Estudantes da UNESP denunciam perseguição política

15/01/2013 18:22

 

Estudantes da UNESP denunciam perseguição política

publicado em 15 de janeiro de 2013 às 16:24

Contra as perseguições na Unesp-Franca e em todas as universidades públicas!

do Brasil de Fato

Chamamos professores e demais trabalhadores a se somarem a essa luta, impulsionando conjuntamente uma forte e grande campanha nacional contra a repressão ao movimento estudantil e aos movimentos sociais

15/01/2013

Assembleia dos discentes da UNESP-Franca

De forma absurda e inquisitória, no final do mês de novembro de 2012 foi aberta uma intitulada sindicância (porém, indo além do seu caráter investigatório já prevendo, em seu processo, a possibilidade de punição máxima, como a expulsão) na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, campus de Franca, contra o número recorde e aleatório de 31 discentes, acusados de impedir o acontecimento da palestra de Bertrand de Orleans e Bragança, autoproclamado príncipe do Brasil, no dia 28 de agosto de 2012, em um evento chamado “Aspectos fundamentais da formação cultural brasileira”.

A abertura desta sindicância foi feita na última semana de novembro, quando praticamente não havia mais aulas e alunos na faculdade, que estava vazia e sem movimentação, aparentando um gesto intencional por parte da direção da FCHS.

Com acusações unilaterais, criadas e escolhidas de forma a tiranizar o lado acusado, traduz-se o completo absurdo que se tornou a abertura deste processo por parte da diretoria da faculdade, partindo de denúncia do grupo discente CIVI (Curso de Iniciação a Vida Intelectual) – Grupo este, orientado pelo diretor da Faculdade Prof. Fernando Fernandes.

As acusações, feitas em um processo que é risível, recaíram sobre 31 alunos escolhidos sem uma explicação plausível, dentro de um universo de aproximadamente 300 alunos que estavam presentes se manifestando no citado dia.

Dentre os 31, 2 alunos sequer estavam presentes na faculdade. A escolha tem um tom de perseguição a alguns, estes, apontados parcialmente e incoerentemente como réus no processo por integrantes do grupo de extrema-direita organizador da palestra, tal como a própria Vice-Diretora do Campus afirmou em congregação.

Os alunos só ficaram cientes do processo pelo qual estavam sendo investigados e acusados por uma estratégia expositora e perseguidora da direção: funcionários passavam de sala em sala, de corredor a corredor, na assembleia do campus, lendo a lista com os alunos sindicados, procurando-os pessoalmente para que não pudessem “fugir” da notificação, tal como se fossem criminosos.

Quando se soube do processo, praticamente todos os docentes do campus se manifestaram contra a sindicância dos alunos, criticando também a direção pela organização do evento e pela vinda da “comitiva real”.

Seguiram-se moções de apoio aos estudantes e repúdio às sindicâncias de grupos estudantis de diversas universidades, sindicatos e professores, do país todo.

No dia 4 de dezembro de 2012, na reunião da Congregação do Campus (entidade de maior grau de hierarquia no campus, congregando docentes e direção), soube-se em palavras ditas pela própria Vice-Diretora do campus, que os alunos de último ano envolvidos na sindicância não poderiam se formar, não receberiam o certificado de conclusão de curso.

Nenhum aluno acusado tinha prestado qualquer depoimento, e, previamente a qualquer veredicto da sindicância, já estavam sendo punidos.

A seguir, segue um resumo dos acontecimentos do dia da citada palestra:

Ao entardecer do dia 28 de agosto, dia da palestra, reuniram-se na “várzea” (espaço onde os discentes costumam se reunir) do campus diversos alunos, não pertencentes a nenhum grupo homogêneo, para realizar um “Ato-debate”, com intuito de discutir e elucidar, anteriormente e paralelamente ao evento que ocorreria à noite com o autoproclamado príncipe, o absurdo do discurso e da representação do mesmo para a Universidade e para a própria sociedade no próprio quesito democrático.

Além dos alunos, na mesa central, o ato-debate contava com a presença de um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), um professor e militante da região, uma docente da UNESP-Franca e um discente da mesma universidade.

Com uma reunião de muitas e diversas vozes, discutiu-se no ato o absurdo da promoção desta palestra, que não teria o cunho “inocente” e acadêmico como o título dado a ela poderia aparentar, permitida e organizada pelo CIVI, ou “Curso de Introdução à Vida Intelectual” — grupo de estudos coordenado pelo diretor do Campus, Prof. Fernando de Andrade Fernandes, que vem provocando polêmica entre os alunos da unidade ao organizar eventos que giram em torno de temas de extrema-direita.

