuía a tarefa de liquidar o comunismo. (...) Vários fatos do período anterior à guerra mostram que Hitler preparava uma guerra contra o Estado soviético (1). Se nossa indústria tivesse sido mobilizada de forma adequada e no tempo requerido para fornecer ao Exército o material necessário, nossas perdas de guerra teriam sido nitidamente reduzidas. (...) Nosso exército estava mal equipado. (...) A tecnologia soviética tinha produzido antes da guerra excelentes modelos de tanques e de peças de artilharia. Mas a produção em série desses modelos não foi organizada.’ (2)

 

Que os participantes do XX Congresso tivessem podido escutar essas calúnias sem que protestos indignados tivessem ocorrido de todas as partes dizia muito sobre a degenerescência política já em curso. Contudo, na sala, encontravam-se dezenas de marechais e generais que sabiam até que ponto aquelas palavras eram ridiculamente falsas. Na hora, ninguém abriu a boca. Seu profissionalismo estreito, o exclusivismo militar, a negação da luta política no seio do Exército, a rejeição da direção ideológica e política do partido sobre o Exército: tudo isso os aproximava do revisionismo de Krushev. Zhukov, Vassi-levski , Rokossovski, praticamente todos os grandes chefes militares, não tinham jamais aceitado a necessidade de depuração do Exército em 1937-1938.

 

Eles não tinham sequer compreendido o contexto político do processo de Bukharin. Por estas razões, eles apoiaram Kruschev, quando este substituiu o marxismo-leninismo pelas teses rebuscadas dos mencheviques, trotskistas e bukharinistas. Isto explica por que os marechais engoliram as mentiras de Kruschev em relação à II Guerra Mundial. Posteriormente, eles refutaram essas mentiras, em suas memórias, quando já não havia jogo político e essas questões tornaram-se puramente acadêmicas.

 

Em suas Memórias, publicadas em 1970, Zhukov sublinha com razão, diante das alegações de Kruschev, que a verdadeira política de defesa tinha começado com a decisão de Stalin de lançar a industrialização em 1928.

 

‘Era possível adiar em cinco ou sete anos o desenvolvimento acelerado da indústria pesada, a fim de dar ao povo objetos de consumo corrente antes e em maior quantidade. Isso não era tentador?’ (3).

 

Stalin preparou a defesa da União Soviética construindo mais de 9.000 empresas industriais entre 1928 e 1941 e tomando a decisão estratégica de implantar ao leste do país uma possante base industrial nova (4). A propósito da política de industrialização, Zhukov rendeu homenagem à ‘sagacidade e clarividência’ de Stalin, que foram ‘sancionadas de maneira definitiva pelo julgamento supremo a história’ no curso da guerra (5).

 

PLANO QÜINQÜENAL

 

Em 1921, em quase todos os domínios da produção militar, foi preciso começar do zero. Durante os anos do primeiro e segundo plano qüinqüenal, o partido tinha previsto para a indústria de guerra uma taxa de crescimento superior àquela dos demais ramos da indústria (6).

 

Vejamos dois números significativos dos dois primeiros planos.

 

A produção anual de tanques era de 740 unidades, em 1930. Ela tinha alcançado 2.271 unidades, em 1938 (7). Para o mesmo período, a construção de aviões tinha aumentado de 860 para 5.500 unidades por ano (8).

 

No curso do terceiro plano qüinqüenal, entre 1938 e 1940, o crescimento da produção na indústria foi de 13% ao ano, mas a produção da indústria da defesa cresceu 39% (9).

 

A moratória obtida, graças ao pacto germano-soviético, foi explorada por Stalin para levar a produção militar ao máximo. Zhukov o testemunha.

 

‘A fim de que as usinas de defesa de certa importância pudessem receber tudo que lhes era necessário, delegados do Comitê Central, organiza-dores experimentados e especialistas conhecidos, foram nomeados para a direção de suas organizações do partido. Eu devo dizer que Josef Stalin desenvolveu um trabalho considerável, ocupando-se ele próprio das empresas que trabalhavam para a defesa. Ele conhecia bem dezenas de diretores de usinas, de organizadores do partido, os principais engenheiros, via-os freqüente-mente e obtinha, com a perseverança que o caracterizava, a execução dos planos previstos’ (10).

 

As entregas militares efetuadas entre 1° de janeiro de 1939 e 22 de junho de 1941 foram impressionantes.

 

A artilharia recebeu 92.578 peças, das quais 29.637 canhões de campanha e 52.407 morteiros. Novos morteiros de 82 e 120 mm foram introduzidos ainda antes da guerra (11).

 

A Força aérea recebeu 17.745 aviões de combate, dos quais 3.719 de modelos novos. No domínio da aviação:

 

‘As medidas tomadas, de 1939 a 1941, criaram as condições requeridas para obter, rapidamente, no curso da guerra, a superioridade quantitativa e qualitativa’ (12).

 

O Exército Vermelho recebeu mais de 7.000 tanques. Em 1940, começou a produção do tanque médio T-34 e do tanque pesado KV, superiores aos tanques alemães. Já se haviam produzido 1.851, quando a guerra estourou (13).

 

A propósito destas realizações, como para expressar seu desdém pelas acusações de Kruschov, Zhukov se dedicou a uma autocrítica reveladora:

 

‘Lembrando-me daquilo que nós, os militares, exigíamos da indústria no curso dos últimos meses de paz e como nós o exigimos, vejo que não levávamos bastante em conta as possibilidades econômicas reais do país’ (14).

 

A preparação militar propriamente dita foi também impulsionada com o máximo rigor, por Stalin. Os enfrenta-mentos militares com o Japão, em maio-agosto de 1939, e com a Finlândia, entre dezembro de 1939 e março de 1940, estavam diretamente ligados à resistência antifascista. Estas experiências de combate foram analisadas em profundidade para preencher as lacunas e as falhas do Exército Vermelho.

 

Em março de 1940, uma reunião do Comitê Central examinou as operações contra a Finlândia.

 

‘Os debates foram muito violentos. A instrução e formação de nossas tropas foram severamente criticadas’, afirma Zhukov (15). Em maio, Zhukov foi recebido por Stalin, que lhe disse:

 

‘Você tem agora a experiência do combate. Assuma o comando da região de Kiev e utilize sua experiência para a instrução das tropas’ (16).

 

Na visão de Stalin, Kiev tinha uma significação militar particular. Era aí que esperava o golpe principal quando da agressão alemã.

 

Stalin estava persuadido de que os hitleristas, no curso de sua guerra contra a União Soviética, iriam, em primeiro lugar, tentar apoderar-se da Ucrânia e da bacia de Donetz, a fim de privarem nosso país dessas regiões econômicas importantes, de tomar o trigo ucraniano, o carvão de Donetz e mais tarde o petróleo do Cáucaso. No curso do exame do plano operacional, na primavera de 1941, J. Stalin dizia: ‘Sem possuir recursos vitais importantes, a Alemanha nazista não poderá sustentar uma guerra muito prolongada’. (17)

 

ZHUKOV

 

No verão e no outono de 1940, Zhukov submeteu suas tropas a uma intensa preparação para o combate. Ele constatou que dispunha de jovens oficiais e de generais capazes. Ele lhes fez assimilar as lições que se resgataram das operações alemãs contra a França.(18)

 

De 23 de dezembro de 1940 a 13 de janeiro de 1941, todos os oficiais superiores reuniram-se para uma grande conferência. No centro dos debates: a futura guerra contra a Alemanha. A experiência acumulada pelos fascistas com grandes corpos blindados foi estudada com uma atenção particular. No dia seguinte ao da conferência, um grande exercício operacional e estratégico sobre o mapa teve lugar. Stalin o assistiu. Zhukov escreveu:

 

‘A situação estratégica repousava sobre os acontecimentos que poderiam se desenvolver sobre nossa fronteira ocidental, no caso em que a Alemanha atacasse a União Soviética’. (19)

 

Durante estes exercícios Zhukov dirigiu a agressão alemã, Pavlov, a resistência soviética.

 

‘O exercício abundou em peripécias dramáticas para a parte vermelha. As situações que se apresentaram após 22 de junho de 1941 pareciam-se muito àquelas daquele exercício...’ notou Zhukov. Pavlov perdeu a guerra contra os nazistas. Stalin o admoestou energicamente:

 

‘O comandante das tropas de uma região deve possuir a arte militar e saber encontrar a solução em qualquer situação. Tal não foi o seu caso.’ (20)

 

CONSTRUÇÃO

 

A construção de setores fortificados ao longo da nova fronteira ocidental foi enfrentada em 1940. No começo da guerra chegou-se a construir perto de 1.500 instalações em concreto. 140.000 homens trabalhavam todo dia.

 

‘E Stalin nos pressionava para terminar’, diz Zhukov. (21)

 

A XVIII Conferência do partido, de 15 a 20 de fevereiro de 1941, foi integralmente consagrada à preparação da indústria e dos transportes na previsão da guerra. Delegados vindos de toda a União Soviética elegeram certo número de militantes membros suplentes do Comitê Central. (22)

 

No começo de março de 1941, Timochenko e Zhukov pediram a Stalin que convocasse os reservistas da infantaria. Stalin recusou para não dar aos alemães um pretexto para provocar a guerra. Finalmente, ao final de março, ele aceitou convocar cerca de 800.000 reservistas, que seriam dirigidos para as fronteiras. (23)

 

Em abril, o Estado-Maior geral informava Stalin de que as tropas das regiões militares do Báltico, da Bielorússia, de Kiev e de Odessa não eram suficientes para responder ao ataque. Stalin decidiu fazer avançar para as fronteiras 28 divisões, reunidas em quatro exércitos, e destacou a necessidade de proceder com extrema prudência para não provocar os nazistas. (24)

 

A 5 de maio de 1941, no grande palácio do Kremlin, Stalin falou diante dos oficiais saídos das academias militares. Seu tema central:

 

‘Os alemães estão errados em acreditarem que seu exército é um exército invencível’. (25)

 

Todos esses fatos permitem refutar as críticas malévolas habitualmente levantadas contra Stalin:

 

‘Ele tinha preparado o Exército para a ofensiva, mas não para a defensiva’; ‘Ele tinha confiança no Pacto germano-soviético e em Hitler, seu cúmplice’; ‘Ele não esperava que houvesse uma guerra contra os nazistas’. Essas calúnias visavam desacreditar as proezas históricas dos comunistas e, em conseqüência, aumentar o prestígio de seus adversários.

 

Zhukov, que desempenhou um papel essencial na tomada de poder de Kruschov entre 1953 e 1957, teve o cuidado, em suas Memórias, de desmentir de forma contundente o relatório secreto de Kruschov. Sobre a preparação do país para a guerra, ele concluiu assim:

 

‘A obra da defesa nacional, quanto a seus traços e orientações fundamentais e essenciais, tinha sido conduzida da maneira adequada. Durante anos, fez-se tudo ou quase tudo que se podia fazer, tanto no setor econômico quanto no setor social. Quanto ao período que se estende de 1939 até a metade de 1941, é uma época em que o povo e o partido forneceram, para reforçar a defesa, esforços particularmente importantes, esforços que exigiam aplicação de todas as forças e de todos os meios. Uma indústria desenvolvida, uma agricultura coletivizada, a instrução pública estendida ao conjunto da população, a unidade da nação, o poder do Estado socialista, o nível elevado do patriotismo do povo, a direção que, para o partido, estava prestes a realizar a unidade entre a frente e as retaguardas, todo este conjunto de fatores foi a causa primeira da grande vitória que devia coroar nossa luta contra o fascismo.

 

Só o fato de que a indústria soviética tenha podido produzir uma quantidade colossal de armamentos: perto de 490.000 canhões e morteiros, mais de 102.000 tanques e canhões autopropulsados, mais de 137.000 aviões de combate, prova que os alicerces da economia, do ponto de vista militar, foram essenciais e fundamentais, o partido e o povo tinham sabido preparar a defesa da pátria. Ora, é o essencial e o fundamental que, no final das contas, decidem a sorte de um país em guerra.’” (26)

 

Notas da introdução

 

(I) “(...) Às 0 horas e 43 minutos de 9 de maio de 1945 terminou a assinatura da ata de capitulação incondicional da Alemanha. (...) “ Mariscal de la Unión Soviética Gueorgui Zhukov, Memorias y reflexiones, t.2, Ed. Progreso, Moscú, 1991, p. 402. (II) Mariscal de la Unión Soviética Gueorgui Zhukov, Memorias y reflexiones, t.2, Ed. Progreso, Moscú, 1991, p. 415.

 

(III) Ludo Martens é autor de vários livros, além de ‘Um outro olhar sobre Stalin’ (1994) e ‘ A URSS e a contra-revolução de veludo’ (1991). É dirigente do Partido do Trabalho da Bélgica.

 

  1. ‘Stalin preparou mal a guerra antifascista?’ é uma parte do capítulo 9, ‘Stalin e a guerra antifascista’, do livro de Ludo Martens ‘ Um novo olhar sobre Stalin’, Ed. Revan, (2003). Do mesmo capítulo: ‘O pacto germano-soviético’, ‘O dia do ataque alemão’, ‘Stalin em face da guerra de extermínio dos nazistas’, e ‘Stalin, sua personalidade, sua capacitação militar’.

 

 

 

 

Em 1942, Guillén publica “Uma Canção a Stalin” na Oferenda

 

Uma canção a Stalin

 

Stalin, Capitão,

que Xangô o proteja e que o resguarde Oxum.

 

A teu lado, cantando, os homens livres vão:

o oriental, que respira com pulmão de vulcão,

o negro, de olhos brancos e barbas de betume,

o branco, de olhos verdes e barbas de açafrão.

Stalin, Capitão.

 

Treme Europa em seu mapa de pedra e de carvão.

Mil séculos se desdobram rolando sem final.

Canhão

do Austral ao Setentrional.

Cabeças e cabeças cortadas no limite.

O mar arde como um charco de alcatrão.

Bocas que ontem cantavam a Verdade e o Bem

Hoje sobre quatro metros de sonho amargo estão...

Stalin, Capitão.

 

Porém o futuro persevera, levanta sua ilusão

lá em sua vermelha terra onde é feliz o pão,

e inflados peitos se armam de uma mesma canção

as plumas dos abutres se detêm, se deterão,

lá em teu gelado céu de lama e explosão,

Stalin, Capitão.

 

No vaso de magnólias, o florido coração

de Buda, despreza seu estático gesto;

gravita um continente sobre o Mar do Japão:

rude bloco de sangue da Sibéria ao Ceilão

e de Esmirna a Cantão...

Stalin, Capitão.

 

Tambores africanos com ressoante som

sobre a selva e o deserto seu alerta dão,

mais feroz que o metal com que ruge o leão;

e alçando até a Pichincha a tormentosa fronte

América convoca sua onça e seu caimão,

mas também lubrifica seu trem e seu motor.

Ódio por onde queira verá o cego alemão:

a pomba, o avião,

o bico do tucano,

um imenso zoológico de vasta indignação,

as flechas venenosas que em cheio ao alvo vão

e ainda o vento, impulsionando suas rodas de ciclone...

 

Stalin, Capitão,

que Xangô o proteja e que o resguarde Oxum...

A teu lado, cantando, os homens livres vão:

o oriental, que respira com pulmão de vulcão,

o negro, de olhos brancos e barbas de betume,

o branco, de olhos verdes e barbas de açafrão.

Stalin, Capitão!

os povos que despertam junto a ti marcharão!

 

Nesta data nasceu Tancredo de Almeida Neves, político brasileiro que serviu à Pátria com heroísmo derrotando em 1985, com amplo apoio popular, o candidato da ditadura no Colégio Eleitoral. Eleito presidente do Brasil, pelo voto indireto, morreu antes de tomar posse. Iniciou sua vida política como vereador em São João del-Rei, Minas Gerais. Exerceu diversos cargos políticos e participou de vários momentos decisivos da história do Brasil. Foi Ministro da Justiça do segundo governo de Getúlio Vargas e o único a incentivar enfaticamente o Presidente da República a resistir ao golpe arquitetado pela direita entreguista (os tucanos da época) em 1954. Com a morte de Getúlio em agosto daquele mesmo ano, Tancredo Neves foi o principal articulador da candidatura de Juscelino Kubitschek à presidência do pais.

 

Tancredo Neves (1910-1985) nasceu na cidade de São João Del Rei, Minas Gerais. Iniciou os estudos em sua cidade natal, mudando-se para Belo Horizonte, onde conclui o curso secundário. Estudou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Entre 1935 e 1937, Tancredo Neves ingressa na carreira política como vereador em sua cidade natal, onde chegou a ser presidente da Câmara Municipal. Durante o Estado Novo foi preso em 1937. Em 1938, assumiu o cargo de Promotor Público. Foi eleito Deputado Estadual, ocupou o cargo entre 1947 e 1950. Foi Deputado Federal entre 1951 e 1953.

 

Tancredo Neves foi Diretor do Banco de Crédito Real e Diretor do Banco do Brasil. Entre 1958 a 1960, foi Secretário de Finanças de Minas Gerais. Foi Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico entre 1960 e 1961. Entre os anos de 1961 e 1962, assume o cargo de Primeiro Ministro, quando da renúncia de Jânio Quadros e a instalação do regime parlamentarista.

 

Em 1961, convenceu João Goulart a aceitar o parlamentarismo e assim, evitar o golpe. Foi nomeado primeiro presidente de Conselho dos Ministros. O regime parlamentarista não deu certo e, três anos depois, Tancredo era um dos mais ativos adversários ao golpe militar que acabou por acontecer e depor Jango.

 

Tancredo Neves foi eleito Deputado Federal entre 1963 e 1979. Foi governador de Minas Gerais entre 1983 a 1984, quando renuncia para disputar a presidência da República. Na campanha que empreendeu durante o segundo semestre de 1984, o candidato da Aliança Democrática, comprometeu-se a solucionar os vários problemas que afligiam o pais, entre eles, a desvalorização da moeda, a dívida externa crescente e as questões agrárias. Em 1985, vence a eleição indireta no Colégio Eleitoral, recebendo 480 votos contra 180 de seu adversário Paulo Maluf.

 

Tancredo não chegou a exercer o cargo para o qual foi eleito. Um dia antes da posse, marcada para 15 de março de 1985, Tancredo adoece e é internado para uma cirurgia de emergência, diagnosticado uma diverticulite. Depois de 38 dias Tancredo não resiste. Tancredo de Almeida Neves faleceu em São Paulo, no dia 21 de abril de 1985, mesmo dia da morte de Tiradentes.

 

28 de fevereiro de 1935

Nesta data Chiquinha Gonzaga, como foi conhecida a maestrina e compositora Francisca Edwiges Neves Gonzaga, nos deixava para entrar no altar sagrado dos grandes músicos e compositores brasileiros. A primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, uma grande pianista e compositora. Chiquinha Gonzaga, além de alegar o povo com suas canções, participou ativamente da campanha republicana e lutou junto com os abolicionistas pela libertação dos escravos no Brasil. Enquanto ouvia o ensaio do Cordão Rosa de Ouro, no Andaraí, em 1899, Chiquinha compôs a sua primeira e célebre marcha carnavalesca, "Ó Abre Alas".

 

 

 

 

Francisca Edwiges Neves Gonzaga era filha do militar José Basileu Neves Gonzaga e da mulata Rosa Maria de Lima. Ganhou um piano de seu pai aos 9 anos e compôs a sua primeira música aos 11 anos.

 

Casou-se com o oficial da Marinha Mercante Jacinto Ribeiro do Amaral aos 13 anos. Aos 16, nasceu o primeiro filho, João Gualberto. No ano seguinte, teve Maria.

 

Três anos depois, já seduzida pela música, decidiu separar-se do marido, o que provocou o rompimento das relações com o seu pai.

 

Chiquinha passou a viver com João Baptista de Carvalho, um bon-vivant com quem teve a filha Alice Maria. Em 1876, o casal decidiu mudar-se para o interior de Minas Gerais. Ao surpreender o amado com outra mulher, Chiquinha deixou-o, com a filha, que ainda não havia completado um ano, e partiu de vez para a carreira artística, compondo e dando aulas para se sustentar.

 

O flautista Antônio da Silva Calado a introduziu nas rodas de chorões do Rio de Janeiro. Num desses encontros de músicos, em 1877, ela compôs, de improviso, a polca "Atraente", seu primeiro sucesso. Depois musicou operetas e dirigiu concertos, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil.

 

Além da música, Chiquinha participava ativamente do movimento pela libertação dos escravos. Vendia de porta em porta suas partituras, a fim de angariar fundos para a causa. Com o dinheiro que conseguiu ao vender a partitura de sua música "Caramuru", Chiquinha Gonzaga comprou, em 1888, a alforria do escravo e músico José Flauta, antecipando-se poucos meses à Lei Áurea. Foi também uma participante ativa da campanha pela proclamação da República.

 

Em 1897, compôs o tango "Gaúcho", lançado na peça "Zizinha Maxixe", de Machado Careca que, quatro anos mais tarde, faria uma letra para a composição, que passaria a se chamar "Corta-Jaca". Essa música fez tanto sucesso que foi incluída na revista luso-brasileira Cá e Lá, encenada em Portugal e executada numa audição no Palácio do Catete, feita por Nair de Tefé, a esposa do presidente . O evento foi considerado uma quebra de protocolo e um escândalo nas altas esferas do poder brasileiro.

 

Enquanto ouvia o ensaio do Cordão Rosa de Ouro, no Andaraí, em 1899, Chiquinha compôs a sua primeira marcha carnavalesca, "Ó Abre Alas". Em 1902, fez uma viagem à Europa, mudando-se para Lisboa em 1906. Voltou acompanhada por João Batista (Joãozinho Gonzaga), um rapaz 36 anos mais jovem, que havia conhecido ainda no Rio.

 

Em 1912, Chiquinha assistiu à estréia de "Forrobodó", opereta que musicara, escrita por Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt. Três anos depois, Chiquinha musicou a peça "A Sertaneja", de Viriato Correia.

Participou da fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), em 1917, e lançou campanha de fundos destinados à construção de uma nova sepultura para Francisco Manuel da Silva, compositor do Hino Nacional Brasileiro, dois anos depois.

 

Em 1933, aos 85 anos, escreveu sua última partitura, "Maria".

Chiquinha morreu em 1935. Durante a sua vida, musicou aproximadamente 77 peças de teatro. Sua obra reúne mais de 2.000 composições, entre valsas, polcas, tangos, maxixes, lundus, fados, serenatas, músicas sacras. Entre suas inesquecíveis criações estão "Ó Abre Alas", "Atraente", "Casa de caboclo", "Faceiro", "Falena" e "Lua branca", entre outras.

 

 

 

22 de fevereiro de 1943

Nesta data (22 de fevereiro de 1943) três jovens alemães, herois anti-nazistas, pertencentes ao grupo Rosa Branca, eram executados pelas bestas a serviço de Hitler e sua corja de assassinos. Hans Scholl e sua irmã, a estudante de Biologia Sophie, de 21, além de seu melhor amigo, Christoph Probst, 22 anos, também estudante de Medicina, espalhavam panfletos contra Hitler e pediam um levante popular contra os nazistas. O título do texto, "Rosa Branca", deu origem ao nome do grupo. O impacto foi enorme: as cópias se espalharam e chegaram até a cidades distantes. Vieram novas mensagens, com demanda cada vez maior. Estudantes de outras universidades passaram a distribuir os papéis. E logo os textos eram seguidos de pichações nos muros de Munique: "Fora Hitler" e "Liberdade!" eram as mais freqüentes. A Gestapo, em desespero, caçava dia e noite o grupo. Mas a temida polícia de Hitler não conseguia farejar pistas, apesar de estar lidando com uma improvisada facção estudantil.

 

 

Entre julho de 1942 e janeiro de 1943, os folhetos sumiram. Hans Scholl e seus companheiros foram convocados pelo Exército a lutar contra as tropas soviéticas no front do leste. As atrocidades que presenciaram no campo de batalha e nos centros de extermínio reforçaram ainda mais a convicção dos estudantes. No retorno a Munique, os panfletos tinham um novo título - no lugar do pacato "Rosa Branca", o desafiador "Movimento de Resistência na Alemanha". Essa resistência, entretanto, durou pouco: em 18 de fevereiro, um descuido da jovem Sophie encerrou o sonho. A irmã de Hans subiu as escadarias da universidade para despejar os folhetos sobre os alunos que deixavam as salas.

 

Um servente filiado ao partido nazista delatou Sophie e o irmão. Probst foi preso logo depois. Todos foram indiciados por traição.

 

O julgamento, quatro dias depois, foi mais um comício político do que um procedimento judicial. O juiz Roland Freisler, nazista até a medula, foi enviado de Berlim para presidir a sessão. Com Freisler segurando o martelo, a corte nem precisaria de promotor público: o próprio magistrado fez o papel de chefe de acusação. Como nenhuma testemunha foi chamada - torturados, os jovens confessaram as ações -, o julgamento se resumiu a um monólogo inflamado do juiz. Até o advogado de defesa indicado pelo Estado pediu a condenação do trio. Calado durante toda a sessão, só abriu a boca uma vez: "Que a justiça seja feita". Sophie não mostrou a mesma covardia. Fitou o juiz e disparou:

 

"Muitos outros pensam as mesmas coisas que nós, mas não têm coragem de admitir. Você sabe que essa guerra está perdida."

 

Robert Freisler julgou os três culpados de trair a nação e os sentenciou à morte naquele mesmo dia. Hans e Sophie ainda se despediram dos pais na cadeia antes da execução. Não choraram: seguraram as lágrimas até que o pai e a mãe saíssem. Christoph Probst não recebeu visitas. Sua mulher, que acabara de dar à luz seu terceiro filho, estava no hospital e sequer sabia que o marido fora preso.

Só pôde dizer adeus a Hans e Sophie: impressionados com a calma e a coragem dos estudantes, os carcereiros feriram o regulamento e deixaram que eles ficassem juntos por mais alguns instantes. Na hora da execução, nenhum demonstrou desespero ou temor. A brava Sophie foi a primeira na guilhotina; Christoph, o segundo. Hans Scholl, o último, ofereceu o pescoço ao carrasco e, antes que a lâmina caísse, proclamou: "Vida longa à liberdade".

 

 

21 de fevereiro de 1945

Nesta data (21 de fevereiro de 1945) a FEB (Força Expedicionária Brasileira) realizou a sua mais importante conquista nos campos de batalha europeus contra o nazi-fascismo: a tomada do Monte Castelo. Formada durante o governo Getúlio Vargas, a FEB era constituída de oficiais e voluntários que se alistaram com o intuito de poder ajudar as forças aliadas no combate ao terror nazista e para varrer do planeta o pesadelo de Hitler e Mussolini.

 

A FEB lutou ao aldo dos aliados e foi enviada para os campos de batalha na Itália para ajudar a conter o avanço das forças alemãs em direção à França. Antes da vitória final, em 21 de fevereiro, ocorreram outras três tentativas. O comando definiu que no dia 19 de fevereiro teria início a nova ofensiva que ficou conhecida como Operação Encore. A missão das tropas brasileiras era tirar Monte Castelo do controle dos alemães, pois ele representava uma posição estratégica, já que se encontrava no caminho para Bolonha, cidade que representaria uma importante conquista para as forças aliadas. No dia 21, a FEB derrubou os alemães. A tomada do Monte Castelo ficou conhecida como a sua mais importante conquista.

 

Alguns meses depois, em 8 de maio de 1945, a Alemanha se rendeu e, pelo menos em território europeu, a guerra chegou ao fim. Os pracinhas da FEB retornaram ao Brasil e aqui foram recebidos com muita festa. A segunda guerra só acabaria, no entanto, 4 meses mais tarde. A crueldade do bombardeio atômico a Hiroshima e Nagasaki mostrou ao mundo do que era capaz o novo fascismo que surgia no mundo.

 

Fontes de informações e imagens:

A Conquista de Monte Castelo

Segunda Guerra Mundial

 

15 de fevereiro de 2003

Nesta data mais de 15 milhões de pessoas saíram às ruas nas principais cidades do mundo contra a invasão do Iraque pelas tropas de Bush e seus cúmplices. Em 600 cidades de 60 países de todos os continentes, a Humanidade realizou a maior manifestação de sua História, condenando de forma retumbante a pretensão do imperialismo americano de atacar o Iraque para roubar seu petróleo.
 

 

Em inúmeros idiomas foram estendidas faixas contra a agressão ianque em caminhadas que se estendiam por quarteirões e quarteirões de todas as capitais do mundo. Nos EUA se destacavam os dizeres “No blood for oil” ( Não ao sangue em troca de petróleo!), em Londres se lia: “No war” (Não à guerra!) e “Not in our name (Não em nosso nome!). A força e a representatividade desta inédita manifestação conjunta dos povos fica ainda mais expressa quando se sabe que, em Nova Iorque, por exemplo, meio milhão de pessoas ocuparam as ruas enfrentando - 4 oC e, em diversas das cidades do Hemisfério Norte, a temperatura chegava a – 30 oC.

 

Em Paris, 800 mil pessoas protestaram com cartazes conclamando: “guerra nunca mais” e, na mesma marcha, a participação dos norte-americanos se via através da faixa “Americans Against War” (Americanos contra a guerra), que, além de saírem às ruas em número de 1,5 milhão, em 150 cidades de costa a costa dos EUA, participaram em todos os países onde estavam presentes. Em São Paulo, Tom Phypps, do Estado do Kansas, falou no ato afirmando: “Nós norte-americanos amamos o Brasil, amamos os povos do mundo! Nós não queremos guerra!”

 

BAGDÁ NAS RUAS

 

Bagdá ficou lotada com um ato que se estendeu por quilômetros e atraiu um milhão de iraquianos. A população de Damasco foi representada por 200 mil no centro da capital síria.

 

No portal de Bran-deburgo, em Berlim, mais de quinhentos mil caminharam após a faixa: “Chega de dólares ensangüentados!”. Em Tel Aviv, o ato tinha como centro uma grande faixa: “Israelenses e palestinos contra a guerra ao Iraque”.

 

Cidades como Londres, com 1,5 milhão de ingleses que desfilaram em frente ao Big Ben; Roma onde o ato congregou dois milhões e meio e Madri com dois milhões no centro da cidade, foram palco de algumas das maiores manifestações de suas histórias, exatamente para deixar claro que as populações da Inglaterra, da Itália e da Espanha não aceitam o capachismo de seus governantes que querem atolar-se junto com Bush em sua agressão a serviço da gangue do petróleo e da indústria bélica dos EUA.

 

NOVA IORQUE: CERCO ROMPIDO

 

No Brasil, os atos contra a guerra tomaram as capitais e principais cidades do interior do país. Em São Paulo, na maior das manifestações brasileiras, 30 mil atravessaram a Avenida Paulista e seguiram em longo percurso até o Ibirapuera (matérias nas páginas 4 e 5 deste jornal).

 

Em Nova Iorque os norte-americanos também estenderam faixas pedindo “Impeach Bush!” (Impeachment para Bush) e “Fora terroristas da Casa Branca!”. Diante das manifestações e do crescente isolamento de Blair, o poodle de Bush, seu ministro do Exterior, Jack Straw, admitiu que “a guerra será difícil sem o apoio da população”.

 

Já “baby” Bush, além de sair mais isolado, deixou às claras sua covardia e o caráter da ditadura ianque quando se tornou o único governo em todo o mundo a reprimir a maior manifestação da História. Ele tentou impedir a demonstração de repúdio à guerra na maior cidade dos EUA, com guardas baixando o cassetete e atirando o chamado “gás pimenta” sobre os manifestantes. Segundo os organizadores, mais de 300 nova-iorquinos foram presos.

 

Mas, foi em vão. As populações se manifestaram no mundo inteiro e em Nova Iorque, os bloqueios policiais não conseguiram impedir que a Primeira Avenida, de Manhattan, ficasse lotada desde a rua 52 até a 80 (28 quadras, portanto). Impedidos de chegar ao local central do ato, outras dezenas de milhares se aglomeraram na Segunda e Terceira Avenidas e na Avenida Lexington.

 

12 de fevereiro de 1809

Nesta data (12 de fevereiro de 1809) nasceu o biólogo Charles Robert Darwin que desvendou o mistério da evolução e da origem das espécies. Ingressou na Universidade de Edimburgo em 1825 para estudar Medicina mas, não se sentindo identificado com o curso, mudou para a Universidade de Cambridge com o intuito de se tornar pastor da Igreja. Apesar das suas intenções, Darwin conheceu os professores John Henslow, de biologia, e Adam Sedgwickint, de geologia, que lhe despertaram o interesse pelo estudo da História Natural, área a que se veio a dedicar no percurso da sua vida. Sua descoberta sobre a evolução das espécies o colocou no pedestal ocupado pelos grandes cientistas. Diz-se que ele estaria entre os três grandes da Humanidade: Darwin teria descoberto a ciência dos seres vivos, Sigmund Freud, a ciência da mente humana e Karl Marx, o desbravador da ciência da sociedade e das revoluções sociais.
 

11 de fevereiro de 1990

Nesta data foi libertado Nelson Mandela. Ele passou 27 anos atrás das grades por lutar contra o racismo e pela democracia em seu país. O fato representou a queda do regime segregacionista do apartheid na África do Sul.  Considerado por muitos um guerrilheiro em busca da liberdade, para o governo sul-africano da época Mandela era um terrorista. 

Formado em Direito e um dos principais líderes do Congresso Nacional Africano (CNA), o primeiro presidente negro da África do Sul lutou contra o modo de governo que negava aos negros direitos políticos, sociais e econômicos. Coordenou campanhas de sabotagem contra alvos militares e do governo, planejou guerrilhas e arrecadou fundos para o treinamento paramilitar do grupo. Não temeu as retaliações do regime racista e dedicou sua vida para salvar a de um povo à margem da sociedade. Foi preso em agosto de 1962, sentenciado a cinco anos de prisão e em 1964 foi condenado à prisão perpétua. 

Em 1985, Mandela recusou trocar liberdade condicional pelo fim da luta armada. Cinco anos depois, pressionado pelas atividades do CNA e pela comunidade internacional, o então presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk ordenou sua libertação e tirou o partido de Mandela da ilegalidade.

Nelson Mandela governou o país de 1994 a 1999 e ganhou o respeito internacional devido a sua luta em prol da reconciliação interna e externa. "Tenho defendido o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer", afirmou em um julgamento em 1963.

 

 

 

2 de fevereiro de 1943

Nesta data a Humanidade conquistava sua mais decisiva e mais heroica vitória contra a barbárie. Depois de 6 meses de batalha, casa por casa, rua por rua, cômodo por cômodo (soldados alemães relataram como, frequentemente, depois de ocupar a cozinha de uma casa, eram repelidos na sala ou em algum quarto), os últimos soldados nazistas rendiam-se em Stalingrado.

Até hoje, nunca houve uma batalha em que a determinação, a consciência e o sentimento coletivo humanos prevalecessem de forma tão nítida e tão extrema. Pouco antes do início da batalha, o Comandante Supremo, José Stalin, havia lançado a Ordem de Batalha nº 227. Nela, fazia o balanço da guerra até então e concluía que era chegada a hora de não mais recuar. Não somente era chegada a hora, mas esse era o único meio de derrotar o nazismo. Daí a síntese de Stalin, nessa ordem de batalha - “Nem um passo atrás!”. Stalingrado seria a realização imensa e luminosa dessa determinação, onde soldados e civis, em massa, recusavam-se, polegada por polegada, a ceder terreno ao inimigo. Na passagem do ano, Stalin dirigiu-se aos homens, mulheres e crianças – sim, até as crianças lutaram em Stalingrado – que se batiam na cidade às margens do Volga. Falou que apenas tinha uma coisa para dizer: “morte ao invasor alemão”, e encerrou o discurso. Ilya Ehremburg descreve, no livro que tem como título a frase de Stalin, como aqueles combatentes receberam emocionados a palavra de seu comandante, mais eloqüente do que se tivesse dito milhões de palavras.

 

A batalha de Stalingrado decidiu a II Guerra Mundial. Depois dela, os nazistas viram-se reduzidos, pela primeira vez e definitivamente, à defensiva - até o momento final, a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, onde as primeiras tropas que entraram na cidade eram as da unidade que combatera dentro de Stalingrado do início ao fim da batalha, o 62º exército soviético.

 

Em meio ao combate da URSS contra o nazismo, o ex-embaixador dos EUA em Moscou, Joseph Davies, explicou ao povo norte-americano, prenhe de admiração pelo soviéticos, porque, apesar da ferocidade da guerra, não havia, ao contrário de outros países, uma quinta-coluna de Hitler naquele país: os soviéticos, disse Davies, eliminaram a quinta-coluna antes que a guerra começasse. Realmente, se não fosse o desmascaramento, julgamento e condenação dos que, em especial nas forças armadas, ensaiavam o papel de Petain, Laval ou Quisling em versão russa, teria sido impossível a vitória na guerra, sobretudo em seu momento decisivo – Stalingrado.

 

Para vencer a sanguinária, criminosa e insana máquina de guerra e extermínio nazista era necessário que cada ser humano em combate se identificasse com seus próximos, a ponto de ver neles a continuação de sua própria vida. Para isso foi necessário combater e vencer a quinta-coluna de sabotadores, derrotistas e capitulacionistas, sobretudo dentro do comando do Exército Vermelho. Sem essa vitória anterior, seria vão esperar a vitória contra a invasão nazista.

 

Carlos Lopes

 

31 de janeiro de 1968

Nesta data (31 de janeiro de 1968) começa a ofensiva da Guerrilha do Vietnã - que ficou mundialmente conhecida como “A ofensiva do Tet” -, que deixou apavorados os invasores imperialistas. Um dia antes, o presidente norte-americano Lyndon Johson foi aos meios de comunicação para anunciar que a Guerra do Vietnã seria um conflito de curta duração. Mal sabia o chefe do império que os vietnamitas preparavam, para o dia seguinte, uma ofensiva militar que alteraria para sempre o tom arrogante com que os EUA encaravam a resistência revolucionária do Vietnã.

 

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As tropas militares do Vietcongue e do Vietnã do Norte empreenderam uma violenta ação militar com o objetivo de tomar conta de todo o Vietnã. Entre outras cidades, Saigon, Hué e Khe Sahn foram tomadas por diferentes tropas comunistas. A ação militar dos vietcongues ganhou os noticiários do mundo inteiro com a reprodução do conflito em tempo real. Entre as mais famosas imagens do conflito está a do assassinato de um suposto vietcongue com um tiro na cabeça.

 

Outra cena que marcou o conflito foi a invasão do prédio da Embaixada dos Estados Unidos, no Vietnã do Sul. Essa ação foi de fundamental importância para que a opinião pública internacional começasse a desconfiar sobre a supremacia bélica dos Estados Unidos. Protestos de universitários e grupos políticos em todo o mundo começaram a questionar a validade da ocupação dos EUA naquela região.

 

No dia 6 de fevereiro daquele mesmo ano, as tropas do Vietcongue conseguiram controlar a cidade de Khe Sahn, um dos principais pontos de controle dos norte-americanos. Mais uma vez os episódios da guerra eram transmitidos em tempo real, produzindo uma avalanche de artigos de opinião, protestos e declarações que questionavam o conflito. No entanto, a ofensiva do TET acabou sendo controlada pelas tropas dos Estados Unidos.

 

A vitória dos Estados Unidos, no entanto, não significou a criação de uma situação política confortável para os defensores da guerra no Oriente. De fato, aquele incidente em 1968 mudou drasticamente a visão segura que as autoridades americanas insistiam em repassar para a população. Aos olhos da população dos EUA, aquele conflito não poderia ser facilmente vencido. Afinal de contas, como seria possível que com mais de dois anos de ocupação os EUA ainda seriam alvo de uma ofensiva daquela proporção?

 

Esse simples questionamento acabou tendo força suficiente para que o presidente Lyndon Johson não tivesse apoio público para se reeleger presidente. A insistência da guerra parecia ter abatido o respaldo e a confiança depositados sobre o presidente da mais poderosa nação do mundo. Ainda assim, o “Tio Sam” ainda insistiu no conflito até 1975. Oficialmente, os Estados Unidos declararam sua vitória. Em contrapartida, o Vietnã se unificou sob o controle do regime comunista.

 
 
26 de janeiro de 1654

 

Nesta data, há 360 anos, os holandeses se renderam às forças brasileiras no Recife. A luta contra a dominação holandesa foi conduzida principalmente por brasileiros já que Portugal, impotente diante do inimigo, pretendia chegar a um acordo com os invasores. Este processo forjou nos brasileiros os primeiros sentimentos patrióticos e libertários. 

É deste período o primeiro manifesto que usou o termo nação brasileira em seu texto. Nesta dura batalha se deu uma firme união entre Felipe Camarão, indigena da tribo Potiguar, Henrique Dias, negro que lutou bravamente e ainda recrutou muitos africanos oriundos dos engenhos ocupados pelos invasores e o militar André Vidal de Negreiros, branco, nascido no Brasil, filho de portugueses, e que derrotou os holandeses em várias batalhas. 

O inconfidente  Luiz Vieira da Silva, diversas vezes usou o exemplo da luta heróica dos brasileiros contra os holandeses para concluiur que podíamos conquistar nossa independência de Portugal. “Os naturais do Brasil lutaram contra os holandeses sem precisar de autorização ou da ajuda dos reinóis. Isso mostra que temos todas condições de sermos um país livre do domínio português”, dizia o cônego.  

