A constelação dos falsificadores da História

A constelação dos falsificadores da História

 

O texto de Cláudio Campos que hoje publicamos saiu pela primeira vez em 1991, aqui, na Hora do Povo e depois foi incluído em seu livro “A História Continua”. Ele tem como tema a falsificação da História, a fraude em torno do período de construção do socialismo na URSS, especialmente as mentiras e difamações contra o líder que a comandou, José Stalin

N este dia 5 de maio, o camarada Cláudio Campos completaria 59 anos. Secretário geral do Movimento Revolucionário 8 de Outubro e fundador da Hora do Povo, Cláudio construiu uma profunda e ampla obra que resgatou o período mais rico da História até então: a construção do socialismo na URSS. Sem o conhecimento e entendimento desta epopéia, deste empreendimento que abriu uma nova era para a Humanidade, afirmava Cláudio com justa razão, é impossível avançar conseqüentemente na conquista daquilo que Marx chamou “o reino da liberdade”, ou seja, na luta humana por um mundo solidário, fraterno e sem exploração.

Certamente, e exatamente por essa razão – isto é, para impedir que os explorados deixem de sê-lo e que os oprimidos alcancem sua libertação – os reacionários, os exploradores e toda a sua corte de escribas venais, panfletários do atraso, propagandistas do obscurantismo e acadêmicos vadios, empenharam-se em atirar sobre o período glorioso de construção do socialismo na URSS, e em especial sobre o seu líder, José Stalin, toda a lama que puderam expelir.

O esforço titânico de Cláudio foi no sentido de encontrar a verdade em meio a essa enxurrada de mentiras, difamações e delírios persecutórios. Uma tarefa realmente hercúlea, sobretudo considerando que desde a submissão de Kruschev a essa enxurrada repugnante, em 1956, dentro da própria URSS passou-se a considerar como versão oficial da sua própria história, àquela que a reação imperialista apresentava para combater e isolar a URSS e o socialismo. Naturalmente, tendo como história oficial a versão do inimigo, era impossível que a URSS mantivesse o gigantesco impulso que a fez sair do atraso para a dianteira entre os países do mundo, livrando, no caminho, a Humanidade da pior ameaça que ela já enfrentara, ao derrotar o nazismo. O espantoso, como escreveu Cláudio, não foram os acontecimentos no Leste europeu do início da década de 90. O espantoso é que mesmo com a traição de Kruschev, a difamação de sua própria história e a introdução crescente de mecanismos capitalistas, a URSS tenha resistido 40 anos, tanto eram sólidos os fundamentos sobre os quais o socialismo foi construído naquele período que teve Stalin por principal figura.

Era a verdade o que interessava a Cláudio. Ele compreendia intensamente a necessidade de que os revolucionários estivessem nela alicerçados para que pudessem contribuir para a libertação da Humanidade. Mais do que compreendia, ele sentia essa necessidade. Na busca da verdade ele jamais fez concessão alguma – pois que qualquer concessão nesse terreno é uma concessão à mentira, ao embuste e ao charlatanismo daqueles que querem manter a Humanidade escravizada.

O texto de Cláudio que hoje publicamos saiu pela primeira vez em 1991, aqui, na Hora do Povo e depois foi incluído em seu livro “A História Continua”. Ele tem como tema, exatamente, a falsificação da História, a fraude em torno de um período que hoje tem de servir não apenas como referência: as lições a tirar dele têm que ser incorporadas para que a revolução avance, assim como Marx e Lenin incorporaram as lições da Comuna de Paris, episódio heróico, porém que jamais pode ser comparado em magnitude e importância àquele da construção do socialismo na URSS.

Portanto, é mais do que necessário desmascarar a falsificação e os falsificadores que, como nota Cláudio, confessam o seu fracasso a cada novo livro que têm de escrever para repetir sempre as mesmas invencionices e deformações.

