Carlos Lopes: Getúlio ergueu o Brasil como nação soberana

06/12/2012 23:34

 

Getúlio Vargas comandou a Revolução de 30 e criou as bases para o desenvolvimento que sustentou no Brasil, durante 50 anos, o maior crescimento entre os países capitalistas

Getúlio colocou o Estado brasileiro a serviço do Brasil e dos brasileiros. Esta, a sua grande obra. Um país livre e independente não existe sem um Estado Nacional. Foi um país livre e independente o que ele construiu. Sua grande obra, portanto, foi o Brasil, a consolidação do país como nação livre e soberana.

"Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social". Assim Getúlio, em sua carta-testamento, refere-se a Revolução de 30 e ao seu papel à frente dela.

O Brasil era, há muito, um fornecedor de produtos agrícolas - principalmente o café - e um mercado cativo dos produtos industriais ingleses, importados a preço de monopólio.

Diante dos preços miseráveis pagos pelo café, a oligarquia cafeeira, para garantir os seus lucros, usava o governo que dominava para fazer empréstimos nos bancos ingleses e assim comprar a safra - os estoques de café chegaram a 10% do Produto Nacional Bruto, enquanto o país se endividava e os empréstimos eram pagos com o suor, o sacrifício e o esforço de toda a população.

Tudo era drenado por essa espoliação. A indústria era bloqueada. O povo, desempregado, vegetava na miséria e na fome.

O país era uma colcha de retalhos, em que cada província era um feudo. O poder da oligarquia cafeeira era mantido pela fraude eleitoral e pela violência brutal.

Foi contra essa situação de sufocamento de toda a nação, que formou-se, com a participação decisiva dos oficiais revolucionários que anos antes tinham formado a Coluna Prestes, Aliança Liberal, com a chapa de Getúlio - João Pessoa.

Escandalosamente fraudada mais uma vez a eleição e assassinado João Pessoa, a revolução começou, no dia 3 de outubro de 1930. O governo da oligarquia servil ao colonialismo inglês caiu em 26 dias.

Getúlio, comandante da revolução, foi de Porto Alegre ao Rio em meio ao levante e aclamação popular. Em todo o Brasil, no Norte, no Nordeste e Centro-Oeste, o povo se ergueu e ocupou as ruas, para garantir e saudar a revolução. Começava uma nova época para o Brasil.

Nos primórdios de nossa história, Tiradentes havia dito que "juntos, faremos deste país uma grande Nação". Getúlio uniu os brasileiros para construir essa grande Nação e realizar o ideal de Tiradentes. Sob seu comando o Brasil tornou-se um país verdadeiramente independente, soberano, com uma poderosa base industrial, com orgulho de suas riquezas.

Deslanchou-se um processo de desenvolvimento que levaria o Brasil a ser o país capitalista de maior crescimento durante quase 50 anos. Formou-se uma numerosa classe trabalhadora que conquistou direitos como salário mínimo à altura de suas necessidades, a jornada de trabalho de oito horas, as férias e o descanso semanal remunerado, aposentadoria, a licença maternidade.

Ao mesmo tempo, o débil empresariado nacional que existia antes, multiplicou-se e fortaleceu-se. De importador de produtos industriais o Brasil tornou-se exportador. O consumo da população, brutalmente achatado antes, expandiu-se enormemente com o aumento do poder aquisitivo, que criou o mercado interno para a indústria nacional.

No entanto, era - e é - impossível manter o crescimento econômico importando insumos básicos (aço, petróleo, produtos químicos) dos cartéis que monopolizam sua produção e comercialização, ou com a eletricidade dominada por um cartel estrangeiro - isto é, com o país a mercê deles. A própria empresa privada nacional seria estrangulada - num país que é um dos mais ricos do mundo em recursos naturais.

Não havia, como não há, condições de que o capital privado nacional resolva esse problema vital, devido ao alto montante do investimento e ao longo prazo de retorno. O capital estrangeiro nunca se interessou - ao contrário, sempre foi um obstáculo, uma vez que o desenvolvimento desses setores significa o fim de nossa dependência em relação a ele.