25 de janeiro de 1969

 

Nesta data (25 de janeiro de 1969) o revolucionário e patriota Carlos Lamarca, guerrilheiro que lutou bravamente contra a ditadura militar pró-imperialista implantada no Brasil em 1964, executou, junto com seus companheiros, a operação exitosa de retirada de dezenas de fuzis FAL, metralhadoras e grande quantidade de munição do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, na cidade de Osasco, em São Paulo. Esta ação, bem como a espetacular fuga ao cerco policial movido contra ele no Vale do Ribeira, o tornariam conhecido internacionalmente. 

Corajoso e despojado, o capitão Lamarca tornou-se um dos mais ativos e brilhantes guerrilheiros da oposição ao regime militar brasileiro. Em abril de 1971 ele ingressa no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) em função de sua concordância com as posições defendidas pela direção desta organização. Nesta época o MR8 dava os primeiros passos para a adoção de uma nova tática na luta contra a ditadura, que seria adotada em 1972, em Conferência realizada no Chile. Com a percepção dos espaços cada vez mais amplos conquistados pelo movimento popular e democrático mesmo sob a truculência de um regime fascista, a organização revolucionária soube, a partir de então, ocupá-los com firmeza e serenidade, cumprindo também nesta nova etapa da luta, assim como o fizera no período da luta armada, um papel de destaque no processo político de derrubada da ditadura militar. 

Lamarca não teria a felicidade de assistir ao surgimento dessa nova quadra de nossa história, tão almejada por ele, de conquistas democráticas e avanços sociais e organizativos do povo brasileiro. No entanto, seu exemplo, sua perseverança, sua garra e seu amor ao Brasil sempre estiveram presentes em todos os momentos da luta que foi conduzida por seus companheiros de jornada e de ideais. 

 
 

21 de Janeiro de 1924

21  de Janeiro de 1924                

Nesta data passava para a história, Vladimir Lênin, o gênio revolucionário que sacudiu o mundo ao acabar com a mamata dos exploradores e parasitas que infernizavam a vida do povo e iniciar a primeira revolução socialista vitoriosa do mundo. Liderando milhões de trabalhadores, Lênin encampou as grandes empresas industriais, iniciou a coletivização da agricultura, acabou com a miséria, transformou os trabalhadores em sujeitos da história e tornou a Rússia - uma sociedade atrasada e miserável - uma grande potência econômica, social, política, militar e cultural. Com o planejamento consciente e a mais ampla democracia jamais vivida pela Humanidade, Lênin e seus companheiros colocaram em prática na Rússia a nova sociedade vislumbrada e defendida por Marx e Engels.


 

11 de Janeiro de 1923

 

 

11 de Janeiro de 1923

Nesta data nasceu Sergio Porto, popularmente conhecido como Stanislau Ponte Preta, escritor e compositor brasileiro. O início de sua carreira deu-se ao fim da década de 40, quando começou a participar do Jornal Última Hora, do Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, revista Manchete e revista Sombra.

 

Em 1951 houve a criação do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, que ocorreu da seguinte forma: Tomás Santa Rosa, ilustrador, trabalhava em diversas mídias e acabou conhecendo Sérgio Porto. Juntos, os dois criaram Stanislaw como um personagem de textos satíricos, crônicas e críticas que foi inspirado em Serafim Ponte Grande, protagonista do livro homônimo do escritor Oswald de Andrade. Além da criação do personagem, Sérgio Porto foi um duro crítico da ditadura militar que foi bimplada no país em 1964

 

Ele foi um grande apaixonado por música, tendo contribuído com jornais e revistas sobre o assunto, fazendo coberturas de shows e, até mesmo, compondo. Ele é o compositor da canção “Samba do Crioulo Doido”. Outra grande contribuição de Sérgio Porto para a música brasileira foi a redescoberta de Cartola. No ano de 1957, Cartola havia desaparecido e trabalhava como lavador de carros e vigia de um edifício no bairro de Ipanema. Então, foi reconhecido por Sérgio, que começou a ajudar o músico a retornar aos palcos e retomar sua carreira. Além disso, publicou artigos sobre Cartola em jornais de grande circulação.

 

 

 

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Sérgio Porto, por ele mesmo, "Auto-retrato do artista quando não tão jovem"

 

"ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

 

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

 

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

 

QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

 

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

 

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

 

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

 

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.

 

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não tão boa quanto pensa.

 

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

 

ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.

 

Assinado, Sérgio Porto, agosto de 1963."

 

Biografia (por Felipe Araújo)

 

Nascido no Rio de Janeiro no dia 11 de janeiro de 1923, Sérgio Marcus Rangel Porto foi uma compositor, escritor e radialista brasileiro que ficou conhecido como Stanislaw Ponte Preta, seu pseudônimo. O início de sua carreira deu-se ao fim da década de 40, quando começou a participar do Jornal Última Hora, do Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, revista Manchete e revista Sombra.

Naquela época, houve a criação do pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, que ocorreu da seguinte forma: Tomás Santa Rosa, ilustrador, trabalhava em diversas mídias e acabou conhecendo Sérgio Porto. Juntos, os dois criaram Stanislaw como um personagem de textos satíricos, crônicas e críticas que foi inspirado em Serafim Ponte Grande, protagonista do livro homônimo do escritor Oswald de Andrade. Além da criação do personagem, Sérgio Porto foi um grande apaixonado por música, tendo contribuído com jornais e revistas sobre o assunto, fazendo coberturas de shows e, até mesmo, compondo. Ele é o compositor da canção “Samba do Crioulo Doido”.

 

Outra grande contribuição de Sérgio Porto para a música brasileira foi a redescoberta de Cartola. No ano de 1957, Cartola havia desaparecido e trabalhava como lavador de carros e vigia de um edifício no bairro de Ipanema. Então, foi reconhecido por Sérgio, que começou a ajudar o músico a retornar aos palcos e retomar sua carreira. Além disso, publicou artigos sobre Cartola em jornais de grande circulação.

 

Ainda no campo da música, Sérgio Porto criou e produziu As Certinhas do Lalau, um concurso de beleza disputado entre as vedetes mais famosas na época. Neste concurso, figuravam nomes como Maria Pompeo, Irma Alvarez, Rose Rondelli, Diana Morel e Anilza Leoni. Estudioso e polêmico, o jornalista alcunhou uma nova definição para a MPB, alterando a sigla para MPBB, que significava Música Popular Bem Brasileira.

 

Apesar das contribuições para a música, Sérgio era também um grande crítico da ditadura militar. Com um senso de humor refinado, fazia críticas contundentes ao sistema de governo, à moral de sua época e aos costumes burgueses. Uma de suas criações mais inovadoras foi o Festival de Besteiras que Assola o País (FEBEAPÁ). O objetivo deste projeto era a simulação de matérias de jornal que criticavam a repressão dos militares com sarcasmo. Em um dos textos, Sérgio noticiou a prisão de Sófocles, um dramaturgo grego, pelos militares, que acusavam suas peças de apresentar conteúdo subversivo. O jornalista faleceu aos 45 anos por problemas cardíacos.

 

 

Biografia por Fundação Itau

 

Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro RJ 1923 - idem 1968). Cronista, humorista, jornalista. Estuda arquitetura até o terceiro ano, abandonando o curso ao ingressar no Banco do Brasil, onde permanece por 23 anos. Nesse mesmo período inicia a carreira jornalística em periódicos como Tribuna da Imprensa, Diário da Noite, O Jornal, A Carapuça e revistas como Manchete, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Mundo Ilustrado, entre outras. Com o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta - homenagem ao personagem Serafim Ponte Grande, do escritor Oswald de Andrade (1890 - 1954) -, criado durante sua colaboração para o Diário Carioca, assina a coluna Reportagem de Bolso, destaque de última página do jornal Última Hora. Além de atuar como cronista e autor satírico, dedica-se a atividades variadas, como comentarista esportivo e redator humorístico, nas Rádios Mayrink Veiga e Guanabara, no Rio de Janeiro; apresentador, redator e locutor, em programas de televisão; e roteirista de chanchadas. Em 1953, a convite do Ministério da Educação, escreve Pequena História do Jazz, a primeira do gênero publicada no Brasil. Alcança sucesso editorial com os três volumes de Febeapá -Festival de Besteira que Assola o País, título que parodia o uso de siglas pela ditadura militar, publicados em 1966, 1967 e 1968. Em julho de 1968, no intervalo da apresentação do Show do Crioulo Doido, de sua autoria, é vítima de uma tentativa de envenenamento - que atribui a terroristas de orientação política direitista. Morre no Rio de Janeiro, em setembro do mesmo ano, após sofrer três enfartes.

 

Comentário Crítico

 

Sobretudo por meio do heterônimo Stanislaw Ponte Preta, criado em 1951, Sérgio Porto colabora em diferentes veículos de imprensa no momento em que se forma a indústria cultural no Brasil. Tendo atuado em diferentes mídias - jornal, revista, rádio, televisão e cinema -, deixa registradas em suas crônicas impressões diversas a respeito das novas linguagens e dos novos modos de percepção da realidade.

 

Exercitando principalmente a sátira - dirigida a todos os setores da sociedade e, a partir de 1964, em especial ao estado autoritário -, o narrador de Ponte Preta apropria-se de diferentes textos e discursos, buscando evidenciar as inconsistências das formulações ideológicas. Um de seus alvos centrais é o que chama de a linguagem dos "entortados literários", caso dos repórteres policiais e dos locutores esportivos, cujo estilo parodia com base em recursos como o plural de modéstia ("nós", no lugar de "eu") e em vocábulos raros como "amásio" (em substituição a "amante").

 

A crônica Repórter Policial (Primo Altamirando e Elas, 1962) fornece a chave para se compreender um dos objetivos dessa sátira. Ponte Preta relata o episódio vivido por Altamirando, personagem recorrente em seus textos, durante colaboração para um jornal. Diante da recusa do secretário de redação em enviar um fotógrafo para registrar o "furo" que conseguira, pois não se tratava de algo suficientemente sangrento, Altamirando afirma: "Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de arrancar a cabeça do falecido". Os meios empregados pelos veículos de comunicação para chamar a atenção do leitor a qualquer preço são exagerados até a inverossimilhança, compondo, assim, a denúncia.

 

Já a crônica Cara ou Coroa, publicada em Rosamundo e os Outros (1963), ilustra como o autor busca provocar no leitor o distanciamento crítico em relação a construções oferecidas como inquestionáveis. Trata-se de sentenças fundamentadas em lugares-comuns que, ao serem organizadas em pares, sugerem a automação e a falsidade dos discursos. Uma formulação como: "O aumento do custo de vida no Brasil é uma consequência lógica do desenvolvimento do país, insuflado pelo crescimento da população e outros fenômenos dos quais só podemos nos orgulhar". A oração que parece uma leitura positiva do cenário econômico é na verdade carregada de ironia, e leva o leitor a questionar-se sobre seu real significado. Se compreendida em suas linhas gerais, a composição exemplifica o movimento fundamental dessa obra: a partir da deformação linguística, o discurso satírico evidencia as contradições de modelos idealizados. A incorporação do estereótipo, manifestada em diversos níveis, permite que o leitor se distancie da representação, adotando um olhar crítico diante da forma como se oferecem os papéis sociais.

 

Essa função é exercida também pelas figuras que frequentam as crônicas de Ponte Preta, entre as quais está Primo Altamirando. Embora caricaturais, os personagens revelam sobre o evento narrado aspectos dificilmente notáveis pela percepção habitual. Tia Zulmira realiza as principais intervenções nesse sentido. Composta com base em uma sabedoria acentuada, é apresentada como professora do escritor francês André Gide e noiva de Charles Darwin. E, embora seja personagem de um perfil publicado no primeiro livro de Ponte Preta (ao qual, aliás, dá nome: Tia Zulmira e Eu, 1961), jamais chega a participar das tramas.

 

Com Garoto Linha Dura (1964), Sérgio Porto inaugura as obras que têm como objetivo a crítica aos abusos cometidos a partir do golpe militar e que encontram seu ápice nos três livros da série Febeapá - Festival de Besteira que Assola o País. Nesses volumes, os eventos narrados revelam a presença do autoritarismo, do "dedurismo", da hipocrisia e violência no cotidiano - seguindo a lógica de um episódio que o narrador identifica como exemplar. Diante dos frequentes subornos a guardas, o Serviço de Trânsito decide emitir todas as multas veiculares em três vias. Ponte Preta afirma: "Em todo lugar do mundo, quando o guarda é subornável, muda-se o guarda. Aqui, muda-se o talão. É a subversão a serviço da corrupção".

 

Com a própria assinatura, Sérgio Porto publica, em 1958, Homem ao Lado, crônicas reeditadas em 1963, sob o título A Casa Demolida, e os contos de As Cariocas, em 1967. Embora o humor não esteja ausente desses escritos, a tendência predominante é memorialista. No caso do primeiro título, pela presença constante da nostalgia. No do segundo, porque, ao explorar a moderna condição feminina com base em variados tipos de mulher, o autor compõe o retrato das mudanças sociais ocorridas no Rio de Janeiro do século XX.

 

 

 

Este é o samba do crioulo doido

 

 

A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu o regulamento,

E só fez samba sobre a história do brasil.

E tome de incofidência, abolição, proclamação, chica da silva, e o coitado

Do crioulo tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola.

Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura.

Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba:

 

Foi em diamantina onde nasceu j.k.

E a princesa leopoldina lá resolveu se casar

Mas chica da silva tinha outros pretendentes

E obrigou a princesa a se casar com tiradentes

Laiá, laiá, laiá, o bode que deu vou te contar

 

Joaquim josé, que também é da silva xavier

Queria ser dono do mundo

E se elegeu pedro segundo

Das estradas de minas, seguiu p'rá são paulo

E falou com anchieta

O vigário dos índios

Aliou-se a dom pedro

E acabou com a falseta

Da união deles dois ficou resolvida a questão

E foi proclamada a escravidão

 

Assim se conta essa história

Que é dos dois a maior glória

A leopoldina virou trem

E dom pedro é uma estação também

Oô, oô, oô, o trem té atrasado ou já passou

o ringtone de músicas »

 

 

 

 

 

31 de Dezembro de 1958

 

 
31 de Dezembro de 1958

Nesta data Che Guevara e seus companheiros derrotavam as forças da tirania de Bartista Fulgêncio e libertavam a cidade de Santa Clara. Nesta cidade se concentrava o principal da tropas do ditador. A estratégia correta de Fidel e o gênio militar de Che foram responsáveis pela vitória fulminante obtida pelas forças revolucionárias. A tomada de Santa Clara abriu caminho para a chegada à Havana em 2 de janeiro de 1959. 

 

 

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Al acertado pensamiento estratégico de Fidel y el genio militar del Che, se deben en gran medida la fulminante victoria obtenida por las fuerzas revolucionarias durante la Batalla de Santa Clara, la guarnición más grande asaltada y rendida por las armas del Ejército Rebelde.

 

El papel del Comandante en Jefe en la conducción de los acontecimientos finales de la guerra y su profunda capacidad para prever los hechos que se sucedían uno tras otro, así como la atinada dirección ejercida por él sobre los jefes de columnas y tropas que operaban en los distintos frentes, resultaron decisivos en el desenlace final de la guerra.

 

Como recordó hace unos años el Primer Secretario del Comité Central del Partido, General de Ejército Raúl Castro, desde los primeros tiempos de la Sierra Maestra, cuando apenas eran unas pocas escuadras de combatientes que se movían en una sola columna, Fidel meditaba y determinaba a qué lugares del país, entre ellos estas montañas del Escambray, debían marchar en futuro las nuevas columnas que, como resultado del desarrollo de la guerra, se irían desprendiendo de aquella gran escuela rebelde que estaba llamada a ser la Columna "José Martí".

 

 foto: Archivo

CHE, ARTÍFICE DE LA VICTORIA EN SANTA CLARA.

 

Bajo esa visión resultó organizada la Invasión al mando de Camilo y el Che, quienes comandaban las columnas Antonio Maceo y Ciro Redondo, respectivamente, las cuales partieron en agosto de 1958 hacia el occidente y centro de la Isla, a donde llegaron en octubre de ese año, luego de una fatigosa y extenuante marcha.

 

Respecto al grupo liderado por el Che, una vez establecidos en la zona, y tras un serio esfuerzo unitario, en poco más de un mes logró liberar de soldados enemigos el territorio montañoso y sus accesos, contando con el apoyo de algunas de las fuerzas que allí operaban.

 

En ese lapso fue rechazada una gran ofensiva de la tiranía, que contaba con cerca de 1 000 hombres, quienes estaban armados con tanques y otras armas modernas en su propósito de llegar hasta la comandancia del Che en El Pedrero.

 

En diciembre, mientras Camilo en el norte vencía uno tras otro los reductos enemigos, las fuerzas de la Columna 8 y del Directorio Revolucionario, comenzaron también a sitiar y a rendir los cuarteles de la tiranía en pueblos y ciudades de importancia en la antigua provincia de Las Villas, especialmente los situados a lo largo de la Carretera Central.

 

A partir del 16 de diciembre, en que se comenzó el ataque a Fomento, y en el breve plazo de 16 días, fueron asaltadas, tomadas u ocupadas alrededor de 12 plazas importantes, entre ellas Cabaiguán, Guayos, Sancti Spíritus y Placetas.

 

Durante esas acciones las fuerzas rebeldes cortaron las vías de comunicación que enlazaban al oriente y occidente del país, logrando el objetivo estratégico de paralizar cualquier intento de trasladar tropas por tierra hacia la zona en la cual operaban Fidel, Raúl y Almeida.

 

Como culminación de aquella fulminante campaña, y prueba de la audacia, capacidad y experiencia del Che, se realizó el ataque, con apenas 300 hombres, a la ciudad de Santa Clara, en la que el régimen disponía de miles de soldados, tanques, artillería, así como su famoso tren blindado.

 

UN HOMBRE, UNA CIUDAD, UN PUEBLO

 

Santa Clara era una ciudad grande y bien defendida por el enemigo, que tenía a su disposición el regimiento Leoncio Vidal; la estación de policía; la motorizada, una pista aérea militar y cerca de 3 000 oficiales y soldados sobre las armas.

 

 EL 30 DE DICIEMBRE DE 1958 CAE ROBERTO RODRÍGUEZ, EL VAQUERITO.

 

 

Contrario a lo que algunos calculaban, de que el Che esperaría a que Camilo tomara Yaguajay para juntos atacar la importante urbe, el líder rebelde decidió no darle tiempo al enemigo y arremeter solo la acción lo antes posible.

 

Es por eso que una vez ocupada Placetas, el guerrillero argentino decide marchar sobre Santa Clara, para lo cual estableció su campamento militar en la Universidad Central Marta Abréu de Las Villas el 28 de diciembre de 1958.

 

Conocedores de la intensión del jefe de la Columna 8, el ejército de Batista, decidió defender la ciudad por posiciones, tomando los principales edificios, entre ellos, el cuartel 31, la estación de policía; la audiencia; la cárcel, el Gran Hotel y el Gobierno Provincial.

 

Contaban, además, con un tren blindado, donde viajaban unos 350 soldados y armamento para cerca de 500 hombres, medio que se encontraba estacionado en las faldas de la loma del Capiro, al no poder proseguir su marcha hacia oriente producto de la voladura de los puentes del ferrocarril por parte del Ejército Rebelde.

 

En esas condiciones comenzó la batalla de Santa Clara el 28 de diciembre de 1958. Durante cuatro días las fuerzas revolucionarias, con el apoyo incondicional del pueblo santaclareño, combatieron a un enemigo varias veces superior en número y medios.

 

En las acciones, brilló como pocas veces la capacidad organizativa del Che, quien daba ideas de cómo enfrentar los tanques, atravesando carros, camiones y guaguas en las calles y empleando botellas de gasolina encendidas.

 

Asimismo, atravesaba casas rompiendo las paredes con mandarria cuando no podía avanzar por las calle, o levantaba la línea del ferrocarril para descarrilar el tren blindado; además de organizar la cacería de los francotiradores enemigos en el combate.

 

 Fotos: Archivo

 

EL DESCARRILAMIENTO DEL TREN BLINDADO FUE UN DURO GOLPE PARA LA TIRANÍA.

 

El 29 de diciembre, con el concurso de la población las vías amanecieron llenas de barricadas. Ante el avance rebelde los ataques aéreos se concentraron sobre la ciudad, los cuales no pudieron impedir el descarrilamiento, ataque y rendición del tren blindado.

 

Un día después se combatía en toda Santa Clara, cayendo en manos rebeldes el Gobierno Provincial, el cuartel de los Caballitos, la cárcel y la jefatura de Policía, donde momentos antes de la rendición muere de un balazo el jefe del pelotón suicida, Roberto Rodríguez, a quien todos llamaban El Vaquerito.

 

Durante el último día de 1958, mientras continuaban los ataques de la aviación, los tanques y tropas de infantería salieron por última vez del Regimiento Leoncio Vidal, en un vano intento de cambiar la situación, sin embargo fueron rechazados por los rebeldes.

 

Mientras esto sucedía, los agentes del SIM y chivatos agrupados como francotiradores en el Gran Hotel, resultaron capturados, tomándose además, la Audiencia y el importante Escuadrón 31, quedando lista la escena para atacar la guarida principal del régimen.

 

El 1ro. de Enero del nuevo año, a las 12:00 horas los soldados entregaron la fortaleza, con cuyo desenlace Santa Clara estaba en manos del Ejército Rebelde, una victoria que se unía a la arrolladora ofensiva librada en Oriente, causantes de la debacle de la dictadura y del triunfo revolucionario de 1959.

 

Al valorar esta hazaña el Comandante en Jefe Fidel Castro expresó: "Che era un maestro de la guerra, Che era un artista de la lucha guerrillera (...) lo demostró en su fulminante campaña en Las Villas; y lo demostró, sobre todo, en su audaz ataque a la ciudad de Santa Clara, penetrando con una columna de apenas 300 hombres en una ciudad defendida por tanques, artillería y miles de soldados de infantería".

 

Fonte Granma

 

25 de Dezembro

 

 
25 de Dezembro
Nesta data, há 2013 anos, nascia o “grande camarada” Jesus. Ele viveu intensamente e morreu em defesa de seus ideias de amor, solidariedade, igualdade, tolerância, paz e fraternidade geral. Combateu a ganância dos fariseus da época, que usavam até o templo sagrado como palco para explorar o povo, e os falsários de todos os tipos, chamados por ele de “sepulcros caiados”. Era gente que à luz do dia alardeava o bem comum, mas, na calada da noite, se locupletava com a miséria e a fome alheias. Seus ideais revolucionários e universais permanecem vivos até hoje. Tanto que o Papa Francisco recentemente sentiu necessidade de descer o malho na ganância capitalista e em sua busca alucinada de superlucros. Segundo ele, esta é a causa principal do sofrimento da maioria da população da terra. Por tudo isso: Viva o companheiro Jesus! Viva o Natal! E viva a igualdade e a paz entre os povos do mundo!!  
 
 
 

24 de Dezembro de 1951

 

 

 

Nesta data (24 de dezembro de 1951) o presidente Getúlio Vargas assinou decreto-lei reajustando em 251% o salário mínimo, que passou de CR$ 380 para CR$1.200 nas capitais. Com a medida, Vargas deu início a um período de reajustes mais freqüentes, que recuperaram o poder de compra dos trabalhadores. Dois anos depois, Getúlio decidiu elevar novamente o valor do mínimo. Essa intenção foi tornada pública e provocou protestos no meio empresarial e junto à oposição. Apesar das reações, em julho de 1954 o presidente cumpriu o prometido, e aumentou o piso para CR$ 2.300.

 

 

15 de dezembro de 1907

 

 
15 de dezembro de 1907
Nesta data nasceu Oscar Niemeyer o maior arquiteto do Brasil, um revolucionmário marxista e um dos maiores gênios do mundo. Além de grande artista, Niemeyer foi um grande brasileiro, defensor do Brasil e do seu patrimônio, das suas riquezas e do seu povo. Um grande combatente das causas do povo e crítico vigoroso das injustiças no mundo. "O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar", dizia. "Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos", frase numa das paredes do Memorial da Liberdade João Goulart.

 

Em 1936, conheceu o arquiteto francês de origem suíça Le Corbusier – que chegara ao Rio de Janeiro a convite de Lúcio Costa e de Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde do governo Getúlio Vargas, para atuar como consultor no projeto do Ministério da Educação – com quem assina o projeto. Em 1947, divide o projeto da sede da Organização das Nações Unidas (ONU), nos Estados Unidos, com Corbusier. Oscar Niemeyer possui mais de 600 projetos em todo o mundo. É um dos maiores representantes da arquitetura moderna da história. Tem como característica principal o uso do concreto armado para as suas construções, com seu estilo inconfundível. Em 1945, Oscar Niemeyer ingressou no Partido Comunista Brasileiro e, depois do golpe de 1964, viveu fora do país. Impedido de trabalhar no Brasil, vai para Paris, onde instala um escritório. Lá, entre tantos projetos, deixou sua marca ao projetar a sede do Partido Comunista Francês.

 

 

 

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Oscar Niemeyer (1907-2012) nasceu no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, no dia 15 de dezembro de 1907. Filho de funcionário público. Em 1928, casou com Anita Baldo, filha de imigrantes italianos. Em 1929, entrou para a Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, onde formou-se engenheiro arquiteto, em 1934. Inicia-se na profissão como estagiário no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão. Em 1936, foi designado para colaborar com o arquiteto suíço, Le Corbusier, que estava participando do projeto do Ministério da Educação do Rio de Janeiro.

 

Em 1940, Niemeyer teve a oportunidade de conhecer, o então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek. Convidado pelo político, realiza seu primeiro grande projeto, o Conjunto da Pampulha, formado por um Cassino, a Casa de Baile, o Clube e a Igreja de São Francisco de Assis ou Igreja da Pampulha.

 

Em 1947 participou do Comitê Internacional de Arquitetos que projetou a Sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Realizou obras como o prédio do Banco Nacional Imobiliário (BNI), a Casa Edmundo Cavanelas, em Petrópolis, e a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte.

 

Em 1956, a convite do então Presidente da República, Oscar Niemeyer realiza vários projetos para a cidade de Brasília, a nova capital do Brasil. Entre eles o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Itamaraty, o Congresso Nacional, a Catedral, a Praça dos Três Poderes, o Superior Tribunal Federal e o Teatro Nacional. A nova capital do Brasil foi inaugurada no dia 21 de abril de 1960.

 

Com o golpe militar de 1964, Niemeyer se exila na França. De volta do exílio, em 1979, projeta monumentos importantes, como os prédios dos Centro Integrado de Educação Pública (CIEPs) e o Sambódromo, ambos no Rio de Janeiro. Em 1988 recebe o Prêmio Pritzker de Arquitetura.

 

Depois de Brasília, Niterói no Rio de Janeiro, é a cidade que tem um maior número de obras de Niemeyer, entre elas o Museu de Arte Contemporânea, em estilo futurista, inaugurado em 1991. Em 1996, recebeu o Prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza. Em 1999 inaugura o Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, e o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

 

Casado com Anita Baldo, durante 76 anos, ficou viúvo em 4 de outubro de 2004. Em 2006, casa-se com sua secretária Vera Lúcia Cabreira. Em 2007 é comemorado seu centenário. Recebe a Medalha do Mérito Cultural do Brasil.

 

Oscar Niemeyer Ribeiro Soares Filho faleceu no Hospital Samaritano, no Botafogo, Rio de Janeiro, no dia 5 de dezembro de 2012.

 

 

Entre suas mais importantes obras, destacam-se o Edifício Copan, o Memorial da América Latina e o Parque Ibirapuera, em São Paulo; os centros integrados de Educação Pública (Cieps) e a Passarela do Samba, no Rio de Janeiro; o Caminho Niemeyer, em Niterói (RJ); a Universidade de Constantine e a Mesquita de Argel, na Argélia; a Feira Internacional e Permanente do Líbano; o Centro Cultural de Le Havre-Le Volcan, na França; além do Porto da Música, na Argentina.

 

Ao completar 100 anos, em 2007, Niemeyer recebeu diversas condecorações, entre elas a Medalha do Mérito Cultural, conferida pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reconhecimento à sua contribuição à cultura brasileira. Na França, o arquiteto é condecorado com o título de comendador da Ordem Nacional da Legião de Honra.

 

Apontado como um dos mais influentes na arquitetura moderna mundial, seus traços livres e rápidos criaram um novo movimento na arquitetura. Ao lamentar a morte do arquiteto, a presidente Dilma Rousseff disse, em nota, que o Brasil perdeu "um dos seus gênios". "Foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e, como ele mesmo definia, inventiva", destaca o texto. Lula e Dona Marisa Letícia disseram em nota que ele "se vai, mas ficará sempre entre nós, presente nas linhas dos edifícios que plantou no Brasil e em todo o mundo".

 

 

Fidel saúda Oscar Niemeyer quando ele fez 100 anos

 

O presidente Fidel Castro escreveu carta a Oscar Niemeyer em que saúda o lançamento de seu livro “O Ser e a Vida” e o parabeniza pela passagem do centésimo aniversário, comemorado no sábado, dia 15.

 

“Querido Niemeyer:

 

Suas palavras de introdução em ‘O Ser e a Vida’ me lembram Martí quando escreveu ‘El Ismaelillo’ para crianças e adolescentes. Te apoio plenamente em sua árdua batalha para estimular o hábito de ler. Sem a leitura o jovem sai da escola sem conhecer a vida.

 

Ler é uma proteção contra todo o tipo de manipulação. Mobiliza as consciências, nosso principal instrumento de luta frente ao poder devastador das modernas armas que possui o império; desenvolve a mente e fortalece a inteligência, do mesmo modo que caminhar fortalece os músculos das pernas; estimula o sentido crítico é um antídoto contra os instintos egoístas do ser humano.

 

Nossa luta contra o analfabetismo foi apenas o ponto de partida para que não se perdesse nenhum talento e para que não existam seres humanos excluídos da possibilidade de conquistar por si mesmo a mais plena liberdade. Não dizemos nunca ao povo cubano que creia sem ler.

 

Sem cultura não há liberdade nem salvação possível. Como te escrevi antes, apenas uma maior consciência nos manterá firmes em nossa vontade de lutar pelas idéias mais justas pela sobrevivência da espécie humana.

 

Muitas felicidades por seu aniversário. Que muitas pessoas vivam e desfrutem, como você, mais de 100 anos.

 

Teu amigo,

 

Fidel”.

 

 

 

 

22 de novembro de 1910

 

 
22 de novembro de 1910

Nesta data ocorria no Rio de Janeiro a Revolta da Chibata, movimento de marinheiros, liderados por João Cândido - conhecido mais tarde como “Almirante Negro” - que exigia o fim dos castigos corporais a que eram submetidos os marinheiros do Brasil. Após um castigo de 250 chibatadas de um marinheiro do encouraçado Minas Gerais, a revolta estourou. Seu líder, o principal timoneiro do encouraçado, João Cândido, telegrafou ao Palácio do Catete: “Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República, ao ministro da Marinha. Queremos resposta já e já”. O presidente da época, Hermes da Fonseca tentou contornar a situação, aparentemente cedendo às reivindicações. Entretanto, após a situação ter se acalmado, o mesmo acabou expulsando muitos dos envolvidos com a revolta da Marinha. Tal fato provocou uma nova mobilização dos marinheiros, que resolveram atacar a Ilha das Cobras. Contudo, tal ataque foi violentamente reprimido pelas forças federais. Após o ocorrido, muitos revoltosos foram presos em calabouços na mesma ilha. Outros foram condenados ao trabalho forçado na Amazônia. O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado no Hospital de Alienados sob a alegação de estar louco. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta. Apesar de tudo, o resultado final da revolta liderada por João Cândido é que a Marinha acabou tendo que colcar fim aos resquícios da escravidão que ainda persistiam nos navios brasileiros. Salve o Almirante Negro!!

 

 

 

 

 

Entrevista com João Cândido, publicado pela Hora do Povo em 2010

 

 

 

 

Aos 87 anos, no dia 28 de março de 1968, o líder da revolta da Chibata concedeu entrevista para os arquivos do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Os trechos a seguir são dessa entrevista, realizada pelo historiador Hélio Silva, pela jornalista Dulce Alves, pelo superintendente do museu, Sérgio Junqueira e por seu diretor-executivo, Ricardo Cravo Albim, com a paritcipação do filho mais novo de João Cândido, Adalberto Cândido.

 

Entrevista do líder da Revolta da Chibata ao MIS, em 1968

 

Hélio Silva - Se hoje você voltasse a ser o mesmo marujo daquele dia [22 de novembro de 1910], você teria agido hoje como agiu?

JOÃO CÂNDIDO - Teria agido da mesma forma.

 

H.S. - Com que idade você ingressou na Marinha?

JOÃO CÂNDIDO - Com 14 anos. Pertenci à Marinha de 5 de dezembro de 1895 a 30 de dezembro de 1912. Eu entrei na Marinha com 14 anos e entrei bisonho. Entrei bisonho, toda luz que me iluminou, que me ilumina, graças a Deus, que é pouca, foi adquirida, posso dizer, na Marinha.

 

H.S. - Você teria, se possível, pertencido até hoje à Marinha?

JOÃO CÂNDIDO - Certamente. Eu estaria afastado já, pois já teria passado da idade.

 

H.S. - Você não guarda queixas da Marinha?

JOÃO CÂNDIDO - Não, nenhuma.

 

H.S. - Você não tem queixas do mar?

JOÃO CÂNDIDO - Não, o mar é meu amigo.

 

H.S. - No Brasil, legalmente, o castigo corporal foi abolido com a proclamação da República...

JOÃO CÂNDIDO - O terceiro decreto assinado por Deodoro foi abolindo o castigo corporal nas Forças Armadas.

 

H.S. - Por que faltas eram castigados os marinheiros?

JOÃO CÂNDIDO - Pelas mínimas, mínimas faltas. Era só antipatia. Tomava antipatia do oficial, pronto.

 

H.S. - Como era chicoteado o marinheiro?

JOÃO CÂNDIDO - Amarrados em um aparelho, um ferro que tem na coberta dos navios, eram expostos ali, amarrados e castigados brutalmente.

 

H.S. - Nus da cintura para cima?

JOÃO CÂNDIDO - Nus da cintura para cima.

 

H.S. - E a marujada formada, era um espetáculo público?

JOÃO CÂNDIDO - Era um espetáculo público.

 

H.S. - Como era esse instrumento de suplício?

JOÃO CÂNDIDO - Quando não eram as varas de marmelo, era uma corda intitulada corda de barca, linha de barca, e sempre os carrascos colocavam agulhas e pregos, preguinhos pequenos, na ponta cobertos...

 

H.S. - Alguma vez você foi chicoteado?

JOÃO CÂNDIDO - Não senhor, graças a Deus.

 

Ricardo Cravo Albin - Por que, com o seu tratamento, pelo menos ao senhor um tratamento correto, o que lhe deu o germe que culminou nesta revolta?

JOÃO CÂNDIDO - Vamos entrar nesse assunto. Já de moço, a rapaziada congregava muitos moços, eles sempre tinham uma certa confiança em mim. Eu, mesmo em criança, já era líder até dos velhos. Eu tinha interesse pelo bem estar de todos, pela saúde de todos e essas coisas.

 

H.S. - Havia uma conspiração em curso, um movimento articulado para um determinado protesto ou foi uma coisa que num dado momento espontâneo se generalizou?

JOÃO CÂNDIDO - Havia uma conspiração, havia uma conspiração de protesto. E a Marinha seguramente sabia, a Marinha toda sabia. Foi um movimento organizado. Levamos mais de dois anos como movimento organizado.

 

R.C.A. - Quais eram os outros chefes?

JOÃO CÂNDIDO - Dias Martins, que comandou mais tarde o cruzador “Bahia”, Gregório do Nascimento que mais tarde comandou o encouraçado “São Paulo”, André Avelino que comandou o encouraçado “Deodoro”. Todos congregaram os marinheiros dos navios em que serviam e outras repartições.

 

H.S. - Esse movimento pretendia, realmente, tomar conta de navios e fazer um ultimato ou pretendia lançar apenas um protesto, esperando que fosse bem ouvido?

JOÃO CÂNDIDO - Não senhor, nós pretendíamos era impor, impor como impusemos. Nada nos foi oferecido, nós só impusemos, queremos isso e tem que se decidir por isso. Há mil inimigos, inimigos a que pouca importância dou, eles criticam a revolta dos marinheiros, por esse ou aquele motivo. A chibata, na Marinha do Brasil, aqueles oficiais ingleses, Cochrane e outros que eram piratas na Marinha inglesa, expulsos de lá andaram pelo mundo roubando. Primeiro, organizou a Marinha chilena, depois veio para o Brasil, aqui no Brasil ele impunha. Eu, quando vim para a Marinha, ainda encontrei uma porção de oficiais ingleses contratados. Oficiais austríacos, portugueses, ainda na Marinha.

 

H.S. - No momento em que você tomou conta do navio, você tinha uma especialização, era marinheiro de primeira classe, portanto, você era um marinheiro já com certos estudos. Era o primeiro timoneiro...

JOÃO CÂNDIDO - Do Minas Gerais.

 

H.S. - Como foi possível você, assumindo o comando, dirigir as manobras do navio, você já tinha prática de fazer isso sob o comando dos oficiais?

JOÃO CÂNDIDO - Já, já. A gente já tinha prática, estava tudo dividido. (...) todas as frações, quem devia ocupar os postos de combate...

 

H.S. - Então a marujada executou aquilo que estava habituada a executar, apenas os oficiais não estavam dando ordens...

JOÃO CÂNDIDO - Quem estava dando as ordens era eu. Para o Minas Gerais e para todos os navios que haviam aderido ao movimento de pronto, além de que julgamos inconveniente e dispensamos. Dispensamos, não, aproveitamos a tripulação nos navios que estavam com a revolução.

 

H.S. - Você declara em seu depoimento: “o resto foi rotina de um navio de guerra”.

JOÃO CÂNDIDO - Além dos conhecimentos que já tínhamos na Marinha, ganhamos mais conhecimentos durante o tempo que estivemos lá assistindo à construção da nova esquadra. Eu, na Marinha, posso dizer, a arte de governar navio não é difícil, mas é espinhosa.

 

Hélio Silva. - Eu queria que você contasse o que se passou nesses seis dias do seu domínio sobre a esquadra, depois contasse o resultado desse movimento e a sua vida como passou.

JOÃO CÂNDIDO - Depois ao estourar o movimento, isso foi no dia 22 de novembro de 1910, primeiro entramos em contato com o governo do Marechal Hermes. Recebemos por meios telegráficos que ele não confabulava com os revoltosos. Esta foi a resposta do Marechal. Então resolvemos nos fazermos ao mar, até que o governo tomasse outra atitude. Nós nos fizemos ao mar, fomos para alto mar. Depois começou aquela confusão, de ataca, não ataca, e os oficiais do Exército impunham: o governo tinha força para atacar. Como de fato tinha. O governo na época tinha força para atacar, pois tinha uma flotilha de 10 destroieres novinhos, saídos da fábrica no mesmo ano. Havia mais de, talvez, 50 torpedos com cabeça de combate preparadas. Em seguida viemos ao porto depois de dois dias nos abastecermos. Depois entramos em contato novamente com o governo, até que começaram um movimento na Câmara, o da anistia.

 

 

O governo enviara seu embaixador. Nós não pedimos embaixador, o governo enviou o seu embaixador, deputado e capitão-de-mar-e-guerra José Carlos de Carvalho, deputado federal pelo Rio Grande do Sul. Entramos em contato. O governo propôs e nós aceitamos na boa fé. Eu tinha a responsabilidade de não molestar a cidade, era um dos compromissos que eu tinha. Depois de quatro ou cinco dias, isso já para o dia 25/26, fora votada a anistia com grande oposição no Senado. Rui Barbosa falando a noite inteira. Irineu Machado achando os deputados encurvados e os jornais da oposição também marretando. Eram paixões partidárias, que não tinham nada a ver com a revolução. Depois aceitei, de acordo com os poderes que tinha, a anistia. Indicamos os oficiais que deviam ocupar os novos postos, todos foram indicados pela revolução, pelos revoltosos, para assumir o comando dos novos navios, os navios que seriam entregues ao governo. Para o “Minas Gerais” foi o capitão-de-mar-e-guerra João Pereira Leite, os outros não me recordo. Para o “São Paulo” eu creio, foi o capitão-de-fragata Raimundo, um caboclo amazonense muito valente e muito meu amigo.