Quando escreveu este texto, Cláudio ainda não havia lido – como esclarece – o livro de Volkogonov. Baseia-se numa entrevista dada pelo último. Hoje, que esse livro já foi traduzido para o português, impressiona, naquilo que Cláudio escreveu, a argúcia, a profundidade que faz com que, mesmo sem tê-lo lido ainda, ele acerte inteiramente quanto ao seu conteúdo e quanto ao seu caráter. Esta argúcia e esta profundidade só são possíveis a quem dedicou a vida inteiramente a descobrir a verdade como condição para libertar os seres humanos das algemas que ainda – embora não por muito tempo – os aprisionam. Ou seja, um revolucionário verdadeiro, aquele que, nas palavras do Che, é “alguém guiado por grandes sentimentos de amor”.

CARLOS LOPES

CLÁUDIO CAMPOS 

No final dos anos 60, o norte-americano Robert Conquest preencheu centenas e centenas de páginas, às quais deu o nome de “O Grande Terror”. O livro pretendeu ser um estudo exaustivo e em profundidade dos “crimes” e “expurgos” de Stalin, e obteve grande repercussão nos meios que queriam ouvir o que Conquest dizia. Ele era “apoiado” numa quantidade verdadeiramente impressionante de documentos, relatórios secretos e não secretos, atas de reuniões e congressos do PCUS, testemunhos, uma infinidade de depoimentos em livros, revistas e jornais.

No entanto, com exceção de certos escritos de Trotsky, não me lembro de ter lido até hoje nada mais falso, paranóico e anti-científico.

Conquest não revelava a menor capacidade de avaliar, analisar, confrontar de forma séria esses documentos, de maneira a poder estabelecer qual era, de fato, a verdade histórica. Ele estava doentiamente obcecado por uma fantasia que preestabeleceu de Stalin, e usava esses documentos simplesmente para pinçar aqui e ali, da forma mais irresponsável possível, os elementos que lhe permitissem reproduzir o seu tenebroso pesadelo. Revelava uma impermeabilidade verdadeiramente notável para os gritantes elementos de verdade contidos naqueles materiais, completa adstringência aos relatos mais inverossímeis e, sobretudo, uma imaginação absolutamente solta e pervertida na “interpretação” dos textos que reunira.

Não era, entretanto, um delírio apenas pessoal. Era o delírio que interessava à direita, aparentemente embasado numa infinidade de provas documentais, as quais não havia então quem tivesse tempo, disposição, clareza e recursos para contestar.

 Por isso, ele pôde se propagar longe e relativamente fundo em todo o mundo, inclusive no Brasil. Foi em “O grande terror” que pela primeira vez se tentou demonstrar, da forma mais ridícula, a cínica tese de que “Stalin matou 30 milhões de pessoas”, tese essa que tem o objetivo de projetar sobre o socialismo o morticínio objetivamente cometido pelo capitalismo imperialista durante a II Guerra Mundial.

Desse livro, escrito sob os auspícios das mais renomadas Universidades e Institutos especializados dos Estados Unidos, me ficou a convicção da absoluta incapacidade da direita para o exercício da Ciência Histórica, especialmente em relação aos acontecimentos deste Século. Não significa que ela minta conscientemente. O problema é que ela não tem mais a menor capacidade e o menor interesse em distinguir o que é verdade e o que não é; ela vê apenas o que quer, e “vê” tudo o que lhe interessa “ver” para justificar e manter o decrépito e degenerado domínio dos cartéis imperialistas sobre a Humanidade.

Ficou claro, para mim, que não basta consultar uma infinidade de documentos. É preciso, sobretudo, ter a mente aberta para submetê-los ao método científico de análise e interpretação histórica; para ser objetivo não se pode ter interesses que estejam em contradição com esse método. É preciso, antes de tudo, estar disposto a conhecer a verdade, qualquer que seja ela. Caso contrário, quanto maior é a quantidade de fontes consultadas, apenas mais se embrulha a cabeça, mais se decola da realidade.

Tudo isso nos veio à mente a propósito das declarações do general Dmitri Volkogonov, publicadas sábado último pela “Folha de S. Paulo”.