Getúlio concentrou, através do Estado, os recursos e esforços necessários. Ergueu a grande siderurgia, com a CSN, a indústria petrolífera, com a Petrobrás, a indústria química, com a Companhia Nacional de Álcalis, projetou a Eletrobrás. Deu um extraordinário impulso a indústria de máquinas e equipamentos, com a Fábrica Nacional de Motores. Fundou a Companhia Vale do Rio Doce, para colocar nossos recursos minerais, antes explorados, triturados e exportados pela Itabira Iron e outros piratas, a nosso serviço, do povo e do desenvolvimento brasileiros.

Getúlio fundou o Estado Nacional brasileiro. Até então, o Estado, no Brasil, estivera a serviço dos bancos ingleses e de uma submissa e pequena oligarquia, tão submissa ao colonialismo quanto arrogante e estúpida com o povo e o país.

A hemorragia de recursos para o exterior, isto é, para os cofres dos bancos estrangeiros a título de dívida externa, Getúlio estancou-a. Dirigiu os recursos antes dilapidados para o desenvolvimento. Através do confisco cambial, canalizou parte da renda das exportações de café para a industrialização.

O pântano dos carcomidos - o regime anterior a 1930 - foi varrido. Acabou com o voto a bico de pena, a fraude e instituiu o direito a votar das mulheres e o sufrágio universal e secreto. Revolucionou a administração instituindo o concurso público e a capacitação dos servidores para melhor atender o povo.

Venceu duas vezes a contra-revolução: em 1932 e 1937. E, outra vez, no dia 24 de agosto de 1954, venceu-a com o generoso sacrifício de sua vida.

Getúlio integrou o país, levou a unidade nacional a outro - e sólido - patamar. Até então as forças de cada oligarquia em cada Estado tinham mais poder de fogo do que o próprio Exército. Getúlio acabou com isto. Para garantia de nossas fronteiras fortaleceu e reequipou o Exército, a Marinha e criou a Aeronáutica. O resultado mais evidente foi a vitoriosa campanha da FEB e da FAB contra o nazismo, na Itália e a batalha, que vencemos, contra os traiçoeiros ataques submarinos nas nossas costas.

Com a Rádio Nacional, a diversidade da nossa cultura e a própria língua que falamos, tornaram-se únicas, sem perder o seu rico colorido regional. A literatura e as artes foram preenchidas por um conteúdo nacional e popular.

Pela primeira vez o país teve um sistema escolar público, gratuito, universal, com um ensino de alto nível. Tanto o ensino básico obrigatório quanto as Universidades Federais foram uma criação de Getúlio.

Da mesma forma, o sistema nacional de saúde pública foi construído por Getúlio. O controle de endemias e epidemias foi estendido a todo o território nacional.

Ergueram-se hospitais, formaram-se profissionais cuja filosofia era a de atender as necessidades da população.

A ciência e a tecnologia foram incentivadas e várias descobertas brasileiras tornaram-se patrimônio da Humanidade, ligadas a nomes como Lattes, Schenberg, Damy.

Não teria sido possível esta obra gigantesca, se continuássemos a trabalhar para, como ele disse, a espoliação internacional. Getúlio tratou as potências imperialistas com firmeza e independência. Nunca permitiu que o Brasil fosse tratado como quintal desses países e forçou-os a aceitar soluções e compromissos tendo como critério os nossos interesses. Da dívida externa ao comércio exterior; do aparcelamento das Forças Armadas à entrada do Brasil na 2ª Guerra, este foi o seu norte.

Sua obra lhe deu amor imperecível do povo brasileiro, assim como o ódio de serviçais, parasitas e saqueadores.

"Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante", disse em sua Carta-Testamento. "Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida".

Ele deixou para nós uma grande nação. Condensou, em sua figura e em sua vida, as aspirações de todo o povo brasileiro - dos trabalhadores aos empresários. Deixou em nossas mãos um programa e um exemplo para a libertação. Seremos dignos de sua coragem, de sua visão - e de seu humano e heróico patriotismo. A herança que nos deixou, é o Brasil.

Artigo publicado pelo Jornal Hora do Povo

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