 

 

Aceitando a anistia, ficamos à disposição do governo e o governo, para desafronta, preparou uma revolução interna para invadir os navios e assassinar os marinheiros que haviam tomado parte na revolução. O governo fomentara a revolta na Ilha das Cobras, levantando o regimento naval para daí irem para o mar e atacarem os navios cujas tripulações estavam anistiadas, para sacrificar os marinheiros. Nós, os marinheiros do “Minas Gerais” e dos demais navios que ainda nos conservávamos a bordo, tomamos aquilo como uma afronta, que os navios estavam considerados como desarmados e de forma que arrebentara a revolução na Ilha das Cobras, os marinheiros que estávamos a bordo ficamos sem ação. A oficialidade que estava a bordo fugiu. Abandonaram os navios no porto, de forma que os marinheiros novamente me confiaram o comando dos navios que haviam tomado parte na revolta e haviam sido entregues ao governo, e foram abandonados mais uma vez pelos seus oficiais. Levei o ‘Minas’ para me proteger dos bombardeios da Ilha das Cobras. Aqui no Largo do Paço tinha um oficial austríaco, especialista em mira, atirando na Ilha das Cobras, no Morro do Castelo, Santa Cruz e nos navios que estavam com o governo. Então, levei o “Minas Gerais” para ficar protegido do bombardeio da esquadra do governo. Levei lá para a Ilha do Viana, no Estado do Rio. Por isso, dois ou três dias sem comunicações com os oficiais em terra, resolvi vir ao Arsenal de Marinha. No Arsenal de Marinha fui preso, acusado de haver fomentado a segunda revolta, a preparada pelo governo, que era para tirar o efeito da anistia conseguida. A metade já tinham sido deportados, fuzilados em alto mar naquele navio “Satélite”, daquele capitão do Exército, não sei o que, Melo.

 

H.S. - Você esteve preso naquele calabouço, na solitária onde só você e um companheiro sobreviveram. É uma gruta cavada na pedra, fechada com uma porta de madeira e depois com uma grade de ferro.

JOÃO CÂNDIDO - São dois ou três compartimentos. São prisões ainda do tempo colonial, do tempo dos holandeses, do tempo de Tiradentes. Todos os dias eles iam saber se João Cândido já havia morrido. Eles prometiam de só alimentar e dar água depois que João Cândido morresse. Então eu pedi aos outros que dissessem que eu já havia morrido. No dia que eles abriram, encontraram aquele espetáculo. Na que eu estava, morreram 18 homens.

 

H.S. - Tinha dois sobreviventes e dezoito mortos.

JOÃO CÂNDIDO - E na segunda, creio que morreram 6 ou 8. Esses cadáveres foram levados para o cemitério do Caju e a administração do cemitério recusara o enterro porque não havia uma declaração oficial. O médico era um oficial-marinheiro, capitão Ferreira de Almeida, creio, capitão-de-mar-e-guerra. Recusara atestar as mortes e por isso no jornal O Correio, que era jornal de oposição ao governo, houve um furo qualquer e a cidade veio a saber. O jornal começou a gritar “onde é que está João Cândido?”. Já os ingleses lá se interessavam, queriam saber onde é que estava João Cândido. Tive oferta oficial, um oficial inglês foi a bordo do “Minas Gerais” e me entregou um oficio do comandante do esquadrão inglês que estava aqui, esse almirante creio que Smith, Smith, entregou oferecendo asilo em nome de Sua Majestade Britânica. Recusamos a oferta inglesa, recusamos a oferta argentina, veio missionário argentino aqui, me entregou o oficio em nome do almirante Sãenz Peña, que era o ministro da Marinha argentina, oferecendo asilo. Tudo isso nós recusamos. Dissemos ao inglês que jamais sairíamos do Brasil. A esquadra inglesa estava aí, já protegendo os interesses ingleses.

 

H.S. - Quando saiu da prisão, você foi dado como louco, foi mandado para o hospício.

JOÃO CÂNDIDO - Não, aquilo foi um arranjo deles para não depor nos inquéritos que certamente estavam em andamento. Para que eu não depusesse me mandaram para o hospício. Estive lá no hospício, mas lá tinha um grande professor, Juliano Moreira, que me disse: a casa é sua, quando quiser voltar para a ilha volte, a casa é sua. Depois a ilha fora ocupada pelo Exército, o Exército tomara conta da ilha, foram para lá oficiais muito distintos que deram todos os direitos humanos, do homem, aos prisioneiros. Tinha lá um oficial, morreu como Marechal Crispim Ferreira, era um oficial muito distinto, o coronel Saraíba, oficial muito distinto. Teve um também, Alfredo Leão da Silva Pedra.

 

Ricardo Cravo Albin. - Do hospício você passou para onde?

JOÃO CÂNDIDO - Do hospício voltei para a ilha, para vir responder a Conselho de Guerra.

 

R. C. A. - Como foi esse Conselho de Guerra?

JOÃO CÂNDIDO - Uma turma dos grandes juristas da época, entre os quais Evaristo Moraes, o velho, Caio Júlio César Monteiro de Barro, Jerônimo de Carvalho, por conta da igreja dos homens de cor, por conta da Igreja do Rosário. Eles só aceitaram a causa com a condição da Igreja não contribuir com um centésimo pelo feito deles, Evaristo e os outros.

 

 

Fui ao Conselho de Guerra, João Pessoa era o promotor de guerra, aquele que mataram na Paraíba, João Pessoa. Ele me dissera: vocês estão absolvidos, uns dois ou três meses antes da reunião do Conselho de Guerra. Eram mais de dois mil marinheiros. Só compareceram, creio, 16 ao Conselho de Guerra. De fato, fomos absolvidos. Absolvidos, e eu excluído da Marinha. Não me expulsaram, me excluíram, porque eu tinha tempo demais de serviço, de maneira que não deu mais para que fosse expulso. Excluído por conclusão de tempo legal de serviço.

 

R.C.A. - Em que dia se deu a sua exclusão, e como passou a viver como seu Cândido?

JOÃO CÂNDIDO - No dia 30 de janeiro de 1912. Passei a viver na vida civil. Muito perseguido pela Marinha.

 

R.C.A. - De que modo?

JOÃO CÂNDIDO - Queria seguir a vida do mar. Embarcava. Fui para a marinha mercante, embarcava hoje aqui, chegava no primeiro porto, os oficiais da Marinha cassavam meus direitos. Diziam que eu não podia embarcar, pois que era revoltoso. Fiz uma viagem para o Rio Grande do Sul, para a Argentina. Primeiro para o Rio Grande do Sul, navio brasileiro. Cheguei no Rio Grande do Sul, o capitão do porto me cassou os papéis. Voltei para o Rio. Cheguei aqui, fui ao almirante Alexandrino, que era ministro da Marinha, morava no Russel, e pelo telefone ele chamou o capitão dos portos e disse: “entregue os papéis de João Cândido imediatamente, eu também fui revoltoso e sou ministro da Marinha”.

 

 

Depois andei lá pela Argentina, andei pela Grécia, embarcando em navio grego e depois deu saudades e eu voltei para o Brasil. Passei para a pesca. Trabalhei 40 anos nos mercados de pesca e no serviço de pesca. Em 59, ali na Praça XV, no entreposto da pesca. No dia em que completei 40 anos, abandonei o serviço. Não tinha resultado, via que ia morrer de fome, abandonei o serviço e fui para o Rio Grande do Sul. O Estado dera-me uma pensão de oito mil cruzeiros, o Estado do Rio Grande do Sul. Hoje, graças a Deus, estou com uma pensão, sabe de quanto? Cinqüenta e oito cruzeiros. Foi quanto eu recebi no Banco do Estado esse mês, e graças a Deus. Representa milhões, para mim, por vir de onde vem, do meu glorioso Rio Grande do Sul. O chofer que esteve lá em casa viu, diploma de cidadão honorífico da Câmara Municipal de Cachoeiro do Sul, da União Estudantil de São João do Meriti e outras coisas mais. Hoje estou com 58 cruzeiros, imagine lá, da para alguém comer?

 

 

 

 

 

 

 

 

20 de novembro de 1695

 

 

 

Nesta data tombou em combate o primeiro revolucionário da causa da libertação dos negros no Brasil, Zumbi dos Palmares. Sua estrela iluminou os quase quatro séculos de luta libertária no Brasil. Seus seguidores, ao assumirem integralmente a Pátria brasileira como sua, levaram adiante com muito mais profundidade a bandeira erguida por Zumbi.

 

“Dos Palmares os feitos históricos

São exemplos da eterna lição

Que no solo Tupi

Nos legara Zumbi

Sonhando com a libertação”

                                  Eduardo de Oliveira

                              (Trecho do Hino à Negritude)

 

A luta pela abolição tornou-se um dos pontos centrais da batalha pela afirmação do Brasil como Nação. Confundiram-se inteiramente a história da libertação dos escravos com a história da formação nacional brasileira. Na luta pela expulsão dos holandeses, os negros ergueram suas armas em aliança com índios e brancos contra os invasores. Não por acaso, o alferes Tiradentes foi patrono da luta de Luiz Gama e de outros abolicionistas e republicanos na campanha vitoriosa para enterrar a monarquia e a escravidão juntas na mesma cova. Os negros são os principais artífices dessa grande obra chamada Brasil.

 

Certa feita, na década de 1950, um racista da Ku Klux Klan (KKK) ameaçou o cantor Paul Robeson, um revolucionário negro norte-americano, dizendo que ele deveria deixar o país porque ali não era lugar para negros. Robeson respondeu calmamente que quem deveria sair do país era o racista e não ele. “Este país é muito mais meu do que seu”, rebateu o líder negro norte-americano.

 

Assim é também no Brasil. A Pátria brasileira, pode ainda não ser, mas ela seguramente será propriedade de quem deu seu suor e seu sangue para construí-la. Zumbi dos Palmares é para todo o povo brasileiro um símbolo da resistência contra a opressão. Em 1995, a data de sua morte foi adotada como o Dia da Consciência Negra. Valeu Zumbi!!

 

 

 

 

Leia mais 

 

 

O primeiro governo livre das américas

 

O assassinato do último líder do Quilombo dos Palmares - no dia 20 de novembro de 1695 - marcou uma das maiores e mais sangrentas lutas pela nossa emancipação: a luta contra a escravidão, a resistência dos escravos nos quilombos.

 

Já se sabe hoje da existência de muitos quilombos, e o dos Palmares foi o maior em extensão e duração. Espalhado por vários pontos da Serra da Barriga, em Alagoas, durou aproximadamente cem anos, no período de 1600 e 1695. Sua população atingiu na época por volta de 20 mil habitantes e a manutenção da identidade negra e dos costumes funcionava como alicerce das comunidades.

 

A serra que abrigou o Quilombo dos Palmares é hoje um museu para estudo da trajetória do negro no Brasil. Foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em 85.

 

Ao longo de nossa história se tornou símbolo da resistência negra do país. Os negros, fugidos dos cativeiros de fazendas da região Nordeste, denominados de quilombolas, se juntaram aos índios e aos brancos aliados à sua causa, construindo no local uma República livre, e tinha como seu maior líder Zumbi dos Palmares.

 

Nas palavras de Câmara Cascudo, surgia ali “no pátio central, como numa aringa africana, o primeiro governo livre em todas as terras americanas”.

 

Zumbi se destacava por seu conhecimento e coragem e, aos 17 anos, se tornou o general de armas do Quilombo dos Palmares, cargo semelhante ao de ministro de guerra nos dias de hoje. No cargo, mostrou-se um excelente estrategista militar, podendo ser comparado a outros grandes estrategistas da História ocidental. O quilombo era uma espécie de arraial militar e núcleo habitacional onde os escravos foragidos podiam se refugiar e se defender dos escravocratas e da coroa portuguesa.

 

O local é dominado pelas réplicas de mocambos e de cercas de pau-a-pique que serviam de proteção nas batalhas, e imagens de orixás (feitas em barro) que serviam de proteção espiritual às plantações e à população.

 

O Quilombo dos Palmares resistiu até 1694 sob a liderança de Zumbi, quando uma expedição comandada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho o exterminou. Zumbi conseguiu escapar junto a outros sobreviventes do massacre e se refugiou na Serra de Dois Irmãos, então terra de Pernambuco.

 

Estima-se que Zumbi, nascido no dia 20 de Novembro de 1655, batizado pelos católicos como Francisco, seja descendente de guerreiros imbangalas ou jagas, da região onde hoje fica Angola. Com alguns dias de seu nascimento, Zumbi foi aprisionado pela expedição de Brás da Rocha Cardoso e dado ao padre Antônio Melo, em Porto Calvo. Com apenas 10 anos de idade, já desenvolvia o latim e português. Aos 15 anos, fugiu da casa do padre, voltando para Palmares, passando a trabalhar na liderança dos quilombolas, adotando o nome de Zumbi, se tornando um grande líder pela sua capacidade de organização e comando. A palavra Zumbi significa “a força do espírito presente”.

 

Zumbi dos Palmares é para todo o povo brasileiro um símbolo da resistência contra a opressão e, em 1995, a data de sua morte foi adotada como o Dia da Consciência Negra.

 

 

Professor Eduardo convoca para Dia da Consciência Negra na Av. Paulista

 

"Herança da escravidão ainda não foi superada"

 

“O negro ainda recebe 30% a menos para realizar o mesmo trabalho, 70% das vítimas de arma de fogo são jovens negros e 60% dos brasileiros analfabetos são afro-descendentes. Ainda temos muito o quê avançar”, avalia Eduardo de Oliveira

 

Aos 81 anos, Eduardo Ferreira de Oliveira é uma das principais lideranças negras do Brasil. Por sua contribuição na luta pelos direitos dos negros e pelo fim da exclusão social que aflige nosso país já foi homenageado diversas vezes. É presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB) desde a sua fundação, em 1995, e membro do Conselho do Ministério Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial, que tem à sua frente a ministra Matilde Ribeiro.

 

Esse corajoso poeta e escritor, durante toda sua vida, se dedicou sem medir esforços às questões enfrentadas pelos negros no Brasil e no mundo, estando presente em todas as conquistas e avanços que, nas últimas décadas, contribuíram para que a nossa sociedade se tornasse mais justa.

 

No momento de comemoração do Dia da Consciência Negra, o professor Eduardo enalteceu a luta de Zumbi dos Palmares, reafirmou as conquistas alcançadas pelo movimento negro e apontou a necessidade de tratar desigualmente os problemas enfrentados por negros e não-negros de forma a diminuir o abismo que ainda separa a nossa sociedade.

 

O sistema de cotas e a secretaria especial, segundo o professor Eduardo, são avanços, mas é imperativa a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, em tramitação há 10 anos no Congresso, e o fim da discussão em torno da redução da maioridade penal, que afeta principalmente os negros, maiores vítimas da violência.

 

Abaixo a entrevista.

 

HP: O que significa para o negro o resgate da memória de Zumbi dos Palmares?

 

Prof. Eduardo: Significa o resgate da auto-estima do negro. Desde os primeiros, que vieram nos navios negreiros, como Ganga Zumba, que sofreram muito, os negros tiveram muita garra. Reativa a memória e mostra que o negro não é só escravidão, como muitos pretendiam. Relembra que o negro sempre lutou e enfrentou a opressão. E o ponto alto, em terra, foi a luta de Zumbi dos Palmares. O Quilombo dos Palmares durante 100 anos enfrentou uma batalha muito grande contra o colonialismo e contra o escravismo no Brasil. Ganhou, inclusive, mais de 50 batalhas daqueles que queriam destruir os Palmares.

 

Todos os negros e negras deste país, referenciados na memória do grande herói nacional que é Zumbi dos Palmares, honram a sua história de luta e relembram o dia 20 de Novembro como data comemorativa da imortalidade da cultura afro, sublinhando a sua contribuição para a formação da nossa nacionalidade.

 

HP: Como está a convocação para a manifestação e as comemorações do dia 20?

 

Prof. Eduardo: Esta manifestação do dia 20 é uma homenagem a este grande herói, Zumbi dos Palmares, e também irá oficializar o Hino da Negritude, que está sendo oficializado em vários estados brasileiros. Estamos mobilizando gente em todo o país, em todos os municípios com o grande objetivo de fazer com que o movimento negro, a sua transparência, sua visibilidade política, intelectual e moral venham à tona para a sociedade brasileira. Nossas reivindicações.

 

Desde que Getúlio Vargas, na Revolução de 30, decretou a lei estipulando que pelo menos dois terços dos trabalhadores das empresas teriam que ser brasileiros começou a ser quebrada a marginalização a que o negro foi relegado. A Abolição, apesar da libertação formal que significou e da conquista que foi, deixou o negro à mercê da sorte. Ele saiu das senzalas sem posses e sem instrução. Foi com Getúlio que o negro começou a se alfabetizar e a entrar no serviço público.

 

Nas décadas depois de Getulio Vargas, o negro vem fazendo suas reivindicações e já tivemos muitas vitórias.

 

HP: Quais as conquistas?

 

Prof. Eduardo: Este é um momento de expressivas conquistas para a negritude, onde o governo Lula reconheceu a dívida histórica que a sociedade brasileira tem para com os negros. A criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que tem à frente a professora Matilde Ribeiro, é uma delas. Tivemos o prazer de apoiar sua indicação e estamos trabalhando juntos para ampliar estas conquistas. As cotas para negros nas universidades e a nomeação de negros para o primeiro escalão da administração pública nacional também devem ser ressaltados, pelo que significam para a auto-estima do nosso povo e da negritude, em especial.

 

Temos ainda muito a conquistar, mas não podemos esquecer as inúmeras vitórias dos afro-brasileiros, fruto de um esforço hercúleo, como a definição do racismo como crime inafiançável, o reconhecimento do direito dos quilombolas às suas terras, a proliferação de conselhos afro-descendentes que hoje atuam em vários estados, a oficialização do Hino à Negritude e a criação da Secretaria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial.

 

HP: Como foi a composição do Hino a Negritude?

 

Prof. Eduardo: Este momento prova que é possível do nada se fazer muito. Percebi isso ainda criança no orfanato onde me criei. Quando comecei a entender a grandeza de ser negro, escrevi os primeiros versos do hino e compus as primeiras melodias. Já adolescente e ao longo dos anos que se passaram, pude aperfeiçoar o hino com a ajuda de muitas pessoas que fui encontrando durante a vida e a luta. Eu apenas condensei essa generosidade humana.

 

Por isso digo que esse hino demorou 60 anos para ficar pronto e culminar neste momento. Mas as coisas dos negros são difíceis, porém são as mais significativas quando irmanadas pela chama da bondade e da alegria que desbrava caminhos. Quando é assim, não há nada que resista.

 

HP: E daqui pra frente?

 

Prof. Eduardo: Ainda temos muito a avançar, pois a cada 100 brasileiros empregados desempenhando funções idênticas, o negro recebe 30% a menos que os não-negros. A violência policial ainda é marcante, sendo que 70% das vítimas de arma de fogo são jovens negros. De cada 100 brasileiros analfabetos, cerca de 60%, senão mais, são de origem afro-brasileira. Essa é a herança da escravidão que ainda temos que acabar. Por isso, defendemos a ampliação da lei de cotas, para cultivar a presença do negro no aparato do estado junto à sociedade brasileira de um modo geral e somos radicalmente contra a redução da maioridade penal. Os negros seriam os principais prejudicados com isso. Mas, mais importante ainda, precisamos aprovar o Estatuto da Igualdade Racial. Sabe, tem muita resistência em admitir que existe essa necessidade no Brasil. O Estatuto está no Congresso há dez anos e ainda não foi aprovado. Já aprovaram o Estatuto do Índio, do Idoso, da Criança e do Adolescente, mas o da Igualdade não. Porque será?

 

HP: Mais algum recado?

 

Prof. Eduardo: Aos que quiserem participar da manifestação, 5 ônibus estão previstos para sair das periferias de São Paulo em direção à Avenida Paulista. Basta contatar previamente o CNAB ou a Fundação Perseu Abramo.

 

 

Eduardo de Oliveira: 50 anos de literatura, 83 de combate

 

Jubileu do poeta e combatente da libertação do negro e do povo brasileiro será no dia 18

 

Eduardo de Oliveira é um dos mais notáveis homens nascidos neste país.

 

Não é um elogio. É um fato.

 

Todos aqueles que o conhecem admiram sua generosidade, sua luta de décadas contra o racismo e seu talento poético. Ninguém (exceto alguém que seja ninguém) pode deixar de perceber a sua grandeza. Mas, talvez, a sua simplicidade, a sua humildade de homem pobre, sensível ao sofrimento de todos os seres humanos, em suma, suas mais profundas qualidades humanas, tornem difícil a percepção de toda esta grandeza. Este não é um problema dos grandes homens, antes é daqueles que convivem com a sua grandeza.

 

No entanto, Eduardo de Oliveira é o poeta que Tristão de Ataíde (Alceu de Amoroso Lima), um dos maiores críticos literários da história de nosso país, já na década de 60 destacou como um dos três fundadores mundiais da negritude em literatura: “E a poesia, com um Aimé Cesaire, com um Senghor ou com um Eduardo de Oliveira (….) tem um papel decisivo a representar. Não apenas como instrumento de redenção, mas como voz da própria beleza eterna, inseparável da verdade e do bem, nos desígnios de Deus” (Tristão de Ataíde, 1966, cit. in Zilá Bernd, “Poesia Negra Brasileira”, AGE, Porto Alegre, 1992, pág. 58).

 

Uma vez, ao fim de uma conversa algo acidental com um autor que, sem dúvida, não está entre nossos preferidos, o historiador americano Thomas Skidmore, ouvimos dele: “Somente entendi o problema racial brasileiro quando conheci o professor Eduardo de Oliveira”. Não sabemos se Skidmore - que em 1974 publicou “Black Into White: Race and Nationality in Brazilian Thought” (“Preto No Branco: Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro”) - entendeu ou não o problema racial brasileiro, e até que ponto. Mas essa declaração nos pareceu muito mais digna de respeito do que algumas de suas tentativas “brazilianistas” de escrever a História do Brasil do ponto de vista dos EUA.

 

É este homem, poeta, combatente, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), que será homenageado no próximo dia 18, quarta-feira. Será o seu Jubileu literário – pelos 50 anos (na verdade, 51) da publicação de seu primeiro livro, “Além do Pó” - e a comemoração dos seus 83 anos de juventude.

 

“Além do Pó” apareceu numa data especial – 13 de maio de 1958. Com ele surgia o mais genuíno dos continuadores de Luiz Gama, na literatura, no combate, na inteligência e na grandeza de espírito.

 

Como já notaram não poucos comentaristas, Eduardo de Oliveira, ao resgatar o negro e sua ancestral herança africana, desbrava a vereda ainda mais ampla do reencontro de todos os seres humanos com suas raízes comuns. Para que o ser humano seja livre, é preciso que o negro seja resgatado da opressão, que sua história, sua arte e sua cultura sejam tiradas da invisibilidade. Porque, enquanto o homem negro não for livre, nenhum homem será livre.

 

Assim, em “Gestas Líricas da Negritude” (1967), o soneto que provê o título do livro tem por tercetos finais: “Eu seguirei feliz, de braços dados/ com meus irmãos dos cinco continentes.../ que a todos amam, porque são amados.// E quando se ama a Humanidade inteira,/ os ideais – por mais nobres, mais ardentes -/ irmanam-se numa única bandeira”.

 

No mesmo livro, há um dos poemas definitivos da literatura brasileira, “Voz Emudecida”, que começa com os versos: “Eu me levanto aqui/ na voz dos que não podem falar”.

 

Hoje, escolhemos “Banzo”, do livro de mesmo nome (1965), para homenageá-lo. Mas poderia ser outro poema de seus vários livros, entre eles, Ancoradouro (1960), Evangelho da Solidão (1969), Túnica de ébano (1980), A Cólera dos Generosos (1988). O poeta é, também, o autor da enciclopédia “Quem é Quem na Negritude Brasileira”.

 

A homenagem a Eduardo de Oliveira será em São Paulo, no restaurante Casa da Fazenda, avenida Morumbi, 5.594. Os leitores que quiserem adquirir convites, poderão fazê-lo através do Congresso Nacional Afro-Brasileiro, telefones 3628-3584 e 3628-3585.

 

CARLOS LOPES

 

 

 

 

 

Eduardo de Oliveira: o poeta da negritude e o homem

 

Todos o conheciam como "o professor", o que era menos uma designação profissional, que o reconhecimento à sabedoria que estava em sua aura. Seu legado pertence a todos os seres humanos, em especial aos brasileiros – e, entre estes, especialmente aos negros

 

Há poucas vidas de que pode-se dizer, como a de Eduardo de Oliveira, que foram um triunfo completo da justiça sobre a injustiça; da generosidade sobre a mesquinharia; da ternura sobre o rancor; da felicidade sobre o ressentimento.

 

Em suma, uma vitória completa do amor sobre o ódio, da bondade sobre a perversidade, do humano sobre o desumano.

 

Como podia aquele homem reunir em si a firmeza sem concessões da luta, por décadas, contra as mais odiosas discriminações e preconceitos com tanta capacidade de compreender os outros seres humanos, suas motivações, até mesmo – aliás, principalmente – suas discordâncias?

 

No entanto, poucos de nós tiveram de lutar, como aconteceu com ele, desde o nascimento. Ele dizia, com aquele jeito ao mesmo tempo doce e enérgico que é (pelo menos para o autor destas linhas) impossível de reproduzir por escrito: "eu não tenho ascendência – não sei quem foi meu pai ou minha mãe, muito menos quem foi minha avó ou meu avô".

 

Era como se a sua origem tivesse definido as vicissitudes – e as conquistas – posteriores. E, com efeito, foi assim. Ele era um homem – e um herói. Um dos poucos a quem esta última palavra não apenas descreve simplesmente um fato, mas, além disso, não parece exagerada.

 

Todos o conheciam como "o professor", o que era menos uma designação profissional, que o reconhecimento à sabedoria que estava em sua aura. Seu legado pertence a todos os seres humanos, em especial aos brasileiros – e, entre estes, especialmente aos negros -, mas há algo que somente os que o conheceram pessoalmente guardarão na lembrança: o modo como o ambiente parecia iluminado – isto é, mais alegre, mais feliz - quando Eduardo de Oliveira entrava, sempre modestamente, nele.

 

Durante as homenagens no velório da noite na última quinta-feira, na Câmara Municipal de São Paulo, em mensagem, Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias, citou os versos da música de João Nogueira e Paulo César Pinheiro: O corpo a morte leva/ A voz some na brisa/ A dor sobe para as trevas/ O nome a obra imortaliza".

 

Com efeito. E muito bem dito. Mas o que foi a obra de Eduardo de Oliveira?

 

A obra de um homem jamais é apenas o que ele escreveu. Não foram apenas os poemas, aqueles que, no dizer de Tristão de Athayde, fizeram dele, com Aimé Césaire e Leopold Senghor, um dos três grandes poetas da negritude, que constituem a obra de Eduardo de Oliveira.

 

Mas, talvez, na dimensão da poesia, esteja uma demonstração do que foi o conjunto de sua obra.

 

Como poeta, Eduardo de Oliveira era diferente de seus grandes companheiros – de poesia e de negritude.

 

No túmulo de Césaire, no Pantheon, em Paris, estão, extraídos de seu poema "Calendrier lagunaire", os seguintes versos do poeta francês nascido na Martinica - e definido, na lápide, muito justamente, como "incansável artesão da descolonização, combatente de uma negritude fundada sobre a universalidade dos direitos do homem":

 

"Eu habito uma ferida sagrada

 

Eu habito ancestrais imaginários

 

Eu habito um querer obscuro

 

Eu habito um longo silêncio

 

Eu habito uma sede irremediável"

 

São belos versos. Mas Eduardo de Oliveira jamais escreveria assim, e não é apenas uma questão de individualidade – ou, melhor, é uma questão do que constituiu, em cada um, a própria individualidade.

 

Lembremos os versos de Eduardo de Oliveira em homenagem a Patrice Lumumba, no seu livro "Banzo", de 1965:

 

"Eu sei, eu sei que sou um pedaço d’África

 

pendurado na noite do meu povo.

 

Trago em meu corpo a marca das chibatas

 

como rubros degraus feitos de carne

 

pelos quais as carretas do progresso

 

iam buscar as brenhas do futuro.

 

Eu sei, eu sei que sou um pedaço d’África

 

pendurado na noite do meu povo.

 

Eu vi nascer mil civilizações

 

erguidas pelos meus potentes braços;

 

mil chicotes abriram na minh’alma

 

um deserto de dor e de descrença"

 

Ou os dois quartetos do soneto, escrito 32 anos depois, também em homenagem a Lumumba:

 

"Sobre sua cabeça congolesa

 

cada cabelo seu representava

 

uma esperança pelo ideal acesa

 

de sua raça incrivelmente escrava.

 

Alma sem cor, à liberdade presa,

 

sorria auroras quando agonizava

 

e a lágrima do Congo, de tristeza,

 

transformava-se na mais ardente lava."

 

Há uma vivacidade que não se encontra, apesar de todos os seus méritos, que são imensos, em Aimé Césaire. Ao contrário deste, Eduardo de Oliveira jamais seria atraído, por exemplo, pelo surrealismo (ou, no caso de Senghor, pelo cubismo). Seu terreno é sempre o da realidade nua, crua – e cruel. Mas, por isso mesmo, a luta – e, portanto, a esperança – percorre cada um dos seus versos. O "deserto de dor e descrença" é diretamente oposto a "mil civilizações/ erguidas pelos meus potentes braços". E a "lágrima do Congo, de tristeza/ transformava-se na mais ardente lava".

 

Também como poeta, ele enfrentou a incompreensão. Apesar de poemas que nem um adepto da "pura estética" (?) poderia desprezar:

 

"A pedra é a obsessão dessa quietude

 

que aterroriza o horror da própria morte,

 

quando lamenta a sua triste sorte

 

sem ter, sequer um sentimento rude!

 

A pedra aprisionou-se no ataúde

 

das coisas primitivas e sem norte!

 

neste caso, não pode haver transporte

 

que altere a sua estática atitude!

 

Quem será que tolheu seus movimentos,

 

sem sentir os seus mudos sofrimentos

 

na imutabilidade que a devora?

 

É a própria natureza, aí, calada,

 

na horrível sensação de não ser nada

 

na sequência dos séculos afora!"

 

Existe algo semelhante a Augusto dos Anjos neste soneto – mas, afinal, Augusto dos Anjos também foi subestimado (e por Bilac, aquele que a República Velha chamava "o príncipe dos poetas").

 

A VIDA

 

Eduardo de Oliveira, criança e órfão, foi adotado por um homem decente, a quem sempre foi grato – mas, este homem adotara também uma menina, branca ("ele queria fazer uma bandeira paulista através dos filhos", dizia o poeta, rindo). Foi o suficiente para que se fabricasse um escândalo em São Paulo – e não porque o pai adotivo, que era celibatário, tivesse qualquer comportamento inapropriado, mas porque, segundo a Justiça (Deus!) da época, era promiscuidade a convivência de um menino negro e uma menina branca na mesma casa. Assim, a alternativa da odiosa sentença era: ou um ou outro. A criança negra foi, então, desadotada – se é que a palavra existe, mas a injustiça existiu. O poeta não guardava ressentimento pela decisão do pai adotivo, de manter a menina branca: "eu tive que ser internado outra vez, mas ele nunca esqueceu - fazia sempre reuniões de nós três na casa dele".

 

Aqui está a essência da obra de Eduardo de Oliveira: uma recusa absoluta a esmagar-se diante das dificuldades. Algo que não podemos encontrar totalmente em Césaire ou em Senghor.

 

Qual o homem, com essa vida, que poderia, como ele fez em "Gestas Líricas da Negritude" (1967), ter escrito: "Eu seguirei feliz, de braços dados/ com meus irmãos dos cinco continentes.../ que a todos amam, porque são amados.// E quando se ama a Humanidade inteira,/ os ideais – por mais nobres, mais ardentes -/ irmanam-se numa única bandeira."?

 

Mas talvez não seja uma novidade que a libertação dos negros, que são parte da Humanidade, esteja diretamente ligada, indissoluvelmente, à libertação da própria Humanidade. Já se disse: uma nação que oprime outras não pode ser livre. Menos ainda uma etnia – uma parte da Humanidade - que oprime outras.

 

No entanto, menos claro, hoje, é que a obra de libertação dos negros é a libertação do Brasil. Este é o país que os negros têm de assumir, pois eles o construíram. O fim do racismo não é uma necessidade apenas dos negros, mas do Brasil. Como poderemos encontrar nosso destino, se uma parte de nós for discriminada por outra? Mas é verdade que é nas mãos sobretudo dos negros que está essa missão de liberdade. Nesse sentido, eles são os portadores, por excelência, ainda que não exclusivos, dos destinos da Pátria. Dois homens condensaram essa missão dos negros: Luiz Gama e Eduardo de Oliveira. Num outro soneto, também de 1997, diz ele que "Meu legado, que é rico e tão valioso" é "ter dado ao Brasil a própria vida!".

 

Um pensador afirmou há tempos que o "otimismo" que ignora as agruras da realidade é completamente estranho ao patriotismo. Daí, em "Lamento negro", diz o poeta:

 

"A pátria de hoje

 

É um pedaço de tristeza

 

e de soluço dos meus avós,

 

atirada pelas tumbas sem legendas."

 

Fiel a si próprio, Eduardo de Oliveira, fundador e presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro, era membro-fundador e dirigente nacional do Partido Pátria Livre (PPL).

 

LEGADO

 

Era homem de cultura imensa.

 

Em 2009, descobri, entre os livros digitais gratuitos do "Domínio Público", um exemplar de "Primeiras Trovas Burlescas de Getulino", o livro de poemas de Luiz Gama, há muitos anos sem reedição. Fiquei eufórico. No mesmo dia, o professor Eduardo visitou nossa redação. Disse a ele que estava pensando em publicar um dos poemas de Gama, "Quem sou eu?".

 

Imediatamente, ele respondeu: "ah, sim, ‘A Bodarrada’". Ele conhecia o poema – e seu nome popular, pois, nele, Gama satiriza àqueles que falavam do cheiro dos negros e os apelidavam de "bodes" (dizia o abolicionista: "todo mundo tem a mesma catinga": "Bodes há de toda a casta,/ Pois que a espécie é muito vasta.../ Há cinzentos, há rajados,/ Baios, pampas e malhados,/ Bodes negros, bodes brancos,/ E, sejamos todos francos,/ Uns plebeus, e outros nobres,/ Bodes ricos, bodes pobres,/ Bodes sábios, importantes,/ E também alguns tratantes...").

 

Era para mim impressionante encontrar alguém que lera as "Primeiras Trovas Burlescas de Getulino", um livro, que, em geral, é conhecido apenas pela crítica – elogiosa – que Sílvio Romero fez dele, ainda no século XIX.

 

Mas, bobagem, é claro que o professor Eduardo havia de conhecer a obra de Luiz Gama...

 

Como este seu predecessor, nada mais estranho a Eduardo de Oliveira do que a mentalidade de gueto, da qual, infelizmente, não nos livramos totalmente. Aliás, não é à toa que aparecem alguns na Rede Globo incentivando tal atraso mental.

 

Era capaz de ver méritos – e méritos reais – onde ninguém conseguia ver. Um dia ele chegou à nossa redação com um artigo manuscrito sobre a escritora Adelaide Carraro. Imediatamente, teve de aguentar a minha resistência à publicação. Para mim, na época, os livros da escritora eram subliteratura. Mas, explicou o professor Eduardo - sem dar sinal, em nenhum momento, de que pudesse perder a paciência diante do meu comportamento algo (muito) insolente -, o que tornara Carraro um anátema, nos meios ditos "respeitáveis" de São Paulo, não eram os defeitos de seus livros, mas as qualidades: a crítica, verdadeiramente desabusada, à hipocrisia de uma elite que já era cadáver, mas recusava a deitar-se. E isso, completou ele com outras palavras, era um mérito literário.

 

O mínimo que posso dizer hoje é que ele tinha razão.

 

NEGRITUDE

 

Eduardo de Oliveira tinha 86 anos quando completou sua vida entre nós, na quinta-feira. Foi professor, político – o primeiro vereador negro da cidade de São Paulo –, um líder do povo brasileiro durante toda a sua vida, e, naturalmente, um poeta.

 

Aos 16 anos de idade, compôs o "Hino à Negritude", "pois que as páginas da História/ São galardões aos negros de altivez".

 

Poderíamos terminar esta breve memória, dizendo que Eduardo de Oliveira entrou para a eternidade. Mas isso já é verdade há muito. Os grandes homens não precisam morrer para lá chegar.

 

CARLOS LOPES

 

 

 

 

 

17 de novembro de 1959

 

 
17 de novembro de 1959
Nesta data morre o compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos o maior nome da musica erudita do Brasil de todos os tempos. Villa usava a música popular como base para suas peças eruditas. Tornou-se um revolucionário que rompeu com o academicismo e com a imitação mecânica e pouco criativa da música europeia. Até hoje é o autor brasileiro mais executado no mundo. Foi diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística do governo Gelúlio e realizou grandes concertos com o coral de milhares de vozes de estudantes nos parques e praças do país. Implantou o ensino do canto orfeônico nas escolas públicas do Brasil. “O povo é, no fundo, a orígem de todas as coisas belas e nobres, inclusive a boa música! O que é a sinfonia senão a expressão musical dos sentimentos de um povo expressado por um indivíduo?”, dizia Villa-Lobos. É dele também a seguinte opinião: “O compositor genuíno, por mais cosmopolita que seja, é mais do que nada expressão de umm povo, de um ambiente...Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil”.
 

 

 

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Heitor Villa-Lobos se tornou conhecido como um revolucionário que provocava um rompimento com a música acadêmica no Brasil. As viagens que fez pelo interior do país influenciaram suas composições. Entre elas, destacam-se: "Cair da Tarde", "Evocação", "Miudinho", "Remeiro do São Francisco", "Canção de Amor", "Melodia Sentimental", "Quadrilha", "Xangô", "Bachianas Brasileiras", "O Canto do Uirapuru", "Trenzinho Caipira".

 

Em 1903, Villa-Lobos terminou os estudos básicos no Mosteiro de São Bento. Costumava juntar-se aos grupos de choro, tocando violão em festas e em serenatas. Conheceu músicos famosos como Catulo da Paixão Cearense, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e João Pernambuco.

 

No período de 1905 a 1912, Villa-Lobos realizou suas famosas viagens pelo norte e nordeste do país. Ficou impressionado com os instrumentos musicais, as cantigas de roda e os repentistas. Suas experiências resultaram, mais tarde, em "O Guia Prático", uma coletânea de canções folclóricas destinadas à educação musical nas escolas.

 

Em 1915, Villa-Lobos realizou o primeiro concerto com suas composições. Nessa época, já havia composto suas primeiras peças para violão "Suíte Popular Brasileira", peças para música de câmara, sinfonias e os bailados "Amazonas" e "Uirapuru". A crítica considerava seus concertos modernos demais. Mas à medida que se apresentava no Rio e São Paulo, ganhava notoriedade.

 

Em 1919, apresentou-se em Buenos Aires, com o Quarteto de Cordas no 2. Na semana da Arte Moderna de 1922, o aceitou participar dos três espetáculos no Teatro Municpal de São Paulo, apresentando, entre outras obras, "Danças Características Africanas" e "Impressões da Vida Mundana".

 

Em 30 de junho de 1923, Villa-Lobos viajou para Paris com recursos obtidos graças a projeto aprovado pela Câmara dos Deputados. Um grupo de amigos e os irmãos Guinle também se propuseram a subvencionar sua estada na Europa. Com o apoio do pianista Arthur Rubinstein e da soprano Vera Janacópulos, Villa-Lobos foi apresentado ao meio artístico parisiense e suas apresentações fizeram sucesso.

 

Retornou ao Brasil em final de 1924. Em 1927, voltou à Paris com sua esposa Lucília Guimarães, para fazer novos concertos e iniciar negociações com o editor Max Eschig. Três anos depois, voltou ao Brasil para realizar um concerto em São Paulo. Acabou por apresentar seu plano de Educação Musical à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

 

Em 1931, o maestro organizou uma concentração orfeônica chamada "Exortação Cívica", com 12 mil vozes. Após dois anos assumiu a direção da Superintendência de Educação Musical e Artística. A partir de então, a maioria de suas composições se voltou para a educação musical. Em 1932, o presidente Vargas tornou obrigatório o ensino de canto nas escolas e criou o Curso de Pedagogia de Música e Canto. Em 1933, foi organizada a Orquestra Villa-Lobos.

 

Villa-Lobos apresentou seu plano educacional, em 1936, em Praga e depois em Berlim, Paris e Barcelona. Escreveu à sua esposa Lucília pedindo a separação, e assumiu seu romance com Arminda Neves de Almeida, que se tornou sua companheira. De volta ao Brasil, regeu a ópera "Colombo" no Centenário de Carlos Gomes e compôs o "Ciclo Brasileiro" e o "Descobrimento do Brasil" para o filme do mesmo nome produzido por Humberto Mauro, a pedido de Getúlio Vargas.

 

Em 1942, quando o maestro Leopold Stokowski e a The American Youth Orchestra foram designados pelo presidente Roosevelt para visitar o Brasil O maestro Stokowski realizou concertos no Rio de Janeiro e solicitou a Villa-Lobos que selecionasse os melhores músicos e sambistas, a fim de gravar a Coleção Brazilian Native Music. Villa-Lobos reuniu Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Cartola e outros, que sob sua batuta realizaram apresentações e gravaram a coletânea de discos, pela Columbia Records.

 

Em 1944/45, Villa-Lobos viajou aos Estados Unidos para reger as orquestras de Boston e de Nova York, onde foi homenageado. Em 1945 fundou a Academia Brasileira de Música. Dois anos antes de sua morte, o maestro compôs "Floresta do Amazonas"para a trilha de um filme da Metro Goldwyn Mayer. Realizou concertos em Roma, Lisboa, Paris, Israel, além de marcar importante presença no cenário musical latino-americano.