Volkogonov é autor de “Triunfo e Tragédia”, uma nova confissão da direita de que tudo o que havia escrito antes sobre Stalin não havia tido o condão de esclarecer a verdade sobre o assunto. Exatamente da mesma forma que Conquest, Volkogonov procura impressionar o leitor com a suposta magnitude das fontes a que teve acesso. Falando sobre um novo livro que escreveu - “Trotsky” - que será publicado no ano que vem, ele garante que seu trabalho representa “um nível qualitativamente novo”, que “o mais importante é que pude tomar conhecimento de uma fundamental e massiva documentação sobre Trotsky não só na URSS, que antes era inacessível, como também em Harvard (EUA) e Amsterdã (Holanda). Jacta-se de que teve oportunidade de “penetrar”- sem dúvida, ele escolheu bem o verbo - “nos arquivos pessoais de Stalin, Béria, Molotov, Malenkov e outros bonzos do regime, assim como nos arquivos especiais da NKVD e da KGB”, e de que “possuo cópias de documentos únicos de arquivos pessoais de Trotsky. É em circunstâncias desse tipo que ele pretende sustentar a temerária afirmação de que o trabalho que iniciará agora será, nada mais, nada menos, “o primeiro livro honesto sobre Vladimir Lenin em nosso país.” 

IMAGINAÇÃO 

É pena que tudo isso, entretanto, não tenha possibilitado a Volkogonov se aproximar um milímetro sequer dos fatos reais, e, pelo contrário, tenha servido de estímulo para a sua incurável e doentia imaginação.

Ele pretende, por exemplo, que são esses documentos que o levam a afirmar que “Stalin era extremamente paranóico”, “sedento de poder”, que ele se “aterrorizava” com tais e tais “fantasmas”, que “tinha pavor de voar” e “paranóia de se afastar muito da União Soviética”. É evidente que essas são idéias preconcebidas que Volkogonov e outros têm há muito tempo, e que ele estava disposto a mantê-las quaisquer que fossem os documentos que encontrasse pela frente. Ele poderá preencher uma infinidade de páginas, reunir muitas “cópias de documentos únicos”, “arquivos especiais”, “retratos literários”, entrevistar muitos “parentes”, mas jamais provará essas afirmações, pela simples e boa razão de que isso não é verdade. Como afirmou Churchill, em plena guerra fria, após a divulgação do amontoado de sandices com que Kruschev tentou “apaziguar” o imperialismo, com a autoridade de quem participou intimamente com Stalin em várias decisões difíceis durante a Guerra, e foi quase sempre em relação a ele um inimigo feroz: “Stalin foi um homem com erudição e energia incomuns, com uma inabalável força de vontade, brutal, áspero, impiedoso tanto no trabalho como nas conversações; inclusive eu, educado no Parlamento Inglês, nunca pude contestá-lo em nada... Em suas obras soava uma força colossal. Esta força era tão grande em Stalin que parece que ele é inigualável entre os dirigentes de todos os tempos e povos... Stalin tinha uma inteligência profunda, lógica e razão, privado de todo pânico. Ele era um mestre perfeito para encontrar nos momentos difíceis para sair das situações mais complexas”. É natural que a um colonialista impiedoso como Churchill a lógica de Stalin parecesse “brutal e impiedosa”. Mas não é isso o que estamos discutindo. 

RIDÍCULO 

Estamos, por ora, apenas pondo em relevo o ridículo do pobre general Volkogonov pretender reprochar em Stalin “terrores”, “pavores” e “paranóias”. Aliás, deve-se reconhecer que Churchill, apesar de todo o seu mesquinho reacionarismo, tinha também uma grandeza que Volkogonov não tem. Quanto a não gostar de se afastar muito de sua pátria socialista, Stalin tinha nisso toda razão. Assim como o herói da mitologia grega, ele sabia que era da sua amada terra soviética que ele sorvia toda a sua força. Fora dela, ele era como um peixe fora d’água. É claro que Volkogonov não pode entender isso.

