A “produtividade” e o lobby pelo desemprego e arrocho salarial

Quando alguém diz que são precisos “quatro trabalhadores brasileiros para alcançar a produtividade de um trabalhador americano” e que isso “ajuda a explicar o desempenho fraco do PIB brasileiro”, pode ficar certo, leitor, que a ideia (ideia?) é demitir três trabalhadores e arrancar o couro daquele que mantiver o emprego – ou reduzir os salários reais de quatro trabalhadores ao que se paga atualmente a um trabalhador (logo, arrancar o couro dos quatro trabalhadores).

Se isso é viável ou não, se isso iria provocar uma convulsão no país – é óbvio que iria - é outra questão. Mas, antes que se diga que fizemos uma interpretação “grosseira” do que saiu na mídia – aliás, mero copiar-colar de um press-release do Conference Board, um lobby das corporações norte-americanas - vejamos como chegaram a esse resultado.

Simplesmente, dividiram o PIB pelo “total de empregados”. Como o PIB dos EUA é mais de sete vezes o PIB do Brasil em dólar, mas o número oficial de empregados é apenas 2,7 vezes maior, é a partir dessa profundidade aritmética que eles chegaram à conclusão de que um trabalhador americano vale por quatro brasileiros...

Assim, em vez do problema estar na política do governo Dilma - desvio de dinheiro público para a extorsão dos juros, bloqueio dos dispêndios públicos, dumping cambial a favor das importações e desnacionalização tresloucada, inclusive através das privatizações -, uma política que derrubou o PIB (-1,6% no acumulado do ano), estrangulou os investimentos das empresas (-7,8% na mesma comparação), derrubou o consumo das famílias (-0,9%) e cortou o custeio do setor público (-1,5%), por esse cálculo cretino a culpa é do trabalhador brasileiro, que seria “menos produtivo” que os empregados e subempregados nos EUA (não necessariamente trabalhadores norte-americanos).

Como, daqui a pouco, vai aparecer quem diga que os entregadores de pizza (ou os lavadores de pratos) dos EUA são mais produtivos que aqueles que trabalham no Brasil, vejamos esse negócio (realmente, trata-se de um negócio) da “produtividade” norte-americana.

Se acreditarmos no governo dos EUA – o que, nesse caso, é possível, com algumas reservas - a produtividade da economia dos EUA encontra-se estagnada desde 2006 (antes, portanto, da crise atual; cf. BEA, Summary Integrated Production Account Tables, Updated May 19, 2015, tabela S.1).

Entre 2007 e 2013 a produtividade nos EUA, em média, aumentou pífios 0,5% - o que pode muito bem significar zero (ou algo menos) - enquanto, nos sete anos anteriores, aumentara 1,7% (portanto, uma queda de 70,59% no aumento de produtividade, como até o Fed registrou). Ela foi negativa em 2008 e 2009, foi zero em 2011, e próxima disso em três dos últimos sete anos. Somente em 2010 houve um aumento significativo.

Essa estagnação tem relação direta com o fato de que mais de 20% do PIB dos EUA (ou seja, mais de 1/5) é fumaça financeira totalmente improdutiva - e com outro fato: os salários reais estão no mesmo patamar de 14 anos atrás (os trabalhadores com salários mais baixos têm uma situação ainda pior).

Para se obter uma expressão mais próxima da realidade dos EUA, talvez melhor é mencionar a renda das famílias, pois esta inclui os desempregados: em 2010, essa renda já caíra 6% abaixo do ano 2000, e, tudo indica, continuou caindo (cf. L. Mishel, J. Bivens, E. Gould e H. Shierholz, “The State of Working America, 12th Edition”, Economic Policy Institute, Cornell University Press, November 2012).
Estas são algumas das razões (não são as únicas) pelas quais o número oficial de empregados nos EUA é apenas 2,7 vezes aquele do Brasil, com um PIB 7,4 vezes maior, mesmo somando o subemprego como se fosse emprego (fora dos critérios oficiais, que o subestimam, 23% da força de trabalho está desempregada; ver o boletim nº 717, “April Employment and Unemployment”, do economista John Williams, Shadow Government Statistics, American Business Analytics & Research LLC, 18/05/2015).

Nem entramos aqui no fato de que o PIB dos EUA caiu no primeiro trimestre (provavelmente devido ao excesso de “produtividade”, ou seja, de arrocho salarial) ou que a produtividade de uma economia - pelo menos de uma economia que não esteja na idade da pedra lascada - é decidida pela indústria - em especial, pela indústria de transformação, que é declinante nos EUA (aliás, um exemplo trágico de desindustrialização, embora por motivos diferentes do nosso).

Bem, leitores, se os critérios de produtividade dos lobbies das multinacionais – e, por consequência, da mídia - tivessem alguma seriedade, o mais produtivo dos sistemas de produção seria a escravidão. Justamente, e não por acaso, o mais improdutivo deles, desde que os seres humanos deixaram a vida tribal. É verdade que a senhora Rousseff ainda não foi avisada. Afinal, parece que é esse o sistema que seu governo quer implantar no Brasil...

C.L.

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