 

Praticamente residindo nos EUA entre 1957 e 1959, Villa-Lobos retornou ao Brasil para as comemorações do aniversário do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com a saúde abalada, foi internado para tratamento e veio a falecer em novembro de 1959.

 

Fontes O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos e Educação Uol  

 

15 de Novembro de 1889

 

 

 

Nesta data (15 de novembro de 1889) o Brasil deixa de ser uma monarquia baseada na escravidão negra e na monocultura canavieira exportadora e atrasada para transformar-se numa República de homens livres. A mudança representou um passo decisivo na consolidação do projeto nacional brasileiro. A abolição um ano antes havia tirado a base econômica da monarquia. 

O Brasil não cabia mais na camisa de força de um regime escravocrata, retrógrado e submisso. Fazia-se necessária a implantação de uma nova forma de governo, que fosse capaz de fazer o país progredir e avançar nas questões políticas, econômicas e sociais. 

Republicanos e abolicionistas juntos superaram o atraso econômico e a submissão total ao colonialismo inglês que havia substituído a exploração portuguesa. Entre os líderes do movimento, que adotara Tiradentes como patrono, estavam Silva Jardim, Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva, Gonçalves Ledo, Aristides Lobo, Benjamim Constant, Luiz Gama, Floriano Peixoto, Deodoro da Fonseca e outros. 

Num primeiro momento, após a vitória, houve um relativo progresso das forças produtivas brasileiras, mas, a perda da hegemonia do movimento por parte de republicanos de esquerda e a conquista do poder pela oligarquia cafeeira paulista - mais ligada aos bancos ingleses - a partir de 1894, voltou a retardar o desenvolvimento do país. O processo revolucionário só viria a ser retomado vigorosamente em 1918, com a Revolta do Forte, passando pela tomada da capital paulista em 1924 e culminando com a revolução vitoriosa de 1930. 

 

 

12 de novembro de 1748

12 de novembro de 1748
Nesta data (12 de novembro de 1748) nascia na Fazenda do Pombal, no então Distrito de São José, em Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, futuro alferes que se tornaria o primeiro herói nacional brasileiro. Ele liderou a Inconfidência Mineira, movimento que teve o objetivo maior de libertar o Brasil das amarras da dominação colonial portuguesa. O programa de libertação elaborado pelos inconfidentes, sob a inspiração de Tiradentes, foi sintetizado em cinco pontos: Independência, República, Abolição, Indústria e Ensino Público.
 
Sérgio Rubens, presidente nacional do PPL (Partido Pátria Livre) principal organização partidária da atualidade que herdou as lutas de Tiradentes, ressalta a importância do fato de que “já naquela época se sabia que sem indústria não poderia haver independência completa”. Para ele, "apesar de terem sentenciado Tiradentes a morrer na forca de morte natural para sempre, o que ficou para sempre a incendiar os corações e as mentes dos brasileiros foram as suas ideias". A amplitude do programa de libertação dos inconfidentes estimulou a luta e serviu de exemplo para praticamente todas as gerações de revolucionários brasileiros.
 
No entender do companheiro Cláudio Campos, dirigente maior do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) e fundador do jornal Hora do Povo, a luta de Tiradentes norteou a História do Brasil. “Tiradentes, o herói maior da Nação, ao viver e morrer pela liberdade, independência e desenvolvimento do Brasil, é o nosso símbolo imperecível na luta contra todos os colonialismos, todos os imperialismos e todos os traidores da Pátria”, disse ele, em editorial do HP de 1995.

 

 

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TIRADENTES E AS VITÓRIAS DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

 

 

 

A presidenta Dilma Rousseff afirmou, recentemente, durante palestra realizada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos [2012], que os líderes da Inconfidência Mineira foram influenciados pelos textos dos escritores iluministas, bem como pelos ideais da Independência Americana. É verdade. Além de conhecerem bem as obras dos iluministas, os inconfidentes realmente fizeram contatos com os integrantes do movimento que culminou na Revolução Francesa e se reuniram também com Thomas Jefferson, um dos pais da nação americana. Jefferson, inclusive, teria feito chegar às mãos de Tiradentes um diário com detalhes da revolta americana contra os ingleses e um exemplar da constituição americana. A lembrança desses fatos pela presidenta, em Harvard, representa, sem dúvida, um importante resgate de nossa história. Ao falar sobre este tema, no entanto, ela sentiu a necessidade de lembrar aos presentes que o movimento mineiro teria sido “derrotado” pelas forças colonialistas.

 

Colocada a questão deste ponto de vista, eu gostaria, se me permite a nossa querida presidenta, de abrir uma pequena polêmica sobre esse assunto.

 

Afinal, este é um tema tão importante para nós que, como dizem os mineiros, carece de “uns dois dedos de prosa”, para que as coisas fiquem bem resolvidas e esclarecidas. Então vamos a eles.

Algumas análises superficiais sobre os acontecimentos ocorridos no Brasil entre 1789 e 1792 frequentemente costumam concluir que a Inconfidência Mineira foi derrotada. O movimento liderado por Tiradentes teria, segundo essa visão, fracassado em 1789, após a prisão do alferes e de seus companheiros. O exílio de toda a direção e o enforcamento de seu líder maior, em 1792, segundo eles, acabaria selando a derrota.

 

Mas, um olhar mais detido sobre esses episódios, assim como sobre os seus desdobramentos, de curto e de longo prazo, nos traz, pelo menos, algumas questões para reflexão. A primeira é que a atitude heróica de Tiradentes nos momentos mais difíceis da luta golpeou profundamente a imagem do regime colonial português. Além disso, a amplitude do programa de libertação nacional elaborado por ele estimulou a luta e serviu de exemplo para praticamente todas as gerações de revolucionários brasileiros. O programa e o exemplo de Tiradentes influenciaram os patriotas que vieram depois dele e continuam a influenciar até hoje. Isso por si só já representaria uma grande vitória estratégica dos inconfidentes, mas, não foi só isso.

 

A violenta repressão que se abateu sobre os revoltosos após a traição, atingindo todos os envolvidos no movimento e, por fim, o covarde enforcamento e esquartejamento de seu principal líder, Tiradentes, não fortaleceu os portugueses como imaginam alguns. Muito pelo contrário. Houve um imenso desgaste político dos governantes na consciência da população. Esta atocridade sem dúvida apressou o fim do domínio lusitano. Não é à toa que somente três décadas após a sentença de Tiradentes, o Brasil tornou-se independente. Do ponto de vista histórico, convenhamos, esse é um tempo bastante curto. Ou seja, estranha “derrota” essa que tem como desfecho a libertação do país do jugo colonial num espaço tão curto de tempo.

 

O primeiro ponto do programa dos inconfidentes, a Independência, foi rapidamente posto em prática por José Bonifácio, em 1822. Os outros, como a República e a Abolição, vieram pelas mãos de Deodoro, Floriano, Rui Barbosa, Aristides Lobo, Luis Gama, Benjamim Constant e outros. Esta luta, não por acaso, elegeu Tiradentes como o seu patrono. A industrialização, a emancipação do povo e a implantação do ensino público e gratuito, pretendidas pelo alferes, também foram conduzidas com maestria pelo presidente Getúlio, após a revolução de 30. E a mudança da capital, outro ponto do programa dos inconfidentes, foi implantada por JK. Por fim, para a nossa geração, parece estar reservado o desafio de completar este programa de libertação nacional: romper definitivamente com a dependência em relação ao imperialismo norte-americano.

 

Uma outra questão que merece destaque foi o fato de que Portugal pretendia naquele momento intensificar o roubo ao país e à população com a implantação da “derrama”. Mas, o heroísmo de Tiradentes e de seus companheiros abortou a intenção de arrochar ainda mais o país. Para impedir a tomada do poder pelos revoltosos, Barbacena, representante da Coroa em Minas, foi obrigado a suspendê-la. Isso provocou um prejuízo de cerca de 1.500 quilos de ouro para Portugal. Esse ouro acabou ficando no Brasil. Ou seja, uma outra vitória “de peso” da Inconfidência. Portanto, uma análise mais profunda mostra que a Inconfidência além de obter uma vitória política estratégica, influenciando gerações, obteve também vitórias econômicas imediatas da maior importância.

 

A própria presidenta Dilma demonstrou ter consciência deste fato quando fez a seguinte afirmação durante as comemorações do “21 de Abril” do ano passado, em Ouro Preto, reproduzidas em meu livro “Pátria Livre Ainda que Tardia”: “A liberdade, pela qual Tiradentes sacrificou a própria vida, triunfou. Pode não ser quando a gente espera, pode não ser quando a gente quer, pode ser tardia, mas a liberdade sempre vence”, disse ela.

 

São vários os regimes despóticos que ao prenderem e/ou assassinarem líderes políticos que lutavam para libertar seu país, acreditavam que, com essa medida, obteriam grandes vitórias. Ledo engano. Mais cedo ou mais tarde, muitos desses regimes acabaram colhendo amargos dissabores. Foi assim com a revolta de Mangal Pandei e Mahatma Gandhi, na Índia, com Omar Mukhtar, na Líbia, com a prisão de Fidel, em Cuba e Nelson Mandela, na África do Sul, e muitos outros. Não seria diferente com Tiradentes. Sua morte heróica e seu comportamento exemplar nos três anos em que esteve preso no Rio de Janeiro desmoralizaram a coroa portuguesa, barraram a derrama e serviram de exemplo para todos os que o sucederam na luta pela libertação nacional.

 

 

O movimento dos inconfidentes acirrou a crise revolucionária iniciada com a Carta Régia de 1785, que proibiu fábricas no Brasil. A proibição de fábricas de tecido, estopim e início da crise revolucionária, respondia a uma clara exigência da Inglaterra, que havia submetido Portugal com o Tratado de Methuen. Este tratado, que também ficou conhecido como “Tratado dos Panos e Vinhos”, foi assinado entre a Grã-Bretanha e Portugal, em 1703. Com ele os portugueses se comprometiam a comprar apenas os tecidos britânicos e, em contrapartida, os britânicos, os vinhos de Portugal. Com isso, Portugal abdicou de sua industrialização e de suas colônias. Ou melhor, Portugal abdicou de seu futuro. E a Inglaterra acabou subjugando o país e culminou até mesmo por comprar as empresas produtoras dos vinhos portugueses.

 

Pela suas conseqüências para o Brasil, segue, no original, o texto do tratado que afundou Portugal:

 

“I. Sua Majestade ElRey de Portugal promete tanto em Seu proprio Nome, como no de Seus Sucessores, de admitir para sempre daqui em diante no Reyno de Portugal os Panos de lãa, e mais fábricas de lanificio de Inglaterra, como era costume até o tempo que forão proibidos pelas Leys, não obstante qualquer condição em contrário.

 

II. He estipulado que Sua Sagrada e Real Magestade Britanica, em seu proprio Nome e no de Seus Sucessores será obrigada para sempre daqui em diante, de admitir na Grã Bretanha os Vinhos do produto de Portugal, de sorte que em tempo algum (haja Paz ou Guerra entre os Reynos de Inglaterra e de França), não se poderá exigir de Direitos de Alfândega nestes Vinhos, ou debaixo de qualquer outro título, directa ou indirectamente, ou sejam transportados para Inglaterra em Pipas, Toneis ou qualquer outra vasilha que seja mais o que se costuma pedir para igual quantidade, ou de medida de Vinho de França, diminuindo ou abatendo uma terça parte do Direito do costume. Porem, se em qualquer tempo esta dedução, ou abatimento de direitos, que será feito, como acima he declarado, for por algum modo infringido e prejudicado, Sua Sagrada Magestade Portugueza poderá, justa e legitimamente, proibir os Panos de lã e todas as demais fabricas de lanifícios de Inglaterra”.

O auge da produção aurífera no Brasil já tinha se perdido no passado remoto por conta da voracidade do assalto às riquezas do país pelos colonizadores europeus. Desde a década de 70 do século XVIII, o país já caminhava para um esgotamento, fruto da extração desenfreada deste mineral. Quase metade de todo o ouro produzido no mundo saiu das Minas Gerais para a Europa. Dos primórdios da mineração até 1820 foram subtraídos ao Brasil em torno de 770 mil quilos e 7,5 milhões quilates de diamante.

 

 

As contradições com o colonialismo ficaram mais acirradas em Minas por um lado por conta dos conflitos sociais provocados pelo dinamismo que a sociedade mineira adquiriu e, de outro, pelas restrições impostas à ela pela sangria externa. As forças sociais envolvidas na produção do ouro e diamante na região, diferentemente do que ocorrera no latifúndio canavieiro do Nordeste, tiveram maior mobilidade e dinamismo. Cresceu o número de homens livres e a população nas cidades. Surgiu no coração do Brasil um mercado interno pujante, o que propiciou o desenvolvimento das forças produtivas. Desenvolveu-se em paralelo uma intelectualidade ativa e contestatória.

 

Com a crise do ouro, várias pessoas deixaram a mineração e passaram a fabricar produtos para atender às necessidades crescentes dessa nova população urbana que surgia. Muitos foram para a produção agro/pecuária e outros passaram a fabricar tecidos, ferramentas e demais bens. Ao ceder às pressões da Inglaterra e proibir as fábricas, Portugal não avaliou corretamente a correlação de forças políticas e acabou provocando o início de sua queda. Ou seja, os brasileiros, liderados por Tiradentes, viram nesta medida uma limitação inaceitável ao potencial de desenvolvimento do país. A verdade é que eles adquiriram a consciência de que o Brasil não cabia mais camisa de força do colonialismo. Abriu-se, então, uma crise revolucionária que se agravou com a proximidade da revolta e só atingiu o seu desfecho em 1822.

 

A “carta instrução” - com 123 capítulos - entregue por Martinho de Melo e Castro, ministro dos Assuntos Ultramarinos de Portugal - na verdade o funcionário da Coroa responsável pelo assalto às riquezas do Brasil - ao Visconde de Barbacena, antes deste assumir o governo de Minas, é esclarecedora da voracidade com que a Coroa pretendia se atirar sobre as riquezas do Brasil naquele momento. O texto, cujos trechos reproduzimos a seguir, não deixa nada a desejar aos congêneres de hoje, fabricados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros antros de agiotas, com o objetivo de defender as corporações monopolistas e as “metrópoles” atuais do imperialismo. A carta dedica uma boa quantidade de tinta explicando como Barbacena deveria destruir a resistência política dos brasileiros - nesta época concentrada em Minas Gerais.

 

O documento, redigido em janeiro de 1788, inicia alertando o futuro governador para a importância das Minas Gerais para os cofres da Coroa. “A Capitania de Minas Gerais é, pela sua situação e pelas suas produções, uma das mais importantes de todas as capitanias de que compõem os domínios do Brasil”. “Consistem as principais produções da referida Capitania de Minas em ouro e diamante...”, prossegue. Em seguida Martinho orienta que o governador reprima a atuação de eclesiásticos, juristas, militares e povo em geral, com rigor. E chama a atenção de Barbacena: “Entre todos os povos de que se compõem as diferentes capitanias do Brasil, nenhuns talvez custaram mais a sujeitar e reduzir à devida obediência e submissão de vassalos ao seu soberano, como foram os de Minas Gerais”. Lembra ainda a revolta de 1720, onde foi enforcado Felipe dos Santos, homem que liderou a primeira revolta contra os quintos (20% de impostos sobre todo o ouro extraído) e os preços exorbitantes cobrados pelos comestíveis, instrumentos de trabalho e tecidos, monopolizados por portugueses e ingleses.

 

No capítulo sobre as indústrias no Brasil, Martinho insiste na proibição, mas esconde o principal motivo para ela: a capitulação aos interesses industriais da Inglaterra. Os ingleses queriam enfiar seus produtos têxteis em todos os cantos do mundo e não admitiam qualquer concorrente, muito menos numa colônia. Aliás, o assassinato, muito tempo depois, do industrial brasileiro do setor têxtil, Delmiro Gouveia, no nordeste brasileiro, por ordem dos ingleses, mostra que eles seguiram agindo da mesma forma por muito tempo.

 

Martinho queria aumentar a extração do ouro - que já vinha em queda – mas, ele sabia também que o deslocamento de pessoas da mineração para a produção industrial era conseqüência, e não causa, da queda da produção de ouro. A proibição de fábricas não levou em conta essa situação. Ela atendia única e exclusivamente às exigências dos fabricantes ingleses. Preocupado em agradar seus amos ingleses, Martinho orienta Barbacena a intensificar a repressão e fechar todas as fábricas em Minas Gerais.

 

Além disso, havia também o pavor geral de que a colônia se tornasse independente economicamente. Isso fica claro num comunicado do governador de Minas do ano de 1775, D. Antônio de Noronha, a um ministro da Coroa portuguesa, lembrada por Martinho na instrução:

“Lembro-me que V. Exa. me falou a respeito das fábricas estabelecidas nesta capitania, as quais eu encontrei em um aumento considerável que, se continuasse nele, dentro de muito pouco tempo ficariam os habitantes desta Capitania independentes das desse reino, pela diversidade de gêneros que já nas suas fábricas se trabalhavam”, alerta o trecho da carta.

 

Um capítulo especial foi dedicado à repressão aos militares. A ordem era para que o governador providenciasse o desmantelamento das tropas auxiliares e a demissão de todos os oficiais de nacionalidade brasileira (suspeitos) nomeados para comandar essas tropas. Terminada a parte do documento dedicada a destruir a possibilidade da resistência ou contestação no Brasil, Martinho, então, orienta Barbacena a decretar a derrama. Esse seria o estopim para o levante liderado por Tiradentes. Como todos sabemos, uma traição abjeta, conduzida pelos interesses rasteiros e covardes de Silvério dos Reis, abortou o início do movimento.

 

As dívidas de Portugal com a Inglaterra e a total submissão da administração que substituiu o Marques de Pombal à Coroa inglesa, fez com que D. Maria tomasse um conjunto de medidas desastrosas em relação ao Brasil. Com isso começaram os estertores finais do regime colonial. A crise de dominação colonial mudou qualitativamente a partir da Carta Régia de 1785, proibindo as fábricas. Ela se agravou agudamente com a proximidade da decretação da derrama.

 

Não há relatos documentais, mas sabe-se que José Bonifácio, que retomou a luta pela independência algum tempo depois, teria participado da reunião secreta dos estudantes em Coimbra em 1788, que deu inicio às articulações internacionais para a obtenção de apoio à Inconfidência Mineira. Ele conduziria o processo de Independência Nacional. Não por acaso recebeu o título de Patriarca da Independência. Bonifácio estudava em Coimbra na época da Inconfidência. Teria participado do “Pacto dos 12 estudantes”, reunião secreta de inconfidentes. Era, então, visto pelas autoridades portuguesas como um perigo para os interesses coloniais no Brasil. Foi de Martinho Melo e Castro a frase de que era melhor mandá-lo para outros países da Europa, “porque, se aqui ele já é um problema para nós, imagine se ele for para o Brasil”. José Bonifácio, como sabemos, optou por uma linha política um pouco diferente daquela pretendida pelos Inconfidentes. Mas, a ação dos mineiros certamente fortaleceu e facilitou a luta posterior de Bonifácio e de outros.

 

Temos, portanto, que concordar com a afirmação da presidenta Dilma, feita no ano passado, de que a luta de Tiradentes pela liberdade triunfou. O que podemos concluir é que determinadas “derrotas” acabam cobrando um preço político tão alto aos ditos “vitoriosos”, que acabam apressando as suas quedas. Assim como, às vezes também, algumas “grandes vitórias”, quando não são seguidas das mudanças exigidas pelo povo, transformam-se rapidamente em verdadeiros fiascos. Esses são os fatos.

 

A luta difícil de Tiradentes acabou tornando-se um grande exemplo para todo o país. E também serviu para apressar a queda do regime e estancar o roubo do país. Mas, mesmo se assim não o fosse, a decisão dos inconfidentes era lutar. E eles assumiram isso. Apesar de todas as dificuldades, os revolucionários de Minas não compactuaram com o assalto e as injustiças contra o nosso povo. Esta, seguramente foi uma decisão dura naquelas circunstâncias, mas, com certeza, ela foi estimulada pelo nosso camarada Tiradentes.

 

SÉRGIO CRUZ

 

Publicado no Hora do Povo

 

 

10 de novembro de 1937

 

 

Nesta data (10 de novembro de 1937) o presidente Getúlio Vargas anuncia o nascimento do Estado Novo, em cadeia de rádio. Iniciava-se o período mais revolucionário da História do Brasil. Com amplo apoio popular, foi implantada uma ditadura democrática das forças nacionais contra a oligarquia cafeeira paulista reacionária e pró-imperialista. O regime do Estado Novo durou até 1945, quando um golpe de estado da direita udenista (os tucanos da época), apoiado pelos Estados Unidos, derrubou o presidente Getúlio Vargas. Mas, a luta continuou até que, em 1950, Getúlio volta ao poder pelo voto - nos braços do povo - para dar continuidade à revolução. Neste período são criadas as leis trabalhistas, é nacionalizado o petróleo, através da Petrobras e do monopólio estatal, é criada a Eletrobras, o BNDES, Volta Redonda, etc, etc e etc. Novo golpe é tentado em 1954, mas o suicídio de Getúlio, assim como a Carta Testamento denunciando a ação imperialista, impedem a sua concretização. Ao tomar conhecimento das denúncias e da morte de Getúlio, milhões de pessoas saem às ruas e barram a tomada do poder pela reação.

 

 

 

 

9 de novembro de 1964

 

 
9 de novembro de 1964

Nesta data morre aos 64 anos, a poetisa brasileira Cecília Meireles. Ela foi uma das maiores escritoras do país e a primeira mulher a ter um livro reconhecido pela Academia Brasileira de Letras. É dela o “Romanceiro da Inconfidência”, de 1953, obra que revela seu profundo amor ao Brasil e que retrata as minúcias do assalto das riquezes do país pelo colonizador europeu. A poetisa escreve seus versos como se tivesse participado da revolta libertária que se iniciou em Minas e que tomou conta dos corações e mentes de todos os brasileiros, de todas as gerações. “(…) Liberdade - essa palavra, que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!(...)”.

 

 

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Da Bandeira da Inconfidência

 

Cecília Meireles

 

 

"Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras:

olhos colados aos vidros,

mulheres e homens à espreita,

caras disformes de insônia,

vigiando as ações alheias.

Pelas gretas das janelas,

pelas frestas das esteiras,

agudas setas atiram

a inveja e a maledicência.

Palavras conjeturadas

oscilam no ar de surpresas,

como peludas aranhas

na gosma das teias densas,

rápidas e envenenadas,

engenhosas, sorrateiras.

 

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

brilham fardas e casacas,

junto com batinas pretas.

E há finas mãos pensativas,

entre galões, sedas, rendas,

e há grossas mãos vigorosas,

de unhas fortes, duras veias,

e há mãos de púlpito e altares,

de Evangelhos, cruzes, bênçãos.

Uns são reinóis, uns, mazombos;

e pensam de mil maneiras;

mas citam Vergílio e Horácio,

e refletem, e argumentam,

falam de minas e impostos,

de lavras e de fazendas,

de ministros e rainhas

e das colônias inglesas.

 

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

uns sugerem, uns recusam,

uns ouvem, uns aconselham.

Se a derrama for lançada,

há levante, com certeza.

Corre-se por essas ruas?

Corta-se alguma cabeça?

Do cimo de alguma escada,

profere-se alguma arenga?

Que bandeira se desdobra?

Com que figura ou legenda?

Coisas da Maçonaria,

do Paganismo ou da Igreja?

A Santíssima Trindade?

Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

entre sigilo e espionagem,

acontece a Inconfidência.

E diz o Vigário ao Poeta:

"Escreva-me aquela letra

do versinho de Vergílio..."

E dá-lhe o papel e a pena.

E diz o Poeta ao Vigário,

com dramática prudência:

"Tenha meus dedos cortados

antes que tal verso escrevam..."

LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,

ouve-se em redor da mesa.

E a bandeira já está viva,

e sobe, na noite imensa.

E os seus tristes inventores

já são réus — pois se atreveram

a falar em Liberdade

(que ninguém sabe o que seja).

 

Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras.

"Que estão fazendo, tão tarde?

Que escrevem, conversam, pensam?

Mostram livros proibidos?

Lêem notícias nas Gazetas?

Terão recebido cartas

de potências estrangeiras?"

(Antiguidades de Nimes

em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette

saltando vastas fronteiras!

Ó vitórias, festas, flores

das lutas da Independência!

Liberdade - essa palavra,

que o sonho humano alimenta:

que não há ninguém que explique,

e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:

murmura, imagina, inventa.

Não fica bandeira escrita,

mas fica escrita a sentença".

 

 

 

 

 

 

Cecília Meireles é uma das grandes escritoras da literatura brasileira. Seus poemas encantam os leitores de todas as idades. Nasceu no dia 7 de novembro de 1901, na cidade do Rio de Janeiro e seu nome completo era Cecília Benevides de Carvalho Meireles.

Sua infância foi marcada pela dor e solidão, pois perdeu a mãe com apenas três anos de idade e o pai não chegou a conhecer (morreu antes de seu nascimento). Foi criada pela avó Dona Jacinta. Por volta dos nove anos de idade, Cecília começou a escrever suas primeiras poesias.

 

Formou-se professora (cursou a Escola Normal) e com apenas 18 anos de idade, no ano de 1919, publicou seu primeiro livro “Espectro” (vários poemas de caráter simbolista). Embora fosse o auge do Modernismo, a jovem poetisa foi fortemente influenciada pelo movimento literário simbolista.

 

No ano de 1922, Cecília casou-se com o pintor Fernando Correia Dias. Com ele, a escritora teve três filhas.

 

Sua formação como professora e interesse pela educação levou-a a fundar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro no ano de 1934. Escreveu várias obras na área de literatura infantil como, por exemplo, “O cavalinho branco”, “Colar de Carolina”, “Sonhos de menina”, “O menino azul”, entre outros. Estes poemas infantis são marcados pela musicalidade (uma das principais características de sua poesia).

 

O marido suicidou-se em 1936, após vários anos de sofrimento por depressão. O novo casamento de Cecília aconteceu somente em 1940, quando conheceu o engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira.

 

No ano de 1939, Cecília publicou o livro Viagem. A beleza das poesias trouxe-lhe um grande reconhecimento dos leitores e também dos acadêmicos da área de literatura. Com este livro, ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras.

 

Cecília faleceu em sua cidade natal no dia 9 de novembro de 1964.

 

Relação de suas obras:

 

Espectro - 1919

 

Criança, meu amor - 1923

 

Nunca mais... - 1923

 

Poema dos Poemas -1923

 

Baladas para El-Rei - 1925

 

O Espírito Vitorioso - 1935

 

Viagem - 1939

 

Vaga Música - 1942

 

Poetas Novos de Portugal - 1944

 

Mar Absoluto - 1945

 

Rute e Alberto - 1945

 

Rui — Pequena História de uma Grande Vida - 1948

 

Retrato Natural - 1949

 

Amor em Leonoreta - 1952

 

12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta - 1952

 

Romanceiro da Inconfidência -1953

 

Poemas Escritos na Índia - 1953

 

Batuque - 1953

 

Pequeno Oratório de Santa Clara - 1955

 

Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro - 1955

 

Panorama Folclórico de Açores -1955

 

Canções - 1956

 

Giroflê, Giroflá - 1956

 

Romance de Santa Cecília - 1957

 

A Rosa - 1957

 

Obra Poética -1958

 

Metal Rosicler -1960

 

Solombra -1963

 

Ou Isto ou Aquilo -1964

 

Escolha o Seu Sonho - 1964

 

 

 

A última entrevista de Cecília Meireles

A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964

“Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

 

Cecília é carioca. Nasceu em novembro, dia de S. Florêncio (filha de Matilde e Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil), em Haddock Lobo, na Rua São Luís. Seriam quatro irmãos, mas nunca chegaram a ser dois sequer, porque, mal nascia um, o outro já tinha morrido. Só ficou Cecília. Perdeu a mãe com três anos e meio, tendo sido criada pela avó, Jacinta Garcia Benevides, da Ilha de São Miguel, Açores, descendente de gente que andou do lado do Infante D. Henrique. A ela dedica Cecília:

 

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído…

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,

Modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

 

Cecília Meireles: Minha primeira escola foi a Estácio de Sá, que depois passou a Escola Normal, onde me formei. Olhando para trás me sinto uma criança extremamente poética. Em casa de meu padrinho, Louzada, onde brincava, sempre silenciosa e observando-a, via estátuas, pinturas, coleções de pequeninos, objetos e leques em vitrinas, coisas que me levaram a fazer o “Inventário Lírico”.

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Cecília Meireles: Vovó era uma criatura extraordinária. Extremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: “Por quem você está rezando?” “Por todas as pessoas que sofrem.” Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida.

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?

 

Cecília Meireles: Uma das coisas que mais me encantavam em minha vida de infância era o eco que vivia em casa de minha avó. Eu vivia procurando o meu eco. Mas tinha vergonha de perguntar. Recolhida, tímida, deslumbrada, me debruçava no mistério das palavras e do mundo. Queria saber, mas tinha imenso pudor de confessar minha ignorância.

 

Nós merecemos a morte,

porque somos humanos

e a guerra é feita pelas nossas mãos,

pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,

por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens

que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

 

Cecília Meireles: Terminada a Escola Normal, fui lecionar o primário, ainda com um jeito de menina, num sobrado da Avenida Rio Branco. Ali, na mesma sala, havia duas turmas e duas professoras, a metade voltada para cada lado. Pois as crianças, vendo-me quase tão menina quanto elas, viraram quase todas para mim. Sempre gostei muito de ensinar. Trabalhei na Escola Deodoro, ali junto ao relógio da Glória. Fui professora de Literatura da Universidade do Distrito Federal. Criei a primeira biblioteca infantil, ali onde era o Pavilhão Mourisco. Criança que não tivesse onde ficar podia encontrar o livro que lhe faltava, coleção de selos, moedas, jogos de mesa, sonhos, histórias e as explicações de professoras prontas e atentas. Acabou, depois de quatro anos, mas frutificou em São Paulo onde hoje existe até biblioteca infantil para cegos. Também ensinei História do Teatro na Fundação Brasileira. O resto da minha atividade didática está nas conferências em que sempre procuro transmitir algo.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

Cecília Meireles: Você sabe que eu tenho muito medo da literatura que é só literatura e que não tenta comunicar?

 

Ando à procura de espaço

para o desenho da vida.

Em números me embaraço

e perco sempre a medida.

Se penso encontrar saída,

em vez de abrir um compasso,

protejo-me num abraço

e gero uma despedida.

 

Cecília Meireles: Vivo constantemente com fome de acertar. Sempre quase digo o que quero. Para transmitir, preciso saber. Não posso arrancar tudo de mim mesma sempre. Por isso leio, estudo. Cultura, para mim, é emoção sempre nova. Posso passar anos sem pisar num cinema, mas não posso deixar de ler, deixar de ouvir minha música (prefiro a medieval), deixar de estudar, hindi ou o hebraico, compreende?

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

 

Cecília Meireles: Casei com vinte anos. Tenho três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e Maria Fernanda. As três são bibliotecárias mas a minha biblioteca não está fechada. Maria Fernanda você conhece como atriz, não é mesmo? As três têm em comum uma bondade comovente mas são de temperamentos completamente diferentes. Tenho cinco netos. Viúva, casei em 1940 com Heitor Grilo, um homem admirável pela sua extraordinária fé no ser humano, em sua ânsia de tudo elevar. Basta dizer a você que, nesta primeira e única doença que tive e que me segurou cinco meses, ele não arredou pé, um momento de carinho, gesto e palavra prontos, apesar de suas inúmeras responsabilidades e ocupações. Conheci-o quando fui entrevistá-lo certa vez. Depois… nunca mais o entrevistei. Entendemo-nos até calados.

 

No fio da respiração,

rola a minha vida monótona,

rola o peso do meu coração.

 

Cecília Meireles: Estudei canto e violino. Abandonei. Era preciso ganhar a vida e poesia se pode criar até numa viagem de bonde. Mesmo nas reuniões em que muita gente discutia eu era capaz de me ausentar em meu mundo e construir. Aos poucos pude criar a minha Ilha de Nanja, a São Miguel transfigurada pelo sonho. Acho linda a continuidade humana através da poesia. Só viajo com a Bíblia. A Bíblia é uma biblioteca. Tem tudo: história, poesia, religião. Já disse que, se tivesse que escolher o meu livro para uma ilha deserta, levaria a Bíblia. Ou um dicionário.

 

Minha esperança perdeu seu nome…

Fechei meu sonho, para chamá-la.

A tristeza transfigurou-me

como o luar que entra numa sala.

 

Cecília Meireles: Mas comigo aconteceu uma coisa deliciosa, deixe-lhe contar. Neste Natal eu estava doente em São Paulo. Pois bem. Ao voltar para esta minha casa (Cecília vive ao lado do bondinho que sobe pro Corcovado) encontrei cartões de gente de todos os cantos do mundo que se lembrou de mim. De todas as raças e religiões. Todos unidos pelo Natal. E o mais curioso é que eu olhava um cartão e outro e dizia comigo mesma: “Fulano talvez não combine com Beltrano, mas eu servi de elo entre os dois. A mim eles escreveram!” Me fez um bem enorme aquele meu Natal atrasado!

 

Na quermesse da miséria,

fiz tudo o que não devia:

se os outros se riam, ficava séria;

se ficavam sérios, me ria.

 

Cecília Meireles: Se eu inventei palavras? Não. Isto nunca me preocupou. No inventar há um certa dose de vaidade. “Inventei. É meu”. O que me fascina é a palavra que descubro, uma palavra antiga abandonada e que já pertenceu a tanta gente que a viveu e sofreu! No “Romanceiro do Rio de Janeiro”, que estou preparando para o IV Centenário, procuro usar, em cada capítulo, a linguagem da época.

 

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

 

Cecília Meireles: Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!

 

Como tenho a testa sombria,

derrame luz na minha testa.

Deixe esta ruga, que me empresta

um certo ar de sabedoria.

 

Cecília Meireles: Tenho pena de ver uma palavra que morre. Me dá logo vontade de pô-la viva de novo. “Solombra”, meu novo livro, é uma palavra que encontrei por acaso e que é o nome antigo de sombra. Era o título que eu buscava e a palavra viveu de novo.

 

Que procuras? Tudo. Que desejas? — Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

 

Cecília Meireles: Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano. Na Índia foi onde me senti mais dentro de meu mundo interior. As canções de Tagora, que tanta gente canta como folclore, tudo na Índia me dá uma sensação de levitar. Note que não visitei ali nem templos nem faquires. O impacto de Israel também foi muito forte. De um lado, aqueles homens construindo, com entusiasmo e vibração, um país em que brotam flores no deserto e cultura nas universidades. Por outro lado, aquela humanidade que vem à tona pelas escavações. Ver sair aqueles jarros, aqueles textos sagrados, o mundo dos profetas. Pisar onde pisou Isaías, andar onde andou Jeremias … Visitar Nazaré, os lugares santos! A Holanda me faz desconfiar de que devo ter parentes antigos flamengos. Em Amsterdã, passei quinze dias sem dormir. Me dava a impressão de que não estava num mundo de gente. Parecia que eu vivia dentro de gravuras. Quanto a Portugal, basta dizer que minha avó falava como Camões. Foi ela quem me chamou a atenção para a Índia, o Oriente: “Cata, cata, que é viagem da Índia”, dizia ela, em linguagem náutica, creio, quando tinha pressa de algo, chá-da-Índia, narrativas, passado, tudo me levava, ao mesmo tempo à Índia e a Portugal.

 

Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

 

Cecília Meireles: A babá Pedrina me contava a história do Palácio de Louça Vermelha. Eu achava que devia ser muito fresco viver num palácio assim e, em menina, já estava pronta a transformar um jarro imenso que havia em casa em palácio, quando, querendo escondê-lo de meus sonhos, de tanto procurarem lugar para ocultá-lo, o partiram em mil pedaços.

 

Traze-me um pouco das sombras serenas

que as nuvens transportam por cima do dia!

Um pouco de sombra, apenas,

— vê que nem te peço alegria.

 

Cecília Meireles: Viagens, folclore e idiomas são uma espécie de constante em minha vida. Comprei livros e discos de hebraico. Estudei hindi, sânscrito. O desejo de ler Goethe no original me obrigou a estudar alemão. Não estudo idiomas para falar, mas para melhor penetrar a alma dos povos.

 

Cecília conhece uma meia dúzia de línguas mais.

 

Cecília Meireles: Meus amigos, é curioso, ou vivem longe ou estão distantes. Minha casa já é contramão. Gosto de estudar o que me dá conhecimento melhor das pessoas, do mundo, da unidade. Por meio dos idiomas e do folclore, vejo até que ponto somos todos filhos de Deus. A passagem do mundo mágico para o mundo lógico me encanta.

 

Eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,

por desfolhar-me é que não tenho fim.

 

Cecília Meireles: Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.

 

E minha alma, sem luz nem tenda,

passa errante, na noite má,

à procura de quem me entenda

e de quem me consolará…

 

Cecília Meireles: A juventude de hoje? Acho que são meninos que não têm tempo de crescer. Saltam do apartamento fechado para a calçada de mil solicitações, sem armadura, sem objetivo, sem a necessária religiosidade. A vida passa a ser uma coisa zoológica. Muitos crescem zoologicamente. Inventam modas, mas como não têm essência de verdade, as modas não pegam. As frustrações crescem. Felizmente muitos se realizam apesar de tudo. Cada geração acredita que traz uma nova voz e uma nova mensagem.

 

Permite que eu volte o meu rosto

para um céu maior que este mundo,

e aprenda a ser dócil no sonho

como as estrelas no seu rumo.

 

Cecília Meireles: A arte abstrata? Nós, pouco a pouco, vamos caminhando para o subentendido, não é? A arte abstrata é uma alusão. Você constrói dentro de si. Muita gente faz coisas com nomes concretos que geram um mundo abstrato e vice-versa.

 

Aquilo que ontem cantava

já não canta.

Morreu de uma flor na boca:

não do espinho na garganta.

 

Cecília Meireles: Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Cecília Meireles: Educação, para mim; é botar, dentro do indivíduo, além do esqueleto de ossos que já possui, uma estrutura de sentimentos, um esqueleto emocional. O entendimento na base do amor.

 

Em prosa Cecília dá lições de grandeza. Vejam como descreve o barquinho Elenita: “parece uma nuvenzinha a correr por um espelho”. E o “Anjo da Noite”: “À noite o mundo é bonito, como se não houvesse desacordos, aflições, ameaças. Há muitos sonhos em cada casa. O gato volta apressado, com certo ar de culpa”. “Chuva com Lembranças”: “Começaram a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam”. Outro: “Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa de jardim zoológico”.

 

Cecília Meireles: Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul onde costumava pousar um pombo branco. Nos dias límpidos o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e me sentia completamente feliz.

 

Mas houve épocas em que a janela abria para um canal em que oscilava um barco carregado de flores. Outras em que se abria para um terreiro, sobre uma cidade de giz, para um jardim que parecia morto. Outras vezes abre a janela e encontra um jasmineiro em flor, nuvens espessas ou crianças que vão para a escola, pardais que pulam pelo muro, gatos, borboletas, marimbondos, um galo que canta, um avião que passa. E Cecília se sente completamente feliz. E conclui: “Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”.

 

Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.

 

Entrevista publicada na revista “Manchete”, edição nº 630, em 16 de maio de 1964. E posteriormente no livro “Pedro Bloch Entrevista”, Bloch Editores, em 1989.

 

 

 

5 de novembro de 1940

 

 
5 de novembro de 1940

Nesta data Franklin Delano Roosevelt (FDR), dá mais uma surra na direita e é eleito presidente dos Estados Unidos pela terceira vez. Depois de mais essa derrota, os monopólios agiram para proibir a possibilidade de mais de uma reeleição nos EUA. A nova lei, segundo eles, serviria para evitar o surgimento de um “novo Roosevelt no país”. FDR aumentou os investimentos públicos, protegeu os salários e tirou os EUA da bancarrota de 1929. Ele combateu a ganância dos banqueiros, dos trustes e dos monopólios e colocou um freio no cassino em que se transformou Wall Stret.

Veja um trecho bem elucidativo do pensamento econômico de Roosevelt, apresentado por Sérgio Ruberns Torres, presidente nacional do Partido Pátria Livre (PPL) em seu primeiro congresso, realizado em 2009: “O poder de poucos para dirigir a vida econômica da nação deve ser difundido entre muitos ou ser transferido ao público e a seu governo democraticamente responsável... Se a atividade econômica deve ser organizada pelo plano e não pela concorrência, esse poder não deve ser confiado a nenhum grupo privado”, disse ele. Soa como uma afirmação radical?, indagou Sérgio. “De fato, é radicalmente antimonopolista. Porém, Roosevelt não teria levado os EUA a saírem da crise de 1929, produzida pela ação dos monopólios, se os tivesse tratado a pão-de-ló”, disse o presidente do PPL.

“A crise de 1929 foi duríssima. Segundo Galbraith, “em pouco mais de dois anos cortou quase à metade o valor da produção nacional e deixou 12 milhões de trabalhadores – 10,5 milhões a mais que em 1929 – sem emprego”. Desde o final da 2ª Guerra Mundial, a pressão dos monopólios foi afastando os EUA do caminho indicado por Roosevelt, até chegar ao Consenso de Washington (1989). Os quatro cavaleiros do Apocalipse – abertura, desestatização, desregulamentação e flexibilização das relações trabalhistas – assumiram as rédeas e o neoliberalismo preparou meticulosamente a eclosão da grande crise de hoje”, completou Sérgio Rubens Torres.

