Algumas observações sobre a política internacional de Vargas

07/01/2013 23:27

Polêmica travada no blog do Nassif sobre alguns aspectos da política de Getúlio Vargas. Segue a minha resposta (Sérgio Cruz) ao artigo postado no blog e reproduzido aqui, mais abaixo:

 

1- Misturar o fascismo com os governos de Getúio Vargas é demonstração de uma incompreensão da nossa história. Em 1932 a oligarquia paulista tentou derrotar o novo governo para retornar ao regime de submissão econômica à Inglaterra. Houve guerra por conta disso. Em 1935, os camaradas do PCB, demonstrando uma grave incompreensão da revolução nacional que estava em curso no Brasil, tentou derrubar o governo com um levante militar. Sem apoio popular, foram derrotados. Olga Benário e outros estrangeiros acabaram presos. A Argentina, os EUA e a Alemanha pediram a extradição de seus cidadãos que participaram do levante. Naquela época (1936) não havia nenhum país do mundo com relações cortadas com a Alemanha. O Brasil, como, aliás, todo o resto do mundo, ainda não tinha nenhum conhecimento dos campos de concentração nazistas. Portanto, a decisão da justiça - e do governo - de extraditar os estrangeiros que participaram do levante armado, não me pareceu que pudesse caracterizar o governo de então como fascista. É bom lembrar que Getúlio foi o primeiro estadista no mundo a expulsar o representante do partido nazista. Naquela época a elite, tanto brasileira como europeia e americana, achava a Alemanha o maior barato. Era o badalado "primeiro mundo". Falar mal da Alemanha nas altas rodas àquela altura era fora de moda. Engraçado, não é?

2- Está certo que a dominação econômica exercida pela Inglaterra foi substituída pelo domínio americano. Então, explorar as contradições entre os interesses dos EUA e da Alemanha no Brasil em proveito de nossa industrialização, me pareceu que foi uma política correta de Getúlio. Confundir isso com "simpatias" pelo nazismo, como fazem certos setores, não soa como uma análise adequada. A participação do Brasil na guerra, assim como também a dos EUA, foi resultado de uma grande pressão popular. Tanto Roosevelt como Getúlio foram sensíveis à essa pressão. Mérito para os dois e para o nosso povo. E também para o PCB, que nessa época corrigiu alguns de seus equívocos e se aproximou da política progressista de Getúlio. Apoiou a entrada do Brasil na guerra. O "bisonho" queremismo representou na verdade um desses acertos. O Dutra certamente praticou uma política mais submissa aos interesses estrangeiros, principalmente americanos. Algumas prisões de grandes comunistas pelo governo Getúlio não foram boas, é verdade, mas estão longe de caracterizar o seu governo como pior do que a ditadura de 64. Nenhum desses intelectuais e revolucionários, morreu na prisão. Aliás, Luiz Carlos Prestes, um dos grandes líderes do PCB, defendeu, de dentro da prisão, o apoio ao governo. São revolucionários que souberam colocar os interesses do país e do povo acima de conflitos menores.

3- As conquistas sociais e econômicas daquela época, que FHC pretendeu "abolir", estavam de acordo com a política econômica industrializante do regime. Não foi nenhuma "manobra" do governo para manter sua popularidade ou coisa que o valha. Eram políticas necessárias para garantir o desenvolvimento nacional. O modelo implementado após 1930 foi o nacional desenvolvimentismo, que pressupunha uma aliança estratégica entre os trabalhadores, o Estado, e o empresariado nacional. Proteger o trabalho diante do grande capital era fundamental para construir um mercado interno capaz de viabilizar o desenvolvimento nacional. Se nós conseguirmos superar essas visões distorcidas sobre a nossa história, como aliás, vem fazendo cada vez mais o presidene Lula - e por isso, ele vem consolidando sua liderança -, certamente vamos conseguir retomar o processo de construção nacional e superar condição de país pobre, exportador de matérias primas e carente de tecnologia e de progresso econômico.

 

 

Por badriano

Comentário do post "O papel de Vargas na fundação de um capitalismo industrial"

Às pressas, faço algumas observações:

1) A ditadura de Vargas do Estado Novo (1937-1945) é autoritária e, em muitos aspectos, inspirada no fascismo, mas não pode ser caracterizada como fascista. Para isso faltava-lhe algumas características essenciais, como a existência de um partido e de uma ideologia unificadora do movimento.

2) A aproximação de Vargas em relação aos Aliados é parte de um processo mais amplo e complexo. Primeiramente, deve-se levar em consideração o predomínio de uma logíca de alinhamento internacional do Brasil aos EUA, que remete ao início da Primeira República e toma forma mais clara a partir da chanceleria de Rio Branco (1902-1912). Os EUA, afinal, eram o principal parceiro comercial do Brasil, e cada vez mais um grande investidor e financiador (desbancando a Inglaterra nessa posição ainda na primeira metade do século XX). Conjunturalmente, a década de 1930 é marcada por uma barganha nacionalista na diplomacia brasileira, com Vargas negociando vantagens e concessões em relação aos EUA e a Alemanha, explorando a divergência entre os dois de modo a favorecer o projeto de industrialização substitutiva de importações. As limitações naturais no potencial da parceria econômica com a Alemanha (com quem o Brasil realizava, fundamentalmente, comércio compensado), a polarização política dentro do regime varguista entre americanistas e germanófilos, e a forte investida dos EUA para garantir que o Brasil se mantivesse em sua órbita no momento em que os EUA entravam na guerra contra o Eixo (culminando na CSN) estão entre os fatores que levaram ao distanciamento em relação a Alemanha no final da década de 1930 e ao posterior rompimento com o Eixo, em 1942 (enquanto a Argentina, isolada nas Américas, só o faria no início de 1945, com a guerra na prática vencida na frente Ocidental).

3) O envio de tropas brasileiras ao esforço de guerra (FEB e FAB) explica-se por outros fatores. Era vontade do Brasil, e não dos demais Aliados, enviar tropas, o que garantiria uma melhor posição nas negociações de paz ao término do conflito, garantindo uma posição de maior destaque para o Brasil no concerto das nações, além de se inserir em um plano de modernização das Forças Armadas (a própria FEB sendo criada). Assim como no caso do alinhamento com os EUA no final da década de 1930, tratou-se de uma estratégia pragmática, ignorando-se eventuais simpatias ideológicas. Evidentemente, a participação do autoritário Brasil na luta contra o Eixo em defesa das democracias tornou-se uma contradição excessivamente forte, contribuindo sobremaneira para o desgaste do regime em seus estertores.

4) Data desse período (1942-1945) de desgaste político do regime a montagem de uma estratégia de aproximação mais intensa com o povo, com a CLT e diversas outras conquistas - a "invenção do trabalhismo", a partir da qual os trabalhadores, até então silenciados e reprimidos pelo regime, passam a receber maior atenção e dedicação do governo (da propaganda ao envovlimento do governo na organização sindical). Isso possibilitou a construção do mito Vargas e garantiu sua sobrevivência política, a despeito da morte do regime. O resultado disso foi, pode-se dizer, "bizonho" movimento queremista. A marca dessa importante e fundamental transição na ditadura de Vargas, tão sanguinária e autoritária quanto a de 1964 (às vezes é difícil entender a verdadeira adoração que alguns setores de esquerda tem por Vargas; Vargas que perseguiu a esquerda implacavelmente, que prendeu militantes e intelectuais de esquerda, de Prestes a Graciliano Ramos) foi a gestão de Alexandre Marcondes Filho no ministério do Trabalho, contrastando com a gestão repressiva de Agamenon Magalhães no final da década de 1930.

 
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