O “príncipe” vinha acompanhado do jornalista José Carlos Sepúlveda, para uma palestra cujo tema foi denominado de “Aspectos Fundamentais da Formação Cultural Brasileira”.

Os dois convidados do evento como representantes públicos da UDR (União Democrática Ruralista) e a TFP (Tradição Família e Propriedade), movimentos de extrema-direita, combatem também o movimento homossexual, de mulheres, negros e os movimentos sociais no campo brasileiro.

Pode-se comprovar o posicionamento desses indivíduos fazendo uma breve pesquisa na internet, onde ligado ao nome de Bertrand, por exemplo, surgirá o site do movimento “Paz no Campo”, que ao mesmo tempo defende uma política extremamente reacionária, contra a PEC 438/0111, contra a criação de assentamentos de reforma agrária e comunidades quilombolas e contra a criação de reservas ambientais e à proteção de áreas de manancial.

O site abre links para páginas que acreditam na existência de algo chamado de “ambientalismo neo-comunista” e de uma suposta “guerra racial” em curso, promovida pelo movimento negro no Brasil.

Tudo corria bem, as falas “oficiais” já haviam sido proferidas e o microfone estava aberto para falas das outras pessoas que estavam no local, enquanto um dos discentes falava contra a atuação dos palestrantes de criminalizar os movimentos sociais um homem — depois identificado como assessor do autoproclamado Príncipe — fez questão de chegar na frente da comitiva que trazia os palestrantes dirigindo-se para os manifestantes com sarcasmo, fazendo gestos não identificados e sorrindo debochadamente, fazendo provocações incisivas direcionadas aos manifestantes, que diante dessa conjuntura voltaram-se à comitiva com vaias e palavras de ordem.

Depois disso, os palestrantes seguiram para o auditório da UNESP-Franca e os manifestantes seguiram com o ato-debate, enquanto isso alguns membros identificados como integrantes do CIVI, arrancaram cartazes e faixas de apoio ao ato-debate.

Uma discente tomou o microfone e com parcimônia propôs que os presentes para subir e tomar os espaços circundantes ao auditório e alguns manifestantes ligados aos grupos de extensão participantes a fazerem um jogral antes das palestras começarem.

Enquanto algumas pessoas subiam, os integrantes do grupo de estudos que promovia o evento saíram do auditório e de forma agressiva foram para cima dos manifestantes, chegando a ter um certo tumulto.

A seguir, quando alguns manifestantes tentavam entrar no evento — que era público — eram barrados de forma veemente, agarrados e arrastados para fora por alguns integrantes, até que estes cederam quando perceberam que a manifestação tinha imensa adesão.

Coincidência ou não, a comitiva de Bertrand saiu de seu camarote — localizado em uma sala de áudio que divide porta com um almoxarifado, locais que jamais são disponíveis para uso e quaisquer outras palestras.

Novamente na vanguarda dos palestrantes saiu o assessor de Bertrand, carregando um objeto prateado e praguejando sobre os manifestantes.

É importante deixar claro que neste momento os palestrantes — mesmo munidos de seguranças — não se dirigiram para as mesas, o autoproclamado Príncipe se colocava atrás dos seguranças, dentro da salinha supracitada.

O dito assessor se dirigia para trás das cadeiras.

Durante 45 minutos o que se viu nem de longe foi uma tentativa de ocorrer a palestra, e não por causa da manifestação, mas sim porque não houve qualquer tentativa de se dirigir aos locais marcados, a preocupação dos membros do grupo ligado ao evento era a de segurar os manifestantes para poderem ser identificados pelas câmeras filmadoras apontadas para os protestantes e distorcer qualquer discurso proferido por estes, que bradavam palavras de ordem e discursos entusiasmados pelo clima péssimo.

Houve uma grande repercussão nos meios de imprensa digital durante a semana do ocorrido sendo que os jornais da cidade de Franca veicularam a notícia com um viés brutalmente conservador.

O diretor do Campus –- e coordenador do CIVI –, Fernando de Andrade Fernandes se manifestou após o ocorrido na Congregação do Campus dizendo que “analisava a possibilidade de punir os estudantes que realizaram o protesto”.

Chamamos professores e demais trabalhadores a se somarem a essa luta, impulsionando conjuntamente uma forte e grande campanha nacional contra a repressão ao movimento estudantil e aos movimentos sociais, almejando a construção de uma universidade pública e de qualidade que esteja associada aos interesses da população.

O movimento estudantil está unido e convencido desta importância histórica e seguirá em frente: chamamos a todos e todas que quiserem, a virem conosco!

 

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