 

 

 

 

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Os historiadores acadêmicos consideram Abraham Lincoln, George Washington e Franklin Roosevelt os três maiores presidentes dos Estados Unidos. A grande maioria deles afirma que Franklin Delano Roosevelt recuperou os Estados Unidos após a crise de 29, dando condições melhores de trabalho aos americanos, alcançando metas militares e industriais, levando energia elétrica e modernidade às regiões mais pobres do país, enfim, colocando-se ao lado do povo norte-americano – e não de sua elite.

 

Roosevelt foi o único presidente norte-americano a se eleger para mais de dois mandatos. Ele era conhecido por suas iniciais FDR. Ganhou a primeira de suas quatro eleições em 1932, quando os Estados Unidos estavam no fundo da Grande Depressão. A combinação da ousadia política e criatividade institucionalista de FDR com políticas econômicas intervencionistas são usualmente considerados como sendo os principais responsáveis por se ter evitado que a crise econômica se transformasse em crise política.

 

Roosevelt denominou sua política, de combate à situação econômica caótica que herdara, como New Deal. Ela consistia tanto em legislação aprovada pelo Congresso americano quanto em Ordens Executivas. Dentre as principais Ordens Executivas incluem-se o Emergency Banking Act, declarado assim que tomou posse, legislação criando novas agências governamentais, tais como a Works Progress Administration e a National Recovery Administration, que visava criar novos empregos para os quinze milhões de estadunidenses desempregados que FDR herdara de Herbert Hoover. Outras leis criaram uma rede de assistência direta para os indivíduos, como a Social Security Act, a lei de Seguridade Social que permanece em vigor até hoje.

 

Roosevelt dominou o cenário político estadunidense não só durante seus doze anos como presidente, mas também nas décadas seguintes. A coligação de FDR unia elementos tão díspares quanto os brancos do sul e os afro-americanos das cidades do norte dos Estados Unidos.

 

Influente e famoso, Roosevelt alcançou votação suficiente, em 1932, para ser eleito presidente dos Estados Unidos por estreita margem. Essa margem aumentou muito na reeleição do presidente, em 1936, que se manteve até o fim do segundo mandato, apesar das divergências e desacordos com a Suprema Corte dos Estados Unidos.

 

Roosevelt tomou posse em período de desespero generalizado, no quarto ano da Grande Depressão, o que levantava sérias dúvidas acerca da possibilidade de sobrevivência econômica do Ocidente. No dia em que Roosevelt tomou posse, o PIB norte-americano já tinha caído à metade, e mais de quinze milhões de norte-americanos estavam desempregados. Todos os estados haviam fechado os bancos, ou restringido severamente suas operações e, no dia da posse de Roosevelt, o New York Stock Exchange fechou suas portas, suspendendo indefinidamente seus pregões.

 

Algumas semanas após a posse de Roosevelt o “espírito do país havia mudado. Foi-se o torpor dos anos de Hoover, foi-se também a paralisia politica.” (…) Havia algo no ar que não estava lá antes, e durante o New Deal isso permaneceu o tempo todo. Não era apenas por um dia …” No New York Curb Exchange, onde o pregão reabriu em 15 de março, ele encerrou suas cotações do dia com uma alegre nota: “Boa noite…Os dias alegres voltaram!”

 

Por volta de 1935 os Estados Unidos já tinham conseguido alcançar alguma recuperação econômica. Mas banqueiros e homens de negócios se voltavam mais e mais contra o New Deal de Roosevelt. Eles temiam seus experimentos econômicos, até então inéditos, e ficaram apavorados quando Roosevelt tirou o país do “padrão ouro”.

 

Roosevelt reagiu às críticas dos banqueiros com um novo programa de reformas:

 

Seguridade Social,

impostos maiores para os mais ricos,

maior controle sobre as atividades bancárias e sobre os serviços de utilidade pública, e

a criação um imenso programa para diminuir o desemprego da população americana.

Na eleição de 1936 Roosevelt foi reeleito presidente por uma grande margem de votos, sagrando-se vitorioso em todos os estados norte-americanos exceto Vermont e Maine. Sentindo que tinha um forte mandato popular a cumprir, Roosevelt tentou nomear mais juízes para a Corte Suprema, que vinha sistematicamente bloqueando vários programas do New Deal. Roosevelt perdeu sua batalha contra a Suprema Corte, mas provocou uma revolução na interpretação da lei constitucional: a partir de então ficou decidido que o Governo poderia, legal e constitucionalmente, regulamentar a economia norte-americana.

 

O New Deal, cuja tradução literal em português seria “Novo Acordo (ou Pacto)” foi o nome dado à série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do Presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, e assistir os prejudicados pela Grande Depressão. O nome dessa série de programas foi inspirado no Square Deal, nome dado pelo anterior Presidente Theodore Roosevelt à sua política econômica.

 

Foram itens do Programa:

 

o investimento maciço em obras públicas: o governo investiu US$ 4 bilhões (valores não corrigidos pela inflação) na construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos etc. Tais obras geraram milhões de novos empregos;

a destruição dos estoques de gêneros agrícolas, como algodão, trigo e milho, a fim de conter a queda de seus preços;

o controle sobre os preços e a produção, para evitar a superprodução na agricultura e na indústria;

a diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de abrir novos postos.

além disso, fixou-se o salário mínimo e criou-se o seguro-desemprego e o seguro-velhice para os maiores de 65 anos.

Para se entender corretamente o New Deal, é importante ter em mente que, na década de 1930, os Estados Unidos atravessaram um período em que um grande número de norte-americanos vivia na absoluta pobreza, desesperadamente, necessitando mais alimentos, roupas e abrigos. Paradoxalmente, os recursos produtivos (fazendas, fábricas, máquinas, mão de obra) que poderiam prover estes alimentos, roupas e abrigos estavam paralisados: não produziam nada.

 

Como resultado do New Deal foram criadas nos Estados Unidos dezenas de agências federais (equivalentes às autarquias no direito administrativo brasileiro), as quais receberam o apelido irônico de alphabet agencies (agências alfabéticas), devido à profusão das siglas com que eram designadas: CCC (Civilian Conservation Corps), TVA (Tennessee Valley Authority), AAA (Agricultural Adjustment Administration), PWA (Public Works Administration), FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), SEC (Securities and Exchange Commission), CWA (Civil Works Administration), SSB (Social Security Board), WPA (Works Progress Administration), NLRB (National Labor Relations Board).

 

Embora não fosse propriamente um projeto coerente de reformas políticas, econômicas e sociais, as políticas implementadas por Franklin D. Roosevelt em resposta à Grande Depressão lançaram as bases do estado intervencionista e do poder sindical nos Estados Unidos. Isto, apenas duas décadas após a Revolução da URSS, provocou forte reação política conservadora.

 

O New Deal pode ser dividido em quatro dimensões:

 

as reformas econômicas e a regulação de setores da economia;

a que se ocupou das medidas emergenciais;

a que diz respeito às transformações culturais; e

um novo pacto político-social entre o Estado e forças sociais, o que formou a chamada coalizão do New Deal.

Em seus primeiros 100 dias, o New Deal implementou reformas setoriais na economia americana para criar as condições para recuperar a rentabilidade dos investimentos. Foram implementadas medidas para:

 

sanear o sistema financeiro, com o Emergency Banking Act,

regular a produção agrícola, com o Agricultural Adjustment Act (AAA), e

evitar a perda da hipoteca das casas próprias, com o Home Owners’ Refinancing Act.

O New Deal teve grande influência na política econômica e social adotada no Brasil pelo Presidente Getúlio Vargas, que admirava Franklin D. Roosevelt, e vice versa: “Despeço-me esta noite com grande tristeza. Há algo, no entanto, que devo sempre lembrar. Duas pessoas inventaram o New Deal: o Presidente do Brasil e o Presidente dos Estados Unidos. Assinado: Franklin Delano Roosevelt, 27 de novembro de 1936.”

 

Tanto Ford quanto Keynes já haviam previsto que “a aceleração dos ganhos de produtividade provocada pela revolução taylorista levaria a uma gigantesca crise de superprodução se não fosse encontrada uma contrapartida em uma revolução paralela do lado da demanda”, que permitisse a redistribuição da renda para aumentar o consumo. A Grande Depressão dos anos 1930 tornou-se uma gigantesca crise de superprodução, em trágica confirmação daquelas previsões. (Lipietz,1989:30-31)

 

“Com o New Deal, portanto, iniciou-se a tensa construção do pacto entre Estado, trabalho organizado e capital, ou regulação fordista keynesiana do capitalismo que, no pós-guerra, fundamentaria o peculiar Estado de Bem- Estar americano e o longo período de prosperidade que se estenderia até fins dos anos 1960.”

 

“A regulação fordista keynesiana baseava-se em um pacto segundo o qual o Estado assumia papéis intervencionistas, de forma a tornar-se um demandador da indústria privada e um fornecedor de salários indiretos, com o objetivo de universalizar o consumo. O capital repassava ganhos de produtividade do trabalho aos salários (relação salarial fordista), buscando assim assegurar a estabilidade do sistema e, por fim, os sindicatos aceitavam a ordem capitalista, em troca de sua incorporação ao mundo do consumo”.

 

Essas políticas econômicas, ate então inusitadas, foram adotadas quase simultaneamente por Franklin D. Roosevelt nos Estados Unidos e por Hjalmar Schacht na Alemanha. Elas foram – cerca três anos mais tarde – racionalizadas por Keynes em sua obra clássica Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Keynes apresentou, em suas obras, a teoria justificadora da intervenção governamental na economia, quando as expectativas das forças do mercado eram pessimistas.

 

Passados oito anos na Casa Branca, Roosevelt tentou o antes inimaginável, concorrendo e vencendo as eleições de 1940, para o terceiro mandato, e governando durante a Segunda Guerra Mundial. Efetivamente, as medidas durante a Segunda Guerra Mundial ajudaram Roosevelt a vencer as eleições, então para um quarto mandato, no qual acabou por falecer em 1945, ainda exercendo funções e com os Estados Unidos ainda participando da Guerra.

 

Franklin Delano Roosevelt foi o responsável pela entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial após o ataque a Pearl Harbor. Foi um grande parceiro de Sir Winston Churchill, primeiro-ministro britânico. Em 1943, os três governantes aliados (Stalin, Roosevelt e Churchill) reuniram-se em Teerã, e em 1945 em Yalta para decidirem entre outros, o destino da Alemanha e da Polônia.

 

FDR conduziu os Estados Unidos através de quase toda a Segunda Guerra Mundial e morreu no cargo, de uma hemorragia cerebral, pouco antes da guerra terminar.

 

 

 

3 de novembro de 1839

 

 
3 de novembro de 1839

Nesta data começa a primeira Guerra do Ópio, imposta à China pelo colonialismo inglês. A causa do conflito foi a criminosa exportação de ópio à China pela Inglaterra. O país europeu apontou suas garras para a China com o olho grande em matérias-primas a baixos preços e um grande mercado consumidor para realizar a venda de seus produtos. A China e a Índia despertaram grande interesse por parte dos Britânicos pois ambos tinham uma grande população, o que significaria um grande mercado consumidor. A China era muito resistente aos produtos ingleses. Sem o que oferecer que interesssasse aos chineses, a Inglaterra inundou o país asiático com ópio. O objetivo era viciar a população e vender ópio. A China lutou contra o tráfico inglês e, por causa disso, os britânicos declararam uma guerra suja e violenta contra o gigante asiático.     

 

 

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A China era uma grande produtora de seda, de porcelana e do chá, que era o produto que despertava maior interesse nos Britânicos. Em 1720 eles compraram cerca de 12.700 toneladas de chá dos Chineses, e em 1830 compraram cerca de 360 mil toneladas, entretanto os Chineses não tinham interesse algum nos produtos europeus, o que acarretava lucros muito pequenos aos Ingleses. Os ingleses introduziram o Ópio na China.

 

O Ópio é uma substancia entorpecente extraída da papoula, e causa dependência química em seus usuários. Era transportada ilegalmente pela Inglaterra para a China, e lá muitas vezes os Ingleses forçavam os Chineses a consumi-lo, o que provocava dependência e assim obtinham grande lucros e aumentava o volume do comercio.

 

Com isso, o Governo Chinês proíbe toda a transação da droga e os Ingleses ficam irritadíssimos (pois era um comércio que estava dando lucro), e acabam declarando guerra a China em 1839.

 

No mesmo ano, um Súdito Chinês foi assassinado por marinheiros Britânicos e o Comissário Imperial ordenou a expulsão de todos os Ingleses que estavam na cidade. Em 1840 o Chanceler Britânico, Lord Palmerston, enviou uma força de 16 navios de guerra para uma determinada região Chinesa que resultou no afundamento de boa parte dos navios Chineses, além do estado de sitio de Guangzhou e o bombardeamento da cidade de Nanquim.

 

Esse conflito vai terminar em 1842 com a assinatura do Tratado de Nanquim, o primeiro dos chamados “Tratados Desiguais”, pelo qual a China aceitou suprir a tudo que a Inglaterra queria, abrindo cinco portos ao comércio Britânico, pagar uma grande indenização de guerra e entregar a ilha de Hong Kong, que ficaria sob domínio Inglês por 100 anos.

 

Em 1856 desencadeia o que chamamos de “Segunda Guerra do Ópio”. Oficiais Chineses abordaram e revistaram um navio chamado Arrow, que tinha bandeira britânica. Isso desagrada muito a Inglaterra que dessa vez se alia a França e aplicam um ataque militar 1857. O governante Chinês nesse momento, continua com sua politica de intransigência, não querendo respeitar de forma alguma atos Ingleses. E mais uma vez a China sai derrotada. Dessa vez, onze portos Chineses seriam abertos ao comercio Ocidental. O governante Chinês tentou resistir, más com isso a capital Pequim foi ocupada, o obrigando a aceitar o “Tratado de Tianjin” que propunha a abertura das portas Chinesas para os estrangeiros, diplomatas estrangeiros seriam aceitos na China, permissão de missionários cristãos e a legalização do ópio.

 

 

 

 

 

 

1 de novembro de 1979

 

 
1 de novembro de 1979

Nesta data o povo brasileiro conquistou, depois de resisitir heroicamente ao arbítrio, a anistia para os presos, perseguidos e exilados políticos. A volta dos exilados e a libertação dos presos acelerou a luta pelo fim da ditadura implantada no país para defender os interesses do imperialismo norte-americano. Atualmente o Estado brasileiro, através da Comissão da Verdade, do Ministério da Justiça, investiga os crimes cometidos pelo aparelho de repressão do péríodo ditatorial.

 

 

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A Lei da Anistia Política foi promulgada em 1979, no governo do presidente João Baptista Figueiredo, para reverter punições aos cidadãos brasileiros que, entre os anos de 1961 e 1979, foram considerados criminosos políticos pelo regime militar.

A lei garantia, entre outros direitos, o retorno dos exilados ao país, o restabelecimento dos direitos políticos e a volta ao serviço de militares e funcionários da administração pública, excluídos de suas funções durante a ditadura.

Em 2002, uma nova lei foi promulgada para ampliar os direitos dos anistiados. Ela vale para pessoas que, no período de 18 de setembro de 1946 até 5 de outubro de 1988, foram punidas e impedidas de exercerem atividades políticas. Além de receber indenizações, em prestação única ou mensal, que varia de acordo com cada caso, os beneficiados passaram a ter como garantia:

1. A contagem do tempo em que o anistiado esteve forçado ao afastamento de suas atividades profissionais (ameaçado de punição, por exemplo) sem que se exija o recolhimento de nenhuma contribuição previdenciária;

2. A conclusão de curso, em escola pública ou com prioridade para bolsa de estudo em escola particular, a partir do período letivo que foi interrompido ou o registro de diploma no caso de cidadão que concluiu curso em instituição de ensino no exterior;

3. A reintegração de servidores públicos civis e de empregados públicos punidos, por interrupção de atividade profissional em decorrência de decisão dos trabalhadores, por adesão à greve em serviço público e em atividades essenciais de interesse da segurança nacional por motivo político.

 

 

 

 

31 de outubro de 1902

 

 
31 de outubro de 1902

Nesta data nasceu, em Itabira do Mato Dentro, em Minas Gerais, o nosso principal poeta, Carlos Drumond de Andrade. Com uma simplicidade e uma beleza impressionantes, Drumond espressou a alma do povo brasileiro. Um de seus poemas mais famosos, A Rosa de Hiroshima, é uma contundente denúncia da monstruosidade cometida pelo imperialismo americano contra a Humanidade em 1945, ao lançar a primeira bomba atômica contra a cidade japonesa, matando instantaneamente mais de 50 mil pessoas. Outro de seus principais escritos foi a belíssima homenagem aos herois de Stalingrado que impuseram com um sacrifício enorme a primeira e decisiva derrota à máquina de guerra nazista, entre 1942 e 1943.   

 

 

A Rosa de Hiroshima

 

 

Vinícius de Moraes

 

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada  

 

 

Carta a Stalingrado [*]

Carlos Drummond de Andrade

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas 
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, 
e o hálito selvagem da liberdade 
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem, 
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder, 
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, 
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos; 
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, 
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate, 
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, 
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

[*] Extraído do livro A Rosa do Povo (poemas escritos entre 1943 e 1945). Rio de Janeiro: Record, 1987

 

 

 

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Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) foi poeta brasileiro. "No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho". Este é um trecho de uma das poesias de Drummond, que marcou o 2º Tempo do Modernismo no Brasil. Foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) nasceu em Itabira de Mato Dentro, interior de Minas Gerais. Filho de Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade, proprietários rurais decadentes. Estudou no colégio interno em Belo Horizonte, em 1916. Doente, regressa para Itabira, onde passa a ter aulas particulares. Em 1918, vai estudar em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, também no colégio interno.

Em 1921 começou a publicar artigos no Diário de Minas. Em 1922 ganha um prêmio de 50 mil réis, no Concurso da Novela Mineira, com o conto "Joaquim do Telhado". Em 1923 matricula-se no curso de Farmácia da Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Em 1925 conclui o curso. Nesse mesmo ano casa-se com Dolores Dutra de Morais. Funda "A Revista", veículo do Modernismo Mineiro.

Drummond leciona português e Geografia em Itabira, mas a vida no interior não lhe agrada. Volta para Belo Horizonte, emprega-se como redator no Diário de Minas. Em 1928 publica "No Meio do Caminho", na Revista de Antropofagia de São Paulo, provocando um escândalo, com a crítica da imprensa. Diziam que aquilo não era poesia e sim uma provocação, pela repetição do poema. Como também pelo uso de "tinha uma pedra" em lugar de "havia uma pedra". Ainda nesse ano, ingressa no serviço público. Foi auxiliar de gabinete da Secretaria do Interior de Minas.

Em 1930 publica o volume "Alguma Poesia", abrindo o livro com o "Poema de Sete Faces", que se tornaria um dos seus poemas mais conhecidos: "Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução". Faz parte do livro também, o polêmico "No Meio do Caminho", "Cidadezinha Qualquer" e Quadrilha". Em 1934 muda-se para o Rio de Janeiro, vai trabalhar com o Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema. Em 1940 publica "Sentimento do Mundo" influenciado pela Segunda Guerra Mundial. Em 1942 publica seu primeiro livro de prosa, "Confissões de Minas". Entre os anos de 1945 e 1962, foi funcionário do Serviço Histórico e Artístico Nacional.

Em 1946, foi premiado pela Sociedade Felipe de Oliveira, pelo conjunto da obra. O modernismo exerceu grande influência em Carlos Drummond de Andrade. O seu estilo poético era permeado por traços de ironia, observações do cotidiano, de pessimismo diante da vida, e de humor. Drummond fazia verdadeiros "retratos existenciais", e os transformava em poemas com incrível maestria.

A poesia de Carlos Drummond de Andrade era facilmente entendida e captada pelo grande público, o que o tornou poeta popular, o que não quer dizer que seus poemas fossem superficiais. A Rosa do Povo é um poema muito conhecido e comentado. A rosa nesse poema funciona como metáfora do entendimento universal, dos valores da democracia e da liberdade, valores típicos da modernidade no século 20. Carlos Drummond de Andrade foi também tradutor de autores como Balzac, Federico Garcia Lorca e Molière.

Em 1950, viaja para a Argentina, para o nascimento de seu primeiro neto, filho de Julieta, sua única filha. Nesse mesmo ano estréia como ficcionista. Em 1962 se aposenta do serviço público mas sua produção poética não para. Os anos 60 e 70 são produtivos. Escreve também crônicas para jornais do Rio de Janeiro. Em 1967, para comemorar os 40 anos do poema "No Meio do Caminho" Drummond reuniu extenso material publicado sobre ele, no volume "Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de Um Poema". Em 1987 escreve seu último poema "Elegia de Um Tucano Morto".

 

 

30 de outubro de 1954

 

 

 

 

 

 

Nesta data (30 de outubro de 1954) a Frente para a Libertação Nacional da Argélia (FLN) começa a revolução contra a dominação francesa. A Guerra da Argélia ocorreu entre 1954 e 1962 e foi o conflito pela independência do país. A FLN lutou herociamente pela independência da de seu país. A França mantinha a Argélia como colônia desde 1830. O regime colonial usava de exterma violência contra os patriotas argelinos com uso sistemático de torturas. Essas políticas da França foram escondidas da população francesa, que era claramente contra as crueldades, o governo francês censurou vários jornais e meios de comunicação para esconder a verdade. O grande motivo para a manutenção da guerra era a exploração do petróleo argelino pela petroleira francesa ELF, que atualmente passou a chamar-se Total (empresa que acaba de entrar no pré-sal brasileiro). O fim da guerra da Argélia e a assinatura do acordo de paz só foram possíveis com a garantia de fornecimento de petróleo para a França. Os diretores da multinacional paticiparam junto com os militares da asssinatura do acordo. 

 

 

 

 

 

28 de outubro de 1835

 

 
28 de outubro de 1835

Nesta data teve início a Cabanagem, na Província do Grão-Pará. Este movimento foi uma revolta popular que aconteceu entre os anos de 1835 e 1840 contra os desmandos imperiais. Recebeu este nome, pois grande parte dos revoltosos era formada por pessoas pobres que moravam em cabanas nas beiras dos rios da região. Estas pessoas eram chamadas de cabanos. No início do Período Regencial, a situação da população pobre do Grão-Pará era péssima. Mestiços e índios viviam na miséria total. O regime escravista, baseado na cana e dependente dos bancos ingleses, represava as forças produtivas do país e gerava pobreza e abandono.

 

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No início do Período Regencial, a situação da população pobre do Grão-Pará era péssima. Mestiços e índios viviam na miséria total. O regime escravista, baseado na cana e dependente dos bancos ingleses, continha as forças produtivas e gerava pobreza e abandono.

 

Sem trabalho e sem condições adequadas de vida, os cabanos sofriam em suas pobres cabanas às margens dos rios. Esta situação provocou o sentimento de abandono com relação ao governo central e, ao mesmo tempo, muita revolta.

 

Os comerciantes e fazendeiros da região também estavam descontentes, pois o governo regencial havia nomeado para a província um presidente que não agradava a sociedade local.

 

Causas e objetivos

 

Embora por causas diferentes, os cabanos (índios e mestiços, na maioria) e os integrantes da elite local (comerciantes e fazendeiros) se uniram contra o governo regencial nesta revolta. O objetivo principal era a mudança da situação e, no limite, a independência da província do Grão-Pará.

 

Os cabanos pretendiam obter melhores condições de vida (trabalho, moradia, comida). Já os fazendeiros e comerciantes, que lideraram a revolta, pretendiam obter maior participação nas decisões administrativas e políticas da província.

 

Revolta

 

Com início em 1835, a Cabanagem gerou uma sangrenta guerra entre os cabanos e as tropas do governo central. As estimativas feitas por historiadores apontam que cerca de 30 mil pessoas morreram durante os cinco anos de combates.

 

Félix Clemente Malcher se reuniu com os irmãos Antônio, Francisco e Manuel Vinagre e os jornalistas Eduardo Angelim e Vicente Ferreira Lavor em sua fazenda na intenção de organizar um motim para bater de frente com o governo. Porém, em uma violenta investida o exército conseguiu capturar Félix e assassinar Manuel Vinagre, em novembro de 1834.

 

Revoltado com a morte do irmão, em janeiro de 1835 Antônio Vinagre organizou novamente um motim e invadiu o palácio do governo de Belém. Eles raptaram e assassinaram o governador Lobo de Sousa e nomearam Clemente Malcher seu sucessor.

 

No ano de 1835, os cabanos ocuparam a cidade de Belém (capital da província). Escravos, índios e mestiços também aderiram à Cabanagem, nome dado à revolta por causa das habitações da população média. Aderiram porque as péssimas condições de vida estavam se agravando com o crescente descaso do império. Com a vitória da revolta, Malcher foi nomeado governador.

 

Malcher fez acordos com o governo regencial. Revoltados, os cabanos mataram Malcher e colocaram no lugar o lavrador Francisco Pedro Vinagre (sucedido por Eduardo Angelim).

Após cinco anos de sangrentos combates, o governo regencial conseguiu derrotar a revolta. Em 1840, muitos cabanos tinham sido presos ou mortos em combates. 

 

 

 

25 de outubro de 1917

 

 
25 de outubro de 1917

Nesta data os trabalhadores russos tomaram o poder e iniciaram a construção da primeira sociedade socialista no mundo. Liderados pelos bolcheviques, trabalhadores, camponeses e soldados  ergueram a poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) que em poucas décadas tirou a Rússia e as demais repúblicas do atraso secular em que se encontravam sob o capitalismo. Iniciou-se a construção de uma sociedade democrática, progressista, moderna e justa. Já como uma potência industrial, econômica, científica e militar, a URSS transformou radicalmente a vida de seu povo e foi capaz de rechaçar e derrotar a invasão da, até então, invencível maquina de guerra nazista. Após vencer, junto com os aliados, a II Guerra Mundial, a URSS colaborou decididamente para o fim do sistema colonialista que massacrava e explorava a maioria dos povos do mundo.  

 

 

 

24 de outubro de 1930

 

 
24 de outubro de 1930

Nesta data a Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas, depõe o representante da oligarquia cafeeira submissa ao imperialismo inglês e inicia a transformação do Brasil num país industrial livre e moderno. Com Getúlio o país se industrializa, os trabalhadores conquistam direitos e é criada a Petrobras    

 

 

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Deposição de Washington Luís

 

          24 de outubro. Diário de Vargas:

“Pela manhã começamos a receber notícias esparsas, incompletas sobre a explosão do movimento revolucionário na capital da República. Essas notícias vão se precisando até conhecer-se que os generais Malan, Mena Barreto, Tasso Fragoso e o almirante Isaías de Noronha dirigem um movimento que triunfou facilmente, sem luta, resultando na deposição do presidente Washington Luís e prisão de alguns políticos, e na formação de uma Junta Governativa composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto... nos elementos que me cercam surgem apreensões sobre os intuitos dos dirigentes do golpe de Estado, no Rio... Receia-se que os generais queiram aproveitar-se do nosso movimento indubitavelmente vitorioso para apoderar-se do poder, reduzindo a uma sedição militar o que iniciamos como uma revolução que traga reformas radicais de acordo com o programa da Aliança Liberal e as idéias da Revolução”.

            O almirante Isaías de Noronha era o terceiro membro da Junta que exigira a renúncia do presidente da República depois de haver ordenado o cerco ao palácio Guanabara. Ante a negativa de Washington Luís, que confinado numa sala do prédio e armado de um revólver proclamava seus intuitos de resistir até as últimas conseqüências, os militares convocaram o cardeal Sebastião Leme que convenceu-o a seguir preso para o Forte Copacabana.

          A Junta, buscando antecipar-se à Vargas, constituíra um governo provisório, nomeando  ministros. Investira também como interventor, no estado de São Paulo, o general Hastínflio de Moura, comandante da 2ª Região Militar. Dissimuladamente, procurava apresentar tais atitudes como medidas administrativas necessárias à manutenção da ordem pública. Mas o fato de fazê-lo sem consulta prévia aos líderes revolucionários revelava outros interesses. Enquanto isso, o chefe de polícia do Rio, coronel Bertoldo Klinger, prometia reprimir as manifestações públicas na capital em favor dos revolucionários.

          No dia 25, Vargas registraria em seu diário:

“Recebo comunicação da Junta Militar do Rio, chamando-me com urgência. Respondo que enviem emissários, uma vez que a Junta não precisa seus intuitos. Esses emissários devem chegar amanhã..

O general Hastínflio assume o governo de São Paulo e me telegrafa pedindo para cessar as  hostilidades. Respondo (ser) necessária a ocupação militar daquele estado por tropas de confiança, e o estado-maior expede instrução para os exércitos da frente para que exijam a rendição dos adversários”.

            Em sua resposta ao general Hastínflio, Vargas o adverte:

“Confraternização família brasileira só depende aceitação integral programa revolucionário. Quanto à solução definitiva da situação militar ficará subordinada à resolução definitiva da situação política”.

 

Fonte A Revolução de 30 de Sérgio Rubens Araújo Torres  

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23 de outubro de 1906

 

 
23 de outubro de 1906

Nesta data o brasileiro Santos Dumont fez um vôo de 70 metros com o avião construído por ele. O 14-Bis não necessitava de veículo auxiliar e,desta vez, ele estava disposto a se elevar do solo somente com o aparelho. Possuía 4,81m de altura e ficou sete segundos no ar. Essa invenção o deixou famoso em todo mundo. 

 

 

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Santos-Dumont, o Pai da Aviação

Este artigo foi publicado pela primeira vez em janeiro de 2004. Na época, a propaganda ianque propalava os Wright como inventores do avião e, aqui, os seus indefectíveis serviçais os repetiam e, quando não conseguiram sustentar a versão de seus patrões, passaram a defender que o avião não tinha um inventor. Depois de várias solicitações de nossos leitores, decidimos republicar o artigo, sobretudo considerando que em outubro fará 100 anos que Santos-Dumont decolou pela primeira vez na História

CARLOS LOPES

Muita gente reparou que a série “100 anos de aviação” do canal americano “Discovery”, é uma fraude. A série destina-se a apresentar aquela dupla, os Wright, como inventores do avião. Nesse esforço, até um filme de um vôo planador é apresentado como se fosse o “primeiro vôo” dos Wright. Em suma uma fraude para sustentar outra fraude. Sendo a dos Wright ainda pode ter sido inconsciente: é possível que, na ganância que os caracteriza, eles hajam eludido exatamente o que é um vôo de avião – apesar da questão ter sido definida e aceita internacionalmente, já em 1898 – e tenham, como bons charlatães, enganado a si mesmos. Já a fraude do “Discovery”, essa não pode ter sido inconsciente, trata-se de falsificação, pura e simplesmente. 

SERVILISMO

No entanto, é isso o que um certo Bonalume Neto chama de série “extremamente equilibrada”, porque, “para os EUA, como aliás para o resto do mundo, o primeiro vôo de uma aeronave mais pesada que o ar foi obra dos irmãos Wilbur e Orville Wright em dezembro de 1903”. É assim, conclui-se, porque os americanos – e já veremos que americanos – estão dizendo que é. Donde se pode também concluir que falsificação perpetrada por bandido americano é sempre verdade. Por isso, a série é, naturalmente, um prodígio de “equilíbrio”.

Mas, o que será esse “resto do mundo” que acha que foram os Wright, e não Santos-Dumont, os inventores do avião? A Europa, certamente, não faz parte desse “resto”. A França, que viu o vôo do 14-BIS, não tem dúvidas sobre qual foi o primeiro avião. A Alemanha, tem todo o direito de achar que os mais de mil vôos de Lilienthal do século XIX, com seus planadores, foram vôos do “mais pesado que o ar”, pois planadores são mais pesados que o ar, embora não sejam aviões. Nestes, Santos-Dumont foi o primeiro.

Na península Ibérica, os aeronautas do primeiro vôo sobre o Atlântico Sul, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, já disseram algumas coisas definitivas sobre o caráter dos Wright.

Quanto à Federation Aero-nautique Internationale – cuja regulamentação é reconhecida inclusive pelos EUA – também, não faz parte desse “resto”, pois considera o vôo de Santos-Dumont como o primeiro vôo de um avião da História.

Que será, então, “o resto do mundo”? A China também não faz parte disso. Nem a Rússia. Nem a Índia. Nem a África. Nem qualquer parte do mundo – e são quase todas – que consideram Santos-Dumont o inventor do avião.

Portanto, essa história de “resto do mundo” só serve para revelar que o sr. Bonalume acha que tudo o que não é EUA, é o “resto”.

No entanto, quando esteve no Brasil, o presidente Clinton, último presidente efetivamente eleito nos EUA, declarou: “Santos-Dumont é o pai da aviação”. Da mesma forma, vários outros norte-americanos. Alguns até mesmo escreveram boas biografias do inventor brasileiro, como é o caso de Nancy Winters – para o qual “Santos-Dumont não teve predecessores” em manter-se no ar pelos próprios meios da aeronave que construiu, o 14-BIS. Na verdade, somente os piores chauvinistas ianques – isto é, os mais imperialistas, os mais belicistas – têm mantido, com sua mídia, a história dos Wright sobre a invenção do avião. E nem sempre: só adotou essa história a partir do final da década de 30, mais exatamente depois da II Guerra, quando começou a percorrer o caminho do necrotério onde hoje se encontra. Até o início da década de 50, nem o “The New York Times” tinha aderido completamente.

Mas é próprio dessa raça de serviçais confundir os EUA com a máfia que o parasita. Por isso mesmo, diz ele que “o brasileiro era um dândi filantropo. Os americanos eram perfeitos capitalistas (...) queriam registrar patentes. O brasileiro teria horror ao uso militar do avião. Os americanos já em 1905 tentaram vender um avião ao exército dos EUA”.

Nem os capitalistas conseguem encontrar perfeição no capitalismo – mas os lacaios, esses sempre conseguem encontrar perfeição no patrão. Ou seja, o fato de Santos-Dumont ser um homem que colocava seu trabalho a serviço da Humanidade, é um defeito, aliás, é só pose – não é outra coisa que quer dizer “dândi filantropo”. Portanto, o sr. Bonalume é contra a filantropia, ou seja, contra a solidariedade para com outros seres humanos. Quanto aos Wright, aquela dupla de aventureiros, de vigaristas ávidos por colocar a mão no dinheiro público, aqueles ladrões da invenção alheia que, com isso, queriam monopolizar a fabricação de aviões, estes são “perfeitos capitalistas”.

Os Wright, como capitalistas, eram um fracasso. Eram dois imperialistas, isto é, monopolistas, açambarcadores do alheio, como certa cepa que prolifera nos EUA. Sempre quiseram vender aparelhos para uso militar, isto é, para jogar bombas na cabeça dos outros, exatamente como fazem os seus colegas de quadrilha atualmente. Só que, para os Wright, não importava quem jogava as bombas nem quem as recebia na cabeça – recusados pelo exército dos EUA, tentaram vender sua geringonça a qualquer exército que aparecesse. Mas sempre eram recusados – simplesmente porque se recusavam a mostrar o aparelho ao comprador. Mais tarde, em 1909, conseguiram uma patente, um monopólio e um contrato com o exército. Mas foi por pouco tempo. Inclusive militarmente os aviões deles eram um vexame. Bastou o governo norte-americano entrar em guerra com a Alemanha e, portanto, precisar de aviões eficientes, que eles, em 1917, perderam o monopólio da fabricação de aviões nos EUA. Há, no entanto, um pioneirismo que não se pode negar a eles: a primeira morte num acidente com um avião aconteceu num aparelho fabricado por eles. Foi a morte do infeliz tenente Thomas E. Selfridge, em 1908, quando os Wright, em campanha para convencer o exército, colocaram seu aparelho num propulsor que nunca tinham testado, e que abalou toda a estrutura do avião, que, instável, caiu, levando junto o tenente. 

PAI DA AVIAÇÃO  

Diz o sr. Bonalume que “ao conhecer os fatos apresentados em documentários como esses, fica claro que não existiu um ‘pai da aviação’, que o progresso na área resultou do acúmulo de avanços de muitos pioneiros. Pena que os nacionalismos gritem mais alto”.

É evidente que o progresso em qualquer área sempre é produto dos avanços de muitos, e é preciso ser um imbecil para repetir essa coisa óbvia como se fosse novidade. Mas é evidente, também, que sempre existem aqueles que, a partir dos acúmulos anteriores, dão a virada para um outro patamar, outra fase do conhecimento, da ciência e da tecnologia, a bem dizer, da História. Esse é o caso de Santos-Dumont em relação à navegação aérea. Por isso – e só por isso – ele é chamado “Pai da Aviação”. A única razão para negar que a aviação tem um pai é exatamente a de destituí-lo, a de botar outros, ilegítimos, em seu lugar, sem confessar que é exatamente isso o que se está fazendo – porque não é fácil aos usurpadores e seus sequazes assumir o crime. Em suma, tentar dar uma rasteira no pai (Tem gente – pouca, é verdade – que gosta dessas coisas. Daí seu servilismo asqueroso). Tanto é assim que, ao mesmo tempo que “nega” a existência de um pai da aviação, o sr. Bonalume reivindica, com os nacionalistas chauvinistas ianques, a paternidade do primeiro vôo” para os irmãos Wright. O que eles querem é precisamente destituir Santos-Dumont e o colocar aquela parelha de vigaristas no seu lugar.

Peculiar é que ele fale em “nacionalismos”. Evidentemente, ele nada tem contra o exacerbado nacionalismo imperialista da casta ianque, do qual a história dos Wright é hoje uma de suas eructações. Portanto, ele não é contra os “nacionalismos”, mas apenas contra o nacionalismo brasileiro – ou seja, contra a recusa e a submeter ao primeiro, mesmo quando toda a verdade, os fatos e as provas são escandalosos.

Assim, o sr. Bonalume diz que “para os fãs apaixonados do brasileiro Alberto Santos-Dumont, argumentando com detalhes técnicos preciosistas, o tal vôo só teria acontecido em 1906”. Interessante que ele fale em “fãs apaixonados”, quando ele mostra tanta fissura em sua subserviência. Pois os tais “detalhes preciosistas” se resumem no seguinte: se em 1903 o aparelho dos Wright voou ou não voou. Realmente, um detalhe dos mais preciosistas – muito em voga, aliás, depois que uma réplica perfeita do aparelho dos Wright embicou na lama na frente das câmeras de televisão.

Não foi a primeira vez: além de todas as réplicas anteriores terem fracassado (duas em 2003), essa é a questão levantada por Sacadura Cabral e especialmente, pelo almirante Gago Coutinho: no dia 23 de maio de 1904, cinco meses depois da data que eles disseram que tinham voado de avião, os Wright convocaram cerca de 30 repórteres em Huffman Prairie para uma demonstração – e o aparelho não voou. Três dias depois, fizeram outra tentativa – e o máximo que conseguiram foi um pulo que nenhum dos presentes considerou que era um vôo. Assim, perguntou Gago Coutinho: como é que eles não conseguiram repetir o vôo? Santos-Dumont, como se sabe, além do vôo de setembro de 1906, voou várias vezes em novembro do mesmo ano com o 14-BIS, quebrando seu próprio recorde.

Mas foi devido a essas fracassadas tentativas, que eles não podiam esconder, que os próprios Wright mudaram a história que contaram a princípio: segundo eles mesmos, só em 1905 eles conseguiram, depois de rever os problemas do primeiro aparelho, um “pratical air plane”, ou seja, um aparelho em condições operacionais. Porém, logo em seguida, também segundo eles, pararam de voar. E só voltaram a fazer em 1908, dois anos depois de Santos-Dumont, com um motor francês...

Já voltaremos ao motor. O que importa aqui é que os Wright – ver artigo exarado pela Wright Bros. Airplane Company sobre o assunto – estão confessando que não tinham um avião em 1903, pois um aparelho sem condições operacionais de vôo pode ser qualquer coisa, mas não é um avião.

O problema que eles não tinham resolvido, além do motor com potência suficiente para manter-se no ar, era o da estabilidade. Nas palavras do físico Henrique Lins de Barros, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas: “O grande problema (...) foi compreender como conseguir o equilíbrio (estabilidade) num caso em que as forças relevantes só ocorrem em movimento e quando a transformação de escala não se aplica (ou seja, o estudo de pequenos modelos pode servir de sugestão, mas jamais de solução). Neste quadro Santos-Dumont entra em cena” (Henrique Lins de Barros, “Santos-Dumont e a Invenção do Vôo). 

ESTABILIDADE  

Foi nesse momento que revelou-se o espírito científico e a impressionante cultura de Santos-Dumont, que passou em revista todas as experiências anteriores: ele sabia que mais de 100 anos antes, em 1799, Lord Caley havia construído, na Inglaterra, um aparelho “mais pesado que o ar”, isto é, um planador, com “asas para dar a força de sustentação, um leme vertical para garantir estabilidade, e um leme horizontal que produzia um torque restaurador” (Id.).

Ele também conhecia as experiências do continuador de Caley, o alemão Lilienthal, que havia realizado mais de mil vôos com planadores de sua invenção e publicado um livro sobre as bases físicas do vôo.