Aliás, há muitas e muitas outras coisas que Volkogonov não pode entender. Diz ele que “Josef Djugashvíli estava entre os melhores alunos de um seminário. Gostava muito de ler e tinha uma memória brilhante. Era fascinado pela idéia de Deus como absoluto. As relações contraditórias de Stalin com a Igreja foram facultadas de certa forma por seu pragmatismo. Ele apoiou tudo que fortalecesse seu reinado. Mas a atitude pessoal de Stalin frente a Deus permanecerá, creio eu, seu segredo pessoal”. Tudo que é grande demais para caber em sua minúscula cabeça, Volkogonov, compreensivelmente, transforma em “segredo”, “mistério”, etc, e só tem alguma esperança de elucidá-lo em algum arquivo da KGB. “Idéia de Deus como absoluto”... Talvez Volkogonov conheça alguma idéia de Deus que não o considere absoluto. Mas nós, que habitamos este planeta, e não o mundo da fantasia, só conhecemos essa. E o que os homens e mulheres do povo, bem como os religiosos sinceros - não nos referimos aos hipócritas - chamam de “Deus”? É a verdade, a justiça e o amor em seu mais alto grau de condensação. Para eles, é algo que existe fora do Homem. Para nós, marxistas, esses são valores e sentimentos inerentes ao Homem, que se desenvolvem e se transformam dentro do Homem. Para nós, portanto, nada têm de sobre-humanos ou sobrenaturais. Para nós, acima do Homem, só existem o céu e as estrelas - o que já não é pouco. É claro que Stalin, como um dos mais profundos pensadores marxistas que já existiram — provavelmente o mais profundo - não concebia nada que fosse sobre-humano ou sobrenatural. Mas apenas os medíocres e os tacanhos podem subestimar as coisas maravilhosas que os humildes e os oprimidos sintetizaram sob a idéia “absoluta” de Deus. Gorki, amigo íntimo de Stalin, escreveu coisas belíssimas sobre isso, algumas das coisas mais belas que já tivemos oportunidade de ler. 

SAUDÁVEL 

É a primeira vez que ouvimos falar que Stalin também se “fascinava” com o assunto. Achamos isso ótimo, extremamente saudável e, para quem conhece Stalin, extremamente previsível. Aliás, essa é a vantagem dessas “investigações” do tipo das de Conquest e Volkogonov. Elas provam exatamente o contrário do que pretendem. Já que, desde a década de 50, os arquivos secretos de todo o mundo tornaram-se muito mais acessíveis à direita do que à esquerda, o remédio é esquadrinhar essas patranhas, e extrair delas o que for possível. Confrontadas com o que sabemos de outras fontes, elas sempre nos fornecem alguns elementos interessantes...

Quanto ao fato do Estado socialista não perseguir as instituições religiosas, e inclusive garantir a sua existência, na medida em que elas representem sentimentos religiosos efetivamente existentes na população, isso só pode parecer estranho ou “contraditório” para um cabeça de bagre como Volkogonov.

Ele não esconde, em nenhum momento, que seu objetivo é fazer a apologia da sociedade e da ideologia burguesa - isto é, hoje, do capitalismo imperialista. Refere-se ao “comunismo”, isto é, ao marxismo, como “sistema totalitário”, “falsa idéia que aprisionou por longas dezenas de anos um quarto da humanidade” (assim mesmo, com h minúsculo), e coloca Trotsky, Lenin e Stalin no mesmo nível, brindando-os com o título de “caudilhos”. Totalitária é a ditadura dos cartéis e dos monopólios que sufoca a Humanidade, mas Volkogonov tem muito pouco em comum com esta última, e está, portanto, inebriado pelos decrépitos néons do imperialismo. Por outro lado, o socialismo verdadeiro de fato não é o sistema mais favorável para que poltrões como ele dêem livre expansão à sua mentalidade de capachos do capital monopolista. Já que ele não pode abrir mão dela, seu destino é sentir-se para sempre “aprisionado”, porque será doravante cada vez maior a capacidade da Humanidade de conter e por fim derrotar o imperialismo. Jamais houve, na História humana, homens mais comprometidos com a democracia do que Lenin e Stalin. Mas a democracia, para eles, não era essa gosma asquerosa, movida a dólar, através da qual se acobertam as piores canalhices contra os povos e contra a Humanidade - tão ao gosto de Volkogonov - mas, efetivamente, como o nome diz, o “poder do povo”, em beneficio do povo, doa a quem doer: patifes, magnatas, ladrões, vagabundos, renegados, etc. Candidatos a caudilhos são exatamente Volkogonov, seu líder Yeltsin, Gorbachov, e outros. 

