O “capitalismo verdadeiro” sem investimento público de Mantega

22/12/2012 15:20

Na semana passada, o Banco Mundial divulgou sua previsão de crescimento em 2012 para os países em desenvolvimento: 5,6% (cf. Miga Wipr Report 2012, “World Investment and Political Risk”, pág. 13).

Na quinta-feira, o Banco Central (BC) divulgou a sua para o Brasil: 1% (cf. BC, “Relatório de Inflação”, Brasília, v. 14, nº 4, dez. 2012, p. 19).

Quase ao mesmo tempo, as contas externas, até novembro, foram anunciadas no dia 18, também pelo BC. Para que se tenha uma ideia de como são falsas as afirmações de que a situação é tranquila, basta subtrair da entrada de capital estrangeiro (“investimento direto” + “investimento em carteira” + “outros investimentos”, isto é, empréstimos bancários) as remessas para o exterior (“serviços” + “rendas”) no período que vai de janeiro a novembro. O resultado, nos três últimos anos, é o seguinte: em 2010: US$ 73 bilhões; em 2011: US$ 54 bilhões; em 2012: US$ 29 bilhões.

Esta subtração, que inclui as duas contas externas (conta corrente & conta capital e financeira), mostra que é cada vez mais difícil cobrir o rombo cavado pelas remessas ao exterior (US$ 65,618 bilhões de janeiro a novembro) com dinheiro estrangeiro – mesmo vendendo empresas nacionais por atacado, com cataratas de “investimento direto estrangeiro”, cujo estoque dentro do país já está em US$ 670 bilhões.

Mantida essa tendência, nem essa venda sem freios da economia a fundos, bancos e outras entidades estrangeiras será em breve suficiente para cobrir o rombo – até mesmo porque o saldo comercial (US$ 17,197 bilhões no mesmo período) é quase quatro vezes menor – mesmo à custa, como atualmente, de esburacar violentamente as cadeias produtivas internas (daí, também, o fato das importações manterem-se relativamente altas, mesmo com uma economia quase congelada).

No entanto, na quarta-feira, o sr. Mantega declarou que “agora que o capitalismo verdadeiro está se implantando no Brasil. Quero ver o empresário ganhar dinheiro suando a camisa, com ousadia e espírito animal”.

Deixemos o “espírito animal” por conta da jumentice do sr. Mantega. Os empresários deveriam protestar contra essa tentativa de reduzi-los a algo menos que seres humanos. E não adianta citar Keynes como autor da expressão, pois este passou a vida inventando maneiras, e até sugerindo medidas, justamente para que não predominasse o “espírito animal” na economia.

Porém, sabemos agora que antes do sr. Mantega não havia “capitalismo verdadeiro” no Brasil. Papagaio! Como é que ninguém percebeu que estávamos no feudalismo, com uma das maiores economias industriais do mundo?

Nem podíamos perceber, pois o “capitalismo verdadeiro” do sr. Mantega só existe na cabeça dele – trata-se de um capitalismo sem investimento público, em que os gastos do Estado, e os financiamentos públicos, não são a força motriz da economia e principal estímulo para as empresas nacionais.

Não deixa de ser interessante que Mantega não exija tais credenciais do capitalismo dos EUA ou da Alemanha ou do Japão, países onde a economia nem existe sem o dinheiro, as encomendas, o crédito e a iniciativa econômica do Estado (o que são a Nasa, ou a Deutsche Telekom, ou a Japan Oil, Gas e Metals National Corporation, senão gigantescas estatais em setores estratégicos?).

No entanto, no Brasil, ele quer que as empresas existam e se desenvolvam sem investimento público. A rigor, ele acha que o dinheiro externo é o motor da economia brasileira. A consequência é tão óbvia que é impossível que o sr. Mantega (sim, até o sr. Mantega!) não tenha percebido: as empresas no Brasil não devem ser brasileiras, exceto aquelas que se virarem sozinhas, sem contar com o seu próprio Estado, isto é, sem contar com investimentos públicos, gastos públicos e financiamentos públicos.

O resultado é a paralisia do crescimento (e, como vimos, a ameaça às contas externas). Entretanto, Mantega queixou-se na quarta-feira: “fizemos o diabo para aumentar os investimentos”.

Não é verdade, e nem precisamos do diabo - a única forma de aumentar os investimentos, inclusive privados, é a que ele não fez: aumentar os investimentos públicos. Como observou o economista José Carlos de Assis, “... o Ministério dos Transportes teve este ano R$ 17 bilhões para investir; não vai investir nem R$ 5 bilhões. (...) O Ministério das Cidades não gastará no ano nem 10% de seu orçamento para saneamento. E assim por diante”.

Isto, quanto aos Ministérios. Vejamos a execução orçamentária do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) por função (ou seja, somando em cada área as ações dos vários Ministérios e órgãos governamentais). Até o último dia 14, fora liberado (isto é, pago), em relação à dotação autorizada pelo Congresso:

Energia: 1,45%; Saneamento: 22,07%; Transporte: 26,59%; Urbanismo (inclusive transportes coletivos): 9,23%; Indústria: 37,22%; Saúde: 28,56%; Educação: 26,89%; Agricultura: 12,04%; Gestão ambiental: 18,22%; Habitação: 22,57%; Cultura: 20,16%; Segurança pública: 50,47%.

Até mesmo a habitação não conseguiu chegar a executar 1/4 da verba autorizada no Orçamento. Já apresentamos, na edição anterior, a estagnação dos investimentos das estatais.

Com tal manietação dos investimentos públicos, Mantega declarou na quarta-feira que “o povo brasileiro estava viciado em juros. Agora estamos atravessando um período de desintoxicação. No primeiro momento, isso causa problema para todo mundo”.

Só se for para ele e seus amigos – ou patrões. O sujeito, em conluio com o BC, aumenta cinco vezes os juros, derruba a economia, atira a indústria num parafuso através do abismo, escancara o país para hienas que avançam em cima das empresas nacionais como se estas fossem galináceos, estanca os investimentos públicos – e depois é o povo que está “viciado” em juros e os empresários é que precisam “suar a camisa”.

Mas ele tem uma forma infalível de aumentar os investimentos sem aumentar os investimentos públicos: “... os investimentos vão decolar a partir das concessões que estão sendo aprovadas”.

Em suma, a solução para aumentar os investimentos é dar a particulares, mais exatamente a empresas estrangeiras, os investimentos públicos que já foram feitos: aeroportos, portos, etc. - acompanhados de um financiamento do BNDES (para que eles o remetam a suas matrizes no exterior, ainda por cima quebrando as nossas contas externas). Não é genial?

CARLOS LOPES

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