A estabilidade era um problema tão evidentemente importante que várias experiências anteriores com aparelhos motorizados não haviam sido consideradas bem sucedidas exatamente por serem instáveis: em 1891, Clément Ader, apresentou um aparelho motorizado que chegou a decolar, mas que foi recusado pelo exército francês; mas já em 1884, um russo, Alexander Mozhaiski, tinha partido de uma rampa com sua “máquina voadora”; e, nos EUA, em 1901, Whitehead decolou na presença de 20 pessoas. Nem por isso algum deles foi considerado o inventor do avião, pois nenhum desses aparelhos tinham estabilidade – e não tendo estabilidade eles não voam, imbicam e caem.

Os Wright, incrivelmente, não consideravam, no fim do século XIX e início do século XX, a estabilidade um problema importante: em suas experiências com planadores, consideravam a instabilidade como um componente intrínseco do vôo, exatamente como é um componente do movimento das bicicletas das quais eram fabricantes (Cf. Henrique Lins de Barros, “Santos-Dumont e a Invenção do Vôo”). Só perceberam a importância do problema quando ele os impediu de ganhar dinheiro, ou seja, quando o exército dos EUA exigiu, para comprar a sua “máquina voadora” que ela fosse estável – o que explica porque eles só queriam mostrá-la depois da venda.

Eles só conseguiram chegar a um aparelho estável depois de Santos-Dumont – ou seja, estudando as experiências do brasileiro na França, onde estiveram em 1907, quando o 14-BIS e o Demoiselle já tinham decolado para os céus.

Quanto ao motor, é evidente que há uma diferença entre Santos-Dumont e eles: o nosso compatriota propunha-se a decolar com seu avião – requisito indispensável pelos critérios da já existente Federation Aeronautique Internationale. Os Wright usavam – e usaram até 1910 – uma catapulta para colocar seu aparelho no ar. Portanto, em princípio, precisariam de um motor menos potente.

Apesar disso, todos os cálculos que a aeronáutica hoje permite mostram que é inconcebível que conseguissem manter no ar um aparelho, com aquela massa e peso, com um motor tão pouco potente: eles teriam voado com um motor que lhes dava um cavalo-vapor para cada 26,5 kg. Santos-Dumont, para decolar-se e manter-se no ar, teve que conseguir um motor que lhe fornecia um cavalo-vapor para cada 6 kg. Uma diferença estúpida.

Nada disso é “preciosismo”. O problema é simples: nem os Wright – com um aparelho sem estabilidade e com um motor mixuruca – conseguiram afirmar que em 1903 tinham um avião “prático”, isto é, operacional, em suma, um avião que voasse como um avião. Pipas também voam, assim como folhas de papel – e até pedras, desde que atiradas com suficientemente força. Mas nem pipas, nem folhas de papel, nem pedras são aviões.

Numa página memorável, o norte-americano Howard Fast escreveu que o mundo do serviçal reduz-se ao que ele pensa que é a vontade do seu senhor. Ou seja, a rigor, ele não pensa.

 

Fato auspicioso e alvissa-reiro, como já dizia alguém, é que no mesmo período em que o artigo do sr. Bonalume saiu, quase todos os jornais brasileiros publicaram boas matérias sobre Santos-Dumont e seu pioneirismo na navegação aérea motorizada – das quais destacamos uma excelente reportagem no “Jornal do Brasil”, mas também artigos saídos no “Globo” e, ainda, no provecto “Estadão”, que é reacionário, mas não é burro.

 

 

 

14 de outubro de 1947

 

 
14 de outubro de 1947

Nesta data teve início o período de caça às bruxas nos Estados Unidos conhecido como Macartismo, em referência ao senador troglodita Joseph McCartthy. Todos os americanos progressistas foram perseguidos durante quase uma década, desde os comunistas aos apoioadores do governo Roosevelt. Na área cultural foram atingidos atores, diretores e roteiristas que durante a guerra manifestam-se a favor da aliança com a União Soviética contra o nazismo. Muitos milhares de americanos foram acusados e perseguidos, tornando-se objeto de investigações agressivas. A maior parte dos investigados pertencia ao serviço público como Alger Hiss, à indústria do espetáculo como Bárbara Bel Geddes, cientistas como David Bohm, educadores, sindicalistas e até militares de alta patente. O comediante Charles Chaplin, também acusado, acabou expulso dos EUA. 

 

 

 

 

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Duas faces da mesma moeda de repressão, perseguição e censura nos EUA

 

O macartismo de Truman e o Ato (anti) Patriótico de Bush

 

O período de perseguição que atingiu os mais amplos setores da sociedade americana se tornou a mola fundamental da política interna dos EUA até hoje 

 

O macartismo foi o período (de 1947 a 53) que marcou os Estados Unidos com a mais extensiva das repressões que engolfou a sociedade norte-americana. A intenção dos seus mentores e executores era liquidar as bases da “Era Roosevelt”, na qual o país, com Franklin Delano Roosevelt na presidência, deu passos para mudanças que – apesar de iniciais – apontavam para a democratização do país no terreno econômico e político, com uma ruptura com a sociedade dominada por uma casta cuja concentração de renda e poder levou à crise desastrosa de 1929.

 

Entre os avanços da era Roosevelt se destacaram a participação na guerra contra o nazismo e a partir daí passos importantes na cooperação com a União Soviética.

 

Antes mesmo da ascensão do senador Joseph McCarthy, com a morte do então presidente Franklin Roosevelt, em 12 de abril de 1945, o seu vice, Harry Truman, que pertencia à ala direitista da Partido Democrata, assumiu a Casa Branca e já mostrou-se descolado da política progressista de seu antecessor.

 

Já em 45, com a rendição alemã, Truman suspende a cooperação com a União Soviética que garantiu a vitória sobre o nazismo e infla os poderes da Comissão de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Deputados (HUAC, sigla em inglês), que no governo Roosevelt tinha um caráter meramente temporário, já que era formada por parlamentares conservadores que se opunham ao presidente.

 

Em 47, quem passou a integrar a HUAC foi o então deputado e ex-agente do FBI, Richard Nixon, que transformou a comissão em um aparelho de repressão política de sindicalistas e perseguição de diplomatas e cientistas supostamente envolvidos em espionar o projeto atômico norte-americano. Juntamente com a ação da HUAC, o FBI, sob a tutela de Edgard Hoover, passou a acusar membros do governo Roosevelt de “comunistas infiltrados”, perseguindo, por exemplo, o subsecretário do tesouro Harry Dexter White e o acusando de conspiração.

 

Com o início da chamada Doutrina Truman como política externa de oposição aos soviéticos e que originou a Guerra Fria, essa direita recém chegada ao poder viu o canal para intensificar a perseguição de membros dentro do governo que haviam participado do administração Roosevelt e defendiam os seus princípios e idéias.

 

Para se ter uma idéia da extensão da agressão perpetrada, em 46, Truman criou a Comissão Presidencial sobre a Lealdade do Empregado cujo relatório final foi a base da Ordem Executiva 9358, que primeiramente “investigou” os antecedentes de mais de 2 milhões de funcionários federais, dos contínuos aos ministros, sem mencionar os 500 mil que se candidatavam a empregos anualmente, e afastou do governo todos os funcionários públicos que mantinham vínculo com a política de Roosevelt, medida que, posteriormente, se estendeu aos trabalhadores do setor da defesa e se tornou padrão dentro da iniciativa privada.

 

Com o exemplo dado por Truman dentro do governo a HUAC se sentiu a vontade para agir dentro da área sindical, que vivia uma época de grande agitação e que conquistava apoio público cada vez maior para suas campanhas salariais. Nesse sentido, o ano de 1946 registrou a maior onda de greves da história dos EUA, que culminou num banho de sangue praticado pelos órgãos repressivos.

 

Foi dentro deste contexto que, em 47, o Congresso, que nessa época estava nas mãos dos republicanos, aprovou a repressiva Lei Taft-Hartley, limitando a possibilidade de greve e ação sindical, afastando do sindicalismo os simpatizantes de Roosevelt e usurpando as conquistas trabalhistas adquiridas até então.

 

CAÇA ÀS BRUXAS

 

À essa época o clima de histeria de “caça às bruxas” já se consolidava com a condenação de sindicalistas e do diplomata Alger Hiss, que integrou a delegação norte-americana à Conferência de Yalta, encontro crucial para o estabelecimento da cooperação entre os EUA e a União Soviética, que foi acusado de espionagem.

 

Esse caso foi responsável pela ascensão política de Nixon dentro do Partido Republicano que, com a assistência do FBI, levou às últimas conseqüências a hipocrisia, a mentira e a manipulação para condenar Hiss. Foi a repercussão pela mídia apoiadora da cruzada macartista que permitiu a Nixon a visibilidade dentro de seu partido, o que o tornou sucessivamente senador, vice-presidente e, depois, presidente dos EUA.

 

Nessa mesma época, sob o pretexto de espionagem, o governo investiu contra cientistas da dimensão de Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer, Edward U. Condon, entre outros, que, a partir de então, foram considerados suspeitos mesmo depois de terem ajudado o país a criar o Projeto Manhattan para desenvolver bomba atômica.

 

Não somente isso, foi nesse período que num dos processos mais arbitrários da história dos EUA, Julius e Ethel Rosenberg foram condenados à morte e executados em 19 de junho de 1953. Entre as chicanas que vieram à tona, tornadas públicas a partir da Lei de Liberdade de Informação, de 75, que abriu a documentação do FBI sobre o processo, está a comprovação de que Harry Gold, principal delator que apontou o casal como espiões, era um desequilibrado mental.

 

Foi nesse clima criado pela política de perseguição de Truman e da HUAC, assim como pela ascensão republicana como maioria no Congresso que, a partir de 46, o senador MacCarthy surge da marginalidade e se torna a personalidade da “caça às bruxas” com seus discursos histriônicos e sua comissão no Senado. Sua figura ao mesmo tempo histérica e descontrolada, fez com que esse período repulsivo da história dos EUA fosse chamado, de forma imprecisa, de macartismo.

 

Sua ascensão, que durou dois anos, foi tão rápida quanto sua queda. Inflamado como porta-voz da política interna de perseguição, o senador republicano começou a extrapolar e atropelar gente importante até mesmo dentro de seu partido. O fator fundamental de sua queda foi a tentativa do senador de disputar o poder interno do Partido Republicano com o então presidente dos EUA, eleito em 52, Eisenhower, e sua iniciativa de querer acesso aos arquivos confidenciais de lealdade das instituições do exército.

 

Isso foi a gota d’água para que o partido o jogasse no ostracismo, já que ele não mais servia de forma conveniente para a política de repressão perpetuada pelo governo republicano.

 

Humilhado publicamente, McCarthy não assustava mais ninguém. Com a condenação por violação de procedimentos e comportamento inadequado, decidida pelo Senado, McCarthy desapareceu.

 

O tom de perseguição, porém, se manteve intacto e agora era personalizado pelo então vice-presidente Nixon. Mesmo com a queda de McCarthy, a forma macartista de interrogatório com delatores pagos para apontar supostos culpados, a utilização de intimidação, as listas negras que expunham as pessoas como traidores, o incentivo midiático com suas manchetes e o consentimento das entidades fascistas continuavam os mesmos. 

 

CINEMA

 

Diferente do conjunto dos jornais e meios de comunicação, onde mais de 90% do que se lia e via era propaganda pró-macartista, a indústria do cinema se tornou um dos alvos prioritários da perseguição com as listas negras elaboradas pela HUAC, que continham nomes de diretores, roteiristas, atores e diversos outros profissionais da sétima arte, expondo-os como traidores.

 

Antes mesmo de McCarthy chegar ao Senado, em 47, a HUAC já havia realizado as primeiras séries de audiências com os profissionais do cinema e criado uma suposta lista com centenas de nomes. É também nessa época que a comissão passou de temporária para permanente e teve seu orçamento anual engordado de US$ 25 mil para US$ 200 mil.

 

A perseguição em Hollywood foi a mais ampla, sistemática, devastadora, e se tornou o mais escandaloso exemplo da ação do macartismo contra um determinado setor.

 

Nesse sentido, vale frisar o papel do então ator Ronald Reagan, que além de principal delator macartista, transformou o Sindicato dos Atores em um aparelho de perseguição e difamação a serviço do FBI e dos grandes estúdios de cinema patrocinados pelos magnatas de Wall Street alinhados ao governo.

 

O porquê de fazer Hollywood um alvo macartista foi conseqüência da tendência que, após a depressão de 29, tomou as telas norte-americanas trazendo à tona a consciência social dentro de filmes e roteiros, que respaldavam a política de Roosevelt de cooperação com União Soviética para derrubar o fascismo, que apoiavam as greves acorridas na Califórnia, dentre diversas outras atitudes que passaram a incomodar o governo Truman e sua política.

 

Das centenas de nomes que integraram as listas negras da HUAC no cinema, alguns ficaram especialmente famosos. Intitulada os “Dez de Hollywood” a lista formada pelos roteiristas Alvah Bessie, Lester Cole, Ring Lardner Jr, John Howard Lawson, Albert Maltz, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, os diretores Herbert Biberman e Edward Dmytryk e o produtor Adrian Scott, foi o alvo primordial da perseguição macartista. A teatróloga Lilian Hellman, autora do roteiro de “Estrela do Norte”, sobre a invasão nazista na URSS, e seu marido, o famoso escritor Dashiell Hammet - condenado a um ano de prisão por se recusar a delatar amigos - foram outras vítimas.

 

Com a estratégia de que, munida apenas com a suposição e a delação, as acusações da comissão eram inválidas, já que nenhum deles havia cometido nenhum ato contra os EUA, e que, ao mesmo tempo, poderiam utilizar o direito assegurado pela Quinta Emenda da Constituição de não responder quando a pergunta fosse uma clara manipulação para que eles também agissem como delatores, os Dez acharam que, num primeiro momento, havia força para acabar com a arbitrariedade da HUAC.

 

Porém, após a série de interrogatórios, o plenário da Câmara aprovou, sob pressão da HUAC, a abertura de processo por desacato contra os Dez e no dia seguinte, após reunião realizada em Nova Iorque, os chefões de Hollywood também decidiram se curvar à comissão e aos ditames dos investidores de Wall Street demitindo imediatamente os Dez e assegurando se livrar de qualquer empregado que tivesse algum comportamento suspeito como, por exemplo, ter participado de uma passeata ou respaldado as decisões políticas do governo Roosevelt. 

 

Começou aí uma verdadeira devassa no cinema que, com a segunda série de interrogatórios realizada em 51-52, utilizava das chamadas listas negras - cada vez maiores e envolvendo principalmente àqueles que tinham envolvimento sindical mais forte -, para difamar as pessoas e condená-las ao desemprego. Neste cenário, a Suprema Corte condenou Dez que cumpriram pena por desacato.

 

Depois de pertencer ao Sindicato dos Atores como delator oficial, Reagan, ou T-10, como era seu codinome no FBI, comunicou ao governo que, junto com L. B. Mayer, presidente da Metro Goldwyn-Mayer, iria montar um conselho para promover uma ampla perseguição àqueles que considerava “subversivos”, como se o mesmo - segundo registro feito pelo FBI –, funcionasse como um braço da HUAC dentro da indústria. Com isso fundaram o Motion Picture Industrial Council (MPIC), que passariam a dirigir com o apoio de todos os grandes estúdios e com o auxílio de Roy Brewer, mais tarde nomeado pelo amigo, e então presidente Reagan, como funcionário de primeiro escalão de seu governo. Junto a esses estavam os conhecidos delatores e propagandistas do macartismo Elia Kazan, Sam Wood e King Vidor.

 

Muitos foram para a Europa para continuar no ramo, outros utilizaram pseudônimos para continuarem na indústria – alguns até chegaram a ganhar o Oscar e a Palma de Ouro em Cannes -, mas a maioria caiu na desgraça de ser tachado de traidor e desde que tiveram seus nomes colocados nas listas nunca mais trabalharam ou só retomaram a profissão na década de 60 e 70, como é o caso de Dalton Trumbo que, apesar de algumas tentativas, só emplacou um roteiro através de “Spartacus”, para Kirk Douglas e Stanley Kubrick, em 1960.

 

Deste modo, o macartismo não foi somente um período histórico de repressão e perseguição que pode ser considerado datado ou sobrepujado. Se tornou sim, a mola fundamental da política interna norte-americana até hoje, devido a seus desdobramentos e métodos de censura que são utilizados atualmente pelo governo Bush com o seu Ato (anti) Patriótico, que através de sua ligação com o FBI, nada mais é do que uma clara medida que cerceia as liberdades civis de cidadãos e imigrantes. Nesse intervalo histórico temos Nixon e Reagan, dois personagens principais na elaboração e execução das práticas macartistas que se elegeram e reelegeram sucessivamente na presidência do país, contribuindo, não somente para liquidar a “Era Roosevelt” de desenvolvimento e cooperação, mas para mergulhar os EUA na decadência monopolista que norteia a política do governo norte-americano até os dias atuais.

 

RICARDO FERNANDES   

 

 

 

 

13 de outubro de 1905

13 de outubro de 1905

Nesta data foram criados os Conselhos Operários Russos, conhecidos em todo o mundo como Sovietes. A Rússia viveu no início do século XX três grandes movimentos revolucionários: A Revolução de 1905; a Revolução de Fevereiro de 1917 e a Revolução Socialista de Outubro de 1917. Em todas elas a organização dos sovietes e sua ação política foi fundamental. Na implantação do socialismo, a partir de outubro de 1917, o poder político passou das ineficientes e corruptas assembléias legilsativas burguesas para os dinâmicos e resolutivos Sovietes de trabalhadores, soldados e camponeses.  

 

A REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA

 

Em 1905 a Rússia conheceu sua primeira grande revolução; país atrasado economicamente, lançou-se em uma aventura militar contra o Japão, numa disputa neocolonialista pela região da Mandchúria, agravando a precária situação da população tanto do campo como das cidades.

 

Desde janeiro de 1905 as manifestações sociais se multiplicaram: marchas, greves e motins militares que, mesmo violentamente reprimidos serviram para dar maior organização aos trabalhadores, e garantiram algumas conquistas políticas, de caráter liberal. No entanto, podemos considerar que a maior vitória popular foi sua auto-organização política, independente, classista: os sovietes.

 

 

Os sovietes eram conselhos formados por operários e soldados, eleitos nas fábricas e nos regimentos militares, excluída a participação dos burgueses e oficiais. Como representantes dos trabalhadores da capital, São Petersburgo, foram responsáveis por conduzir a luta contra a autocracia czarista, reivindicando melhores condições de vida e de trabalho, direito de greve, reforma agrária e a formação de uma Assembléia Nacional. Na prática os sovietes constituíram-se como um "poder paralelo" e representaram um grande salto no processo de organização e conscientização política da classe operária.

 

O refluxo do movimento, a partir das conquistas obtidas, fez com que os líderes dos sovietes fossem forçados ao exílio ou presos pelo czar.

 

A REVOLUÇÃO BURGUESA - fevereiro de 17

 

A revolução de fevereiro foi reflexo da participação da Rússia na 1° Guerra Mundial. A Rússia tentava aliar o desenvolvimento industrial à manutenção da estrutura absolutista de poder. A industrialização russa, tardia, não deveu-se à ascensão da burguesia ao poder, como ocorreu em outros países, foi fruto da abertura do país ao capital estrangeiro, em especial inglês e francês, fato que explica a participação do país na grande guerra: a mentalidade imperialista e expansionista em busca de mercados e a dependência frente ao capitalismo dessas duas potências.

 

 

A derrubado do czarismo e a formação de um governo provisório, representou a ascensão da burguesia ao poder, porém não representou apenas uma substituição de governantes, pois somente foi possível a partir da organização e mobilização de trabalhadores e soldados, organizados novamente nos sovietes.

 

No início de 1917, a situação era de tamanha gravidade que as greves se multiplicavam e os soldados que abandonavam as frentes de batalha retornavam à cidade e organizavam-se contra o governo. Em fevereiro, o potencial revolucionário das massas seria canalizado por líderes burgueses contra o absolutismo e a favor de reformas.

 

A REVOLUÇÃO SOCIALISTA - outubro de 17

 

"Todo poder aos Sovietes". Essa tornou-se a palavra de ordem dos Bolcheviques a partir de junho de 17, em oposição ao governo provisório, que manteve a Rússia na guerra.

 

Reivindicar o poder para os sovietes seria a forma de iniciar a construção de uma sociedade socialista, mas antes de tudo, serviu para demonstrar a política traidora do Partido Menchevique e do Partido Socialista Revolucionário - que apoiavam o governo provisório - e ao mesmo tempo estavam em maioria nos sovietes. Nesse sentido a palavra de ordem significava: "Governem em nome dos trabalhadores e não aliados com a burguesia". Os partidos que se diziam socialistas começavam a ser desmascarados e o Partido Bolchevique passaria a ser a principal referência política para os trabalhadores.

 

 

 

 

 

11 de outubro de 1963 

 

  

 

Nesta data as Nações Unidas condenam o apartheid, regime de segregação racial na África do Sul, por 106 votos a um. Com essa decisão o mundo deixa claro que não quer conviver com nenhum tipo de discriminação racial. A luta contra o racismo na África do Sul foi liderada pelo CNA (Congresso Nacional Africano) que tinha entre seus líderes Steve Biko e Nelson Mandela. 

 

 

 

 

 

8 de outubro de 1967

 

 
8 de outubro de 1967

Nesta data Che Guevara caiu em combate na Bolívia. No dia seguinte ele foi assassinado pelo sargento Mario Terán, por ordem da CIA. Félix Rodriguez era o agente responsável pela operação. O plano inicial era levar Che para a base militar estadunidense no Panamá, onde seria interrogado. Decidido o assassinato, eles montaram uma farsa para que Che parecesse ter sido morto em uma troca de tiros. Por isso o sargento Terán atirou do pescoço para baixo, para passar a impressão de que não houvera a execução de um prisioneiro sem o devido processo legal, contrariando as regras internacionais de tratamento dos presos em combate. Não apenas Che, mas todos os outros prisioneiros foram assassinados friamente.

 

 

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Quase todos os que participaram do assassinato de Che Guevara tiveram fim trágico e estão lançados na lata de lixo da história. Alguns exemplos:

 

General René Barrientos Antuño, presidente da Bolívia na época e um dos que decidiram pela execução de Guevara: morreu carbonizado num acidente de helicóptero em abril de 1969. As circunstâncias do ocorrido nunca foram completamente esclarecidas

Major Andrés Selich, chefe dos rangers que capturaram Che e um dos últimos a falar com ele em La Higuera: morreu sob tortura em 1973, durante a ditadura do general boliviano Carlos Hugo Bánzer

General Juan José Torres, chefe do Estado-Maior do Exército e um dos que decidiram a morte de Che: foi assassinado na Argentina em fevereiro de 1976, durante a “guerra suja”

Coronel Joaquín Zenteno Anaya, comandante da zona militar onde ocorreu o assassinato de Che: morreu vítima de um atentado fatal em Paris. Quem assumiu o assassinato foi a desconhecida “Brigada Internacional Che Guevara”

Coronel Toto Quintanilla, um dos principais chefes da polícia política na Bolívia durante o governo Barrientos: após a execução de Guevara, preocupado com possíveis atentados, pediu para ir para a Alemanha, onde trabalhou como cônsul em Hamburgo. Foi assassinado em novembro de 1970, num atentado assumido pelo Exército de Libertação Nacional (ELN), grupo peruano revolucionário criado e dirigido por Hector Bejar e Juan Pablo Chang, este morto com Che na guerrilha

General Gary Prado, prendeu Che Guevara: em 1981, foi baleado numa reunião de militares e ficou paraplégico.

Honorato Rojas, o agricultor que havia delatado o grupo de Joaquin e preparado a emboscada em 31 de agosto (que acabou com a morte de nove guerrilheiros): foi encontrado e executado em 14 de julho de 1969, pelo ELN.

 

 

 

Alberto Granado, amigo de Che Guevara:

 

“O Che hoje, com certeza, seria amigo

de Chávez, de Lula, Evo e Rafael Correa”

 

“Ernesto foi, é e continuará sendo um exemplo a seguir.  Recebo este aniversário de sua morte com a tristeza de não o ter ao lado, e com a alegria de que está cada dia mais vivo na memória coletiva”, afirmou Alberto Granado, grande amigo do Che, com quem viajou junto pela América do Sul em 1951, aventura imortalizada no filme “Diários de Motocicleta”, do diretor brasileiro Walter Salles.

 

Em entrevista ao jornal argentino El Clarín, Granado, aos 85 anos, demonstra boa saúde e entusiasmo. Conta sobre a “Poderosa”, apelido da moto que usaram para percorrer lugares que marcaram a vida dos dois, e sobre a situação social em que viviam os povos do Chile, do Peru e da Venezuela. Revelou, rindo, que o médico lhe recomendou evitar beber rum. “Mas não lhe faço muito caso”, reconheceu.

 

Depois da viagem com o Che, instalou-se na Venezuela, onde trabalhava como bioquímico e ajudava no leprosário de Cabo Blanco. Ao triunfar a revolução cubana, se mudou para a Ilha, convidado pelo amigo.  

 

À pergunta de “onde estaria agora o Che? O que estaria fazendo? O que é que pensaria da situação política atual?”, respondeu sem duvidar: “Ernesto estaria lutando contra o imperialismo, onde quer que ele estivesse”.

 

Continuando o jogo de suposições, o jornalista questionou: “Com que olhos acredita que o Che observaria o mapa político na América do Sul?”. “Acho que cai de maduro. Não é a mesma América Latina de antes, quando estava governada por ditadores impostos pela CIA. Hoje o Che com certeza seria amigo de Chávez, de Lula, Evo e de Correa. E de todos os que estejam trabalhando contra o imperialismo”, afirmou.

 

Disse ainda que “Cuba está linda” e que acabou de chegar da Itália, onde proferiu uma série de conferências sobre o Che.

 

Sobre a morte do Che, Granado lembrou que “estava em Santiago de Cuba dando aulas de bioquímica na escola de medicina. Quando o assassinaram mandaram me chamar urgente desde Havana para identificar as fotografias de seu corpo. Desgraçadamente era verdade. Fui para minha casa, disse que queria estar sozinho. E queria estar sozinho. Pedi que me conseguissem uma passagem para voltar para Santiago. Isso foi o que senti. Depois percebi que tinha que seguir em frente e trabalhar para que as idéias do Che se mantivessem, como aconteceu até agora”.

 

 

 

 

 

Marxismo e revisionismo, na visão de Che Guevara

 

Carta do comandante Ernesto Che Guevara a Armando Hart Dávalos, escrita em 4 de dezembro de 1965. Armando Hart foi ministro da Educação (1960–1965) e ministro da Cultura (1976–1997), atualmente é membro do Conselho de Estado da República de Cuba

 

Meu querido Secretário:

 

Felicito-te pela oportunidade que te deram de ser Deus; tens 6 dias para isso. Antes de que termines e te sentes a descansar (…), quero te expor algumas ideiazinhas sobre a cultura de nossa vanguarda e de nosso povo em geral.

 

Neste longo período de férias meti o nariz na filosofia, coisa que faz tempo pensava fazer. Encontrei-me com a primeira dificuldade: em Cuba não há nada publicado, se excluímos os tijolos soviéticos que têm o inconveniente de não te deixar pensar; já que o partido o fez por você e você deve digerir. Como método, é o mais antimarxista, mas além disso costumam ser muito ruins. A segunda, e não menos importante, foi meu desconhecimento da linguagem filosófica (tenho lutado duramente com o professor Hegel e no primeiro round me deu duas quedas). Por isso fiz um plano de estudo para mim que, acredito, pode ser estudado e melhorado muito para constituir a base de uma verdadeira escola de pensamento; já fizemos muito, mas algum dia teremos também que pensar. O meu plano é de leituras, naturalmente, mas pode se adaptar a publicações sérias da editora política.

 

Se você der uma olhada em suas publicações poderá ver a profusão de autores soviéticos e franceses que tem.

 

Isso se deve à comodidade na obtenção de traduções e ao seguidismo ideológico. Assim não se dá cultura marxista ao povo, no máximo divulgação marxista, o que é necessário, se a divulgação é boa (não é este o caso), mas insuficiente.

 

Meu plano é este:

 

I. Clássicos filosóficos

 

II. Grandes dialéticos e materialistas

 

III. Filósofos modernos

 

IV. Clássicos da Economia e precursores

 

V. Marx e o pensamento marxista

 

VI. Construção socialista

 

VII. Heterodoxos e Capitalistas

 

VIII. Polêmicas

 

Cada série tem independência com relação à outra e poderia se desenvolver assim:

 

I. Tomam-se os clássicos conhecidos já traduzidos ao espanhol, acrescentando-se um estudo preliminar sério de um filósofo, marxista se for possível, e um amplo vocabulário explicativo. Simultaneamente, se publica um dicionário de termos filosóficos e alguma história da filosofia. Tal vez pudesse ser Dennyk e a de Hegel. A publicação poderia seguir certa ordem cronológica seletiva, quer dizer, começar por um livro ou dois dos maiores pensadores e desenvolver a série até concluí-la na época moderna, retornando ao passado com outros filósofos menos importantes e aumentando volumes dos mais representativos, etc.

 

II. Aqui se pode seguir o mesmo método geral, fazendo compilações de alguns antigos (há tempo li um estudo em que estavam Demócrito, Heráclito e Leucipo, feito na Argentina).

 

III.  Aqui se publicariam os mais representativos filósofos modernos, acompanhados de estudos sérios e minuciosos de gente entendida (não precisa ser cubana) com a correspondente crítica quando representem os pontos de vista idealistas.

 

V.  Está se realizando já, mas sem nenhuma ordem e faltam obras fundamentais de Marx. Aqui seria necessário publicar as obras completas de Marx e Engels, Lenin, Stalin e outros grandes marxistas. Ninguém leu nada de Rosa Luxemburgo, por exemplo, que cometeu erros em sua crítica de Marx (tomo III) mas morreu assassinada, e o instinto do imperialismo é superior ao nosso nestes aspectos. Faltam também pensadores marxistas que depois saíram dos trilhos, como Kautsky e Hilferding que fizeram aportes e muitos marxistas contemporâneos, não totalmente escolásticos.

 

VI. Construção socialista. Livros que tratem de problemas concretos, não só dos atuais governantes, mas do passado, fazendo pesquisas sérias sobre os aportes de filósofos e, sobretudo, economistas ou estadistas.

 

VII. Aqui viriam os grandes revisionistas (se quiserem podem pôr Kruschev), bem analisados, mais profundamente que nenhum outro, e devia estar teu amigo Trotsky, que existiu e escreveu, ao que parece. Ademais, grandes teóricos do capitalismo como Marshall, Keynes, Schumpeter, etc. Também analisados a fundo com a explicação dos porquês.

 

VIII. Como seu nome o indica, este é o mais polêmico, mas o pensamento marxista avançou assim. Proudhon escreveu Filosofia da miséria e se sabe que existe pela Miséria da filosofia. Uma edição crítica pode ajudar a compreender a época e o próprio desenvolvimento de Marx, que não estava completo ainda. Estão Robertus e Dürhing nessa época e depois os revisionistas e os grandes polemistas dos anos 20 na URSS, provavelmente os mais importantes para nós.

 

Agora vejo que me escapou um, motivo pelo qual mudou a ordem (estou escrevendo voando).

 

Seria o IV, Clássicos da economia e precursores, onde estariam desde Adam Smith, os fisiocratas, etc.

 

É um trabalho gigantesco, mas Cuba o merece e acredito que poderias tentar. Não te canso mais com este blá-blá-blá. Escrevi a você porque meu conhecimento dos atuais responsáveis da orientação ideológica é pobre e, talvez, não fosse prudente fazê-lo por outras considerações (não só a do seguidismo, que também conta).

 

Bem, ilustre colega de lides filosóficas, te desejo sucesso.

 

Espero que nos vejamos no sétimo dia. Um abraço aos abraçáveis, me incluindo de passagem à tua cara e belicosa amizade.

 

Ernesto “Che” Guevara

 

04/12/1965

 

5 de outubro de 1988

 

 
5 de outubro de 1988

Nesta data foi promulgada a Constituição Cidadã, por Ulisses Guimarães. A Carta de 1988 foi o desfecho da luta de muitos patriotas que deram a vida pela democracia e a soberania nacional. A nova Constituição apontou o caminho para que o Brasil possa completar a obra de independência iniciada por Tiradentes e desenvolvida por Getúlio Vargas. "A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a Federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão. E só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. Num país de 30 milhões 401 analfabetos, afrontosos 25% da população, cabe advertir: a cidadania começa com o alfabeto". disse o saudoso deputado.

 

 

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Assim o presidente da Assembléia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, referiu-se à atual Constituição brasileira, no início do discurso proferido por ocasião da promulgação da Carta, em 5 de outubro de 1988.
Realizada no Plenário da Câmara dos Deputados, a cerimônia foi acompanhada pelo presidente da República, José Sarney; pelo presidente do Congresso Nacional, Humberto Lucena; pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Rafael Mayer; pelos membros da Mesa da Assembléia Nacional Constituinte e pelo seu relator-geral, Bernardo Cabral.
Participaram da cerimônia ainda chefes do Legislativo de outros países, embaixadores, ministros, governadores de estado, presidentes de Assembléias Legislativas, líderes partidários, autoridades civis, militares e religiosas, como o cardeal arcebispo de Brasília, dom José Freire Falcão, e o presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Luciano Mendes de Almeida.
Democracia
- A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca - disse Ulysses, no discurso.
Em outro trecho do documento tornado célebre, Ulysses também destacou a luta dos defensores da democracia contra o regime militar que se havia vigorado no país (1964-1985).
- A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia. Quando, após tantos anos de luta e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina - afirmou.
No discurso, Ulysses também enfatizou o trabalho da Assembléia Nacional Constituinte na análise das mais diversas matérias para a elaboração da Carta de 1988.
- O enorme esforço é dimensionado pelas 61.200 emendas, além de 122 emendas populares, algumas com mais de um milhão de assinaturas, que foram apresentadas, publicadas, distribuídas, relatadas e votadas, no longo trajeto das subcomissões à redação final - disse.
Participação
Ao destacar a participação popular na Constituinte, Ulysses assinalou que diariamente cerca de "10 mil postulantes franquearam livremente as 11 entradas do enorme complexo arquitetônico do Parlamento, na procura dos gabinetes, comissões, galeria e salões".
- Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiros, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a vigorar. Como caramujo, guardará para sempre o bramido das ondas de sofrimento, esperança e reivindicações de onde proveio - afirmou.
Ulysses destacou ainda o papel reservado aos estados e municípios pela nova Constituição. Segundo ele, a Carta reabilitou a Federação ao alocar recursos ponderáveis às unidades regionais e locais, bem como ao arbitrar competência para lastrear-lhes a independência financeira.
- As necessidades básicas do homem estão nos estados e nos municípios. Neles deve estar o dinheiro para atendê-las. A Federação é a governabilidade. A governabilidade da Nação passa pela governabilidade dos estados e dos municípios - disse.
Ulysses também explicou que a nova Constituição previa a iniciativa popular na apresentação de leis, como forma de ordenar o avanço no campo das necessidades sociais e a fiscalização da administração pública.
- O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador, habilitado a rejeitar, pelo referendo, projetos aprovados pelo Parlamento. A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos cidadãos. A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam - afirmou.
Conquistas
Antes de encerrar seu discurso, Ulysses Guimarães destacou algumas conquistas obtidas com a Constituição de 1988.
Com a vigência da nova Carta, segundo ele, os cidadãos são poderosos e vigilantes agentes da fiscalização, que poderá ser exercida por meio do mandado de segurança coletivo; do direito de receber informações dos órgãos públicos; da prerrogativa de petição aos Poderes públicos, em defesa de direitos contra ilegalidade ou abuso de poder; da obtenção de certidões para defesa de direitos; e da ação popular, que pode ser proposta por qualquer cidadão, para anular ato lesivo ao patrimônio público, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, isento de custas judiciais.
Ulysses destacou ainda que a Constituição de 1988 assegura a fiscalização das contas municipais pelos contribuintes, que podem peticionar, reclamar, representar ou apresentar queixas junto às comissões das Casas do Congresso Nacional. Ressaltou ainda que qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato são partes legítimas para denunciar irregularidades ou ilegalidades perante o Tribunal de Contas da União, estados ou municípios.

 

 

3 de outubro de 1953

 

 
3 de outubro de 1953

Nesta data é criada pelo presidente Getúlio Vargas a Petrobrás, depois de uma luta histórica em defesa da soberania nacional e em defesa do petróleo brasileiro. A campanha "O Petróleo é Nosso" levou milhões de brasileiros às ruas para defender o Brasilk contra a ganância das multinacionais do petróleo comandadas pelo Standart Oil americana e a Shell, anglo holandesa. A criação da Petrobrás e instituição do monopólio estatal do petróleo foram decisivas para que o BRasil consolidasse seu processo de industrialização.      

 

"O Congresso acaba de consubstanciar em lei o plano governamental para a exploração do nosso petróleo. A Petrobrás assegurará não só o desenvolvimento da indústria petrolífera nacional, como contribuirá decisivamente para limitar a evasão de nossas divisas. Constituida com capital, técnica e trabalho exclusivamente brasileiros, a Petrobrás resulta de uma firme política nacionalista no terreno econômico, já consagrada por outros arrojados empreendimentos cuja visibilidade sempre confiei".
                                                                                                                                                                        Getúlio Vargas

 

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Um ano depois da criação da Petrobrás o cartel das sete irmãs está envolvido nas atividades golpístas para derubar Getúlio Vargas. Seu suicídio em agosto de 1954, mobiliza a população que, consciente da ação do imperialismo, impede a concretrização do golpe    

 

 

A  Carta Testamento do Presidente Getúlio Vargas!

 

    "Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

    Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

 

    Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

 

    Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

 

    Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

 

    E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História." (Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

 

 

 

23 de setembro de 1966

 

 
23 de setembro de 1966

Nesta data as forças policiais do regime militar espancaram cruelmente os jovens estudantes que haviam se abrigado no antigo prédio da Faculdade Nacional de Medicina, no campus da Praia Vermelha, e depredaram suas instalações.Esse episódio, que ficou conhecido como o "Massacre da Praia Vermelha", prenunciará outros ainda mais graves contra os que, naqueles anos sombrios - mas apesar disso, plenos de esperanças -, ousaram se rebelar em defesa da autonomia da universidade e em favor de uma sociedade e uma nação solidárias.

 

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Contexto de arbitrariedades

 

A invasão do prédio da Faculdade de Medicina, no dia 23 de setembro de 1966, pelas forças da ditadura, resultou na agressão a seiscentos estudantes e na depredação de patrimônio público. Foi um capítulo exemplar do vigor e da importância do movimento estudantil. Além das muito conhecidas e fartamente documentadas arbitrariedades perpetradas pela ditadura, como a censura e tortura, um fator que agitava a academia, em meados dos anos sessenta, era a iminente reforma universitária.

 

A modernização da universidade brasileira era uma necessidade. "O governo alegava também que o aperfeiçoamento não deveria ser feito num clima de total liberdade de expressão devido à enorme influência marxista no meio universitário, que resultava no engajamento "subversivo" contra qualquer influência americana", relata Antônio Paes de Carvalho, à época professor de Biofísica. Havia ainda embates pela ampliação da representação discente nos colegiados, pela autonomia universitária e pelo fim da cobrança de anuidades (estabelecida pela Lei Suplicy de Lacerda).

 

Almir Fraga, decano do Centro de Ciências da Saúde - na ocasião, matriculado no sexto período do curso de Medicina - chegou às instalações da Faculdade Nacional de Medicina, no campus da Praia Vermelha, no início da tarde. "Eu era favorável ao movimento, mas não fazia parte das lideranças. No meio da tarde, começou a haver o cerco da PM, com a orientação de que se esvaziasse o prédio, e de que a ocupação era proibida", acrescenta.

 

De madrugada, entre 2h e 3h, os policiais invadiram o prédio. "A maior parte das pessoas foi autorizada a sair e teve de passar por um %2orredor polonês'. De vez em quando davam uma borrachada em um (os cacetetes eram de borracha). Fui para a casa e somente soube das reais conseqüências da invasão depois, pelo noticiário", descreve o decano.

 

O dia ficou marcado como o Massacre da Praia Vermelha e deve ser lembrado como um "evento símbolo que evidencia a importância do movimento estudantil na luta pela democracia e pela autonomia universitária", defende Almir Fraga. Antônio Paes de Carvalho partilha da mesma idéia e ressalta os "atos de bravura (por vezes impensada) de uma juventude acostumada a respirar liberdade e que se via subitamente sufocada". (Colaborou Bruno Fanco, do Jornal da UFRJ)

 

 

 

 

20 de setembro de 1929

 

 
20 de setembro de 1929

Nesta data foi foi lançada, em convenção realizada no Rio de Janeiro, a Aliança Liberal que homologou a chapa Vargas-Pessoa e sua plataforma eleitoral. O programa da Frente estabelecia como essencial a reforma política do país com a representação popular através do voto secreto, a Justiça Eleitoral, a independência do Judiciário, a anistia para os revolucionários de 1922, 1924 e 1925-27, e a adoção de medidas econômicas protecionistas para produtos de exportação além do café. Preconizava, ainda, medidas para garantir a industrialização do país e a proteção aos trabalhadores, como a extensão do direito à aposentadoria, a aplicação da lei de férias e a regulamentação do trabalho do menor e da mulher.