DEFENESTRADO 

Mas parece que a coisa não está muito fácil para eles. Aliás, ele já foi convidado pelos generais soviéticos a cuidar dos seus assuntos em outra freguesia, e só não foi devidamente defenestrado das Forças Armadas porque seus aliados no Soviet conseguiram reunir uma maioria muito instável, em tomo do seu suposto “direito democrático” de insultar a História da União Soviética.

Não há porque se surpreender com a existência, na União Soviética, de homens como Volkogonov. A ideologia burguesa não se extingue de um dia para o outro, ela se camufla, se transforma, se esgueira, como réptil invertebrado que é, das mais diferentes formas, principalmente quando há 40 anos o socialismo estacionou na URSS, e inclusive retrocedeu. Porque estacionou? Porque a História não se desenvolve em linha reta, mas isso já seria tema para uma outra matéria.

Quanto a Trotsky, o titulo de caudilho representa um desmedido elogio. Ele jamais teve competência para se estabelecer sequer como caudilho, e, ao mesmo tempo, foi muito pior que um caudilho.

Volkogonov o bajula de todas as formas possíveis. Diz que “ele foi o arauto da revolução, seu oráculo e seu profeta”, endossa que “segundo alguns parâmetros intelectuais, Trotsky foi o líder superior da Revolução Russa. Ele tinha uma cultura européia elevada, uma educação enciclopédica (mesmo sem ter acabado a universidade)” - ora vejam só! -  etc, etc.

O general-historiador anuncia que no ano que vem, quando seu livro for publicado, ele “revelará os segredos sobre o complô que matou Trotsky”. É pouco provável que cumpra a sua promessa, por uma forte razão: esse “complô” nunca existiu. Trata-se, na verdade, de uma inversão histórica. Quem se especializou em todo tipo de complô, os possíveis e os mais delirantes, foi exatamente Trotsky. 

CONTRA-REVOLUÇÃO 

Parece que a sua sina é mesmo, ad eternum, ser usado pela contra-revolução. Esta invariavelmente o apresenta como inteligência ímpar, um adversário temível, com o objetivo de vender a idéia de que a única maneira de “Stalin”- isto é, da revolução - batê-lo seria o recurso a meios ilícitos, golpistas, etc.

No entanto, comparados com Stalin, homens como Trotsky e Bukharin não passavam de personagens completamente medíocres, de verdadeiras toupeiras.

Ele gostava realmente de pontificar sobre tudo, mas não tinha conhecimento verdadeiro sobre coisa alguma. Foi talvez o maior mistificador de que se tem notícia, e apenas nisso pode ser considerado fora do comum. Tornou-se mestre em esconder sob altissonantes frases revolucionárias o mais completo esmagamento diante da realidade. Seu pensamento jamais foi marxista, como pretendia, e sequer dialético. Era dominado por um doutrinarismo compulsivo, estéril e completamente metafísico.  Sua marca registrada, a “teoria” da “revolução permanente”, é o exemplo mais acabado disso. A luta revolucionária, isto é, a preparação da revolução, é permanente; a revolução, não. A revolução é o momento de salto de qualidade na correlação de forças políticas, que sucede a um determinado acúmulo de mudanças quantitativas nessa correlação; ela não tem como ser “permanente”. A idéia de uma “revolução permanente” é, na verdade, a negação da revolução, da dialética e do marxismo.

Durante 20 anos, até 1917, Trotsky foi sistematicamente triturado por Lenin, e nunca conseguiu reunir em torno de si mais do que meia dúzia de gatos pingados. Nesse período, Stalin esteve quase invariavelmente ao lado de Lenin; ao contrário de Trotsky, jamais se exilou, e, em meio ao incansável trabalho de organização, propaganda e agitação, que lhe valeu ser chamado por Lenin de “maravilhoso georgiano”, foi preso sete vezes, quase sempre na Sibéria, das quais fugiu seis.