 

 

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Ainda em 1929, uma corrente mais radical da Aliança Liberal, formada por políticos jovens como João Neves da Fontoura, Oswaldo Aranha e Virgílio de Melo Franco, passou a admitir a hipótese de desencadear um movimento armado em caso de derrota nas urnas. Como primeiro passo, buscaram a colaboração dos tenentes, levando em conta seu passado revolucionário e seu prestígio no interior do Exército. Essas negociações se deram com grande dificuldade devido a desconfianças recíprocas. Na Aliança Liberal, estavam alguns dos principais adversários dos "tenentes", notadamente Artur Bernardes, Epitácio Pessoa e João Pessoa.

 

Pouco seguro em relação ao seu futuro, Vargas estabeleceu um acordo político com Washington Luís em que ficou acertado que, em caso de derrota, o candidato oposicionista aceitaria o resultado e passaria a apoiar o governo constituído. Em compensação, o governo federal se comprometia a não apoiar a oposição gaúcha e a reconhecer a vitória dos candidatos vinculados à Aliança Liberal nas eleições para a Câmara dos Deputados. Vargas restringiria sua participação pessoal na campanha ao Rio Grande do Sul.

 

Com a radicalização da campanha, o acordo acabou sendo rompido. A maioria governista na Câmara dos Deputados decidiu não dar quorum às sessões parlamentares, impedindo assim a manifestação dos deputados aliancistas. Em janeiro de 1930, Vargas viajou para o Rio de Janeiro, e na capital federal promoveu um grande comício na esplanada do Castelo. Estendeu sua viagem a São Paulo e Santos, onde foi recebido com demonstrações populares de apoio.

 

O resultado do pleito de 1º de março de 1930 deu a vitória a Júlio Prestes e Vital Soares, eleitos com 57,7% dos votos. A fraude, dominante na época, verificou-se dos dois lados.

 

Em 19 de março de 1930, Borges de Medeiros, líder do PRR, reconheceu a vitória de Júlio Prestes, dando por encerrada a campanha da oposição. No entanto, as articulações dos oposicionistas prosseguiram, vindo a resultar, no mês de outubro, na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder.

 

 

 

18 de setembro de 1941

 

 
18 de setembro de 1941

Nesta data foi criada no Rio de Janeiro a Atlântida Empresa Cinematográfica Brasileira. O objetivo era bem definido: promover o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro. Liderando um grupo de aficcionados, entre os quais o jornalista Alinor Azevedo, o fotógrafo Edgar Brazil, e Arnaldo Farias, Fenelon e Burle prometiam fazer a necessária união de um cinema artístico com o cinema popular.

 

 

 

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Em 18 de setembro de 1941, Moacir Fenelon e José Carlos Burle fundam aAtlântida Cinematográfica com um objetivo bem definido: promover o desenvolvimento industrial do cinema brasileiro. Liderando um grupo de aficcionados, entre os quais o jornalista Alinor Azevedo, o fotógrafo Edgar Brazil, e Arnaldo Farias, Fenelon e Burle prometiam fazer a necessária união de um cinema artístico com o cinema popular.

Durante quase dois anos são produzidos somente cinejornais, o primeiro deles, o Atualidades Atlântida. Da experiência adquirida com os cinejornais vem o primeiro longa-metragem, um documentário-reportagem sobre o IV Congresso Eucarístico Nacional, em São Paulo, em 1942. Junto, como complemento, o média-metragem Astros em Desfile, uma espécie de parada musical filmada com artistas famosos da época, antecipando o caminho que a Atlântidapercorreria mais tarde.

Em 1943 acontece o primeiro grande sucesso da AtlântidaMoleque Tião. Dirigido por José Carlos Burle, com Grande Otelo no papel principal e inspirado em dados biográficos do próprio ator. Hoje não existe sequer uma cópia do filme que, segundo a crítica, abria caminho para um cinema voltado às questões sociais ao invés de um cinema preocupado em divulgar apenas números musicais.De 1943 a 1947 a Atlântida consolida-se como a maior produtora brasileira. Nesse período são produzidos 12 filmes, destacando-seGente Honesta, de 1944, direção de Moacir Fenelon, com Oscarito no elenco, eTristezas Não Pagam Dívidas, também de 1944, dirigido por José Carlos Burle.

No filme Oscarito e Grande Otelo atuam juntos pela primeira vez, mas sem ainda formar a famosa dupla. O ano de 1945 marca a estréia na Atlântida de Watson Macedo, que se transformaria num dos grandes diretores da companhia. Macedo dirige o filme Não Adianta Chorar, uma série de esquetes humorísticos entremeados com números musicais carnavalescos. No elenco Oscarito, Grande Otelo, Catalano, e outros comediantes do rádio e do teatro.Em 1946 outro destaque: Gol da Vitória, de José Carlos Burle, com Grande Otelo no papel do craque Laurindo. Produção bastante popular sobre o mundo do futebol, lembrando em muitas cenas o célebre Leônidas da Silva (o "diamante negro"), o melhor jogar da época.

Ainda em 1946, Watson Macedo faz a comédia musical Segura Essa Mulher , com Grande Otelo e Mesquitinha. Grande sucesso, inclusive na Argentina.O filme seguinte, Este Mundo é um Pandeiro, de 1947, é fundamental para se entender as comédias da Atlântida, também conhecidas como chanchada. Nele, Watson Macedo delineava com grande precisão alguns detalhes que as chanchadas assumiriam mais tarde: a paródia à cultura estrangeira, em especial ao cinema feito em Hollywood, e uma certa preocupação em expor as mazelas da vida pública e social do país. Uma sequência antológica de Este Mundo é um Pandeiro mostra Oscarito travestido de Rita Hayworth parodiando uma cena do filme "Gilda", e em outras cenas alguns personagens criticam o fechamento dos cassinos. Dessa primeira fase da Atlântida resta apenas a comédia Fantasma por Acaso, de Moacir Fenelon. Os outros filmes perderam-se num incêndio nas instalações da empresa, em 1952.

Em 1947 ocorre a grande virada na história da Atlântida. Luiz Severiano Ribeiro Jr. torna-se sócio-majoritário da empresa, integrando-se a um mercado que já dominava nos setores de distribuição e exibição. A partir daí, a Atlântidaconsolida suas comédias populares e a chanchada transforma-se na marca registrada da companhia.A entrada de Luiz Severiano Ribeiro Jr. na Atlântidaassegura, de imediato, maior penetração dos filmes junto ao grande público, definindo os parâmetros do sucesso da produtora. Controlando todas as fases do processo (produção, distribuição, exibição) e favorecido pela ampliação da reserva de mercado de um para três filmes, o esquema montado por Luiz Severiano Ribeiro Jr., que possuía também um laboratório para processamento dos filmes, considerado um dos mais modernos do país, representa uma experiência inédita na produção cinematográfica voltada exclusivamente para o mercado.Estava aberto o caminho para a chanchada.

O ano de 1949 marca definitivamente a forma em que o gênero atingiria o clímax e atravessaria toda a década de 50.Watson Macedo já demonstra emCarnaval no Fogo um perfeito domínio dos signos da chanchada, misturando habilmente os tradicionais elementos do "showbusiness" e do romance, com uma intriga policial envolvendo a clássica situação de troca de identidade.Mas paralelo às chanchadas, a Atlântida envereda pelos chamados filmes sérios.

O melodrama Luz dos meus Olhos, de 1947, dirigido por José Carlos Burle, abordando problemas raciais, não faz sucesso de público, mas é premiado pela crítica como melhor filme do ano.Adaptada do romance "Elza e Helena", de Gastão Cruls, Watson Macedo realiza A Sombra da Outra e recebe o prêmio de melhor diretor de 1950.Antes de sair da Atlântida e fundar sua própria produtora, Watson Macedo faz mais dois musicais para a empresa: Aviso aos Navegantes, em 1950, e Aí Vem o Barão, em 1951, consolidando a dupla Oscarito e Grande Otelo, verdadeiro fenômeno de bilheteria para o cinema brasileiro.

Em 1952 José Carlos Burle realiza Carnaval Atlântida, espécie de filme-manifesto, associando definitivamente a Atlântida ao carnaval, e abordando com humor o imperialismo cultural, tema quase sempre presente em seus filmes, e Barnabé, Tu És Meu, parodiando os antigos contos das "Mil e uma Noites"Ainda em 1952, a Atlântida ruma pelo "thriller" romântico-policial. O filme é Amei um Bicheiro, dirigido pela dupla Jorge Ileli e Paulo Wanderley. Um dos mais importantes filmes produzidos pela Atlântida, Amei um Bicheiro, embora não seguisse os esquema das chanchadas, trazia no elenco basicamente os mesmos atores desse tipo de comédia, inclusive Grande Otelo num notável desempenho dramático.

Mas a Atlântida se renova. Em 1953 um jovem diretor, Carlos Manga, faz seu primeiro filme. Em A Dupla do Barulho, Manga, que havia passado por todos os setores da Atlântida antes de estrear na direção, mostra já saber dominar os principais elementos narrativos do cinema feito em Hollywood. E é justamente essa identificação com o cinema norte-americano que marca esteticamente a dependência do cinema brasileiro com a indústria de Hollywood, num conflito sempre presente nos filmes da década de 50.

Depois da bem-sucedida estréia, Carlos Manga realiza, em 1954, Nem Sansão Nem Dalila Matar ou Correr, duas comédias modelos na utilização da linguagem da chanchada que superavam a gargalhada banal.Nem Sansão Nem Dalila, paródia à super-produção hollywoodiana "Sansão e Dalila", de Cecil B. de Mille, e uma dos melhores exemplos de comédia brasileira de caráter político, satiriza as manobras para um golpe populista e as tentativas de neutralizá-lo. Qualquer semelhança com o governo do Presidente Getúlio Vargas não é mera coincidência.


Matar ou Correr é um delicioso faroeste tropical parodiando o clássico "Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann. Destaque mais uma vez para a dupla Oscarito e Grande Otelo, e para a competente cenografia de Cajado Filho.Essas duas comédias firmam definitivamente o nome de Carlos Manga, mantendo como pontos de apoio o humor de Oscarito e Grande Otelo e os argumentos sempre criativos de Cajado Filho.

Oscarito, desde 1954 sem a parceria com Grande Otelo, continua demostrando seu talento em sequências memoráveis como nos filmes O Golpe, de 1955,Vamos com Calma Papai Fanfarão, ambos de 1956, Colégio de Brotos, de 1957, De Vento em Popa, também de 1957, em que Oscarito faz uma hilariante imitação do ídolo do "rock" Elvis Presley. Em 1958, Oscarito vive o personagem Filismino Tinoco, protótipo de funcionário público padrão, na comédia Esse Milhão é Meu, e em outra sensacional paródia, Os Dois Ladrões, de 1960, imita os trejeitos de Eva Todor em frente ao espelho, numa clara referência ao filme "Hotel da Fuzarca", com os Irmãos Marx.De todos os filmes dirigidos por Carlos Manga na AtlântidaO Homem do Sputnik, de 1959, talvez seja o que melhor sintetize (mesmo sem números musicais) o espírito irreverente da chanchada.

Divertida comédia sobre a "guerra-fria", O Homem do Sputnik faz uma contundente crítica ao imperialismo norte-americano e é considerado pelos especialistas os melhor filme produzido pela Atlântida. Além da impagável atuação de Oscarito, temos a exuberância da novata Norma Bengel e Jô Soares em seu primeiro papel no cinema.

Em 1962, a Atlântida produz seu último filme, Os Apavorados, de Ismar Porto. Depois associa-se a várias companhias nacionais e estrangeiras em co-produções. Em 1974, em conjunto com Carlos Manga, realiza Assim Era a Atlântida, coletânea contendo trechos dos principais filmes produzidos pela empresa.De 1941 a 1962 a Atlântida produz 66 filmes.

Quando se fala em Atlântida nos vem logo à lembrança o humor irreverente de Oscarito e Grande Otelo, os galãs Cyll Farney, Anselmo Duarte, as "mocinhas" Eliana, Fada Santoro, Adelaide Chiozzo, os "vilões" José Lewgoy, Renato Restier, os diretores Moacir Fenelon, José Carlos Burle, Watson Macedo, e Carlos Manga, que entre outros, encantaram o público durante tantos anos.

 

 

 

14 de setembro de 1812

 

 
14 de setembro de 1812

Nesta data Napoleão Bonaparte entrou em Moscovo, depois de o exército russo, liderado pelo general Mikhail Kutuzov, ter aplicado genialmente uma tática de recuos sistemáticos até atrair os franceses para uma armadilha. Quando Napoleão entrou em Moscovo, os russos já tinham evacuado a cidade e até libertado criminosos das prisões para complicar o avanço francês. Além disso, o governador, o conde Fyodor Rostopchin, ordenou que a cidade fosse incendiada. Alexandre I recusou-se a capitular, e as conversações de paz iniciadas por Napoleão falharam. Em outubro, sem um sinal de vitória claro, Napoleão começou a sua retirada desastrosa de Moscovo, durante o período de chuvas, neve e lama habituais no outono russo. Napoleão foi derrotado. Estratégia parecida foi utilizada na II Guerra Mundial, por Stalin, contra os nazistas.   

 

 

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Decisiva derrota de Napoleão na Rússia

 

 

Talvez nenhuma derrota tenha sido tão humilhante quanto a do exército de Napoleão Bonaparte na Rússia dos czares. Episódios históricos pouco divulgados são descritos pelo Conde de Ségur, testemunha ocular.

Napoleão recebe más notícias em Moscou

A Revolução Francesa de 1789 – com seu lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade, com seu hino-símbolo Marseillaise, com o rio de sangue que fez correr a fim de obter a demolição da antiga ordem social e política – tinha em vista espalhar para todo o universo o tipo de sociedade igualitária e anticristã que gerou.

Porém, dez anos ainda não haviam transcorrido desde a queda da Bastilha, marco inicial do dilúvio revolucionário que se abateu sobre a França, e já o povo dava mostras inequívocas de estar assustado com tanto sangue e perseguição, cansado de tanta demagogia. Anseios pela volta do Antigo Regime começavam a florescer nas almas, e a possibilidade de um retorno à monarquia dos Bourbons era visto pelas hostes revolucionárias como um temível risco.

Uma carreira meteórica

Nesse contexto foi lançada aos céus da França a figura de Napoleão Bonaparte. Militar habilidoso e cheio de uma grandeza fátua, ele foi um fiel instrumento da Revolução; mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, o catalisador de todo o enorme descontentamento que ela gerara. Apesar do fracasso na promissora empresa no Egito, que sob o seu comando fora derrotada, decidiu-se dar-lhe o mais alto posto da nação francesa, com base em suas promessas enganosas de restaurar a antiga glória daFrança, e ele subiu como um foguete espacial que parte do chão e atinge estrelas.

Sua política interna consistiu em colocar certa ordem onde a Revolução gerara o caos; dar segurança à população, aterrorizada com o vandalismo revolucionário; fazer um pacto com a Igreja depois da terrível perseguição aos católicos; criar um arremedo de aristocracia, uma vez que a Revolução decapitara inúmeros nobres pela guilhotina. Do Antigo Regime ele tudo imitou caricatamente, mas de fato nada restaurou.

Externamente, por meio da formação de um poderoso exército, levou os princípios revolucionários a toda a Europa e os impôs através da força, estabelecendo regimes republicanos ou derrubando monarquias seculares, que eram substituídas por reis de fancaria – ora seus parentes, para quem inventara títulos nobiliárquicos, ora outros lacaios que ele mesmo escolhia.

Com o golpe de 18 Brumário (9-11-1799), Napoleão assumiu o regime do consulado como primeiro cônsul, na verdade umaditadura disfarçada. Novo golpe em 1804, que instituía o império. Assim usurpava ao mesmo tempo o poder tradicional dos Bourbons, na França, e o título do Imperador do Sacro Império. Ele próprio coroou-se na catedral de Notre Dame, diante do Papa Pio VII atônito e perplexo. Sentindo o artificial de sua condição imperial, procurou remediá-la casando-se com a filha do imperador da Áustria, Maria Luisa de Habsburgo.

Durante 15 anos (1799-1814) Napoleão atuou como o demiurgo da Europa. Quem não se dobrasse às suas leis, era demolido. Diante dele, só duas posições eram possíveis: a de bajulador ou a de vítima.

Queda como a de Babilônia

Como caiu tão grande potentado? Do mesmo modo como ocorreu a queda anunciada por um anjo na Sagrada Escritura: “Caiu, caiu a grande Babilônia por ter dado de beber, a todas as nações, do vinho de sua imundície desenfreada” (Ap 14,8).

Começara essa queda a esboçar-se já em 1808, quando da invasão da Espanha e destronamento de Carlos IV. A população civil espanhola levou a cabo uma resistência heróica, de modo que os soldados napoleônicos tinham que conquistar rua por rua, casa por casa, o que se verificou extenuante e impossível. Em Portugal, a sagacidade de D. João VI, transferindo-se para o Brasil, evitou-lhe a perda do trono e frustrou os planos de Napoleão para aquela nação.

O “general inverno”

A espetacular derrocada do exército francês durante a invasão da Rússia czarista, em 1812, colocou definitivamente as condições para a queda do império napoleônico.

Essa derrota na Rússia deveu-se a dois fatores determinantes. Primeiro a tática utilizada pelo exército russo, de limitar-se a provocar pequenas escaramuças e ir recuando, deixando após si a terra arrasada por meio de incêndios, devastações e fuga das populações. De tal modo que o exército napoleônico avançava, mas não encontrava onde acampar, nem o que comer, nem condições mínimas de civilização. Assim foi a marcha até Moscou, que Napoleão encontrou sendo destruída por um incêndio, sem condições de abrigar seu exército já enormemente depauperado e reduzido.

O segundo fator foi o chamado “general inverno”. Obrigado à retirada devido à situação de Moscou, o exército viu-se açoitado pelo terrível inverno russo, em seu período mais rigoroso, e acabou por debandar, deixando cobertos de cadáveres aqueles campos gelados e desertos.

O imenso revés de Napoleão na Rússia teve como testemunha ocular o Conde Philippe de Ségur, general e ajudante de ordens de Napoleão, que descreveu pormenorizadamente os fatos (Cf. La Campagnede Russie, Paris, Nelson Éditeurs, 1910, 457 pp.). Ao ler esse impressionante relato, fica-se com a impressão de que a mão de Deus abateu-se então sobre as pretensões revolucionárias, que tinham em Napoleão Bonaparte seu maior símbolo e propulsor. Os horrores e catástrofes que o autor apresenta são altamente elucidativos do grau extremo a que podem chegar os sofrimentos físicos e a miséria moral dos homens. Nada melhor do que meditá-los ante a perspectiva de acontecimentos vindouros, previstos em Fátima como uma irrevogável e sublime sentença: “Várias nações serão aniquiladas”.

Os episódios a seguir são transcritos dessa obra.

De Paris a Moscou

 

Napoleão investe contra a Rússia

 

Para a “campanha da Rússia”, Napoleão levantou um exército de 617 mil homens, dos quais 480 mil presentes desde o início, provenientes de diversos países da Europa subjugada. Visava estender seus domínios até a Ásia. Ele acreditava que a simples menção de tão formidável exército seria suficiente para a capitulação do czar Alexandre I. Entretanto, nem todos pensavam desse modo, e outros eram os desígnios de Deus.

Em 9 de maio de 1812, Napoleão saiu de seu palácio, em Paris, para iniciar a grande campanha.

Prepotência e imprudência

Em fins de junho, ao sitiar a cidade de Vilnius (atualmente capital da Lituânia), então anexada pela Rússia, deparou-se com o fato de que os cossacos russos haviam destruído uma ponte sobre o rio Viliya,que o exército deveria atravessar. “Napoleão ostentou desprezar o obstáculo, como tudo o que se lhe opunha, e ordenou a um esquadrão de cavalaria, de sua guarda, lançar-se através do rio. Esses homens de elite nele se precipitaram, sem hesitar. Inicialmente marcharam em ordem, e quando o fundo lhes faltou, redobraram os esforços. Logo se puseram a nadar em meio às ondas. Mas foi aí que a correnteza mais rápida os desuniu. Então seus cavalos se amedrontam, derivam e são arrastados pela violência das águas. Não nadam mais, e flutuam dispersos. Os cavaleiros lutam e se debatem em vão, a força os abandona. [...] Pereceram todos. O exército foi tomado de horror e de espanto”.29 (Os números ao fim das citações indicam as páginas do livro).

Na previsão da derrota, insegurança

Napoleão esperava que as primeiras conquistas em território russo produziriam imediatamente uma sublevação das províncias da região a seu favor, o que obrigaria o czar Alexandre a enviar-lhe emissários com propostas de paz. E então ele, Napoleão, concederia benignamente a paz, em troca de tornar-se o senhor de todas as Rússias.

Mas a realidade passava ao largo de suas pretensões. Seu exército era continuamente fustigado nas extremidades por pequenas incursões dos russos, mas nunca se produzia uma batalha formal. De outro lado, o avanço em terra arrasada era desesperante. Foi assim que, pelos fins de julho, Napoleão chegou a uma grande cidade, considerável centro militar russo, que ele esperava tomar de assalto após vencer o exército que a defendia: Vitebsk, no nordeste da Bielorrússia.Entretanto, mais uma grande decepção: encontrou o campo vazio de russos e a cidade abandonada. Furioso, dirigiu-se a seus íntimos: “Vocês acham que eu vim de tão longe para conquistar esta favela?”

E os ansiados emissários do czar não apareciam… O futuro da campanha começa a tornar-se previsível: um avanço no nada. O que fazer? Que resolução tomar?

“Então ele delibera. E essa grande irresolução, que atormenta seu espírito, apossa-se de toda sua pessoa. É visto caminhar em seus apartamentos, como perseguido por esta maligna tentação. Nada pode detê-lo: a cada instante ele toma, deixa e retoma seu trabalho; caminha sem rumo, pergunta a hora, considera o clima; e inteiramente absorto, se detém; depois murmura com ar preocupado, e retoma a caminhada.

“Em sua perplexidade, ele dirige palavras entrecortadas àqueles que encontra: ‘Então, o que faremos?’; ‘Permaneceremos aqui?’; ‘Avançaremos?’; ‘Como deter-se num tão glorioso caminho?’. Não espera a resposta, e prossegue a caminhada. Parece procurar algo ou alguém que o leve à decisão.

“Por fim, sobrecarregado pelo peso de uma tão considerável preocupação, e oprimido por tão grande incerteza, joga-se sobre um dos leitos de repouso que fez estender sobre o assoalho de seus aposentos; seu corpo, que o calor e a tensão de seu espírito exaurem, cobre-se apenas por uma ligeira veste; é assim que ele passa em Vitebsk uma parte de seus dias”.51

Foi ainda de Vitebsk que Napoleão – temendo que uma aliança com a Turquia viesse fortalecer a Rússia – escrevia a seu secretário de Estado, duque de Bassano (feito duque por ele), mandando-lhe “que anunciasse aos turcos a cada dia novas vitórias – verdadeiras ou falsas, pouco importava – contanto que essas notícias suspendessem sua paz com os russos”.57

 

Os russos incendeiam Moscou antes de Napoleão apoderar-se da cidade
Os russos incendeiam Moscou antes de Napoleão apoderar-se da cidade

O saque de Moscou

 

Napoleão prossegue sua avançada, e a 14 de setembro entra em Moscou, tendo sido precedido por vários corpos de exército famintos e cansados. Uma pequena parte da cidade estava em chamas, e aos poucos ele pôde constatar que ela estava vazia. Daqui e dali, novos focos de incêndio vão aparecendo, até que se torna realidade o espetáculo impressionante da Moscou lendária, com seus palácios e suas riquezas, totalmente em chamas.

Foi em meio a essa convulsão que Napoleão autorizou aos seus soldados a pilhagem. Mas, “quando ele soube que a desordem crescia, que até sua velha guarda via-se arrastada por ela, [...] que os diferentes corpos de soldados estavam a ponto de disputar violentamente entre si os restos de Moscou, que os recursos ainda existentes se perdiam por esse saque irregular, então ele deteve a pilhagem”. Despojou as igrejas do Kremlin de tudo o que pudesse servir de troféu para seu exército.195

O governador de Moscou, conde Rostopchin, tinha não muito distante dali, em Voronowo, uma bela propriedade na qual atuava como uma espécie de senhor feudal da região. Ao aproximarem-se as tropas napoleônicas, o conde adiantou-se e a incendiou, sorrindo ao ver a destruição de sua soberba residência. Depois, com sua própria mão, escreveu sobre a porta de ferro de uma igreja que permanecera de pé:“Eu embelezei durante oito anos esta propriedade rural, e aqui vivi feliz no seio de minha família. Os habitantes desta terra, em número de mil e setecentos e vinte, a abandonam por causa de vossa aproximação. E eu ponho fogo à minha casa, para que ela não seja manchada por vossa presença!”199

Após a tomada de Moscou, tornada cidade fantasma e reduzida a escombros, o que resta a Napoleão fazer? Em suas próprias fileiras começam as desavenças, e a fatídica palavra “retirada” se faz ouvir. Para Napoleão, porém, “Moscou não é uma posição militar, é uma posição política. Pensam que sou general, mas eu sou imperador. Em política é preciso nunca recuar, jamais voltar sobre seus passos, guardar-se bem de admitir um erro, pois isso traz desconsideração. Quando a gente se engana, é preciso perseverar, pois isto nos dá razão”.211

Com suas manobras ao largo, o general russo Kutusof, zomba de Napoleão: “Ele o sente, mas se encontra engajado tão à frente, que não pode mais nem avançar, nem permanecer, nem recuar, nem combater com honra e sucesso”.212

De Moscou a Paris

 

 

Trágica retirada do exército napoleônico, após o fracasso da conquista da Rússia

 

Por fim, sem qualquer chance, Napoleão não teve outra saída senão promover a retirada, “mas foi necessário um esforço cruel para que ele pudesse arrancar de si mesmo uma ordem de marcha que lhe era tão nova! Este esforço foi tão penoso, custou tanto ao seu orgulho, que nesse combate interior ele desmaiou”.242

Os feridos abandonados

Iniciada a retirada, os soldados, já muito dizimados, começaram a morrer às dezenas – de fome, de cansaço, de frio que principiava. Iam retornando pelos caminhos que percorreram na ida, e de repente depararam com os restos de uma batalha: “Sobre o chão desolado jaziam 30 mil cadáveres semi-devorados. O imperador passou rapidamente. Ninguém se deteve: o frio, a fome, o inimigo impunham pressa”. Nisso,“uma das vítimas daquela jornada sangrenta foi percebida ainda viva e rasgando o ar com seus gemidos. Acudiram até ela: era um soldado francês. Suas duas pernas tinham sido quebradas no combate, ele havia caído entre os mortos e aí fora esquecido. O corpo de um cavalo estripado por um obus fora de início seu abrigo; em seguida, durante 50 dias, a água pantanosa de um barranco, para onde ele havia rolado; e a carne putrefata dos mortos serviu de amparo a suas feridas e de sustento a seu ser moribundo”.259

No caminho, “revimos a grande abadia de Kolotskoi, transformada em hospital. Apesar da fome, do frio, da completa ausência de tudo, o devotamento de alguns médicos e um resto de esperança sustentavam ainda um grande número de feridos nesse lugar fétido. Mas quando eles viram o exército que retornava, que eles iam ser abandonados, que não havia mais esperança, os menos fracos se arrastavam até a porta, bordejavam o caminho e nos estendiam suas mãos suplicantes”.260

“Durante esta parada, vimos uma ação atroz. Diversos feridos foram colocados sobre as charretes dos vivandeiros. Esses miseráveis, que tinham suas viaturas sobrecarregadas com despojos de Moscou, [...] se deixaram então ficar para trás e jogaram em barrancos todos esses infortunados confiados a seus cuidados. Só um sobreviveu o suficiente para ser recolhido pelas primeiras viaturas que passaram: era um general”.260

Quando a coluna imperial se aproximou de Gjatz, encontramos cadáveres de prisioneiros russos que acabavam de ser mortos pela coluna da frente. “Cada um deles tinha a cabeça quebrada, e o cérebro ensangüentado se esparramava a seu lado. O general Caulaincourt [tinha o título de Duque de Vicence, dado por Napoleão]exclamou: ‘Isso é uma crueldade atroz! É essa a civilização que nós trazemos à Rússia!’. [...] Napoleão guardou um silêncio sombrio, mas no dia seguinte essas matanças haviam cessado. Contentávamo-nos em deixar esses infelizes morrer de fome nos arredores das cidades, onde eram abandonados durante a noite como animais. [...] A retirada havia se transformado em fuga; e era um espetáculo bem novo ver Napoleão compelido a ceder e fugir”.261

Mais adiante ouviam-se “gritos de desespero que partiam dos bosques vizinhos, nos quais acabavam de ser abandonados os grandes comboios de feridos, inutilmente trazidos desde Moscou”.280

O peso insuportável da retirada

“Ele [Napoleão]quis se aliviar do peso insuportável da responsabilidade por tantos males”. Assim, passou a acusar um “ministro russo vendido aos ingleses, de ter fomentado essa guerra”. O artificialismo da acusação caiu mal até entre seus generais: “O duque de Vicence, talvez muito impaciente, se irritou; fez um gesto de cólera e incredulidade e interrompeu a fala, retirando-se bruscamente dessa penosa conversa”.263

A cada instante, no caminho, uma queda brusca no gelo arrastava as viaturas para o fundo. Para sair, era necessário subir a rampa gelada, mas as patas dos cavalos não conseguiam fixar-se. “A todo momento eles e seus condutores caíam esgotados, uns sobre os outros. Imediatamente os soldados esfomeados se lançavam sobre esses cavalos abatidos e os despedaçavam; em seguida, sobre fogueiras alimentadas por restos das viaturas, assavam essas carnes ensangüentadas e as devoravam”.264

A superfície da neve “esconde profundezas desconhecidas, que se abrem perfidamente sob nossos passos. Lá o soldado afunda, os mais fracos se entregam e aí permanecem sepultados”.271

Nas aldeias, exalações mefíticas

Chegados a uma pequena aldeia, os generais procuravam nela abrigar-se. Mas os soldados, “mesmo os da guarda imperial”, sem víveres, sem abrigo, condenados a passar a noite na neve, assaltavam as casas de madeira. “Aproveitando a escuridão, arrancavam tudo, portas, janelas e até os madeirames dos tetos, não se incomodando de reduzir os outros, quem quer que fossem, a acampar como eles”. Os generais os repeliam inutilmente, até que “eram obrigados a abandonar as casas, de medo que elas desabassem sobre eles. [...] Em todo o exército aconteciam, cada noite, cenas semelhantes”.286

Napoleão chegou a Smolensk em 9 de novembro, e havia sido precedido por diversas colunas. “O amontoado de cadáveres nas casas, nos pátios e jardins, e suas exalações mefíticas, empestavam o ar. Os mortos matavam os vivos. Os empregados, como muitos militares, haviam sido afetados; uns se haviam tornado como imbecis; choravam ou fixavam na terra um olhar perdido e constante. Havia aqueles cujos cabelos se haviam endurecido, levantados e enrolados como corda; depois, em meio a uma torrente de blasfêmias, de uma horrível convulsão ou de um riso ainda mais atroz, eles caíam mortos”.295

Dizimação em massa

“O exército havia saído de Moscou com 100 mil combatentes; em 25 dias, estava reduzido a 36 mil homens”.303

“Napoleão entrou em Orcha com 6 mil guardas, restos dos 35 mil; o general Eugênio, com mil e oitocentos soldados, restos dos 42 mil; o marechal Davout, com 4 mil combatentes, restos dos 70 mil. Este marechal havia perdido tudo: estava sem roupa interior e extenuado de fome. Lançou-se sobre um pão que um de seus companheiros de arma lhe ofereceu, e o devorou”.330

Em Viazma “vimos Napoleão queimar, com suas próprias mãos, todas aquelas suas roupas que pudessem servir de troféu ao inimigo, se ele sucumbisse. Ali foram infelizmente consumidos todos os papéis que ele havia colecionado para escrever ahistória de sua vida, pois tal havia sido seu projeto quando partiu para esta funesta guerra”.332

Um exército de espectros

Mais adiante encontraram o que restava do corpo de exército do marechal Ney: “Eles contaram que em 17 de novembrohaviam saído de Smolensk, aí abandonando 5 mil enfermos à discrição do inimigo. [...] Às portas da cidade, uma mãeabandonou seu filho de cinco anos – apesar de seus gritos e lágrimas, ela o repeliu de seu trenó, muito carregado! Ela mesma gritava, com ar perdido, que ‘ele nunca vira a França, e não a lamentará; ela conhecia a França e queria revê-la’. Duas vezes Ney fez recolocar o infortunado nos braços de sua mãe, duas vezes ela o repeliu na neve gelada”. Como punição, essa mãedesnaturada foi abandonada na neve, e a criança foi entregue a outra mãe.340

Ao aproximar-se de Borizof, o aspecto do exército era desolador: “Um arrastar de espectros, cobertos de trapos, de mantos de mulheres, de pedaços de tapetes ou de sujas capas chamuscadas ou furadas pelas balas, e cujos pés estavam envolvidos em farrapos de toda espécie; [...] soldados descarnados, de olhar aterrorizado e cobertos de uma barba repugnante, sem armas, sem honra, caminhando confusamente, a cabeça baixa, os olhos fixos na terra, em silêncio, como um rebanho de cativos; [...] numerosos coronéis e generais esparsos, isolados, que não se ocupavam senão de si mesmos, não pensando senão em salvar seus restos e suas pessoas; caminhavam misturados com seus soldados, que nem sequer os percebiam, aos quais eles nada mais tinham a mandar, dos quais eles nada mais podiam esperar; todos os laços estavam rompidos, todas as fileiras apagadas pela miséria”.371

A luta infernal

Ao chegar a Studzianka, o nono corpo de exército, bombardeado pelos russos, tinha como único caminho uma frágil ponte, para prosseguir na retirada. Todos se precipitaram sobre ela, formando um espantoso amálgama de homens, cavalos e carros. “Uns, decididos e furiosos, abriam para si, a golpes de sabre, uma horrível passagem. Muitos desobstruíam para seus veículos um caminho ainda mais cruel; eles os faziam avançar impiedosamente através dessa multidão de desafortunados, e os esmagavam. Em sua odiosa mesquinhez, sacrificavam seus companheiros de infortúnio para salvar suas bagagens”. Em meio a esta horrível desordem, a ponte se rompeu, “a onda humana, que vinha atrás, ignorando essa catástrofe, não ouvindo os gritos dos primeiros, os empurraram para a frente e os lançaram no abismo, no qual eles próprios se precipitaram em seguida. [...] Nesta horrível confusão, os homens pisados e sufocados debatiam-se debaixo dos pés de seus companheiros, aos quais se agarravam com unhas e dentes. Estes os repeliam sem piedade, como se fossem inimigos. [...] Nesta coluna de desesperados, que se amassavam sobre a única tábua de salvação, elevava-se uma luta infernal, na qual os mais fracos ou os mais mal colocados foram precipitados no rio pelos mais fortes”. Houve também nobres gestos de desinteresse.396/9

Quando os marechais sem soldados quiseram fazer a Napoleão um relato circunstanciado do que estava ocorrendo, ele os interrompeu e lhes disse: “Por que quereis tirar-me a minha calma?”.403

Os feridos que iam sendo abandonados pelo caminho “rolavam de desespero sobre a neve ensangüentada”.405A muitos dos que ainda caminhavam, “as armas lhes caíam das mãos, e eles próprios caíam a alguns passos de suas armas. [...] Uma sedição era impossível, teria sido um esforço a mais, e cada um empregava todas as suas forças em combater a fome, o frio e o cansaço”.413/4

Napoleão abandona o exército

A 5 de dezembro, em Smorgony, Napoleão comunica a seus generais que vai abandonar os restos do exército, deixando o comando a Murat, para dirigir-se incógnito a Paris, pois, segundo ele, isto era indispensável para a França. A única vez que reconheceu sua temeridade, foi com estas palavras: “Se eu tivesse nascido sobre um trono, se eu fosse um Bourbon, ter-me-ia sido fácil não cometer faltas”.416

“Até chegar ao Reno, ele foi um desconhecido, fugitivo através de uma terra inimiga”.421

À notícia da fuga de Napoleão, os oficiais restantes, mesmo generais e coronéis, já não obedeciam a mais ninguém. “Foi um salve-se quem puder, [...] não havia mais soldados, nem armas, nem uniformes. [...] Foi uma multidão de lutas isoladas e individuais, [...] nada de fraternidade de armas, nada de sociabilidade, nenhum laço de união; o excesso de males os havia embrutecido [...] como selvagens, os mais fortes despojavam os mais fracos”, corriam junto aos moribundos e não esperavam que morressem, disputavam os pedaços das carnes de cavalo como cães devoradores. “A frieza inflexível do climahavia passado para seus corações”. Houve nobres exceções.422/4

Canibalismo

Quando aparecia algum abrigo ao longo do caminho, “soldados e oficiais, todos, aí se precipitavam, amontoavam-se como animais, apertavam-se uns contra os outros em torno de alguma fogueira; os vivos, não podendo afastar do fogo os mortos, deitavam-se sobre eles, para aí expirarem por sua vez e servir de cama para novas vítimas. Logo outra multidão chegava, e não podendo penetrar nesses asilos de dores, os assaltavam. [...] Na aldeia de Ioupranoui, os soldados queimaram casas inteiras para se aquecer durante alguns instantes. O clarão desses incêndios atraiu outros infelizes exaltados até o delírio, que com ranger de dentes e risos infernais precipitavam-se nesses braseiros, onde pereciam com horríveis convulsões. Seus companheiros famintos os olhavam sem horror, e houve mesmo quem puxasse para si esses corpos desfigurados e grelhados pelas chamas, e é inteiramente verdade que eles ousaram levar à boca este revoltante alimento. [...] Este era o exército saído da nação mais civilizada da Europa”. O frio era de 28 graus negativos.429/30

Ao sair de Kowno, última cidade do império russo, o “grande exército, em lugar dos mais de 400 mil combatentes, estava reduzido a um milhar de pálidos e gelados infantes e cavaleiros ainda armados, nove canhões e 20 mil infelizes cobertos de trapos, cabeça baixa, olhar extinto, rosto cinzento e lívido, a barba longa e eriçada pela neve”.444

Fonte Lepanto

 

 

 

 

11 de setembro de 1973

 

 
11 de setembro de 1973

Nesta data, subornado pela CIA, o fascista Augusto Pinochet bombardeia o Palácio do governo chileno e leva à morte o presidente eleito, Salvador Allende. O governo é derrubado. Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Allende e alguns colaboradores leais resistem de armas na mão. São todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas. Consumado o golpe, Pinochet inicia uma brutal repressão política e implanta no país uma política de submissão total do Chile aos interesses norte-americanos. Nesta semana 60 mil chilenos saíram às ruas para mostrar o seu repúdio ao golpe.

 

 

Leia na íntegra o último discurso do presidente chileno em português e espanhol

 

 

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos.

A historia os julgará.
Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.
Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."


"Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las antenas de Radio Magallanes.

Mis palabras no tienen amargura sino decepción. Que sean ellas un castigo moral para quienes han traicionado su juramento: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al gobierno, y que también se ha autodenominado director general de Carabineros.

Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores:

¡Yo no voy a renunciar!

Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente.

Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo.

En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, crearon el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo a ustedes, sobre todo a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios clasistas que defendieron también las ventajas de una sociedad capitalista.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero que trabajó más, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder.

Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición".

 

 

 

 

9 de setembro de 1976

 

 
9 de setembro de 1976

Nesta data morre, aos 82 anos em Pequim, Mao Tsetung, líder da revolução chinesa. Mao foi uma das maiores figuras da História da Humanidade. Esta afirmação parece, a alguém de bom senso – e de boa fé – óbvia, independente de concordar ou não com as idéias do revolucionário chinês. A razão é simples: Mao, nascido em um país humilhado e, para ser preciso, esquartejado por sucessivas invasões imperialistas, parasitado pelo feudalismo mais anacrônico e mergulhado em sangue pelo fascismo, foi o líder que levantou um terço da Humanidade, construindo um país independente, levando um país feudal, sob ocupação, até a liberdade e o socialismo. A obra de Mao é a China moderna e a auto-estima de milhões de seres humanos - e não somente chineses, mas multidões que viram na Revolução Chinesa a demonstração de que era possível viver de outra maneira, livres da opressão. Além de dirigente político e comandante militar como poucos houve até hoje, Mao foi o notável teórico, filósofo e poeta que engrandeceu o patrimônio cultural da espécie humana com suas grandes contribuições. 

 

 

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Mao Tsé-tung, herói da Humanidade

Seus grandes feitos lhe garantiram o amor das pessoas de bem e o ódio dos traidores, lacaios, vagabundos, parasitas e outros marginais

CARLOS LOPES

Mao Tsé-tung foi uma das maiores figuras da História da Humanidade. Esta afirmação parece, a alguém de bom senso – e de boa fé – óbvia, independente de concordar ou não com as idéias do revolucionário chinês. A razão é simples: Mao, nascido em um país humilhado e, para ser preciso, esquartejado por sucessivas invasões imperialistas, parasitado pelo feudalismo mais anacrônico e mergulhado em sangue pelo fascismo, foi o líder que levantou um terço da Humanidade, construindo um país independente, levando um país feudal, sob ocupação, até a liberdade e o socialismo. A obra de Mao é a China moderna e a auto-estima de milhões de seres humanos - e não somente chineses, mas multidões que viram na Revolução Chinesa a demonstração de que era possível viver de outra maneira, livres da opressão. Além de dirigente político e comandante militar como poucos houve até hoje, Mao foi o notável teórico, filósofo e poeta que engrandeceu o patrimônio cultural da espécie humana com suas grandes contribuições. 

Bestialógico dos Civita 

Considerando tudo isso, não será certamente uma surpresa para os nossos leitores – nem para qualquer um que conheça a carreira de crimes da família Civita – que “Veja”, há algumas semanas, tentasse jogar lama sobre quem lhe é incomensuravelmente superior, sobretudo do ponto de vista moral. Também não será surpresa se essa lama for contrabandeada. Afinal, foi para contrabandear lama dos EUA para o Brasil que o primeiro Civita, lá por 1950, foi enviado ao nosso país, usando a trilha de outro testa-de-ferro americano de mesmo sobrenome, que pouco antes havia aportado na Argentina.

Pois a revistinha dos Civita, que apoiou, e, mais do que isso, propagandeou, e continua propagandeando os maiores banhos de sangue da História, perpetrados pela corrupta casta dominante nos EUA, resolveu chamar Mao Tsé-tung de “o maior sanguinário da história”. Isso, a propósito de um livro escrito por uma renegada chinesa e um renegado russo, hoje unidos pelo rancor e vivendo em Londres. Trata-se de um bestialógico tão abissal que, apesar do gigantesco aparato de mídia que foi montado para promovê-lo, nem anti-comunistas notórios conseguiram engoli-lo. Por exemplo, Philip Short, um ex-correspondente da BBC na China, ressaltou que a autora “substitui a história por suas visões”. Nós diríamos “alucinações”, em vez de “visões”, mas para alguém que também é autor de uma biografia reacionária de Mao, está mais do que bom. Já Frank McLynn, escrevendo no “The Independent”, nota que a “sociedade chinesa”, isto é, a China, não existe no livro; que os autores não conhecem os escritos de Mao; que sua versão da Guerra da Coréia é “simplesmente a propaganda feita pelo Pentágono”; e que uma única fonte é apresentada para basear essa versão: as memórias do ator Michael Caine, às quais “é dado o status de sagrada escritura”... Ressalte-se que, quanto à figura de Mao, esse McLynn concorda em número, gênero e grau com o malfadado livro. Apenas, não quer se desmoralizar, promovendo a obra histórica o que é apenas um ataque histérico, ainda que de tamanho descomunal.

Por exemplo, essa parelha acusa Mao de, durante a Longa Marcha, ter empenhado o Exército Popular em “batalhas inúteis”, causando a morte de milhares de combatentes. Ao que parece, ignoram que a Longa Marcha foi uma retirada, ou seja, como toda retirada seu objetivo era evitar batalhas inúteis com o inimigo. E, mais: logo antes da Longa Marcha, Mao havia sido destituído do comando pelo Comitê Central do PCCh, então sob a influência esquerdista de Wang Ming, por se opor ao enfrentamento direto com as hordas de Chiang Kai-shek, imensamente superiores em número e armamento. Foi a derrota do Exército Popular, após a destituição de Mao, que fez com que a direção do PCCh fosse reestruturada e, em seguida, sob o comando de Mao, fosse empreendida a Longa Marcha, que tinha a orientação, exatamente, de evitar o quanto possível o combate com o inimigo, até que o exército chegasse as novas bases. 

Timoneiro chinês 

Quanto aos demais acontecimentos, vários autores já mostraram a estupidez e a ignorância dos dois renegados. Basta aqui acrescentar que é transbordante no livro a nostalgia daquela China que era o paraíso dos ladrões e parasitas - e um inferno para o povo. Portanto, não é nada extraordinário que seus autores queiram absolver esses parasitas e ladrões, colocando os monstruosos crimes que eles cometeram exatamente sobre o homem que acabou com o seu paraíso.

Mas, por que o Civita, além do seu interesse de sempre – ganhar dinheiro à custa de mentir e de puxar o saco dos americanos – resolveu promover o livro desses dois débeis mentais? O que ele tem contra o grande timoneiro chinês, é evidente: Mao nunca apoiou as chacinas imperiais ianques, nunca apoiou a invasão e submissão de países por hordas celeradas, nunca defendeu os golpes de Estado perpetrados pela CIA, nem muito menos a tortura e o assassinato dos que combatem pela independência e liberdade de seus países. Se Mao o tivesse feito, certamente que “Veja” estaria publicando sobre ele alguma repugnante apologia, chamando-o, como faz com Bush, de “democrata”. Mas, ao contrário, Mao foi um dos maiores combatentes contra tudo isso e, ao comandar a revolução e depois iniciar a construção do socialismo no grande país do Oriente, acabou com a vida mansa dos civitas locais, isto é, dos agentes e lacaios do imperialismo que viviam à custa de esfolar o povo. 

O líder Stalin 

Porém, amigo leitor, se Mao, segundo a “Veja”, foi “o maior sanguinário da história”, onde foi parar o Stalin? Que falta de respeito é essa pelo grande Stalin? Não que a “Veja” tenha se esquecido dele, pois, diz ela, Stalin foi o “mestre” de Mao, o que, realmente, procede: Stalin foi o mestre de quantos lutaram pela Humanidade no século XX, e continuará sendo, no século XXI. Exatamente por isso é que essa canalha o odeia, a ele e aos seus discípulos. Mas, por que Mao, agora, “superou” o próprio Stalin na lista de difamação do Civita? Obviamente, porque agora o Império está se sentindo ameaçado pela grande criação de Mao, a China, e não pela URSS. O Civita não poderia ficar indiferente a essa angústia dos seus patrões.

No entanto, há algo de mais elementar no ódio dessa canalha a Mao, assim como a Stalin: o lacaio odeia o homem livre, aquele que não se submete. Quer reduzi-lo à sua própria e mesquinha condição. Não consegue entender porque todos não são como ele. Pois, os homens livres são a demonstração inequívoca, irretorquível, inclusive para o próprio lacaio, ainda que não o admita nem para si mesmo, da sua asquerosa sordidez, da sua miserável e minúscula condição. É isso que ele não suporta nos grandes homens: a própria grandeza deles. Por isso, não causa surpresa que o Civita tente desonerar sobre um homem livre, como Mao, o seu contrabando de lixo.

O povo chinês e, particularmente, o seu líder, foram obrigados a sacrifícios imensos – e, acima de tudo, generosos – para conquistar a independência e a liberdade. Desde o surgimento do Partido Comunista da China, do qual Mao foi um dos fundadores, em 1921; à aliança com os patriotas que seguiam Sun Yat-sen; ao massacre de Xangai, em 1927, perpetrado pelo traidor Chiang Kai-shek; ao estabelecimento dos primeiros territórios liberados, no início dos anos 30 – já por iniciativa direta de Mao Tsé-tung; e, naturalmente, à Longa Marcha, feito militar que somente tem um paralelo na História moderna - a Coluna Prestes -, e à luta contra o invasor japonês, milhares e mesmo milhões dos melhores filhos da China deram suas vidas pela liberdade. O que era o povo chinês antes dessa epopéia – no máximo servindo de mão de obra mais do que barata, muitas vezes escrava, para as potências imperialistas -, e o que é o povo chinês hoje, demonstra melhor do que tudo a colossal obra de Mao Tsé-tung e seus companheiros.

Pois são exatamente esses sacrifícios, impostos pelos mais ferozes inimigos, que o povo chinês soube enfrentar e vencer heroicamente, que “Veja”, e os renegados do livro mencionado, atribuem a Mao. Como seria de esperar, sempre mentindo. Se a primeira esposa de Mao foi assassinada pelos bandidos de Chiang Kai-shek, num dos crimes mais torpes da História, os culpados não foram os assassinos, mas o grande Mao, que até o fim da vida lembrou da mulher com o amor que, sem dúvida, ela merecia. Esta, aliás, segundo esses micróbios, é a “prova” de que Mao era um “sociopata”, pois não protegeu a mulher e os filhos, levando-os para uma área dominada pelos comunistas. Em suma, Mao teria, por não importar-se com eles, deixado a esposa e os filhos em território inimigo, onde esses inimigos a assassinaram para vingar-se de supostos “massacres” que os comunistas teriam cometido quando ocupavam esse território.

Yang Kaihui casou com Mao Tsé-tung em 1920. Ela era filha do professor que apresentou Mao às obras marxistas, e os dois eram originários da mesma província, Hunan. O casal teve três filhos, e a esposa era, também, militante do Partido Comunista. Em 1927, quando Chiang Kai-shek traiu a aliança com os comunistas, Mao passou a ser um dos principais alvos, até porque ele não era apenas um dos principais dirigentes do PCCh. Era também dirigente nacional do partido de frente fundado por Sun Yat-sen, o Kuomintang, que Chiang Kai-shek queria transformar numa camarilha de traidores da pátria, assassinando os comunistas que faziam parte dele.

Nessas circunstâncias, Mao foi obrigado, como tantos revolucionários antes e depois dele, a entrar na clandestinidade, saindo de Hunan e passando para a província de Jingganshan. Não havia, nessa época, qualquer área liberada pelos comunistas. As condições eram dificílimas, e era impossível a Mao levar com ele a esposa e os filhos, que ficaram em Hunan – província que jamais foi “ocupada” pelos comunistas, e onde, portanto, jamais houve “massacre” algum por parte deles, até porque isso é coisa de fascistas, e não de comunistas – mas é interessante que o Civita ache que o assassinato sórdido da mulher de Mao possa ser justificado por algo que os comunistas teriam feito, ainda que fantasioso. Assim, expõe apenas a sua natureza, esta, sim, anti-social, ou seja, sociopática.

Mao jamais conseguiu, no turbilhão da guerra, ver outra vez a esposa e os filhos. Yang Kaihui, nessa época e durante três anos, dedicou-se a cuidar de seus filhos. Não exerceu qualquer atividade política. Mas em novembro de 1930, quando a guerrilha, organizada por Mao, havia começado na província de Jingganshan, ela foi presa, junto com um dos filhos – então com cinco anos de idade – e, em seguida, foi decapitada pelos bandidos de Chiang Kai-shek, “simplesmente por ser esposa de Mao”, como diz um autor dos mais reacionários, porém não inteiramente mentiroso.

Para Mao, este e outros episódios de sua vida foram extremamente dolorosos. No entanto, ele soube superá-los, para que todas as mulheres e todos os filhos da China tivessem a vida que a sua mulher e os seus filhos não puderam ter. Nisso reside a sua grandeza. Não é preciso ser comunista para entendê-lo. Basta apenas não ser um degenerado. Um filósofo burguês, Ortega y Gasset, chamou a isto “a grande generosidade”: a de superar as desgraças pessoais pela identificação profunda com os demais seres humanos.

No entanto, o Civita e demais micróbios, não se conformam de que Mao não haja se esmagado, não haja abandonado a luta, tal como queriam os que assassinaram Yang Kai-hui. O que significa que nenhuma diferença moral existe entre aqueles assassinos e o Civita – se diferença existe, é porque o último é pior, pela mentira e pela covardia.

É sintomático que se queira acusar Mao de não ter cuidado da sua família. Que cuidado têm esses vermes com a sua família? O atual capo da familia Civita é uma nulidade que subiu na vida às custas do pai, o velho proxeneta que veio dos EUA, mas sempre disposto a acusar os outros de nepotismo. Criar débeis mentais, realmente,  é o que eles chamam de cuidar da família. A relação entre pais e filhos – para não falar naquela entre marido e mulher – é meramente uma questão monetária para esses elementos. Se não servir para locupletar-se, que se dane a família.

É, portanto, natural que os vermes não possam entender as razões e as motivações dos homens. O que somente demonstra a diferença infinita que existe entre uns e outros.  

Fonte Hora do Povo

 

 

 

8 de setembro de 1943

 

 
8 de setembro de 1943

Nesta data foi enforcado pelos ocupantes nazistas o jornalista e dirigente comunista tcheco Julios Fuchik, 40 anos. Antes de morrer, escreve o livro-denúncia "Testamento sob a forca", conservado graças a um carcereiro que simpatiza com a resistência. Em 8 de setembro, jornalistas de várias partes do mundo se lembram de Júlio Fuchik, o lutador contra o fascismo, o professor e o jornalista que foi assassinado pelos fascistas nesse dia, em 1943. Ele deixou um legado mundial - o famoso Relatório do Gallows, traduzido desde sua morte em um grande número de línguas. Não só isso, existem hoje muitas escolas de jornalismo, estradas, ruas e fábricas em homenagem a ele como um homem que lutou contra o fascismo, mas também deu ao jornalismo um conteúdo ideológico. "Um herói é uma pessoa que em um momento decisivo dá tudo para fazer o que deve ser feito no interesse da sociedade". Seria mais correto dizer que, mesmo quando o seu espaço físico foi confinado a uma prisão sob a ameaça da guilhotina do carrasco, Fuchik foi capaz de olhar para longe, muito além das fronteiras de sua vida. 

 

 

 

8 de setembro de 1943 foi o dia de uma vitória decisiva sobre os fascistas alemães na batalha de Kursk. Assim, tornou-se um dia de mau agouro da capitulação iminente do fascismo. Para muitos, no entanto, foi um dia de profunda tristeza, como no mesmo dia em que os carrascos nazistas mataram Fuchik. Referindo-se aos seus ensinamentos, ele disse uma vez que "não existe um jornalista neutro, um jornalista que está acima de tudo." Claro, esses não eram os dias dos jornalistas impulsionados pelo mercado, que poderiam tornar-se vira-casacas políticos e ideológicos, que mudam diariamente de lado por dinheiro e poder. Para ele, quem optar por esta profissão tem de exercê-la como um chamado vital, para fazer uma escolha ideológica, e aprender a procurar e reconhecer o novo.

 

 

A ocupação fascista de Praga marcou o início do teste mais difícil em sua vida. No verão de 1942, ele foi preso e brutalmente torturado. Cada truque foi tentado para quebrá-lo e forçá-lo a trair. Foi, finalmente, um informante que vazou quem o Professor Hurak era. Em seguida, começou o último período de sua vida, quando escreveu o maior relatório, o Testamento Sob a forca. Cada um dos seus papéis evidência não só suas experiências horríveis, mas também os métodos de tortura utilizados pelo inimigo. A pessoa também tem flashes sobre quem traiu e aqueles que resistiram aos ensaios. Outra coisa que ele fez foi explicar por que ele embarcou em uma luta tão difícil e todas as dificuldades. Ele observou: "Nós vivemos de alegria e de júbilo, estamos morrendo. Portanto, nunca deixe tristezas serem associadas com seus nomes. "

 

 

 

 

 

7 de setembro de 1822

 

 
7 de setembro de 1822

Nesta data o Brasil colocou um ponto final no colonialismo português. Esta data representa o desfecho da luta de Gurarapes e dos Inconfidentes e abriu caminho para uma nova fase de conquistas e de esperanças para a população brasileira. A trajetória de construção nacional passou pela abolição da escravatura e implantação da República. A revolução de 30 acelerou a consolidação do país ao construir os alicerces de uma indústria nacional pujante e criar empresas estratégicas para o país como a Petrobrás, a Eletrobrás e outras. Para as gerações atuais está colocada a tarefa de completar essa obra iniciada por Tiradentes e Getúlio Vargas. A obra de romper com as útlimas amarras impostas pelo imperialismo norte-americano que sufoca nossa economia, impede nosso desenvolvimento tecnológico e rouba nossas riquezas. O símbolo desse roubo está hoje no leilão do Pré-sal. Os que lutaram pela Independência do Brasil no passado, esperam de nós que lutemos hoje contra a entrega do nosso petróleo para as multinacionais.        

 

 

LIBERDADE, AINDA QUE TARDE!

"Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro"

A terra tão rica
e – ó almas inertes! –
o povo tão pobre...
Estes branquinhos do Reino
nos querem tomar a terra:
porém, mais tarde ou mais cedo,
os deitamos fora dela.

 

 

Cecília Meireles

 

 

 

6 de setembro de 1922

 

 
6 de setembro de 1922

Nesta data (6 de setembro de 1922) foi oficializado o Hino Nacional Brasileiro, com letra de Joaquim Osório Duque Estrada e música de Francisco Manuel da Silva. O trecho do hino que é sempre cantado com mais vigor e emoção pelo povo brasileiro é o que o chama à luta quando se anuncia qualquer ameaça contra a Pátria, como esta que o Brasil vive atualmente. Há uma grande ameaça de que nossas riquezas de petróleo existentes no Pré-sal, descobertas pela Petrobrás durante o governo Lula, sejam criminosamente entregues para as multinacionais. Por isso, publicamos aqui o forte chamado do nosso hino: "MAS SE ERGUES DA JUSTIÇA A CLAVA FORTE, VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA; NEM TEME, QUEM TE ADORA, A PRÓPRIA MORTE".

 

 

Hino Nacional do Brasil

 

 

Dos autores: letra, Joaquim Osório Duque Estrada, e música, Francisco Manuel da Silva.

 


O Hino Nacional Brasileiro e a Bandeira Brasileira simbolizam o nosso país 
O Hino Nacional Brasileiro e a Bandeira Brasileira simbolizam o nosso país





A História do Hino Nacional do Brasil é recheada de fatos interessantes, mas infelizmente pouco divulgados. Tradicionalmente, o que sabemos sobre o Hino é referente aos autores da letra e da música.

A letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada e a música, elaborada por Francisco Manuel da Silva. O Hino Nacional Brasileiro foi criado em 1831 e teve diversas denominações antes do título, hoje, oficial. Ele foi chamado de Hino 7 de abril (em razão da abdicação de D. Pedro I), Marcha Triunfal e, por fim, Hino Nacional.

Com o advento da Proclamação da República e por decisão de Deodoro da Fonseca, que governava de forma provisória o Brasil, foi promovido um Grande Concurso para a composição de outra versão do Hino. Participaram do concurso, 36 candidatos; entre eles Leopoldo Miguez, Alberto Nepomuceno e Francisco Braga.

O vencedor foi Leopoldo Miguez, mas o povo não aceitou o novo hino, já que o de Joaquim Osório e Francisco Manuel da Silva havia se tornado extremamente popular desde 1831. Através da comoção popular, Deodoro da Fonseca disse: “Prefiro o hino já existente!”. Deodoro, muito estrategista e para não contrariar o vencedor do concurso, Leopoldo Miguez, considerou a nova composição e a denominou como Hino da Proclamação da República. 

Decreto 171, de 20/01/1890:

"Conserva o Hino Nacional e adota o da Proclamação da República."

O Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil constituído pelo Exército e Armada, em nome da Nação, decreta:

Art. 1º - É conservada como Hino Nacional a composição musical do maestro Francisco Manuel da Silva.

Art. 2º - É adotada sob o título de Hino da Proclamação da República a composição do maestro Leopoldo Miguez, baseada na poesia do cidadão José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros Albuquerque.

É importante ressaltar que a canção que representa uma nação, como o Hino Nacional do Brasil, exalta fatos acontecidos, simboliza todas as lutas por ela passadas, carrega a identidade de um povo e a grande responsabilidade de ser o porta-voz da Nação brasileira para o restante do mundo.

Hino Nacional do Brasil
Letra de Joaquim Osório Duque Estrada
Música de Francisco Manuel da Silva

             Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

            Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado.”
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

 

UMA CURIOSIDADE

 

 

Você sabia que a parte instrumental da introdução do Hino Nacional Brasileiro possuía uma letra, que acabou excluída da sua versão oficial do hino? 
Essa letra é atribuída a Américo de Moura e apresenta os seguintes versos: 

Espera o Brasil 
Que todos cumprais 
Com o vosso dever. 
Eia avante, brasileiros, 
Sempre avante! 

Gravai com buril 
Nos pátrios anais 
Do vosso poder. 
Eia avante, brasileiros, 
Sempre avante! 

Servi o Brasil 
Sem esmorecer, 
Com ânimo audaz 
Cumpri o dever, 
Na guerra e na paz, 
À sombra da lei, 
À brisa gentil 
O lábaro erguei 
Do belo Brasil. 
Eia sus, oh sus!

 

 

 

 

 

4 de setembro de 1969

 

 
4 de setembro de 1969

Nesta data é sequestrado no Rio de Janeiro o embaixador americano Charles Elbrick, em plena ditadura militar. Organizado pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) que exigiram como resgate a libertação de 15 presos políticos e a leitura de um manifesto em cadeia nacional de Rádio e Televisão. O seqüestro marcou a luta armada contra o regime militar e mostrou a determinação dos brasileiros em recuperar a democracia.   

 

 

Leia o manifesto do MR8 e ALN lido em cadeia nacional 

 

 

Grupos revolucionários detiveram hoje o Sr. Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos, levando-o para algum lugar do país, onde o mantêm preso. Este ato não é um episódio isolado. Ele se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo: assaltos a bancos, nos quais se arrecadam fundos para a revolução, tomando de volta o que os banqueiros tomam do povo e de seus empregados; ocupação de quartéis e delegacias, onde se conseguem armas e munições para a luta pela derrubada da ditadura; invasões de presídios, quando se libertam revolucionários, para devolvê-los à luta do povo; explosões de prédios que simbolizam a opressão; e o justiçamento de carrascos e torturadores.

Na verdade, o rapto do embaixador é apenas mais um ato da guerra revolucionária, que avança a cada dia e que ainda este ano iniciará sua etapa de guerrilha rural.

Com o rapto do embaixador, queremos mostrar que é possível vencer a ditadura e a exploração, se nos armarmos e nos organizarmos. Apareceremos onde o inimigo menos nos espera e desapareceremos em seguida, desgastando a ditadura, levando o terror e o medo para os exploradores, a esperança e a certeza de vitória para o meio dos explorados.

O sr. Burke Elbrick representa em nosso país os interesses do imperialismo, que, aliado aos grandes patrões, aos grandes fazendeiros e aos grandes banqueiros nacionais, mantêm o regime de opressão e exploração.

Os interesses desses consórcios, de se enriquecerem cada vez mais, criaram e mantêm o arrocho salarial, a estrutura agrária injusta e a repressão institucionalizada. Portanto, o rapto do embaixador é uma advertência clara de que o povo brasileiro não lhes dará descanso e a todo momento fará desabar sobre eles o peso de sua luta. Saibam todos que esta é uma luta sem tréguas, uma luta longa e dura, que não termina com a troca de um ou outro general no poder, mas que só acaba com o fim do regime dos grandes exploradores e com a constituição de um governo que liberte os trabalhadores de todo o país da situação em que se encontram.

Estamos na Semana da Independência. O povo e a ditadura comemoram de maneiras diferentes. A ditadura promove festas, paradas e desfiles, solta fogos de artifício e prega cartazes. Com isso ela não quer comemorar coisa nenhuma; quer jogar areia nos olhos dos explorados, instalando uma falsa alegria com o objetivo de esconder a vida de miséria, exploração e repressão que vivemos. Pode-se tapar o sol com a peneira? Pode-se esconder do povo a sua miséria, quando ele a sente na carne?

Na Semana da Independência, há duas comemorações: a da elite e a do povo, a dos que promovem paradas e a dos que raptam o embaixador, símbolo da exploração.

A vida e a morte do sr. Embaixador estão nas mãos da ditadura. Se ele atender a duas exigências, o sr. Elbrick será libertado. Caso contrário, seremos obrigados a cumprir a justiça revolucionária. Nossas duas exigências são:

a) A libertação de 15 prisioneiros políticos. São 15 revolucionários entre milhares que sofrem torturas nas prisões-quartéis de todo o país, que são espancados, seviciados, e que amargam as humilhações impostas pelos militares. Não estamos exigindo o impossível. Não estamos exigindo a restituição da vida de inúmeros combatentes assassinados nas prisões. Esses não serão libertados, é lógico. Serão vingados, um dia. Exigimos apenas a libertação desses 15 homens, líderes da luta contra a ditadura. Cada um deles vale cem embaixadores, do ponto de vista do povo. Mas um embaixador dos Estados Unidos também vale muito, do ponto de vista da ditadura e da exploração.

b) A publicação e leitura desta mensagem, na íntegra, nos principais jornais, rádios e televisões de todo o país.

Os 15 prisioneiros políticos devem ser conduzidos em avião especial até um país determinado - Argélia, Chile ou México -, onde lhes seja concedido asilo político. Contra eles não devem ser tentadas quaisquer represálias, sob pena de retaliação.

A ditadura tem 48 horas para responder publicamente se aceita ou rejeita nossa proposta. Se a resposta for positiva, divulgaremos a lista dos 15 líderes revolucionários e esperaremos 24 horas por seu transporte para um país seguro. Se a resposta for negativa, ou se não houver resposta nesse prazo, o sr. Burke Elbrick será justiçado. Os 15 companheiros devem ser libertados, estejam ou não condenados: esta é uma "situação excepcional". Nas "situações excepcionais", os juristas da ditadura sempre arranjam uma fórmula para resolver as coisas, como se viu recentemente, na subida da Junta militar.

As conversações só serão iniciadas a partir de declarações públicas e oficiais da ditadura de que atenderá às exigências.

O método será sempre público por parte das autoridades e sempre imprevisto por nossa parte. Queremos lembrar que os prazos são improrrogáveis e que não vacilaremos em cumprir nossas promessas.

Finalmente, queremos advertir aqueles que torturam, espancam e matam nossos companheiros: não vamos aceitar a continuação dessa prática odiosa. Estamos dando o último aviso. Quem prosseguir torturando, espancando e matando ponha as barbas de molho. Agora é olho por olho, dente por dente.

Ação Libertadora Nacional (ALN)

Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8)

 

 

 

30 de agosto de 2013

 

 
30 de agosto de 2013

Nesta data é realizada grande manifestação de todas as centrais sindicais do país pela mudança da política econômica do governo Dilma. Os trabalhadores querem a redução dos juros, mais investimentos públicos em saúde, educação e transporte e o fim do Fator Previdenciário, instrumento espúrio criado pelos tucanos para tungar as aposentadorias. As centrais exigem também a suspensão do leilão do campo petrolífero de Libra, no Pré-sal. "Só estamos cobrando o que Dilma prometeu na campanha eleitoral", dizem os trabalhadores".   

 

 

 

27 DE AGOSTO DE 1980

 

 
27 DE AGOSTO DE 1980

Nesta data a ditadura começa a cair no Brasil. Três bombas explodiram no Rio de Janeiro. Uma causou a morte de D.Lyda Monteiro, secretária da Ordem dos Advogados do Brasil. Outra, no gabinete do vereador Antonio Carlos Carvalho (MR8), destruiu as salas, feriu gravemente o sr. José Ribamar de Freitas, seu tio e companheiro de luta, e atingiu mais quatro funcionários. Uma terceira, na madrugada, atingiu e danificou a sede do jornal Tribuna Operária. A partir desse período de desespero da direita mais fascista, o movimento popular foi se fortalecendo cada vez mais até a derrubada completa da ditadura em 1985. Todos os envolvidos, particularmente, Antônio Carlos de Carvalho, o Tonico, cumpriram um papel chave em todo esse processo de consquista da democracia..  

 

24 DE AGOSTO DE 1954

 

 
24 DE AGOSTO DE 1954

Nesta data o presidente Getúlio Vargas derrota os cartéis estrangeiros, os entreguistas e os traidores da pátria e entra para a história como uma das maiores personalidades políticas de todos os tempos. Deixa para os trabalhadores sua carta testamento onde revela todas as artimanhas dos monopólios, dos cartéis e da gangue financeira internacional para assaltar o Brasil. Getúlio foi o criador da Petrobrás e um dos maiores defensores de que o petróleo brasileiro não caísse nas mãos do cartel anglo-americano  Sua atitude heróica foi fundamental para que diversos setores da sociedade compreendessem melhor o que se passava no país naquele momento. Milhões de pessoas saíram às ruas em apoio ao presidente e em repúdio aos golpistas e sua mídia.        

 

 

Carta Testamento de Getúlio

 

 

  "Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

    Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

 

    Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

 

    Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

 

    Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

 

    E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

 

(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

 

 

 

21 DE AGOSTO DE 1981

 

 
21 DE AGOSTO DE 1981

Nesta data teve início, na Praia Grande, na Baixada Santista, a l CONCLAT (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora). Mais de 5 mil delegados de 1.126 entidades sindicais de todo o país se reuniram para lutar por melhores salários, melhores condições de trabalho e pelo fim da ditadura. Os sindicalistas decidiram entregar uma pauta de reinvindicações ao governo e constituir uma central sindical, uma organização única que congregasse todos as entidades sindicais. Para isso foi eleita a chamada Comissão Pró-CUT, e o Congresso para a fundação da central sindical foi marcado para 1983.

 

 

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Durante a ditadura militar o movimento sindical foi alvo preferencial da repressão. Isso porque o programa de governo se assentava na concentração da propriedade e das rendas, no controle político do país segundo os interesses do capital estrangeiro e na  superexploração repressiva da força de trabalho.

A política econômica de austeridade, que acirrava a desigualdade social arrochando os salários e diminuindo os serviços públicos, se agravou quando o país atrelou-se ao FMI para financiar o “milagre econômico” do final dos anos 60 e o começo dos anos 70.

Movimentos como as greves de Osasco e de Contagem, de 1968, e as do ABC, de 1978, 1979 e 1980, que ousaram se opor ao Regime, ficaram marcados pela coragem e capacidade de organização dos trabalhadores, mas também pela violência com que foram reprimidos.

Neste conflito entre crise, repressão e resistência, a virada do ano de 1979 para o de 1980 foi efervescente.

A explosão social era inevitável. A mobilização contra a crise  econômica intensificava-se em todo o país e os movimentos sociais
começavam a erguer-se contra a ditadura militar.

Em 14 de janeiro de 1980, a Comissão Nacional da Unidade Sindical, formada por sindicalistas de todo o Brasil, reuniu-se no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e tirou, daquela reunião, um planejamento de lutas por um salário mínimo real e unificado, garantia no emprego, reforma agrária e combate à carestia.

Naquele dia foram programados a realização de um 1º de Maio nacional unificado e a realização do 1º Congresso das Classes Trabalhadoras.

Conclat

Este Congresso ocorreu com o nome “Conferência Nacional das Classes trabalhadoras” (Conclat), nos dias 21, 22 e 23 de agosto de 1981, na cidade de Praia Grande, litoral paulista, com 1.126 entidades sindicais e 5.247 delegados.
No evento foi aprovada a data de 1º de outubro como o “Dia Nacional de Protesto”,
no qual as reivindicações levantadas na Conclat seriam entregues ao governo. O
manifesto ampliou o leque das reivindicações propostas em janeiro do ano anterior, acrescentando a elas itens como o fim da redução de benefícios da Previdência Social e o direito à moradia, e reforçando a luta pela liberdade e autonomia sindicais e liberdades democráticas.

Mas uma outra decisão teria sido ainda mais marcante. Foi ali que aqueles sindicalistas decidiram constituir uma central sindical, uma organização única que congregasse todos as entidades sindicais. Para isso foi eleita a chamada Comissão Pró-CUT, e o Congresso para a fundação da central sindical foi marcado para 1983.

A visão em torno de duas propostas dividiu as correntes que pretendiam disputar
a hegemonia do movimento sindical.

Uma delas propunha a filiação à incipiente central de qualquer organização sindical, inclusive as oposições sindicais. A outra proposta defendia que somente as entidades regulamentadas deveriam ser filiadas à central. Tratou-se, em suma, de um embate entre unicidade (que pressupõe a criação de um sindicato por base territorial, uma federação por Estado e uma confederação nacional) e pluralidade sindical.

Desta forma a Central Única dos Trabalhadores (CUT) foi fundada no 1º Congresso da Classe Trabalhadora, ocorrido em agosto de 1983, por uma parte dos sindicalistas brasileiros que realizaram a Conclat e constituíram a Comissão Pró-CUT. Como não houve consenso entre todos aqueles sindicalistas, boa parte do movimento não aderiu àquela central, vindo a construir a CGT, em 1986, a Força Sindical, em 1991, e as demais centrais sindicais que surgiram ao longo destes trinta anos.

Aquela situação deixou claro que a unidade do sindicalismo brasileiro não se daria dentro de uma única central. E a história comprovou que o exercício da democracia deveria contemplar a diversidade programática e ideológica entre o
movimento de trabalhadores. Tal exercício se consagrou vinte e nove anos depois, em 1º de junho de 2010, quando outros 30 mil trabalhadores se reuniram novamente numa histórica reunião, que ficou conhecida como a 2ª Conclat.

Nas três décadas que nos separam da Conclat de 1981 o Brasil viveu um período de crise e de mudanças significativas. Período no qual transcorreram a “Nova República”, a hegemonia neo-liberal e uma nova fase de crescimento, contemplando, desta vez, a população mais pobre.

Em contraposição com o clima de clandestinidade que rondava o sindicalismo
do início da década de 1980, cinco centrais sindicais brasileiras, CUT, Força Sindical, CTB, Nova Central e CGTB, mostraram, na 2ª Conclat, sua força propositiva, num grande exemplo de construção da ação sindical unitária.

Carolina Maria Ruy é jornalista, coordenadora de projetos do Centro de Cultura e Memória Sindical

 

 

 

18 DE AGOSTO DE 1942

 

 
18 DE AGOSTO DE 1942

Nesta data ocorreram manifestações no Rio de Janeiro pela entrada do Brasil na ll Guerra Mundial. O Brasil já havia rompido relações diplomáticas com a Alemanha Nazista desde janeiro de 1942, o que fez com que Hitler mandasse seus submarinos atacarem navios na costa do Brasil. O Brasil declararia guerra à Alemanha em 31 de agosto de 1942, após o afundamento de cinco navios brasileiros na costa da Bahia e de Sergipe pelo submarino alemão U-507. No total foram 35 navios brasileiros atacados (33 afundados) nas águas do Atlântico Sul resultando na morte de cerca de mil pessoas..

 

Em 4 de julho daquele ano já havia ocorrido um episódio que revelaria a tendência que seria adotada pelo governo. Nesta data a UNE havia programado uma manifestação no Rio de Janeiro para protestar contra o Nazi/Fascismo. A manifestação tinha sido autorizada pelo governo através de Vasco Leitão da Cunha, que respondia interinamente pelo Ministério da Justiça. Filinto Muller, que naquela época ainda ocupava o cargo de chefe de polícia do antigo Distrito Federal, dirigiu-se ao ministro da Justiça para tentar impedir a realização da manifestação. Vasco Leitão não só contestou os argumentos de Muller contra o ato como, ao final da audiência, deu-lhe voz de prisão. Filinto Muller esboçou uma reação, mas saiu da audiência preso. O povo brasileiro, bem humorado como sempre, fez uma ironia à situação de Filinto Muller dizendo que o “Vasco tinha ganhado o jogo por 1 a zero”.

 

O episódio resultou também no afastamento de Filinto da chefia de polícia do Distrito Federal. Para o seu lugar foi designado o oficial-de-gabinete do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra. Quando da manifestação de 18 de agosto, após os ataques a mais navios brasileiros, o governo já havia, portanto, rompido relações diplomáticas com a Alemanha e caminhava rapídamente para declarar guerra ao Eixo. A declaração foi feita em 31 de agosto de 1942.

 

 

 

15 DE AGOSTO DE 1969

 

 
15 DE AGOSTO DE 1969

Nesta data tem início o Festival de Woodstock, na fazenda Max Yasgur, em Nova York. Cerca de 500 mil jovens conviveram por três dias, no auge dos protestos da juventude americana contra a Guerra do Vietnã. Havia também protestos contra a hipocrisia de uma sociedade retrógrada, racista e violenta. Os jovens se reuniram em torno do rock'n'roll. Este movimento da "contracultura" condenava a Guerra do Vietnã e criticava a ganância do capitalismo. 

 

 

 

 

 

10 DE AGOSTO DE 1792

 

 
10 DE AGOSTO DE 1792

Nesta data ocorrem as jornadas populares na França que colocarão por terra o regime monárquico. O rei Luiz XVI é derrubado do trono depois de intensas mobilizações de uma população enfurecida com os descasos dos governantes.  

 

 

No curso da Jornada de 10 de Agosto de 1792, a multidão cerca, com o suporte do novo governo municipal de Paris, que será conhecido pelo nome de Comuna de Paris, o Palácio das Tulherias. O Rei Luís XVI e a família real pedem o apoio da Assembléia Nacional Legislativa. Este acontecimento marca efetivamente o fim da monarquia francesa. O término efetivo da monarquia se fará seis semanas depois (21 de setembro de 1792).

Esta insurreição e suas consequências são comumente chamadas pelos historiadores da Revolução Francesa de forma simples : « O 10 de Agosto ». Outras designações são « Jornada de 10 de Agosto » , « Insurreição de 10 de Agosto » ou « Massacre de 10 de agosto ».

 

Assista ao filme sobre esses acontecimetos em 

 

www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=xpiAQRqVZtQ

 

9 E AGOSTO DE 1945

 

 
9 E AGOSTO DE 1945

Nesta data os Estados Unidos lançaram outra bomba atômica contra o Japão, desta vez sobre a cidade de Nagasaki. O poder de destruição do cogumelo atômico já tinha sido apresentado ao mundo três dias antes, quando a cidade de Hiroshima foi literalmente riscada do mapa. Em Nagazaki, mais 74 mil pessoas, na maioria civis inocentes, foram mortas pelo imperailismo americano.   

 

 

 

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Agora era a vez de Nagasaki experimentar o fulminante efeito de um bombardeio nuclear. O segundo ataque contra o Japão teve por finalidade aniquilar a cidade, estrategicamente reconhecida como a principal base industrial nipônica. Diante da impotência em resistir ao bombardeio americano, restou ao Japão contabilizar seus milhares de mortos, feridos e desaparecidos. A atrocidade foi criticada pela opinião pública e tida como uma ação desnecessária contra a população civil japonesa. O governo americano defendeu-se, alegando tratar-se da forma mais rápida de encerrar a Segunda Guerra. Os americanos já sabial pelos soviéticos que os japoneses estavam dispostos a se renderem. As seqüelas dos ataques se manteriam por gerações, registradas em milhares de novas mortes por contaminação radioativa.

 


Ao fim de 1945, 74 mil pessoas em Nagasaki e 140 mil em Hiroshima tinham morrido em conseqüência das bombas atômicas. Com a passagem dos anos, o número de mortos devido aos efeitos secundários do ataque chegou a 396.132.

Um dos atos do dia foi a introdução dos nomes de 3.069 pessoas nos livros de registro das vítimas da bomba atômica de Nagasaki por parte dos parentes.

"Meus sentimentos não mudaram, embora tenham passado 62 anos. É muito doloroso", disse Eki Obayashi, uma mulher que perdeu sete parentes por causa do bombardeio.

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, se reuniu com um grupo de sobreviventes do bombardeio. Foi o primeiro encontro das vítimas com um chefe de Governo desde 2002, quando se reuniram com Junichiro Koizumi.

As cerimônias em lembrança do devastador ataque foram este ano especialmente sentidas pelos cidadãos de Nagasaki e Hiroshima. As polêmicas declarações do ex-ministro da Defesa, Fumio Kyuma, marcaram os eventos. Em junho, ele qualificou de "inevitáveis" os bombardeios.

Os comentários forçaram a renúncia de Kyuma, geraram grande mal-estar entre os japoneses, e deixaram Abe em situação muito incômoda. O chefe de Governo teve que pedir perdão publicamente pelas palavras do ex-ministro.

Kyuma, que sempre comparecia aos atos de lembrança do lançamento da bomba sobre Nagasaki, província que representa como deputado no Parlamento japonês, decidiu não ir às cerimônias este ano.

Outro ausente foi o ex-prefeito Itcho Ito, assassinado a tiros por um membro da Yakusa (máfia japonesa) durante a sua campanha para a reeleição, em 18 de abril, quando tudo indicava que ele seria reeleito.

Ito, prefeito de Nagasaki durante 12 anos, foi um ativista da abolição das armas nucleares.

 

Além do interesse militar, a escolha de Hiroshima e Nagasaki teve um sentido político-econômico. Detentoras de grandes parques industriais, seriam uma ameaça aos planos americanos de liderar e financiar a reconstrução do mundo.

 

Assista no link abaixo as imagens do horror imperalista 

 

http://www.youtube.com/watch?v=D3ElqTetgMA

 

 

 

6 DE AGOSTO DE 1945

 

 
6 DE AGOSTO DE 1945

Nesta data o imperialismo norte-americano cometeu o maior crime contra a Humanidade ao lançar a primeira bomba atômica sobre a população civil da cidade japonesa de Hiroshima.  No momento da explosão cerca de 140 mil pessoas morreram instantaneamente. Depois as mortes prosseguiram por muitos anos. Os EUA cometeram esse crime apesar dos soviéticos já os terem avisado de que o Japão estava disposto a se render. "Meu primeiro pensamento foi que aquilo era igual ao inferno, sobre o qual eu já havia lido. Nunca vira nada parecido antes. Mas achei que, se existia o inferno, era aquilo ali"

De um sobrevivente de Hiroshima, 1945-

 

 

 

 

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Bomba de Hiroshima matou das mais terríveis formas imagináveis