Em 1917, a revolução entrou em uma nova fase. Trotsky resolveu suspender sua hostilidade – pelo menos a exterior – em relação ao partido bolchevique, e ingressou nele. Nessa época, Stalin desempenhou, por indicação de Lenin, a direção do “Pravda”, a coordenação do comitê militar do partido encarregado de organizar a insurreição, e, depois, a Secretaria-Geral do partido. Como se sabe, foi o partido quem organizou e se desincumbiu da insurreição. Enquanto isso, Trotsky mantinha, nos acontecimentos de Outubro, participação quase exclusivamente formal e discursiva.

Foi confiada a Trotsky, depois, a direção da organização do Exército Vermelho. Ele pôs em prática a política partidária para o setor da forma que lhe era habitual - isto é, a mais burocrática possível. Por várias vezes, o Comitê Central teve que despachar Stalin para a frente de batalha, com o objetivo de reverter situações  desesperadas.

Lá chegando, sua primeira iniciativa, após tomar conhecimento da situação, era quase sempre dissolver o sistema de “comissários políticos”, instituído à la Trotsky, e estabelecer o sistema de comando único. Trotsky arrancava os cabelos de ódio, mas foi assim e unicamente assim que a vitória se tornou possível.

Assim que Lenin morreu, em 1924, Trotsky abriu a luta interna contra o partido. Em pouco tempo, suas redivivas e sofisticadas algaravias sobre a “revolução permanente” e outras foram demolidas por Stalin, na polêmica literária e nas reuniões e Congressos do partido. Basta ler os maravilhosos textos de Stalin dessa época para se perceber - desde que se tenha alguma coisa na cabeça - que Trotsky não tinha como deixar de ser seu freguês de caderninho. Em poucos meses, Trotsky estava reduzido praticamente a zero dentro do partido. Fora dele, ele já havia demonstrado a sua extrema fragilidade.

Era Trotsky quem não tinha qualquer perspectiva de vitória fora do caminho putchista, e ele era suficientemente irresponsável para empreendê-lo nas mais alucinadas formas. Ele próprio deixou isso explícito. Em declarações ao “New York Evening Journal” de 26 de janeiro de 1937, afirmou: “Só o assassínio pode remover Stalin”. Ele tinha razão. O povo, jamais o faria.

Durante os anos 30, ele se empenhou em unir o rebotalho da revolução e da contra-revolução nesse caminho. A “Folha de S. Paulo”, aliás, resolveu, enfim, assumir isso. Está lá na matéria, com todos as letras, e sem aspas: “Trotsky afirmava então contar com muitos seguidores no golpe que o levaria ao poder”. É, ele era fanfarrão assim mesmo.

Nós não temos nenhuma dúvida, além disso, de que Trotsky estava em contato com os alemães - como se depreende das minuciosas declarações de Piatakov (P. Kievsky), Radek e outros, durante os reveladores, e por isso mesmo odiados e caluniados processos de Moscou, além de numerosos outros indícios. Ele estava disposto a fazer-lhes várias concessões territoriais e outras, em troca da ajuda deles e de ser tolerado no “poder” no que sobrasse da União Soviética. Era a sua forma de extrair as lições de Brest-Litovski, a que, antes, havia se oposto, mas que depois não tinha nenhuma possibilidade de deixar de reconhecer a inevitabilidade. Para Trotsky, aliás, os “comunistas” à sua maneira não deviam ter nenhum compromisso com a idéia de Nação. É fora de dúvida que um acordo desse tipo era de todo interesse dos alemães.

A traição era tão repugnante, tão rasteira, que por muito tempo ninguém se deu conta dela. Era rasteira, mas não era inviável. Dela faziam parte, entre outros, o chefe do Estado-Maior do Exército - ex-oficial czarista -, o chefe do NKVD, e vários funcionários de alto escalão, em sua maioria membros da velha “oposição”, que Stalin e o partido, talvez com excessiva credulidade e benevolência, não haviam querido afastar das atividades partidárias e estatais. Uma série de sabotagens, que provocaram muitas vítimas, já haviam sido cometidas. Uma vez detectado, o complô foi debelado, com o rigor necessário, mas sem os paranóicos exageros que a hipocrisia e a presunção da contra-revolução se notabilizou em fantasiar.

Em 1940, quando da morte de Trotsky, Stalin não tinha dúvida de que a guerra de Hitler contra a URSS era só uma questão de tempo, e se aproximava rapidamente. Nessas circunstâncias, nós, infelizmente, ainda não estamos em condições de garantir que a disponibilidade de um “Petain” russo - responsável direto pelos crimes mais degradantes cometidos contra o povo da URSS - não fosse considerada um risco alto demais para a União Soviética. Isso, evidentemente, não implicaria num complô, mas num anti-complô. No entanto, consideramos essa hipótese altamente improvável. Os processos de Moscou haviam reduzido a credibilidade de Trotsky dentro da URSS virtualmente a zero, a quinta-coluna estava aniquilada, e é pouco provável que ele pudesse continuar sendo útil aos alemães.

Além disso, não acreditamos que Ramon Mercader fosse pessoa que um serviço secreto pudesse considerar em condições de executar missão tão grave. O trotskysta Isaac Deutscher foi um ficcionista alucinado, mas, no caso, não vemos razão para por em dúvida suas afirmações. Ele conta que, seguindo a secretária de Trotsky, noiva de Ramon, este estava então, há muito tempo, em deploráveis condições psicológicas. Os três tinham relação muito atritada, porque Trotsky não aceitava o relacionamento de sua secretária com Mercader, que, por sinal, já vinha de muitos anos. A “arma” que matou Trotsky foi uma pequena picareta de alpinismo - ele estava se iniciando nesse esporte - muito pouco efetiva para um profissional de serviço secreto que houvesse premeditado a morte. O que se sabe, com certeza, é que Mercader matou Trotsky, que ele era filho de uma comunista espanhola, e que viveu no Leste depois de libertado. Não há, até aqui, nenhuma evidência de que ele fosse agente soviético, e muito menos que tenha recebido ordens para executar Trotsky.

Volkogonov diz que viu “um documento com uma ordem pessoal de Stalin para a eliminação de Trotsky” e que esteve com pessoa que recebeu pessoalmente de Stalin a tarefa de “dirigir a operação de eliminação”. Vamos ver. Mas é estranho que ele, que diz ser “aterrador” o ato de só agora estarem sendo revelados arquivos secretos da KGB, resolva fazer-nos a todos esperar mais um ano - por sua exclusiva responsabilidade - para tomar conhecimento de documentos tão conclusivos. A menos, é claro, que ele esteja aprendendo deveras rapidamente as técnicas de marketing do capitalismo. 

SINTOMÁTICO 

Volkogonov faz também afirmações absolutamente ridículas, tais como “a NKVD contribuiu para eliminar duas das filhas de Trotsky, matar dois de seus filhos, dois genros, o irmão, a irmã, oito secretários e muitos de seus partidários”. Como assim, “contribuiu para eliminar”? Ou “eliminou”, ou não “eliminou”. É absurdo que a segurança soviética fosse se ocupar com todos esses parentes, antes de se ocupar com o próprio. É também sintomático que Volkogonov tenha sentido a necessidade de fazer a ressalva, num artigo tão curto, de que “utilizou” também “aquela parte do arquivo que o agente M. Zborovski [??] subtraiu da NKVD nos anos 30 em Paris”.

Perfeitamente, general Volkogonov. Nós temos a impressão de que os seus “arquivos pessoais e únicos” vão nos ajudar exatamente a desmascarar um pouco mais a sua  turma.

Para terminar: Stalin construiu, e muito bem construído, o socialismo na URSS. Ele demonstrou assim, na teoria e na prática, que estava certo, e que Trotsky estava errado. Mas ele jamais afirmou que essa conquista era irreversível. Pelo contrário, ele alertou constantemente para esse risco. O atual retrocesso na União Soviética, que já vem de longo tempo, não é a “derrota de Stalin”, Volkogonov. É a vossa derrota, o vosso fracasso, a vossa indigência, e tem muito pouco significado “histórico”. Como você já deve ter reparado, essa indigência está ficando cada vez mais clara para o povo soviético, e para o mundo todo.

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